sábado, agosto 22, 2026

A propaganda radiofónica do 3º Reich: uso das rádios pseudo-clandestinas

«Liquidação do analfabetismo via rádio». Pormenor de uma estatueta soviética da década de 1920.

Nas vésperas da II G.M., a propaganda do 3º Reich começa criar várias estações de rádio pseudo-clandestinas, destinadas ao público-alvo dos países adversários: a «New BBC» (Grã-Bretanha), «Za Rossiju» (URSS) ou projeto de uma «rádio astrológica-ocultista» destinada aos Estados Unidos, escreve a Rádio «Liberdade».

Em abril de 1938, o Ministro da Propaganda da Alemanha nazi, Josef Goebbels, escreveu no seu diário: «A nossa estação secreta, que transmite da Prússia Oriental para a rússia, está a atrair uma enorme atenção. Fala 'em nome de Trotsky' e está a causar consideráveis ​​problemas ao Estaline. Os vermelhos procuram desesperadamente a fonte de transmissão. Mas não a encontrarão». 

Reportagem da Abwehr de França sobre a emissão de rádio «Velha Guarda de Lenine».
Novembro de 1941. Fonte: Bundesarchiv Berlin.

Era a chamada estação de rádio «negra» (Geheimsender). Os ouvintes deveriam acreditar que ela operava em território soviético em nome de organizações clandestinas anti-estalinistas. Como na realidade se situava na Prússia Oriental, era particularmente bem ouvida em Riga, Vilnius e Varsóvia. Mas, em certos dias, podia ser recebida até em Paris. O primeiro relato que se consegue encontrar sobre o assunto em jornais de emigração russa data do início de abril, portanto, o projeto deve ter começado em março de 1938. Ao longo da primavera e do verão de 1938, a imprensa de emigração russa, principalmente o jornal parisiense «Vozrojdénie», combinou transcrições de transmissões, rumores (que se espalharam como fogo em palha na emigração) e as suas próprias conjeturas para criar uma série completa e repleta de ação dedicada a essa estação de rádio. Se as conceções dos jornalistas eram inteiramente altruístas, isso requer uma investigação mais aprofundada. 

A 6 de maio de 1938, o «Vozrojdénie» publicou um relato bastante detalhado sobre a estação de rádio secreta. Chamava-se «União para a Libertação da Pátria» e a melódia do «Internacional» era tocada antes e depois da emissão. Um locutor misterioso ameaçava vingar-se de Estaline «pelas mortes de Tukhachevsky, Bukharin e Zinoviev». No final de abril, chegou a ser lida a sentença de morte do «tribunal secreto da União dos Libertadores da rússia». Este tribunal condenou Estaline à morte por «falsificar o testamento de Lenine, tomar o poder pelo terror, trair a revolução comunista e executar os melhores generais do exército vermelho em conluio com uma potência estrangeira», estando a execução marcada para 1 de maio na Praça Vermelha de Moscovo. 

Excerto de um artigo de Ivan Tkhorzhevsky sobre a estação de rádio anti-Estaline
no jornal parisiense «Vozhrojdénie». Maio de 1938. Fonte: Gallica.

O dia 1 de maio chegou rápido, mas os misteriosos ativistas da resistência, claro, tinham uma explicação lógica para a sobrevivência do ditador: um sósia de Estaline estava presente na Praça Vermelha no dia 1 de maio, tornando a execução planeada inútil.

Além disso, as emissões continham ocasionalmente mensagens encriptadas aparentemente incoerentes (números, sílabas, letras) alegadamente para camaradas expalhados por várias regiões da União Soviética. Na mesma edição, um dos principais publicistas do «Vozrojdénie», Ivan Thorzhevsky, publicou um editorial no qual elogiava os heróicos combatentes da resistência e relatava que Yezhov se tinha desdobrado na busca de um transmissor secreto. 

