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sábado, setembro 13, 2025

Ivan Kotliarevsky: o pai da literatura moderna ucraniana

A 9 de setembro de 1769, nasceu em Poltava Ivan Kotlyarevsky, fidalgo, maçon, escritor, poeta e dramaturgo, o pai da literatura moderna ucraniana, o primeiro que começou à escrever as suas obras em língua comum ucraniana. Autor do poema «Eneida» (versão burlesca ucraniana da obra original do Virgílio) e de várias peças teatrais. 

Sobre os seus ombros surgiu a literatura ucraniana moderna, que contribuiu para a formação da identidade nacional ucraniana, o estabelecimento da língua literária ucraniana, a formação da cultura e da arte. Este é um acto revolucionário que elevou a nação ao nível da cultura dos países europeus, uniu os cidadãos em torno de prioridades de valores e direccionou-os para a restauração da sua soberania.

«Iluminada pelo sol, inflamada pelas paixões terrenas, a Eneida», de Ivan Kotlyarevsky (nas palavras do escritor ucraniano Oles Honchar), foi o primeiro monumento impresso da nova literatura ucraniana, uma enciclopédia da vida popular que revelou ao mundo a história da luta de uma grande nação, velada pelos costumes originais, pela vida quotidiana, pelo humor e pela sabedoria popular.

A ilustração de «Eneida» da autoria do Anatoliy Bazylevych

Um poema burlesco que, tendo iniciado um diálogo com o próprio Virgílio, atingiu um elevado nível europeu e uma grande popularidade. Não se trata apenas do passado heróico, da cultura, dos valores, bem como de um diálogo franco em pé de igualdade com a antiguidade, mas, sobretudo, do despertar da autoconsciência nacional, tão importante em todas as encruzilhadas do destino. É o que acontece também nas peças teatrais «Natalka Poltavka» e «Moskal-charivnyk» (Moscovita-curandeiro). São uma página brilhante do novo drama e teatro ucraniano, que fortaleceram o código cultural ucraniano. 

Ver «Natalka Poltavka» (filme ucraniano de 1978)

A historiadora ucraniana Hanna Cherkaska:

Jovem Ivan estudou no Seminário Teológico de Poltava, onde prevalecia um regime rigoroso. O maior inferno para ele era decorar a «Eneida» de Virgílio em latim. A falta de pedagogia irritava de tal modo Kotlyarevsky que começou a escrever poesia, seleccionando rimas engraçadas com habilidade e chegou a parodiar a «Eneida». Em companhia de outros estudantes lia as primeiras páginas da sua «Eneida», escrita por diversão.

Em 1808, o enérgico Kotlyarevsky ocupou o posto do diretor do Lar de Educação de Filhos de Nobres Pobres de Poltava. Serviu ali durante mais de um quarto de século. Os alunos, nada fáceis de lidar, adoravam Kotlyarevsky, cativava-os com o seu carácter: corajoso, decidido e, ao mesmo tempo, simpático e generoso. Despreocupado e otimista, nunca se queixava: «Não sou um mestre da piedade: tenho medo das lágrimas e do amor.» Após o fim da guerra napoleónica, em 1812, o czar russo Alexandre I assinou a reforma de Kotlyarevsky com o posto de major do exército e o direito de usar a uniforme. Kotlyarevsky recebeu um anel de diamantes e uma pensão de 500 rublos anuais, muito dinheiro na época. Uniformizado, viveu uma vida aventureira como nobre, frequentador de teatros e amante das mulheres. Em Poltava, com uma população de 8.000 habitantes, não havia jornal nem teatro, e as lojas maçónicas também estavam proibidas, pelo que Ivan Kotlyarevsky decidiu abrir um teatro. Abriu-o e, depois de ganhar experiência, foi para Kharkiv, onde visitou o Teatro Stein, criado e dirigido por encenador teatral ucraniano Kvitka-Osnovyanenko. Kotlyarevsky observou atentamente a prestação dos melhores atores da trupe e convidou-os a ir a Poltava em nome do Governador-Geral militar, Príncipe M.G. Repnin. O jovem major chamou a atenção da prima-dona do teatro de Kharkiv, Tetiana Pryzhenkivska. A animada cantora e dançarina gostou de Hryhoriy Kvitka-Osnovyanenko, conheceram-se e amaram-se. Kvitka pretendia se casar, mas a sua mãe fidalga disse categoricamente «não». Em consequência, Tetiana se casou com alguém que não amava, não perdoando Kvitka por isso.

