Há alguns dias que o Instituto Polaco da Memória Nacional (IPN) tem vindo a conduzir uma campanha de informação que tenta demonizar os «pais-fundadores» do
nacionalismo ucraniano. Nas redes sociais são publicadas ilustrações com textos que visam comprovar a natureza supostamente «genocida» das ações da UPA. No entanto, tudo é
feito de uma forma surpreendentemente primitiva, escreve o historiador ucraniano Volodymyr Viatrovych.
Estão a tentar encontrar as raízes do «genocídio» na obra de Dmytro Dontsov, mas não encontraram nele uma única citação anti-polaca.
Porque, na verdade, não existe nenhuma. Dontsov era um polonófilo, trabalhou e publicou a sua obra legalmente na Polónia nas décadas de 1920 e 1930, e a sua principal obra, «Nacionalismo»,
foi publicada na Polónia em 1926, numa editora religiosa «Missioner», em Zhovkva [na atual região ucraniana de Lviv].
A citação de Stepan Bandera também não resultou. Eis o que lemos no site polaco do IPN: “A nossa ideia, tal como a entendemos, é tão grandiosa
que, quando se trata da sua implementação, para a alcançar, é necessário sacrificar não centenas, mas milhões de vítimas”, disse um dos líderes nacionalistas
ucranianos, Stepan Bandera, perante o tribunal em Lviv, em 1936. Estas palavras foram um aviso sombrio do genocídio cometido pelos seus apoiantes apenas sete anos depois”.
Quando a história é substituída por propaganda primitiva, conduzida por uma instituição estatal, e a memória das vítimas é substituída
por um culto pseudo-religioso, a sociedade perde a capacidade de avaliar criticamente não só o passado, mas também o presente. Já vimos isso no exemplo dos nossos vizinhos de leste, escreveu Dr. Viatrovych.
Em
15 de junho de 1934, 85 anos atrás, em Varsóvia, pela decisão da Organização
dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), foi executado o ministro do Interior da 2ª
república polacaBronisław
Pieracki, conhecido pela sua participação ativa na política de “pacificação” (polonização) da
Ucrânia Ocidental na década de 1930.
Na foto, o cortejo fúnebre do ministro Pieracki nas ruas de Varsóvia em 18 de junho de 1934
O
atentado foi executado pelo ativista da OUN Hryhoriy “Honta” Maceiko, que
deveria atingir o ministro com uma bomba caseira, mas dado que o explosivo não
funcionou, usou um revolver. O próprio Maceiko foi transferido pela OUN para a Checoslováquia
e de lá para Argentina, onde residiu até a sua morte natural em 1966, sepultado
nos arredores de Buenos Aires.
Hryhoriy Maceiko, cerca de 1940 | Wikipédia
Ministro
Pieracki foi o iniciador e líder dos pogroms
e perseguições da população ucraniana nas regiões em Lemkivshchyna,
Prykarpattia e Polissya, atos pelos quais ele foi condenado à morte pelo
tribunal da OUN.
A
OUN estava preparando o atentado durante um longo período de tempo. A decisão
sobre a ação foi tomada no final de abril de 1933 na reunião da liderança da
OUN, chefiada por coronel Yevhen Konovalets. Desde então, a rede clandestina da
OUN começou estudar cuidadosamente os hábitos e a rotina do ministro, selecionar
o exeutor. (a escolha coube ao chefe do comité executivo regional do OUN, jovem
Stepan Bandera).
Durante
o outono de 1933 as rotinas do ministro foram estudadas por Mykola Lebed, na
primavera de 1934, ele foi apoiado pela sua futura esposa, Daria Hnatkivska. O
ministro do Interior tinha uma lista sólida de inimigos, principalmente entre os
círculos polacas/poloneses pró-alemães, como grupo proto-fascista Obóz Narodowo-Radykalny (Campo Popular-Radical).
O
envolvimento do OUN foi descoberta apenas após a entrega, pela Checoslováquia, à
polícia polaca/polonesa do arquivo de OUN conhecido como “arquivo Senik”. Era o
arquivo da liderança da OUN, que continha muita informação confidencial,
incluindo sobre a liquidação do Pierecki. Com base nos materiais deste arquivo,
a investigação polaca/polonesa estabeleceu os organizadores e o executor do ministro.
"Que viva Ucrânia", o cartaz ucraniano dedicado ao processo de Varsóvia
fonte: Wikipédia
O
grande processo público em Varsóvia (18 de novembro de 1935 – 13 de janeiro de
1936), contra quase toda a liderança do OUN, terminou numa série de sentenças
de morte e prisão perpétua, mas completou vários processos históricos importantes.