Duas semanas depois, a reportagem do «Vozrojdénie» foi recebida por nada mais nada menos que Ivan Solonevich, o conhecido monarquista e antisemita russo assumido, que por esta altura tinha acabado de se mudar para a Alemanha após o atentado terrorista em Sófia, no qual a sua mulher foi morta. Neste caso, não precisamos de especular se os seus equívocos sobre a estação de rádio eram altruístas, pois foi precisamente no final de abril e início de maio de 1938 que Goebbels escreveu no seu diário: «Solonevich... Causou uma boa impressão. Quer dinheiro para o seu trabalho antibolchevique. Não tenho nada contra; pessoas assim podem ser-nos úteis...»

Assim, aos 18 de maio de 1938, Ivan Solonevich publicou um artigo no jornal nazi «Angriff», intitulado «Sinal de SOS de um Transmissor de Rádio Negro». Depois de analisar cuidadosamente as emissões enviadas pelos ouvintes em Vilnius, Riga e Helsínquia, Solonevich promove a conclusão de que a «oposição de direita» estava por detrás do transmissor secreto e que este tinha sido organizado por um grupo de conspiradores militares. De seguida, desmentiu os rumores sobre o trotskismo da estação de rádio (contradizendo audaciosamente, como vemos, até o seu patrocinador, o Dr. Goebbels, para quem todos os opositores soviéticos eram iguais e, por isso, chamados trotskistas). Solonevich afirma categoricamente que, na URSS moderna, «o caso trotsquista é um caso encerrado». Solonevich apresenta o surgimento do transmissor «secreto» como um claro símbolo da decadência do aparelho governamental soviético, usando a sua metáfora favorita: escorpiões num frasco, picando-se uns aos outros.

Antevisão do artigo de Solonevich sobre a estação de rádio anti-Estaline
em «Der Angriff». Maio de 1938. Fonte: Bayerische Staatsbibliothek

Posteriormente, sem a participação de Solonevich, a série continua com histórias de como os NKVDistas invadiram a estação de rádio secreta, primeiro perto de Minsk e depois em Bila Tserkva, na Ucrânia, onde supostamente ocorreu uma brutal batalha de vários dias entre a guarnição local e os chekistas, durante a qual a estação de rádio secreta também foi descoberta e destruída. O facto de ela ter voltado ao ar alguns dias depois foi apresentado como um sinal do poder da resistência anti-soviética, que possuía vários transmissores secretos e, por isso, sobreviveu facilmente à perda de um deles. 

A imprensa soviética também fez alusões vagas à existência de estações de rádio secretas, que (de facto) se encontravam fora das fronteiras da URSS. No entanto, segundo a propaganda soviética, os seus rastos conduziam à Itália, e não à Alemanha. Mas, então, a guerra técnica substituiu a luta ideológica, e a estação começou a ser activamente bloqueada por interferências induzidas, de tal modo que, a partir do Outono de 1938, os raros relatos nos jornais de emigrados russos sobre as emissões em curso eram dominados pela estática: «Tudo está afogado num ruído infernal. A emissão está interrompida». Contudo, pelo que se pode avaliar, a estação continuou a operar até à assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, após o qual, por razões óbvias, as suas operações foram cessadas, retomando apenas após o ataque da Alemanha à União Soviética em junho de 1941. 

Embora Eberhard Taubert, advogado e propagandista antisemita, o chefe do Departamento Oriental do Ministério da Propaganda do Reich, já tivesse à sua disposição a «Anti-Comintern» — uma organização que se dedicava ativamente à propaganda anticomunista desde 1933, principalmente através da publicação de livros e revistas — segundo o seu próprio relato, surgiu a necessidade de criar um segundo aparelho de propaganda. As transmissões radiofónicas nas línguas europeus do centro-leste mais importantes — isto é, não só o russo, mas também o ucraniano, o belaruso, o estónio e o letão — deveriam ser iniciadas imediatamente nos primeiros dias da guerra. Estações de rádio secretas também deveriam ser reestabelecidas. Ao atravessar a fronteira, as tropas deveriam transportar cartazes, panfletos, gravações para altifalantes, filmes dobrados em russo, e assim por diante. 