«Marusia», o drama romántico de Hryhoriy Osnovyanenko, pulicado em Lviv, edição de 1849

A 1 de setembro de 1819 se estreia a primeira peça teatral ucraniana profissional da autoria de Ivan Kotlyarevsky, «Natalka Poltavka», se estreiou no palco do Teatro de Poltava. O papel de Natalka foi interpretado por Tetiana Pryzhenkivska.

Kotlyarevsky brilhava sempre com um sorriso amigável, repleto de piadas e elogios subtis. Alguns admiravam-no, como escritor ucraniano Gulak-Artemovsky, que escreveu que nada poderia ser melhor do que a «Eneida»; outros chamaram o poema de «brincadeira inteligente».

Pouco antes da sua morte, Ivan Kotlyarevsky libertou todos os seus criados (duas famílias, 6 pessoas no total) e distribuiu os seus bens móveis e imóveis entre os parentes e amigos. Legou uma casa no valor de 6.000 rublos à viúva de um suboficial, Motra Veklecheva, a sua governanta. Não deixou descendentes diretos e não passou os direitos autorais das suas obras a ninguém.

Faleceu a 10 de novembro de 1838, com 70 anos. Enterraram alguém que amava a vida, que sabia rir e amava rir, em mau tempo, à chuva, cujas gotas lavavam as lágrimas brilhantes dos habitantes de Poltava — o sentimento de perda indescritível era universal e sincero.

A sua obra-prima, a «Eneida» demorrou 26 anos para ser escrita. O poema foi publicado na íntegra em 1942 em Kharkiv já após a morte do autor.

O monumento do Ivan Kotlyarevsky em Poltava. Foto: visitpoltava

O czar russo Nicolau II permitiu a inauguração do monumento de Ivan Kotlyarevsky em Poltava em 1903, não em homenagem à um escritor ucraniano, mas na sua qualidade de um herói da guerra napoleónica de 1812. 

A primeira imagem ilustrativa de Natalka Poltavka, que, provavelmente Kotlyarevsky (na sua própria definição uma «ópera») chegou à ver. 

Publicação: Estrela da Manhã. Recolha de artigos em verso e prosa. Livro 2. – Kharkov, 1833. – No verso da página de rosto: Na Tipografia da Universidade, 1834. – VII, 100 p. 

Hoje, recordamos o seu primeiro amor, a maçonaria, padroeira secreta, a respeito do Taras Shevchenko e a versão mais popular da «Eneida», que foi publicada e reimpressa quase vinte vezes. A ilustração inicial é do famoso desenhador ucraniano Anatoliy Bazylevych.

domingo, agosto 10, 2025

«Alaska Herald» publicado pelo padre ucraniano Agapius Honcharenko

Os Estados Unidos adquiriram Alaska aos russos em 1867. Na primavera do ano seguinte, um padre ucraniano da região de Kyiv, Agapius Honcharenko, começou a publicar o jornal bilingue local «Alaska Herald».