Primeiro de tudo, após o processo de Varsóvia, a OUN tornou-se claramente um
fator influente na vida política da Polónia. Anteriormente, as atividades de
nacionalistas ucranianos na Polónia, eram percebidas como um problema regional,
após a morte do Pieracki ficou claro – a OUN e suas exigências terão ser consideradas
pela 2ª república polaca/polonesa, e ninguém irá se sentir seguro, nem mesmo o todo
poderoso chefe da polícia da Polónia.
Os
vizinhos da Polónia, como Alemanha, Lituânia ou URSS, vão entender que OUN é um
movimento de massas bastante poderoso, com um propósito claro e inequívoco.
Como resultado, a Alemanha e Lituânia responderão posteriormente à busca do OUN
por um aliado externo e auxiliarão os nacionalistas ucranianos na sua luta contra
o inimigo em comum – a 2ª república polaca/polonesa (fonte).
O
comando da Organização Militar Ucraniana (UVO, a base da OUN desde 1929),
explicou a liquidação do Pieracki nos seguintes termos:
“Ação
do operativo da UVO, atingiu não apenas Pieracki como pessoa, mas Pieracki como
o executor da política de ocupação polaca/polonesa das Terras ucranianas do
Ocidente (doravante ZUZ). Quem foi Pieracki? Pieracki – foi um consistente demolidor
da vida ucraniana na ZUZ. Pieracki foi um liquidador da vida escolar ucraniana,
das instituições culturais e educacionais ucranianas, das sociedades e círculos
económicos e desportivos, das cooperativas, foi um colonizador da igreja
ucraniana. Pieracki foi o criador e organizador da política polonesa colonial de
roubo na ZUZ, a colonização das terras ucranianas pela ocupação polonesa,
enchimento de células industriais na ZUZ pelos operários polacos/poloneses. Pieracki
é organizador de pogroms de
ucranianos na ZUZ por bandos policiais e dos ulanos [cavalaria], expedições punitivas,
atiradores, as pacificações bárbaras.
Pieracki
é o criador das cortes marciais, forcas e tortura dos revolucionários
ucranianos. Pieracki é autor de maus-tratos policiais e tortura de presos
políticos ucranianos. Pieracki é o criador do sistema de decomposição moral da
vida ucraniana pelo [sistema dos] delatores em massa. Pieracki é o autor de
profanação e selvageria da memória dos heróis da luta de libertação ucraniana,
a escavação de sepulturas, a destruição dos crucifíxos. Pieracki é um dos
fundadores de um arsenal policial da ocupação bárbara polaca/polonesa, que
estabeleceu como meta a destruição e polonização da vida ucraniana” (fonte).
Blogueiro:
aos amigos polacos/poloneses do nosso blogue. Em 1934 a UVO/OUN liquidou um
colonizador da Ucrânia Ocidental (Galiza, Volyn, Cárpatos). A resistência
nacionalista ucraniana reagiu, dessa forma, ao brutal processo de “pacificação”
(polonização das terras e assimilação das populações ucranianas), promovido pela
Polónia de então. Nada disso era necessário e tudo era perfeitamente evitável,
caso a 2ª república polaca/polonesa não optasse pela criação do estado
polaco/polonês mono nacional, objetivo que realmente alcançou durante e após a
II G.M., com extermínio de judeus e expulsão dos ucranianos no decorrer da Akcja
Wisła.
As
autoridades polacas/polonesas justificavam as suas ações punitivas com a luta
contra resistência nacionalista ucraniana contra latifundiários
polacos/poloneses e execuçao de atos de sabotagem contra infra-estruturas da
Polónia, levados ao cabo pela rede clandestina de UVO/OUN. No entanto, em todas
as ações de pacificação, absolutamente desproporcionais à resistência ucraniana,
as autoridades polacas/polonesas atacavam indiscriminadamente os intelectuais
ucranianos (padres, professores, bibliotecários, lojistas e membros de cooperativas),
destruíam e saqueavam as igrejas, cemitérios e propriedades ucranianas, ações
que nada tinham ver com a resistência e que atualmente podem ser equiparadas
aos crimes de guerra.
As
atrocidades polacas/polonesas foram reportadas largamente na imprensa
americana, canadense e britânica, apesar da grande tentativa da propaganda
polaca/polonesa de negar os acontecimentos e depois, quando isso se tornou
impossível, retratar a resistência ucraniana de UVO/OUN, ora como “agentes de
Moscovo”, ora como “agentes de Berlim”.
Os
relatos da imprensa mundial da época sobre a “pacificação” da Ucrânia Ocidental
pela 2ª república polaca/polonesa
A
“pacificação” da Ucrânia por meio destas “expedições punitivas” é,
provavelmente, o massacre mais destrutivo já feito contra qualquer das minorias
nacionais e é a pior violação de tratamento de minorias [étnicas]. De fa(c)to,
é uma civilização inteira e muito evoluída que foi destruída nas últimas três
semanas.
