terça-feira, maio 31, 2016

Arthur Szyk: arte na luta contra comunismo e nacional-socialismo

"Lebensraum" (Espaço vital), Londres, 1939
O espírito da II G.M. não está apenas nos arquivos históricos. Os desenhos do ilustrador e cartoonista polaco de origem judia, Arthur Szyk, é uma verdadeira crónica daquela guerra. Os seus trabalhos eram publicados como capas e como as ilustrações em mais diversos periódicos. Os seus cartoons podem ser considerados como as ilustrações da própria história conturbada do século XX.
Arthur Szyk nasceu em 1894 numa abastada família judia na cidade de Lodz, na altura parte do Império russo. Aos 15 anos estuda arte em Paris, em 1912-1914 publica os seus primeiros cartoons com cariz social numa revista humorística polaca. Em 1914 Szyk participa numa viagem estudantil à Palestina. Viagem que seguramente o marcou em termos de identificação nacional e cultural, fez pensar sobre a possibilidade de existência de um estado judaico. No mesmo 1914 Arthur Szyk é mobilizado ao exército imperial russo e é enviado à frente alemã, participando na batalha pelo controlo da sua cidade natal, Lodz.
"A Kalevala moderna" (os letões do exército vermelho)
A derrota na I G.M. dita o desaparecimento do exército russo e surgimento da 2ª República polaca. Em 1919-1920, durante a guerra polaco-soviética e da invasão da Polónia pelo Exército Vermelho, Szyk desempenha as funções do diretor artístico do departamento da propaganda do exército polaco, com escritório em Lodz.
Em 1921, após a derrota dos invasores soviéticos na batalha de Varsóvia, Szyk volta ao Paris e durante alguns anos se dedica à ilustração dos livros franceses. Embora muitos de seus colegas artistas trabalham no estilo de cubismo, surrealismo e da arte abstracta, ele prefere a arte gráfica clássica. O seu trabalho é uma reminiscência de arte medieval em miniatura e dos gráficos de renascimento: os temas históricos, composição complexa, atenção aos detalhes, plástica dinâmica dos corpos, trabalho cuidado com a cor e uso das suas possibilidades simbólicas, permitiram ao desenhador concentrar-se no essencial. Szyk fez ilustrações para os documentos históricos (como ao Pacto da Liga das Nações) e livros antigos, que foram muitas vezes ligados à história judaica. Ele participou em diversas exposições na Europa e nos EUA.
Mais tarde, em 1934, durante a sua visita aos EUA, Szyk disse: O artista, especialmente um artista judeu, não pode permanecer neutro nas questões importantes de hoje. Ele não pode se esconder atrás das naturezas mortas, abstrações e experimentos. Nossas vidas estão envolvidas em uma tragédia terrível, e eu decidi servir o meu povo com toda a minha arte, talento e o conhecimento”. Ele acreditava no poder político da arte. Mas ele não aspirava este tipo da carreira. A sua actividade profissional, iniciada entre os artistas modernos e sua biografia, são, o mais certo, resultados da II G. M., que mudou o mundo e, em particular, o mundo de Arthur Szyck.
"Lex Faux Joueurs" (os batoteiros), Londres, 1939
Nas vésperas da II G.M., em 1937, Szyk se muda para Londres. Com início da guerra, os seus cartoons políticos são publicados num dos semanários londrinos, em Londres se abrem as suas exposições, mais tarde os seus trabalhos são exibidos nos EUA. Em 1940 o artista emigra primeiro para o Canadá e, em seguida, para os Estados Unidos, onde fixa a sua residência. Em 1943, morre a sua mãe, primeiro, confinada pelos nazis ao gueto de Lodz, e de lá transferida, muito provavelmente, para algum campo de concentração. “Provavelmente” – porque a data e as circunstâncias da sua morte até hoje permanecem desconhecidas.
"O polícia sénior Estalin", Londres, 1939
"O camarada Goering", Londres, 1939
Nos Estados Unidos as caricaturas do Szyk ganham imensa popularidade. Eles aparecem regularmente nas capas das principais revistas americanas («Collier´s» e «Time»). Szyk se torna o membro do pessoal da «New York Post», e durante a guerra, participa em mais de 25 exposições. Em 1948, o artista recebe a cidadania americana. Ele cobre, como repórter, a proclamação do Estado de Israel e continua se envolver em assuntos políticos, em particular, na questão da discriminação contra a população negra dos EUA. Em 1951, a Comissão de Atividades Antiamericanas iniciou uma investigação sobre Szyk, o artista foi suspeito de ser simpatizante de ideias comunistas. Szyk negou qualquer envolvimento em qualquer organização comunista, foi absolvido, mas alguns meses depois morreu de ataque cardíaco. A sua obra artística continuou a sua missão: abrir os olhos das pessoas aos dois maiores perigos do século XX, duas maiores ideologias totalitárias: comunismo e nazismo (foram usados os textos e as reproduções do catálogo da exposição alemã “Arthur Szyk Drawing Against National Socialism and Terror, museu Deutshes Historisches Museum, Berlim, 2008 e as ilustrações publicadas pelo blogueiro Solimon).
O auto-retrato do artista, 1946
A sua foto em 1951