Ler mais sobre Padre Honcharenko, em inglês

Padre Honcharenko era um emigrante político do império russo, um fugitivo do czarismo, no entanto era filho do seu tempo, e combinava as memórias da sua origem ucraniana cossaca com, até certo ponto, o patriotismo grão-russo. O jornal era publicada inicialemte em inglês e russo, depois foi acrescentado o suplemento ucraniano, chamado Svoboda (Liberdade). A opção pelo russo deveu-se ao facto de que naquela época, vivia na Alaska um certo número de imigrantes de Kamchatka, cristãos ortodoxos que falavam russo. Padre Honcharenko chama-os de «russo-americanos» na sua publicação. Ao mesmo tempo, em várias edições, incluindo na primeira, escreveu sobre o poeta ucraniano Taras Shevchenko, Ucrânia, cossacos, a cidade de Kyiv.

Caso se interessar pela história da emigração política e da Diáspora – subscreva o TG canal do jornalista e historiador ucraniano Vakhtang Kipianil sobre o assunto: t.me/ukrdiaspora 

Bónus

Por favor, divulgue essa imagem e os hashtag em todo o lado (temos apenas 5 dias para assustar putin e impedí-lo de visitar o Alaska):

  • #ArrestPutinInAlaska
  • #arrestputininalaska
  • #PrendaPutinNoAlasca

sábado, junho 28, 2025

Monumento ao Taras Shevchenko no coração de Washington D.C.

Em 27 de junho de 1964, no coração de Washington, a poucos quarteirões da Casa Branca, ocorreu a inauguração do monumento ao poeta ucraniano Taras Shevchenko. Foi o quarto monumento ao Kobzar no continente norte-americano, o primeiro em importância.

A inauguração contou com a presença de 100 mil pessoas – delegações de ucranianos do Canadá, Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Brasil, Grã-Bretanha e França, além de representantes do governo dos EUA e embaixadores de países estrangeiros (1º Secretário da embaixada da Argentina Juan Mate), figuras de autoridade da comunidade ucraniana, em particular Lev Dobryansky, o Patriarca ucraniano ortodoxo Mstyslav e o astro de Hollywood Jack Palance. Este evento tornou-se talvez o maior feriado da comunidade ucraniana na América no século XX.

O monumento de bronze sobre um pedestal de granito com mais de 7 m de altura e pesando 45 toneladas foi feito pelo famoso escultor ucraniano Leo Mol e pelo arquiteto Radoslav Zhuk.

O projeto do monumento tinha o eloquente nome «Prometeu», que reflete sua ideia principal, e o próprio monumento é uma verdadeira obra-prima artística e uma das imagens mais originais do Kobzar (o que vale apenas as roupas elegantes e modernas do jovem poeta enérgico!), bem como um símbolo nacional e político do povo ucraniano na América. É importante que esteja localizado na área do Dupont Circle – no centro da cidade, não muito longe do monumento a George Washington e a 5 quarteirões da Casa Branca, onde sempre há muitos transeuntes e turistas.

Mapa memorial dedicada à abertura do monumento

A ideia de construir um monumento a Shevchenko surgiu no final do século XIX e foi concretizada no período pós-guerra entre a intelectualidade ucraniana, unida em torno da Escola Nacional de Teatro. Mas o projeto só decolou em setembro de 1960, por iniciativa do chefe da principal organização pública e política dos ucranianos nos Estados Unidos, o Comité do Congresso Ucraniano da América (UCCA), Lev Dobryansky, o Comité do Monumento ao Shevchenko foi criado. Foi liderado pelo presidente do Conselho Principal da Sociedade Científica «Shevchenko», Roman Smal-Stotsky, pelo presidente da Academia Livre de Ciências da Ucrânia nos Estados Unidos, Yuriy Shevelyov, e por Lev Dobryansky. Além dos líderes da diáspora ucraniana, muitos ucraniano-americanos aderiram à causa, enviando cartas ao Capitólio solicitando autorização para a construção do monumento. O senador republicano Jacob Javits e o congressista Alvin Bentley também apoiaram a construção do monumento. Em junho de 1960, a resolução correspondente foi aprovada por unanimidade pela Câmara dos Representantes e, em agosto, pelo Senado (também por unanimidade). Em 2 de setembro, foi assinada pelo presidente Dwight Eisenhower e entrou em vigor como Lei Pública 86-749.