Assim começou a história da fundação da «Vineta». Formalmente, a «Vineta» não era uma divisão do Ministério da Propaganda do Reich, mas uma organização sem fins lucrativos registada, com até o seu próprio estatuto, embora todo o financiamento fosse, naturalmente, canalizado pelo departamento de Goebbels.

Estatuto da Fundação Vineta, redação de 1944. Fonte: Bundesarchiv Berlin.

As primeiras emissões de rádio da «Vineta» começaram logo às 10h da manhã do dia 22 de junho. Foram transmitidos o discurso de Rosenberg e o pronunciamento de Goebbels, que delineava a conhecida teoria de um ataque preventivo alemão contra a URSS. As mensagens de propaganda, complementadas por relatos da linha da frente, foram inicialmente transmitidas em seis línguas (estónio/ano, lituano, letão, belaruso, ucraniano e russo) através de transmissores na Alemanha e em Varsóvia e, à medida que avançavam para leste, por estações nas cidades ocupadas: Lviv, Minsk e Baranovichi. O primeiro diretor da «Vineta» recordou após a guerra:

«Entre outras coisas, a população foi instada a dificultar ao máximo o avanço do exército vermelho... Ao longo de agosto de 1941, os apelos à deserção foram intensificados. Por exemplo, diziam algo como: «Parem com a sangrenta batalha, larguem as armas e voltem para casa. Caso contrário, não chegarão a tempo para a divisão dos terrenos. Os kolkhozes estão a ser desmanteladas agora»... Além disso, era transmitida propaganda direta aos pilotos e tripulantes de tanques soviéticos nas frequências de rádio das aeronaves e tanques do RKKA. As transmissões eram feitas no período da manhã, uma vez que, com base na experiência, os carros de combate e as aeronaves na linha da frente estavam prontos para o combate a essa hora e, por isso, tinham uma grande probabilidade de ouvir as transmissões. 

Ademais, a «Vineta» supervisionava estações de rádio secretas, que foram reativadas após o início da guerra e até mesmo ampliadas. Vamos citar novamente o diário de Goebbels: 

30 de junho de 1941: «Estamos a trabalhar para a rússia com três estações de rádio secretas. As emissoras são: a primeira é trotskista, a segunda é separatista e a terceira é nacionalista russa. Todas se opõem veementemente ao regime estalinista. Aqui, lançamos todas as bombas possíveis e empregamos os truques que se revelaram eficazes durante a campanha no Ocidente».

12 de outubro de 1941: «Nos interesses da guerra, somos obrigados a exortar o êxodo [populacional] em massa de Moscovo e Leninegrado. Por ora, estamos a utilizar para isso estações de rádio secretas, a fim de não nos expormos».

A estação, anteriormente conhecida como «União para a Libertação da Rússia», passou a chamar-se «Velha Guarda de Lenine». Era chefiada por Karl Albrecht, um homem cuja biografia merece um texto à parte. Crê-se que era um comunista que (como muitos outros comunistas) fugiu da Alemanha de Weimar para a URSS no início da década de 1920. O seu volumoso dossier nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão permite corrigir um pouco os factos.

Karl Löw-Albrecht. Fotografia do pós-guerra. Fonte: Wikipédia.