O mapa das aldeias ucranianas queimadas pelo RKKA e NKVD

Os crimes de guerra, cometidos pelo Exército Vermelho (RKKA) e pelo NKVD contra Ucrânia e contra os ucranianos ainda necessitam do seu estudo detalhado e do seu julgamento de Nuremberga. No entanto, um pequeno caso, entre milhares de outros casos semelhantes mostra a envergadura do terror à que foi sujeita a população da Ucrânia Ocidental no fim da II G.M.
O mapa que é apresentado aqui pertencia ao 50º regimento de motociclos do RKKA e as suas operações contra a resistência ucraniana de OUN-UPA no período entre 20.08.1944 à 7.9.1944 na região de Rava-Ruska (província de Lviv). O 50º regimento não era a única unidade do Exército Vermelho que participou na operação contra UPA, a guerrilha ucraniana era combatida pelas unidades da guarda-fronteira do NKVD, unidades da defesa de retaguarda, a divisão da cavalaria, etc.
A importância do mapa, achada no Arquivo Central do Ministério da Defesa da Rússia (TsA MO RF), é que este mostra as “aldeias banderistas queimadas”. Ou seja, o mapa reconhece que durante as operações de punição e de luta contra a guerrilha ucraniana OUN-UPA, apenas o 50º regimento, o mais provável, na companhia do NKVD queimou pelo menos 12 aldeias ucranianas. Acusando os seus moradores de serem apoiantes da ala revolucionária da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-R), chefiado pelo Stepan Bandera.
O mapa menciona os nomes das “aldeias banderistas queimadas” pelas forças soviéticas: Huta Lubycka (atual Polónia), Dakhany, Oseredok, Stare Brusno (aldeia deixou de existir, ficou apenas o cemitério ucraniano), Podemszczyzna (também ficou apenas o cemitério), Radruzh (uma parte pertence à Polónia e outra à Ucrânia), Pylypy, Zabava, Parylsy, Tyly, Maydan, Pavlyky.
Como disse o blogueiro que apresentou o mapa: “parece com a ocupação de um pequeno país”, pois parece e muito (https://goo.gl/DOvM6R).