Curiosamente, quatro presidentes americanos estiveram diretamente envolvidos na construção deste monumento. Por exemplo, Harry Truman foi o presidente honorário do Comité do Monumento a Shevchenko, e Dwight Eisenhower assinou a lei sobre sua construção e o inaugurou (seu discurso pode ser lido aqui, na tradução ucraniana). Em setembro de 1963, John F. Kennedy parabenizou os ucranianos americanos pela dedicação do local para a construção do monumento e contribuiu para a implementação do projeto. Lyndon B. Johnson disse o seguinte sobre Shevchenko: «Ele era mais do que um ucraniano — era um estadista e um cidadão do mundo. Era mais do que um poeta — era um lutador destemido pelos direitos e pela liberdade do povo».

Vista atual do monumento

É característico que a URSS tenha tentado impedir a construção do monumento ao Shevchenko. Exigências para que o monumento não fosse erguido foram expressas tanto pela embaixada soviética, quanto pela representação da Ucrânia soviética na ONU. O jornal «Washington Post» publicou uma série de artigos retratando Shevchenko como um inimigo de católicos, cristãos ortodoxos, russos, polacos/poloneses e judeus, e, ao mesmo tempo, um «precursor do comunismo». 

Documento oficial da abertura do «Caso informativo» do 1º Departamento do KGB,
dedicado à inauguração do monumento ao Taras Shevchenko em Washington 

Mas, apesar de tudo isso, em abril de 1963, a comissão de arte da capital americana aprovou o projeto do monumento, que foi inaugurado um ano depois, em 27 de junho de 1964. Em maio de 1965, uma grande urna com terra do túmulo de Shevchenko em Kaniv, trazida pela chefe do conselho municipal de Detroit, Marusya Beck, e pelo casal Kalmyk, foi erguida aos pés do monumento. O «Livro da Memória», com uma breve descrição da história do monumento, uma lista de mais de 50 mil cidadãos americanos, principalmente de origem ucraniana, que fizeram doações, e outros documentos, também foram colocados no pedestal. Desde então, a comunidade ucraniana nos Estados Unidos celebra todos os eventos mais importantes perto do monumento ao Taras Shevchenko.

Curiosamente, em Kyiv, no pátio do Museu Nacional Taras Shevchenko, próximo à entrada, há uma cópia de «Prometeu» de Washington, doada pelo próprio autor, o escultor Leo Mol.

A primeira foto mostra presidente Dwight Eisenhower inaugurando o monumento. À esquerda do monumento estão o chefe do UCCA Lev Dobryansky e o Patriarca da Igreja Ortodoxa Ucraniana, Mstyslav.

Fonte: Diaspora.ua

A inauguração do monumento a Taras Shevchenko em 27 de junho de 1964, em Washington, nos EUA, foi retratado na filatelia ucraniana (serviço postal não oficial da Ucrânia).




Fonte: Taras Shevchenko na filatelia ucraniana.

segunda-feira, março 31, 2025

Shevchenko e Aldridge: a amizade entre o poeta ucraniano e o grande trágico negro

A improvável amizade entre o poeta nacional ucraniano Taras Shevchenko (1814-1861) e o ator afro-americano Ira Aldridge (1807-1867) oferece uma boa oportunidade para revisitar esta história notável e a sua ilustração da relação simbólica entre Ucrânia e Estados Unidos da América. 

Imagine: nos meados do século XIX, um lendário ator afro-americano que escapou da escravatura para ir ao outro lado do globo conhecer um grande poeta ucraniano – um antigo servo e prisioneiro político do regime czarista russo. Imagine a compreensão mútua interna e a solidariedade na interação criativa entre dois artistas extraordinários.

por: Olga Kerziouk, Curadora de Estudos Ucranianos, Londres 

O retrato de um homem muito simpático, com olhos grandes e bigodes, adornava todos os livros sobre o poeta nacional da Ucrânia, Taras Shevchenko. Foi pintado a lápis italiano preto e branco e finalizado por Shevchenko a 25 de dezembro de 1858.