Karl Matthäus Löw (o seu nome verdadeiro) foi condenado a dois anos e meio de prisão na Alemanha, em 1923, por corrupção de menores. Como veterano da Primeira Guerra Mundial, recebeu quatro meses de licença por motivos de saúde. Dirigiu-se para Berlim e embarcou num navio soviético, fazendo-se passar por comunista fugitivo e adotando o nome de Albrecht. Na URSS, Karl Albrecht, fez uma carreira fenomenal, ascendendo em menos de dez anos de estrangeiro praticamente inútil, que não falava russo ao chefe do departamento florestal da Inspecção Operária e Camponesa, autor de livros e participante em reuniões no Kremlin. Subindo muito alto, provavelmente suscitou muita inveja de alguns camaradas, acabando por ser preso, primeiro ao abrigo do Artigo 58º (atividade contrarrevolucionária e espionagem), depois o caso foi reclassificado ao Artigo 152º (mais uma vez, corrupção de menores). Foi-lhe oferecido um perdão após ter cumprido mais de um ano de prisão, sob a condição de se declarar culpado. Foi obrigado a aceitar, acreditando que não suportaria mais tempo na prisão soviética.

Após a sua libertação, Albrecht, com o apoio da embaixada alemã, regressou de imediato à Alemanha, onde o aguardava na prisão por casa do delito cometido dez anos antes. Mas, rapidamente tornado-se um informador da Gestapo, Albrecht provou, que uma pessoa talentosa pode fazer carreira em qualquer regime. Escreveu um livro sobre as suas desventuras na União Soviética, intitulado «A Traição do Socialismo». Foi publicado pela própria Anti-Comintern, sob a supervisão de Eberhard Taubert, do Ministério da Propaganda do Reich. O livro (claro, com apoio publicitário estatal) tornou-se um best-seller, foi traduzido para outras línguas e enriqueceu o autor. Após a invasão da URSS, chegou a abrir a sua própria livraria em Berlim, instalada no antigo escritório da agência de turismo soviética.

Capa do livro «Der verratene Sozialismus» de Karl Albrecht, edição de 1943.
Fonte: vitber.com

Poucos dias antes do início da guerra nazi-soviética, Albrecht foi convocado ao serviço militar e já estava a caminho de um comboio em direção a Leste para se juntar a um dos exércitos da Wehrmacht como tradutor. Mas, no último momento, conseguiu emprego no Ministério da Propaganda e chefiar uma estação de rádio secreta. Nas suas memórias após a guerra, recordou: 

«Como estava convencido da culpa de Estaline em condenar os povos e as nações do Leste à terrível escravatura e em trair os fundamentos do marxismo e os ensinamentos de Lenine, cujos fiéis seguidores foram perseguidos e mortos, aproveitei a oportunidade para atacar o homem que odiava. Acreditava que o trabalho que levaria à queda de Estaline e do seu Politburo, bem como à proclamação de um novo governo soviético leninista, era totalmente coerente com as minhas convicções socialistas». 

Os editores de programação de rádios pseudo-clendestinas alemãs tinham à sua disposição uma vasta quantidade de material analítico: relatórios secretos da linha da frente, registos de interrogatórios de prisioneiros e desertores e transcrições de emissões de rádio soviéticas. As transmissões estavam proibidas de atacar a liderança nazi ou de incitar diretamente à resistência à Wehrmacht. Pelo contrário, eram incentivados excertos sobre a necessidade de uma paz separada e sobre a forma como a guerra entre a Alemanha e a URSS beneficiava apenas os «plutocratas ocidentais». 

Por razões óbvias, uma parte significativa da equipa da «Vineta», contratada logo após o início da guerra, era composta por emigrados russos monárquicos — simplesmente não havia outro grupo de pessoas na Alemanha que falasse russo. Eram, naturalmente, hostis à propaganda das ideias leninistas, mesmo que as fictícias. Um deles era Aleksandr Albow, um veterano da guerra civil russa, que se juntou à «Vineta» em setembro de 1941 e que mais tarde se tornou o Chefe do Departamento de Propaganda do Quartel-General da Força Aérea da ROA.