Bónus
Os reconstrutores ucranianos, especializados no período histórico da I G.M., à representar os fardamentos militares ucranianos dos exércitos da República Popular da Ucrânia (UNR, 1917-1920) e das unidades dos Atiradores Ucranianos de Sich (1914-1918).

segunda-feira, maio 30, 2016

Ucrânia se livra do passado comunista em Kyiv, Odessa e Kherson

Um monumento da era soviética em memória dos agentes da polícia repressiva do regime, o famigerado VChK-GPU-NKVD-KGB, foi desmontado em Kyiv (estação do metro Lybidska). À quarta tentativa os restos dos “chekitas” foram de vez para a “lixeira da história”.
Pela primeira vez os manifestantes da Euromaidan tentaram desmontar o monumento em fevereiro de 2014. Outra tentativa foi feita no final de abril de 2016, mas o procedimento revelou-se muito complicado, uma vez que o monumento pesava cerca de 300 toneladas. Na altura, os ativistas apenas o pintaram, deixando nele as descrições como: “aos carrascos do povo ucraniano”.
Os trabalhos de desmantelamento tinham reiniciado há uma semana. No dia 29 de maio o monumento foi desmantelado com a ajuda de uma retroescavadora. O método causou alguma polémica uma vez que este foi planeado para ser transportado para o museu de arte soviética.
Dezenas de estátuas de líder bolchevique Lenine foram derrubados na Ucrânia desde 2013. As primeiras demolições coincidiram com os protestos pró-Europa, conhecidas como Maydan, que mais tarde se transformaram em movimento de indignação contra o governo do ex-presidente Viktor Yanukovych, apoiado pelo Moscovo.
A queda dos monumentos em todo o país está sendo saudada como um símbolo do impulso da Ucrânia independente para se modernizar após a dissolução da União Soviética. O processo está em linha com um pacote de leis, adoptado pelo Parlamento ucraniano no ano passado que proíbe os símbolos e a propaganda do regime comunista e nazi. O processo de rebaptizar as cidades, vilas e bairros; assim como ruas, avenidas e praças é o mais recente passo nos esforços da Ucrânia para se desligar de vez do passado totalitário soviético, escreve o canal televisivo UA today.

O ultimo Lenine goodbye em Odessa
No dia 28 de maio, no âmbito do processo de descomunização, foi completamente desmantelado o último monumento ao Lenine na cidade de Odessa.

O maior monumento do líder bolchevique da cidade foi calmamente desmontado pelos funcionários da câmara municipal da cidade. Durante os últimos nove anos este monumento estava colocado num dos parques na periferia da cidade, após ser removido do centro da urbe. A escultura de líder bolchevique de 10 metros de altura, composta por sete blocos maciços, foi retirada do pedestal por dois guindastes e será levada para fora da cidade. “Não houve quem quisesse perturbar o processo de desmantelamento”, – garantiu o chefe da brigada dos serviços municipais.
Além deste monumento, estão sujeitos à desmontagem, de acordo com a ordem №305-A do chefe da Administração estatal da Odessa, Mikheil Saakashvili, a escultura do Lenine na zona portuária e mais dois monumentos dos bolcheviques locais pouco conhecidos. Num futuro próximo, também será demolido o “muro dos chekistas” na rua Mechnikov, placas memoriais aos líderes comunistas Kotovsky, Blucher, Shhors e Halan, além do busto, a pedra memorial e duas placas do marechal Zhukov e outros símbolos do totalitarismo soviético, escreve Tyzhden.ua.

Descomunização em Kherson
Na cidade de Kherson, foi desmontado o monumento do líder bolchevique Alexander Tsiurupa, um dos criadores da “ditadura alimentar” (adoptada em lei pelo Conselho dos Comissários do Povo em 13 de maio de 1918), organizador da expropriação dos alimentos e da aniquilação dos camponeses ucranianos no leste e sul da Ucrânia.
O procedimento de desocupação do pátio da Universidade Estatal Agrária de Kherson não demorou mais que duas horas, informa Tyzhden.ua.