Retrato de Ira Aldridge da autoria do Taras Shevchenko (Wikimedia Commons)

A 10 de novembro de 1858, Ira Aldridge interpretou Otelo pela primeira vez num dos teatros de São Petersburgo, na altura a capital russa, e Taras Shevchenko, um ávido leitor de Shakespeare e fervoroso espectador de teatro, estava na plateia, juntamente com os seus amigos (a família do conde Fiódor Tolstoy e outros). Ficou muito entusiasmado com a atuação e começou a chorar. 

Página de rosto de 'Um breve livro de memórias e carreira teatral de Ira Aldridge'

A 12 de novembro, Shevchenko encontrou-se pessoalmente com Aldridge na casa do Conde Tolstoi, onde Shevchenko era um convidado frequente. Tornaram-se grandes amigos (Aldridge chamava “artista” ao Shevchenko, tendo dificuldade em pronunciar o seu apelido ucraniano). Duas jovens filhas do Conde Tolstoi, Katya (Ekaterina Tolstoy Junge) e Olya, serviam frequentemente de intérpretes para eles. A 6 de dezembro, Shevchenko enviou uma carta ao seu amigo ator russo (nascido como semi-escravo, o servo, como o próprio Shevchenko) Mikhail Shchepkin, cheia de admiração pelo talento de Aldridge, “que faz milagres em palco”. “Ele mostra Shakespeare ao vivo”, escreveu Shevchenko. O amigo do Kobzar, Mikhail Mikeshin, fez um esboço satírico de Shevchenko em admiração diante de Aldrigde e o próprio Shevchenko acrescentou “O meu mudo espanto perante Ira Aldridge” (imagem abaixo). 

Taras Shevchenko desenhado por Mikhail Mikeshin

Em 1913, o pintor russo Leonid Pasternak fez o seu desenho de Aldridge e Shevchenko, que está reproduzido em livros sobre eles. O original está guardado no Museu do Teatro Central Estatal de Bakhrushin, em Moscovo.

Leonid Pasternak: «Shevchenko e Aldridge em São Petersburgo», 1913

Em 1861-1866, Aldridge visitou muitos lugares na Ucrânia: Kyiv, Kharkiv, Odessa, Zhytomyr e Kropyvnytskiy (na altura Elisavetgrad). Aprendeu russo e alemão e também se apresentou com sucesso utilizando esses idiomas. As suas apresentações atraíram grandes públicos em todos os lugares. O famoso dramaturgo ucraniano Ivan Karpenko-Karyi caminhou quilómetros desde a aldeia de Bobryntsi até Elisavetgrad para assistir à sua apresentação. 

Taras Shevchenko and Ira Aldridge: (The Story of Friendship between the Great Ukrainian Poet and the Great Negro Tragedian), by Demetrius M. Corbett, The Journal of Negro Education, Vol. 33, No. 2 (Spring, 1964), pp. 143-150 (8 pages)

A biografia deste extraordinário ator afro-americano (especialmente famoso pelos papéis shakespearianos) é fascinante e continua a atrair a merecida atenção. O seu bicentenário em 2007 foi celebrado em muitos países e os anais de um seminário sobre o mesmo foram publicados na Alemanha em 2009: Ira Aldridge 1807-1867. The Great Shakespearean Tragedian on the Bicentennial Anniversary of his Birth (Frankfurt am Main, 2009; YD.2009.a.9405). 

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Em 2012, Red Velvet, uma peça de Lolita Chakrabarti sobre Aldridge e a sua interpretação do papel de Otelo (publicada como livro; Londres, 2014; YK.2013.a.13939) estreou no Tricycle Theatre em Londres, com Aldridge interpretado por Adrian Lester. Cada vez mais pessoas estão a descobrir a vida extraordinária de Aldridge.