Devemos, naturalmente, esclarecer que grande parte da atmosfera da «Velha Guarda de Lenine» não foi inventada por Albrecht. Já existia em 1938. Tal como naquela época, as transmissões eram iniciadas e concluídas com a Internacional. Ainda assim, houve apelos a alegados grupos clandestinos em várias partes da URSS, relatos de resistência anti-soviética, real ou inventada, repressões contra activistas da resistência, mensagens pseudo-encriptados e assim por diante.

Descrição da estação de rádio «Velha Guarda de Lenine» em documentos internos do Ministério da Propaganda do 3º Reich. Julho de 1942. Fonte: Arquivo Federal de Berlim

De salientar que a intensa actividade das estações de rádio nazis pseudo-clandestinas não passou despercebida aos Aliados. A partir de maio de 1941, os britânicos, por sua vez, começaram a transmitir para a Alemanha em nome de uma secreta «oposição patriótica» alemã (Estação de Rádio Gustav Siegfried). No Verão de 1941, foi transmitido um programa de rádio soviético, «Soldado de Assalto Hans Weber», no qual um soldado de assalto, supostamente desiludido com o nazismo, se dirigia, à partir da Alemanha aos seus antigos camaradas. Outros programas produzidos na URSS sob o nome de «Estação de Rádio do Povo Alemão» (Deutscher Volkssender) serviam os mesmos propósitos de desinformação e engano, criando a impressão de que existia uma vasta rede de resistência anti-nazi na Alemanha, controlada por um transmissor soviético secreto. 

As técnicas utilizadas pelo lado soviético eram semelhantes às dos alemães: por exemplo, apelos aos seus agentes fictícios atrás das linhas alemãs utilizando pontos de referência geográficos («Atenção, amigos em Dessau!») ou criptográficos («Atenção, [agente] QR6!»). Mas também foram usados truques originais: os transmissores soviéticos sintonizavam a frequência das estações de rádio alemãs e inseriam-se em pausas ou «sobrepondo» directamente a programação alemã com comentários anti-Hitler. Como a voz do falso locutor parecia vir de longe, recebeu a alcunha de «voz fantasma» (Geisterstimme). Estes tipos de sabotagem incomodavam tanto os nazis que, por vezes, até começaram a interferir nas suas próprias transmissões de rádio. 

Referência à estação de rádio fictícia «Soldado de assalto Hans Weber» na
imprensa soviética. Agosto de 1941. Fonte: Yandex.Periodica

Um documento de julho de 1942 foi preservado nos arquivos do Ministério da Propaganda do 3º Reich, enumerando/listando estações de rádio pseudo-clandestinas, agrupadas sob o nome de «Concordia» (outros emissores ditos negros também existiam sob esta designação, como uma suposta estação separatista escocesa e uma estação «Índia Livre». Chegou a ser considerada a criação de uma «estação de rádio astrológica-ocultista» destinada a atingir os Estados Unidos). 

Nos arquivos alemães podem ser encontradas as referências de três estações raiofónicas russas pseudo-clandestinas: a já conhecida «Velha Guarda de Lenine» (nome alemão «Concordia V», a emitir desde 29 de junho de 1941, com programas diários de meia em meia hora e uma única repetição). 

A segunda estação chamava-se «Za Rossiju» (literalmente «Pela Rússia», nome interino alemão «Concordia Y», que tinha 20 minutos de duração, seguindo-se uma única repetição, tendo como tema musical o Prelúdio em Dó sustenido menor de Rachmaninov, sendo transmitidas desde 30 de junho de 1941. 

Esta estação era especializada em propaganda nacionalista russa e a sua equipa era composta principalmente por membros da União Nacional-Popular da Nova Geração (NTS). Surgiu, portanto, uma situação paradoxal: o papel dos nacionalistas russos fictícios era desempenhado por nacionalistas russos reais. Até o nome da emissora coincidia com o nome do jornal do NTS do período pré-guerra. O líder do grupo, Dmitry Brunst, recordou após a guerra: «As transmissões em russo eram realizadas em nome de uma organização clandestina fictícia, supostamente existente em território soviético... As transmissões continham apelos para o fim da guerra, para virar as baionetas contra o governo, e transmitiam relatos descaradamente fabricados 'do campo de batalha' de várias cidades da União Soviética, factos fictícios, acontecimentos fictícios e informações sobre a luta contra o poder soviético». 