https://www.youtube.com/watch?v=wEK8JJ1xEKA

Blogueiro: apesar de todo este esforço, na Ucrânia há ainda cerca de mil monumentos ao Lenine (!) Dado que o comunismo soviético era uma espécie de religião com culto dos mortos, o regime comunista, tal como quase todos os reinos do passado, tentava eternizar os seus “amados líderes” para todo o sempre. Se a humanidade se perdia numa guerra nuclear contra o capitalismo, os ídolos soviéticos deveriam servir de memória intemporal do seu reino do terror, isso é, “em prol da humanidade progressista”.    

domingo, maio 29, 2016

Os mecanismos de criação do antiamericanismo soviético

"O modo de vida americano"
Em maio de 1949 termina o Bloqueio de Berlim, uma das maiores crises da Guerra Fria, desencadeada quando a União Soviética interrompeu o acesso ferroviário, rodoviário e hidroviário à cidade de Berlim Ocidental, no intuito de obter o controlo total sobre a cidade. Derrotada no terreno, a URSS responde de modo híbrido, lançando o plano estatal de larga escala de criação de diversas obras literárias e ensaístas da propaganda antiamericana.

“O anteprojeto das actividades de reforço da propaganda antiamericana na União dos Escritores Soviéticos” 

1. Garantir a criação de obras artísticas – peças de teatro, roteiros de cinema, contos, romances, expondo o modo de vida americano. Engajar para isso os escritores P. Pavlenko, N. Virtu, A. Korniychuk, K. Simonov, L. Leonov, B. Chirskov, S. Mikhalkov, A. Surov, Br. Tur, T. Siomushkin, I. Ehrenburg, W. Wasilewska, M. Chiaureli, S. Gerasimov, A. Perventsev.
2. Durante o biénio de 1949-1950 criar uma série de 10-15 livros documentários escritos por funcionários da comissão de compras soviéticas, escritórios de vendas, TASS, AMKINO, consulados, engenheiros soviéticos, os funcionários culturais que visitaram os Estados Unidos, expondo o chamado “o estilo de vida americano” e mostrando a situação desgraçada dos trabalhadores norte-americanos.
"Igualdade à americana"
3. Preparar e publicar:
a) no período de 3 meses a colectânea “O estilo de vida americano”, o volume de 12-15 folhas impressas, tiragem: 150.000 copias. Autores-compiladores [8 nomes];
b) no período de 2 meses a colectânea «Americanos no estrangeiro», o volume de 20 folhas impressas, tiragem; 75.000 cópias. Autores [11 nomes];
c) no período de 2 meses a colectânea de obras de ficção e de ensaios de escritores e figuras públicas americanas — «América aos olhos dos americanos», o volume de 30 folhas impressas, tiragem: 50.000. Editores e compiladores [2 nomes];
d) no período de 2 meses a colectânea «As figuras progressistas russas sobre América», o volume de 15 folhas impressas, tiragem 50.000. Editores e compiladores [3 nomes];
e) no período de 3 semanas «Os americanos progressistas contra os fomentadores da guerra» («Outra América»), na base dos materiais do Congresso dos representantes de ciência e da cultura dos EUA pela defesa da paz, o volume de 6 folhas impressas, tiragem: 25.000. Editor e compilador [1 nome];
f) no período de 3 meses álbum «A vida e os costumes dos EUA» (100 documentos fotográficos), tiragem: 25.000. Editor e autor dos textos: L. Leonov.
Encarregar da publicação das colectâneas a editora «Gazeta Literária» (camarada Iermilov); álbum — editora «Pravda» (camarda Romanchikov).

4. A editora «Escritor Soviético» (camarada Iartsev) em 1949:
a) publicar a colectânea de peças teatrais antiamericanas de dramaturgos soviéticos — «Conspiração dos condenados», «Questão russa», «Governador provincial», «Guerra fria», «Cor da pele», «Leão na praça», tiragem: 25.000;
b) reeditar em uma nova redação os seguintes livros: «No Ocidente após a guerra»,  «Americanos no Japão», «Na América», «Usos e costumes da imprensa americana», «O patente «AB»;
c) publicar com as tiragens de 50.000 os livros «No oceano Pacífico», «Fascismo na América», «Ianque na China», «Eu vivo em Nova Iorque», «Raios da vida».