 

Foram publicadas mais diversos livros sobre Ira Aldridge em várias línguas, na sua maioria em inglês, mas também em ucraniano: editora Mystetstvo (Arte): «Aira Oldridzh: nehrytianskyi trahik» (Kyiv, 1966) X.898/2832); «Poet i trahik» (Kyiv, 1964; X. 908/1462), de Ivan Kulinych, os autores ucranianos exploraram, sobretudo a amizade de Taras Shevchenko e Ira Aldridge. 

Ivan Kulinych: «Poet i tragik», Kyiv, 1964

Este viajado e muito amado ator (também atuou na Alemanha, Áustria, Holanda, Hungria, Sérvia, Súiça) morreu durante uma digressão na Polónia a 7 de agosto de 1867. Os seus planos de regressar aos EUA, a sua terra natal, após o fim da Guerra Civil (era também um abolicionista assumido) nunca se concretizaram. Aldridge recebeu um funeral de Estado na Polónia e o seu túmulo encontra-se no Cemitério Antigo em Łódź. 

Túmulo de Ira Aldridge em Łódź (foto: Jan W. Raczkowski, Wikimedia Commons)

É emocionante prestar homenagem a esta grande vida que tocou a vida e a imaginação de outras pessoas em muitos países e culturas. Taras Shevchenko, cujos 213º aniversário celebramos este ano, foi um deles.

Faça click para ver as fotos e excepto da peça

Em 2014-16, em Nova Iorque, a companhia teatral Yara Arts Group, residente no Teatro Experimental La MaMa e liderada pela ucraniano-americana Virlana Tkacz, apresentou a sua peça teatral, «Dark Night Bright Stars», especialmente dedicada à amizade entre Shevchenko e Aldridge. Yara Arts Group é a companhia que lida frequentemente com uma ideia complexa e historicamente contingente da cultura ucraniana. Tkacz é muito conhecida na cena teatral do centro de Nova Iorque, bem como pelas suas colaborações com a lenda da Broadway Andre DeShields.

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domingo, fevereiro 09, 2025

Londrino que luta pela Ucrânia

Paul Ogilvie (56) é de Londres, os seus pais são da Jamaica. Lutou pela Ucrânia. Enquanto esteve hospitalizado depois de ter sido gravemente ferido, começou a estudar ucraniano — todos os dias.

O homem veio para a Ucrânia porque acredita que se o mal não for travado aqui, vai espalhar-se pelo mundo inteiro. Ele sabe o que diz, pois aos 18 anos se voluntariou à guerra pela independência da Croácia, onde passou 5 anos da sua vida. 

Paul na guerra pela independência da Croácia

Na Ucrânia primeiro se alistou na Legião Internacional, depois se transferiu para 10ª Brigada Separada de Assalto de Montanha «Edelweiss» foi ferido perto de Soledar em agosto de 2022, quando realizava uma missão de combate. Após ter sido atingido por um tanque russo, um fragmento atravessou-lhe a perna, arrancando-lhe um fragmento de 12 cm da tíbia. Com este ferimento, teve de ficar em território inimigo durante 5 horas. Um drone circulava acima dele e lançou explosivos. O capacete protegeu-lhe o rosto, mas partiu-lhe os dentes e Paul sofreu uma concussão. Diz que o capacete ficou completamente partido, mas salvou-lhe a vida.

Paul em 2022 na linha da frente na Ucrânia

Os seus companheiros regressaram para buscar o militar e levaram-no para a unidade médica. Depois houve a primeira operação em Kyiv, e as seguintes em Ternopil — com a instalação de três implantes e restauração da função do membro.

Paul em fevereiro de 2024 em Ternopil
Paul passou pela reabilitação e 9 (!) cirurgias, após quais planeia regressar à frente de combate. Diz que agora o assunto com os ocupantes russos é pessoal.

