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domingo, abril 26, 2026

A família Khodemchuk: vidas ceifadas pelo Chornobyl e pela rússia

Valery Khodemchuk. Foto: divulgação
Valery Khodemchuk foi a primeira vítima do acidente nuclear de Chornobyl. Nascido em 24 de março de 1951, começou a trabalhar na estação/usina nuclear em 1973. Na noite de 26 de abril de 1986 estava na sala de máquinas durante a explosão do reator. O seu corpo nunca foi encontrado.

Ele era operador de caldeira, operador sênior de caldeira do departamento de comunicações térmicas e subterrâneas, operador do grupo 6 e operador sênior do grupo 7 da bomba de circulação principal da unidade de energia. Na noite de 26 de abril de 1986, estava na sala de máquinas durante a explosão do reator. Após a explosão foi soterrado por destroços e seu corpo nunca foi encontrado. Tinha 35 anos na época de morte.

Natalia Khodymchuk. Foto: Facebook

Em 14 de novembro de 2025, um drone russo-iraniano Shahed-136, atingiu um prédio residencial em Kyiv, na rua Balzac, onde morava Nataliya Khodymchuk, viúva de Valery Khodemchuk. Ela sofreu ferimentos graves, incluindo queimaduras significativas, superiores aos 45% do corpo e foi hospitalizada. No dia seguinte, Nataliya Khodymchuk faleceu no hospital em decorrência dos ferimentos. Tinha 73 anos de idade.

Prédio na rua Balzac em Kyiv, atingido pelo drone russo em 14 de novembro de 2025.
Foto: Thomas Peter / Reuters / Scanpix / LETA

Devido a um erro do funcionário responsável pela emissão dos ID, os passaportes internos ucranianos, os apelidos/sobrenomes de Natalya e Valery diferiam por uma letra: ele é Khodemchuk, ela é Khodymchuk.

Natalya levava uma vida ativa e era muito sociável – por exemplo, reunia em sua casa mulheres que tricotavam meias e cintos de lã para os militares ucranianos. O novo lote foi entregue justamente na véspera do ataque russo. Naquele dia, ela queria visitar a sua casa do campo, mas mudou de ideia.

Nataliya conheceu Valery em Pripyat. Ele trabalhava em Chornobyl, ela – numa cantina local. Casaram-se e, em 1975, receberam um apartamento espaçoso onde criaram dois filhos. Natalya recordou o último encontro deles: Valery estava se preparando para o turno da noite, eu assistia na TV um filme sobre casamento arranjado. O abracei e perguntei se ele havia se casado comigo por amor. Ele sorriu e respondeu: «Claro que sim, por amor!»

Foto: Ilya Prokopenko

A famosa artista ucraniana, a pintora naive Maria Prymachenko, era a tia de Valery. Ela lhe dedicou um quadro de um pássaro azul com as asas abertas, como se tentasse cobrir o seu sobrinho falecido. A pintura traz a seguinte legenda: «Este pássaro está voando, procurando seu homem. Ele não está em lugar nenhum. Seu corpo foi espalhado por toda a Ucrânia».

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

Ataque russo contra a estação nuclear de Chornobyl

Um drone de ataque russo com a ogiva explosiva atingiu, esta noite, o abrigo que protege Ucrânia e o mundo inteiro da radiação da 4ª unidade da central nuclear de Chornobyl. Um novo crime de guerra russo. 

Ucrânia construiu este abrigo juntamente com 85 países da Europa e do Mundo, juntamente com EUA – com todos os que desejavam a segurança real das pessoas. O único Estado no mundo que ataca este tipo de instalações, ocupa os territórios das centrais nucleares e conduz hostilidades sem qualquer consideração pelas consequências é a rússia de hoje. É uma ameaça terrorista ao mundo inteiro. 

O sarcófago na central nuclear de Chornobyl foi danificado por um drone russo. O fogo foi extinto. Atualmente, a radiação de fundo não aumentou e está a ser constantemente monitorizada (no local da central nuclear de Chornobyl, foram registados 0,57 μSv/h, o que não excede os valores permitidos). Segundo as estimativas iniciais, os danos no abrigo são significativos. 