Brunst foi preso pelo MGB após o fim da II G.M., sobreviveu o GULAG e escreveu memórias após a sua libertação, ficando refém na URSS, portanto o seu texto, carrega, naturalmente uma inclinação ideológica soviética: «relatórios descaradamente fabricados». 

Graças a uma feliz coincidência, alguns deles sobreviveram: em particular, foram publicados em 1942 pelo jornal em língua russa «Odesskaya Gazeta», publicado em Odesa, ocupada pela Romênia. Na verdade, os propagandistas nazis procuravam uma diversificação de conteúdos bastante precisa, em termos actuais: cada público-alvo recebia o seu próprio enfoque de propaganda, pelo que as mensagens subversivas para a retaguarda soviética não tinham lugar nos jornais do território ocupado (note-se que a propaganda soviética empregava uma táctica diferente: os jornais centrais faziam referência directa ao já referido emissor de rádio fictício do «Soldado de assalto Hans Weber»).

Reportagens da estação de rádio «Pela Rússia», publicadas no
«Jornal de Odessa». Maio de 1942. Fonte: libraria.ua

Mas Odesa estava sob controlo romeno, a censura militar era obviamente menos rigorosa ali, e as notícias recebidas pela rádio chegavam aos jornais, talvez até eram aceites como verdadeiras. Os relatos publicados confirmam a descrição de Brunst, relatando continuamente acidentes ferroviários, levantamentos locais, provocações, conflitos internos na retaguarda soviética e assim por diante. Ocasionalmente, as notícias eram intercaladas com apelos diretos:  

«Os comunistas levaram o país a um ponto em que agora, para o salvar da ruína, só há um caminho: concluir uma paz imediata. Mas o nosso governo não está a pensar nisso. Este governo começou a guerra sem preparar o país para ela, com um comando militar composto por ignorantes. O governo está a agir contra os interesses do país e do povo. Exigimos o fim da guerra; estamos à espera que uma nova geração do povo russo chegue ao poder, conclua a paz e salve o país da catástrofe». 

É desnecessário dizer que estes eram slogans puramente propagandísticos: o governo nazi da época não tinha qualquer intenção de uma paz separada, muito menos de reconhecer qualquer «novo governo russo». 

Finalmente, o terceiro transmissor, a «Rádio da União de Combate dos nacionalistas do povo russo», transmitia durante 30 minutos diários, sem repetição. O nome em alemão era «Concordia Z». A música não estava especificada e a transmissão terminava com o grito «Viva a rússia livre!» Possivelmente essa última rádio estava de alguma forma ligado ao centro Zeppelin, organização criada pelas SS para treinar e mobilizar sabotadores, uma vez que o novo nome da estação soava semelhante ao de uma das estruturas colaboracionistas russas controladas por Zeppelin. 

A audiência das emissões radiofónicas pseudo-clandestinas foi efémero. A 1 de julho de 1942, Goebbels escreveu no seu diário: 

«Estou a discutir a questão das estações de rádio secretas. Na minha opinião, os métodos de transmissão de rádio secreta estão ultrapassados. Uma estação de rádio secreta pode ter impacto se for utilizada de forma breve, ou seja, em situações críticas. As estações de rádio clandestinas, que operam há dois anos e demonstram pouco potencial, devem ser desactivadas... Algumas estações de rádio clandestinas que operam contra a URSS também não têm tido grande sucesso, dado que são praticamente desconhecidas». 