«Acredito muito na vitória da Ucrânia. Estamos a ganhar, as pessoas simplesmente não entendem o que é a vitória. Há sempre muito desespero e lágrimas.Este ano (2024) não será muito bem-sucedido, porque há a América, que se está a comportar como um idiota, e há a Europa, que está a demorar muito tempo a tomar decisões.Há pessoas que não compreendem a importância da guerra. Uma vez entrei num táxi e o motorista disse-me que não queria ir para a frente porque não queria morrer. Se houvesse uma guerraem Inglaterra e alguém de Inglaterra dissesse algo do género, eu ficaria terrivelmente zangado. É injusto para os meus amigos que estão a lutar há meses e não veem as suas mulherese filhos», diz Paul.

Paul continua a estudar ucraniano, citando aqui o «Testamento» do Taras Shevchenko, escito em 1845:

A foto inicial é do projeto folclórico Koza Dereza Manufacture

sexta-feira, março 10, 2023

Taras Shevchenko: o génio ucraniano desconhecido

Poeta-mor da Ucrânia, Taras Shevchenko, ou Kobzar, como  é conhecido, faria hoje 211 anos e não era exatamente o que dizem dele, é uma pessoa muitíssimo  mais interessante.

Constantemente retratado como um avô bigodudo pensativo, ele morreu, aos nossos padrões, ainda jovem – aos 47 anos, dos quais esteve livre por apenas 13 anos. Mas o cativeiro russo foi compensado pelo reconhecimento em vida – tanto como artista, quanto como poeta.

Ele escreveu 237 poemas, 11 contos e 2 obras dramáticas; 835 obras de arte em vários estilos e direções foram preservadas. No final da vida, passou a gostar de gravar e esculpir, recebeu o título de Académico da arte da gravura e passou a ser chamado de «Excelência».

Auto retrato, Taras Shevchenko, 1836

Poeta nasceu como servo. Mais tarde, o seu senhor feudal, Engelhardt, concordou em libertar Shevchenko por 2.500 rublos. Naquela época, essa quantidade equivalia a 45 quilos de prata pura. É verdade que algumas pessoas do círculo imediato da família real russa participaram no processo de libertação de Shevchenko da servitude. Em São Petersburgo foi organizado um leilão para vender uma pintura de Karl Bryullov. Mesmo durante a vida do poeta, existia o mito de que a czarina russa comprou a pintura e assim conseguiu-se o dinheiro para a libertação de Shevchenko. Na verdade, o quadro nunca foi vendido naquele leilão.

Shevchenko amava a vida. Ele gostava de se vestir de maneira elegante e cara. Seu famoso chapéu e casaco de gola listrada não são as suas roupas do dia a dia, mas o «chique» de São Petersburgo. Gostava de desenhar nudez e autorretratos (deixou 11). Ele adorava rum (o colocava no chá) e as mulheres – teve casos com uma criada, uma condessa, uma lavadeira, uma modelo, uma atriz, mulheres casadas e até, muito possivelmente, com a esposa de um amigo – nove no total. Ele dedicou o poema «Tryzna» à condessa Varvara Repninia, que estava apaixonada por ele. Supõe-se que eles poderiam ter tido um filho.

Quadro «Maria», Taras Shevchenko, 1840

Shevchenko real e vivo é muito legal. Sua dedicação às ucranianas «amem, /ucranianas/ de sobrancelhas negras, mas não com os moscovitas» até hoje é muito válida. Podemos imaginar quantas coisas interessantes ele escreveria hoje...

Feliz aniversário, o Herói da Ucrânia, Taras «Kobzar» Shevchenko!