5. Com a vista da recolha sistemática de materiais sobre a vida dos EUA para uso por escritores soviéticos no trabalho em obras artísticas, permitir que a União de Escritores Soviéticos crie na Comissão [Ministério] dos Negócios Estrangeiros [da URSS] o gabinete especial com os seguintes objetivos:
a) as gravações dactilografadas das conversas com os cidadãos soviéticos que visitaram os EUA;
b) a recolha dos diários, histórias orais sobre as impressões dos cidadãos soviéticos que haviam retornado dos Estados Unidos;
c) a organização de tradução de livros e artigos sobre a vida e dos costumes dos EUA.
"A vergonha da América"
6. Incumbir a Comissão Estatal estatutária do Conselho dos Ministros da URSS (camarada Mekhlis) à aprovar o quadro do pessoal do “Gabinete dos materiais na Comissão dos Negócios Estrangeiros” em 10 unidades, bem como aprovar o quadro de pessoal do novamente criado departamento livreiro da editora “Gazeta Literária”, em 6 unidades.

7. Ao Ministério das Finanças da URSS (camarada Zverev), prever em 1949 o financiamento adicional à União dos Escritores Soviéticos da URSS e à “Gazeta Literária” para organização e manutenção do “Gabinete dos materiais da União dos Escritores Soviéticos na Comissão dos Negócios Estrangeiros” e do departamento livreiro da editora “Gazeta Literária”, e permitir que a “Gazeta Literária”, por conta das suas poupanças, gaste na organização e financiamento dos trabalhos das colectâneas referidas no parágrafo 3º [o valor de] 250.000 rublos.

8. Instruir a Direção Geral de Indústria Poligráfica, editoras e comércio de livros do Conselho de Ministros da URSS (camarada Grachev), à assegurar o fornecimento de papel e a base poligráfica à editora “Gazeta Literária” para a produção dos livros acima mencionados e o [fornecimento do] papel à editora “Pravda” para o álbum [fotográfico].

9. Instruir o Conselho [municipal de] Moscovo (camarada Selivanov) à fornecer à União dos Escritores Soviéticos da URSS, em abril deste ano, um espaço independente de 4-5 quartos, com não menos de 120 m² para o “Gabinete dos materiais na Comissão dos Negócios Estrangeiros”.

Fonte: RGASPI. Fundo 17, Descrição 132, Processo 224, Folhas 57—60. Digitação. Assinatura-autógrafo (publicado por blogueiro allin777).

Blogueiro: geralmente, em resposta, a esquerda pró-soviética argumenta com o alegado apoio da CIA à publicação do “1984” do George Orwell e do “Doutor Jivago” do Boris Pasternak. No entanto, é difícil comparar estas duas obras geniais e intemporais, escritas pelos homens que sentiram o inferno da ideologia comunista soviética na sua própria pele, com as peças produzidas por encomenda pela elite literária soviética à troco de poder visitar os EUA. País tal denunciado por eles publicamente e tal amado e desejado em privado.
Mais um ponto importante, através dos partidos comunistas e “progressistas” as obras da propaganda soviética eram difundidas e introduzidas nos diversos países em redor do globo, com a clara predisposição para os países em vias de desenvolvimento e em processos de descolonização. Uma herança deste antiamericanismo primário, semeado pelas estruturas soviéticas mais de meio século atrás, o mundo sente até os dias de hoje. 

sábado, maio 28, 2016

A batalha pelo Aeroporto de Donetsk aniquilação do bando “Iskra”

No dia 26 de maio de 2014 as forças ucranianas aniquilaram o bando terrorista “Iskra” que tentou ocupar o aeroporto de Donetsk. A batalha foi ganha pelas forças ucranianas, agora, dois anos depois, é possível contar com mais pormenores sobre aquilo que sucedeu naquele dia no DAP. 