As
cooperativas, escolas, bibliotecas e institutos que foram construídos por anos
de trabalho, sacrifício e entusiasmo pelos ucranianos > < quase
inteiramente fora dos seus próprios recursos e em face de imensas dificuldades.
Eles sentem a perda dessas coisas quase tanto quanto seus sofrimentos físicos
desumanos.
Os
polacos/poloneses sem dúvida publicarão as negações oficiais habituais. Uma
investigação imediata e imparcial no cenário da tragédia, acompanhada de
garantias contra a intimidação de testemunhas, é uma necessidade urgente.
Onze
camponeses ucranianos, mais terrivelmente espancados pelos polacos/poloneses,
estão aqui em um pequeno hospital ucraniano primitivo. Eles são apenas algumas
das muitas vítimas do que é oficialmente conhecido como “a pacificação da
Galiza Oriental”. É necessário ser bastante franco em lidar com o que é uma das
austeridades mais pavorosas de tempos modernos. Estes onze camponeses foram tão
espancados nas nádegas que a carne foi literalmente despolpada.
Foi
com um senso de horror e mal-estar, e com desculpas pela necessidade de não
encolher a partir da última evidência conclusiva, que eu gentilmente pedi aos
sacerdotes que estavam procurando pelas vítimas maltratadas que me deixassem
ver os ferimentos reais. Em seguida, os curativos e as compressas de algodão
foram removidos e o tom azulado de carne viva espancado até a polpa, quatro ou
cinco semanas atrás foi exposto à minha vista. Fotografias das lesões estão na
minha posse.
É
significativo que quando as autoridades polonesas aqui em Lwow [Lviv] ouviram
falar da existência dessas fotografias eles não procuraram apenas no hospital
ucraniano, mas também a casa de todos os médicos ucranianos. Eles não
perguntaram quem eram os onze pacientes. Os polacos/poloneses negaram que
houvesse espancamentos. Tudo o que eles queriam era destruir as evidências
destas fotos. De fa(c)to, as precauções para manter tanto o público polaco/polonês
quanto o mundo em geral na ignorância do que aconteceu na Ucrânia é prodigiosa.
“The
Manchester Guardian”, 17 de novembro de 1930.
Alguns
outros artigos sobre o tema que podem ser consultados nos arquivos / na Internet:
TRAVELER TELLS OF TERROR
REIGN IN EAST GALICIA.
Dr. William Borak Back From
Trip, Relates 'Pacification'
The New York Herald Tribune,
October 21, 1930
TESTIMONY OF A CANADIAN WHO
VISITED THE LAND OF TERROR.
FORMER WINNIPEG PHYSICIAN
TELLS OF POLISH TERRORISM.
Um
dos conflitos cortantes da emigração ucraniana pós II G.M., é o conflito entre
as duas alas da Organização dos Nacionalistas Ucranianos: OUN-M e OUN-B.
Conflito, desde sempre fomentado pelo NKVD-MGB-KGB, com aval expresso do estado
soviético.
Ano
1969. O KGB da Ucrânia Soviética informa o Comité Central do PC da Ucrânia
soviética sobre a preparação dos documentos falsos, criados em nome da OUN-M
(apoiantes do coronel Andriy
Melnyk) para garantir a continuação do seu conflito com a OUN-B (apoiantes
do Stepan Bandera).
Líder
da OUN-B, Stepan Bandera, foi assassinado em 15 de outubro de 1959 em Munique
pelo agente do KGB, os soviéticos tentam antecipar-se, anunciando dias antes uma
liturgia solene em memória dos membros, apoiantes e simpatizantes da OUN-M, que
morreram na Ucrânia ou na Europa Ocidental, muitos deles, em circunstâncias não
esclarecidas até hoje ou, efetivamente, foram assassinados pelos alemães ou agentes do NKVD.
O folheto é bastante bem-feito, mas
a citação de Evangelho é feita em língua russa, naturalmente, foi um erro gritante
do KGВ, que permitia aos
ucranianos mais atentes perceber que o documento é falso (fonte).
Doravante,
na Ucrânia, o aniversário deStepan
Banderase torna um feriado público – a decisão foi adotada pelo Parlamento da Ucrânia,
votada favoravelmente em 18 de dezembro. O aniversário de Bandera calha em 1 de
janeiro de 2019 e marca o seu 110º aniversário. Quem celebrar o dia 1 de janeiro, comemora
o aniversário de Stepan Andriyovych de forma bastante oficial.
No
dia 1 de janeiro de 2019, no aniversário de Bandera, em Kyiv irá decorrer a
marcha tradicional dedicada à essa data e na região de Lviv, o ano 2019 foi declarado
o ano de Stepan Bandera e da OUN.
Irmão do Stepan, Vasyl Bandera, assassinado em Auschwitz em 22 de julho de 1942 aos 27 anos