Conhecer factos desconhecidos sobre poeta: https://ukrainky.com.ua/taras-shevchenko-13-nespodivanyh-faktiv-pro-zvychajnogo-cholovika-a-ne-kobzarya

Ler sobre as mulheres mais importantes na sua vida: https://ukrainky.com.ua/u-lizhku-z-kobzarem-kogo-vin-vidbyv-lyubyv-i-prosuvav/

segunda-feira, janeiro 01, 2018

Ucrânia recorda Stepan Bandera (18 fotos)

No dia 1 de janeiro de 1909 nasceu Stepan Bandera, político, ideólogo e futuro líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-R), homem que dedicou toda a sua vida à luta pela Ucrânia independente e que foi assassinado em 1959, em Munique, pelo agente do KGB, que mais tarde fugiu para Ocidente.
AP Photo/Efrem Lukatsky
Como já é tradição na Ucrânia, no dia 1 de janeiro, o aniversário do nascimento do Stepan Bandera é comemorado pelos diversos nacionalistas e patriotas, em forma da organização das marchas de tochas ardentes.

Kyiv
As fotos de Kyiv Facebook @Ivan Pogorelyi
Em Kyiv, a marcha foi organizada pelo partido VO “Svoboda”, “Setor da Direita” e Corpo Nacional, a polícia ucraniana avaliou o número dos participantes em cerca de 1.000 pessoas. 
A marcha começou no parque Taras Shevchenko em frente da Universidade Nacional Taras Shevchenko e terminou na praça de Independência (Maydan), informa novosti.dn.ua

Slovyansk
A marcha foi organizada pelo partido VO “Svoboda” e organização “Sokil”, ação contou com a proteção extra de polícia e SBU.
Os principais slogans: «Glória à Ucrânia» e «Leste e Oeste juntos», a marcha também exibia os cartazes com slogans locais e económicos, eram recordados os ucranianos que morreram defendendo Ucrânia na atual guerra russo-ucraniana.
A marcha acabou em forma de comício junto ao monumento do poeta-mor da Ucrânia, Taras Shevchenko.

Avdiivka e Pokrovsk (região de Donetsk livre)

Na cidade de Pokrovsk na praça Taras Shevchenko decorreu um comício.

Na cidade de Avdiivka, na linha da frente, a marcha também foi organizada pelo VO “Svoboda”, “Setor da Direita” e Corpo Nacional, informa avdeevka.city.

Além disso, as marchas nacionalistas foram planeadas e decorreram em Lviv, Sumy, Kharkiv, Ternopil, Dnipro, Rivne, Kherson, Kryviy Rih e Melitopol, informa novosti.dn.ua (os dados da polícia ucraniana apontam 54 (!) marchas em 20 regiões da Ucrânia!)

Blogueiro: amado pelos cidadãos que se identificam com Ucrânia e odiado por aqueles que odeiam o país, Stepan Bandera, de forma lenta, mas imparável, deixa de pertencer à esfera histórica, se transformando num santo protetor da Ucrânia. Como tal, as marchas, em sua memória reúnem a quantidade máxima de pessoas quando a própria existência da Ucrânia é ameaçada, diminuindo de intenção, quando o perigo deixa de “espreitar às portas”.


Também é de notar que Stepan Bandera entrou, para ficar, na imaginação popular e mitológica ucraniana. Quando isso sucede, o “centrão” político deixa de sentir a necessidade de lutar por mais. Um pouco disso aconteceu com Bandera, de uma figura exótica resgatada pelo VO “Svoboda”, ele se transformou numa parte regular da história da Ucrânia. Os mitos e heróis, como é sabido, nunca morrem.

Bónus

É de recordar que nas décadas de 1960-1970 as autoridades comunistas soviéticas da URSS habitualmente organizavam as marchas que usavam as tochas, principalmente no dia 9 de maio e 22 de junho, para assinalar a participação soviética na II G.M., naturalmente, os que vão evocar outras situações históricas, não vos falarão disso.
E claro, sempre podemos comparar as marchas ucranianas com as marchas dos países vizinhos, por exemplo com a recente marcha do extremismo xenófobo polaco.
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