A emissora nacionalista russa «Za Rossiju» foi uma das primeiras vítimas, pois, segundo os auditores alemães, «o seu sucesso não era grande». As suas emissões cessaram a 1 de agosto de 1942. A propaganda nacionalista foi transferida para a «Concordia Z». O conteúdo das emissões da «Rádio da União de Combate dos nacionalistas do povo russo», que descrevia sabotagens e distúrbios reais ou imaginários na retaguarda soviética, seguia integralmente as tradições da estação de rádio «Za Rossiju».

Decisão de Goebbels de encerrar a estação de rádio «Pela Rússia».
Julho de 1942. Fonte: Bundesarchiv Berlin

Os auditores alemães apresentaram uma caracterização significativamente melhor da «Velha Guarda de Lenine»: «A emissora apoiava a antipatia dos membros do partido [comunista] em relação ao Estaline, apontando o exemplo de Lenine, que, ao contrário de Estaline, seguiu uma política oportunista de paz [referência ao Tratado de Brest]. A eficácia deste transmissor é confirmada pelo facto de que a propaganda soviética ter refutado detalhadamente os seus relatórios, e o jornal «Pravda» ter sido obrigado a contestar a alegação de que os seus relatórios eram distribuídos em fábricas, caminhos-de-ferro e mercados».

Contudo, no verão de 1942, Karl Albrecht foi demitido da «Vineta». Na sua caracterização posterior, Taubert observou a sua falta de disciplina e «esforços de propaganda mais do que duvidosos que roçavam a traição». 

Apesar disso, a própria estação de «rádio leninista» manteve-se no ar até, pelo menos, dezembro de 1943, quando os jornais suecos noticiaram inesperadamente o seu facto, alegando que o emissor de rádio de «Velha guarda do Lenine» estava, na realidade, localizado na Alemanha, e que os alegados «leninistas» que atendiam ao microfone trabalhavam para o Ministério da Propaganda alemão (ambas as afirmações eram verdadeiras). Segundo Taubert, a informação foi transmitida à Suécia pelos serviços de informação soviéticos. Taubert propôs a Goebbels esforços de propaganda em três formatos diferentes: para a imprensa alemã, para transmissões regulares de rádio russas a partir da Alemanha e, finalmente, para... os tais comunistas soviéticos da «velha guarda de Lenine». Em particular, esta última deveria responder tardiamente (uma vez que as notícias chegam lentamente à retaguarda soviética), declarando: «Estaline, incapaz de destruir o movimento leninista, tenta retratar os seus membros como agentes fascistas, como já fez com os trotskistas, Zinoviev, Bukharin e outros. Para nós, esta é mais uma prova de que Estaline está a começar a temer o nosso movimento». 

A reação de Goebbels a esta proposta não está conhecida, mas a estação de rádio exposta foi aparentemente encerrada pouco depois. Segundo um dos funcionários de «Vineta», a notícia de que propaganda pseudo-leninista tinha sido transmitida secretamente a partir de território alemão durante dois anos e meio causou algum descontentamento entre os figurões nazis que não tinham conhecimento prévio deste segredo. 

Avaliar o sucesso de qualquer propaganda é muitas vezes um esforço subjetivo. Os relatos dos sucessos da «Velha Guarda de Lenine», reflectidos em documentos sobreviventes do Ministério da Propaganda do 3º Reich, parecem hoje mais tentativas de auto-reabilitação por parte dos oficiais nazis que outrora decidiram lançá-la e depois defendiam a eficâcia das suas próprias posições. Na realidade, foi uma operação extremamente impressionante, mas de eficâcia bastante reduzida. As estações de rádio «negras» de «Vineta» tiveram pouco sucesso em desmoralizar a população soviética. Por conseguinte, na luta pela «decadência moral da retaguarda soviética», prevaleceu um paradigma ideológico diferente no final de 1942: a propaganda à favor do «Movimento de Libertação russo», do general soviético Andrey Vlasov, POW dos alemães, que, na verdade, surgiu inicialmente unicamente como um projeto de propaganda.

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