Naquele momento ninguém pensaria que as forças ucranianas conseguirão defender o aeroporto por 242 dias. Ninguém pensou que a própria guerra iria durar anos. Mas o combate do dia 26 de maio foi o ponto da viragem, um dos primeiros combates em que as forças ucranianas responderam aos terroristas e conseguiram liquida-los mostrando ao mundo as perdas deles e a sua proveniência russa.
Os terroristas da unidade "Iskra" à caminho do DAP, 25 de maio de 2014
O plano dos terroristas:
1. Ocupação, com as forças superiores do novo terminal do aeroporto de Donetsk numa demonstração de força.
2. Cerco das unidades ucranianas que estavam no antigo terminal do DAP.
3. Bloqueio do aeroporto, impedimento do desembarque dos aviões e helicópteros das Forças Armadas da Ucrânia.
4. Captura ou empurro e desarmamento dos militares ucranianos.
Os terroristas do bando "Vostok" no centro de Donetsk, 25 de maio de 2014
As forças terroristas:
1. Unidade especial «Iskra» (Centelha), formada pelos serviços secretos russos. Comandante – oficial russo A. Gorshkov. Número: 45 pessoas, três grupos móveis. Pessoal: na sua maioria cidadãos da federação russa, cerca de cinco cidadãos ucranianos. Todos os russos com experiência real de combates. A maioria, nas unidades de spetsnaz, incluindo no centro especial do FSB, no 45º Regimento do spetsnaz do exército aerotransportado da federação russa (ver mais na página dedicada à aniquilação da unidade Iskra).
2. Spetsnaz do Kadyrov – mercenários caucasianos reunidos entre as forças leais ao Ramzan Kadyrov na Chechénia. Número: 26 pessoas, com experiência de combates no Cáucaso.
3. Bando terrorista «Vostok» comandado pelo Aleksandr Khodakovski, ex-comandante da unidade “Alfa” do SBU de Donetsk que traiu o seu juramento à Ucrânia. Número: até 120 pessoas.
4. Bando terrorista «Oplot», até 30 pessoas.
Os terroristas da unidade "Iskra" à caminho do DAP, 25/05/2014
As forças ucranianas no DAP em 26 de maio de 2014:
1. Unidade do 3º regimento do spetsnaz de Kirovohrad, 64 pessoas.
2. Unidade de fogo de artilharia antiaérea da 25ª Brigada aerotransportada, 15 pessoas.

Nenhum militar ucraniano teve experiência de combates reais, era o seu primeiro combate fora dos treinos. Oficial “Turista” passou pelo contingente ucraniano da missão da ONU em África, sem participar em quaisquer combates semelhantes à operação do DAP.
O morteiro AGS-17 dos terroristas no telhado do DAP, 26/05/2014
A posição das forças ucranianas:
1. As forças ucranianas tomaram as posições no terminal antigo do DAP, o seu número não permitia controlar outras posições.
2. Os ucranianos não possuíam nenhum blindado, apenas duas peças antiaéreas ligeiras ZU-23-2. Não tinham morteiros, RPG ou metralhadoras pesadas.
3. O aeroporto de Donetsk estava em funcionamento, as forças ucranianas estavam no terminal antigo, o terminal novo, a posição mais alta, muito próxima ao antigo e tacticamente melhor, não estava guarnecida. Assim, como um sem número de edifícios técnicos que permitiam a concentração oculta das forças terroristas para um ataque surpresa.
4. Os agentes dos terroristas recebiam a informação completa sobre as forças ucranianas, devido ao funcionamento da infra-estrutura. Diversos polícias e agentes do SBU da cidade de Donetsk traíram o seu juramento, passando para o lado inimigo.

Como tudo começou:
Na noite de 25 de maio, o traidor, oficial do SBU, Oleksandr Holovura permitiu a entrada no novo aeroporto de diversos terroristas (cerca de 70 pessoas): unidade “Iskra”, os mercenários do Kadyrov, bando “Vostok”. As forças de apoio dos terroristas (cerca de 50 pessoas), estavam aguardar na zona verde, perto do hotel do aeroporto (ver vídeo).
Os terroristas do "Iskra" na morgue de Donetsk, 26 de maio de 2014
Conta o oficial “Turista” do 3º Regimento do spetsnaz ucraniano de Kirovohrad, dele partiu a 1ª ordem de combate na manha seguinte (versão curta):

Às 3 de manha eu, os quatro franco-atiradores meus e mais quatro militares de uma outra unidade tomamos as posições de observação no telhado do terminal antigo do aeroporto. Vimos os camiões com os terroristas, mas não recebemos a ordem de disparar, continuamos à observar. Descobrimos que os terroristas descarregaram os lança-chamas RPO-A Shmel, morteiros, o sistema antiaéreo portátil. As chefias ucranianas não queriam arriscar as vidas das pessoas (o último avião deixou Donetsk às 7h10 na manha do dia 26 de maio), a ordem de combate não vinha.

Na manha, um grupo de 25 terroristas ocupou o telhado do novo terminal do DAP. Eles trouxeram o morteiro automático AGS, tinham metralhadoras, levavam os franco-atiradores. A distância entre os dois telhados era pequena, cerca de 100 metros, viam-se as caras, ouviam-se os comandos. Eles eram em número maior, iriam disparar de cima para baixo, tinham mais pontos de fogo. Por isso recuamos e ocupamos uma posição mais favorável, à uma distância de 213 metros.
Os franco-atiradores dos terroristas observam as forças ucranianas, 26/05/2014
Um grupo de franco-atiradores nossos controlava o telhado do novo terminal, outro seguia as movimentações dos reforços terroristas junto ao hotel, pedimos e recebemos uma metralhadora. Fomos informados que os pára-quedistas vêm ao nosso reforço.

Cerca de meio-dia (26/05/2014) vieram os helicópteros de combate Mi-24 e depois alguns Mi-8. A última ordem que recebi: “Assegurar o desembarque dos pára-quedistas”.

Queríamos aniquilar aqueles animais. Nós vimos como eles matavam a nossa gente, como abatiam os helicópteros. Nós presenciamos como se entregaram os pára-quedistas nos blindados BMD [bloqueados pela turba de populaça local, eles não quiseram disparar contra os separatistas desarmados]. Isso era o mais repulsivo, não podíamos permitir isso.

Os «hélis» ucranianos contornavam o aeroporto quando o nosso franco-atirador Volodymyr K., gritou “Vejo PZRK!”. Eu respondi: “Estas ver? Fogo!” Volodymyr fez o primeiro disparo no combate pelo aeroporto.
O franco-atirador Volodymyr K., que efetuou o primeiro disparo 
Depois começaram disparar todos, fomos apoiados pelas outras unidades, atirávamos com munição perfuradora e incendiária que fazia faíscas, atingindo as placas dos coletes prova-de-bala deles. Eles reponderam de todas as suas armas, os seus reforços junto ao hotel disparavam contra nós com lança-granadas incorporados nos AK. Tivemos problemas com a munição, o que recebemos era produzida em 1947 (!), por isso usávamos RPG. O nosso franco-atirador K., efetuou 13 disparos. Fomos atingidos pela granada VOG, um dos nossos foi ferido no braço e na face, era único ferido ucraniano durante o combate. Outro franco-atirador nosso liquidou lá alguns terroristas, um dos corpos foi deixado na zona verde do hotel.

Os helicópteros ucranianos conseguiram desembarcar o pessoal. Era o grupo de reserva: pessoal do 140º Centro das operações especiais, pessoal da 10ª Unidade do GUR do Ministério da Defesa, os pára-quedistas da 95ª Brigada aerotransportada e unidade das operações especiais do regimento da Guarda Nacional da Ucrânia “Jaguar”.
O terrorista checheno "Timur" / "Almaz",
em combate do dia 26 de maio perdeu um olho
Os helicópteros e os aviões ucranianos dispararam contra o novo terminal do DAP. Diversos pontos de fogo dos terroristas foram suprimidos, eles deixaram o telhado. Mas ocuparam as posições dentro do terminal e continuaram o combate. Os terroristas mandaram um “parlamentário” alegadamente da Cruz Vermelha: “Pedimos retirar os feridos do novo terminal”. Veio uma ambulância com alguns matulões fardados que trouxe caixas de munição! O operador de metralhadora da 95ª brigada tratou lhes da saúde. 

Houve um duelo entre os franco-atiradores. Do nosso lado participaram o franco-atirador do 3º Regimento do spetsnaz Oleksandr P., com a SVD e um franco-atirador do 140º Centro, com a Brügger Thomet APR. Em resultado, I. Zaripov “Iacuta”, cidadão da federação russa foi levado à morgue de Donetsk com a bala na cabeça. O combate pelo novo terminal continuou no fim do dia de 27 de maio. Usando os RPG foram abertas os portões do novo terminal, aniquilados os últimos pontos de fogo dos terroristas e os grupos de assalto entraram no novo terminal.

O pessoal do 140º Centro fez a recolha das armas. Foi capturado o míssil PZRK, morteiro automático, morteiros, muitos RPG e metralhadoras, outras armas. Havia muito sangue e ligaduras, mas os mortos e feridos foram levados pelos terroristas.

No dia seguinte recebemos a ordem de limpeza do território e recolha de dados que permitiriam à provar o envolvimento russo no ataque contra o aeroporto. Recolhemos alguns mortos na estrada, mas já sem armas e três mortos na zona verde do hotel do aeroporto. As suas pistolas automáticas pertenciam ao batalhão dos fuzileiros navais ucranianos da Teodósia [Crimeia já ocupada], mas os equipamentos, coletes prova-de-bala eram russos, produzidos em março-abril de 2014. Maior parte de outro armamento também era russo e recente.
  
Pedimos ao comando a permissão de perseguir os terroristas na cidade de Donetsk, começar o combate pela cidade, infelizmente isso nos foi proibido.

No decorrer do combate a unidade “Iskra” e os mercenários do Kadyrov foram aniquilados, durante a sua fuga dos camiões “Kamaz” foram alvejados pelas unidades do bando “Vostok”. Nestas viaturas morreram diversos terroristas feridos no aeroporto. As razões dessa situação favorável não podem ser reveladas por enquanto. Além disso, no pânico gerado, os terroristas alvejaram algumas viaturas civis. Na noite de 26 à 27 de maio, a cidade de Donetsk vivia diversos tiroteios, os diversos bandos disparavam uns contra outros.
Os terroristas russos na morgue de Donetsk
Pouco tempo depois, o traidor, o capitão do SBU Holovura foi detido em Donetsk e levado pela contra-inteligência do SBU para Kyiv. Mais tarde ele foi trocado pelos militares ucranianos presos pelos terroristas.

Baixas das partes:
No total, durante os combates de 26-27 de maio no aeroporto de Donetsk foram abatidos entre 40 à 100 terroristas. Os terroristas confirmam as perdas dos 35 cidadãos russos. O número dos separatistas mortos é desconhecido. Sabe-se que foram liquidados pelo menos dois moradores da Crimeia, um de Dnipro e um número indeterminado dos moradores de Donbas.
A placa com 39 nomes dos terroristas abatidos em 26/05/2014
Moscovo, Mosteiro de São Trindade da Igreja Ortodoxa Russa (!)
Um militar ucraniano recebeu o ferimento ligeiro, no primeiro combate pelo aeroporto de Donetsk que continuou 242 dias e continua até hoje (por: Yuriy Butusov).