A rússia realiza estes ataques contra a infraestrutura ucraniana e contra as cidades ucranianas todas as noites. A rússia continua a aumentar o seu exército. A rússia não está a mudar a sua retórica insana de um Estado anti-humano. Isso significa que putin não se está definitivamente se preparar para as negociações da paz. Ele está a preparar-se para continuar a enganar o mundo. É por isso que é necessária uma pressão unida de todos os que valorizam a vida – pressão sobre o agressor. A rússia deve ser responsável pelo o que faz. 

Que tipo de drone é este?

A secreta ucraniana SBU mostrou os destroços do drone que atacou a central nuclear de Chornobyl e classifica este ataque como um crime de guerra. 

O drone russo «Geran 2» (Shahed-136 iraniano)

Os restos do motor chinês Limbach L550E do drone russo

Fragmentos do casco do drone russo com uma ogiva e número de série foram encontrados dentro e perto do sarcófago. Segundo a investigação, trata-se de um «Geran-2» russo, variação do «Shahed» iraniano. 

SBU acredita que o drone estava equipado com uma ogiva de alto explosivo para causar o máximo de dano no alvo. Os investigadores do SBU abriram o processo-crime sobre o ataque à 4ª unidade de energia da central nuclear de Chornobyl e estão a trabalhar no local juntamente com as autoridades competentes.

No total, na noite de 14 de fevereiro, a rússia lançou 133 drones contra Ucrânia, informou a Força Aérea Ucraniana. As FAU abateram 73 drones de ataque «Shahed» e drones de outros tipos nas regiões de Kharkiv, Poltava, Sumy, Cherkasy, Chernihiv, Kirovohrad, Zhytomyr, Khmelnytskyi, Zaporizhia, Mykolaiv e Odesa.

Yaroslav Yemelyanenko, membro do Conselho Público para a Gestão da Zona de Exclusão, explicou na sua página de Facebook que o buraco provocado pelo drone russo foi formado no arco, onde «as delegações costumam ir».





O que é o sarcófago de Chornobyl? 

Em 2007, após longas negociações com parceiros europeus, o governo ucraniano, o Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento e o consórcio de empresas francesas «Novarka» assinaram um acordo para construir um novo abrigo. A obra foi totalmente concluída em 2019, escreve o serviço ucraniano da BBC.

Atualmente, o abrigo de Chornobyl é a maior estrutura terrestre móvel do mundo.

Incêndio provocado pelo drone russo em Chornobyl
O novo confinamento seguro é impressionante em tamanho: cerca de 165 metros de comprimento, 260 metros de largura e 110 metros de altura. O abrigo é mais alto do que a Estátua da Liberdade americana e o Big Ben de Londres. Embora seja inferior à Torre Eiffel em Paris em altura, o metal utilizado para construir a estrutura em Chornobyl poderá construir três destas torres. A área total de cobertura de Chornobyl é de 86 mil metros quadrados, o que equivale aos 12 campos de futebol.

sexta-feira, abril 26, 2024

As tropas russas em Chernobyl viviam em trincheiras e cozinhvam em fogueiras radioativas

No início da invasão em grande escala da Ucrânia pela rússia, a ignorância do Kremlin sobre o perigo da radiação em Chornobyl destacou-se como um excelente exemplo da trapalhada militar de Moscovo/ou. 

No 38º aniversário do desastre na fábrica/usina nuclear de Chornobyl, gostaríamos de lembrar aqueles que estiveram entre os primeiros após o incício da invasão de 24/02/2022 a sentir a máxima russa de que “os russos não abandonam os seus” - os próprios militares russos, entrincheirados num dos locais mais contaminados do nosso planeta - a famosa «Floresta Ruiva» de Chornobyl. 

A maioria deles provavelmente não está mais viva. Aqueles que sobreviveram certamente sentem e vão sentir os problemas gravíssimos de saúde para o resto das suas vidas. Tudo para cumprir as ordens idiotas dos comandantes russos de uma guerra sem sentido, verdadeiros vncedores do famoso “Prémio Darwin”. 

Mais uma vez o Estado russo mostrou-se em toda a sua glória: desrespeito pelos seus próprios militares, tentativas desesperadas de chamar o caso de “falsidade” e forçar todos a acreditar nela, o esquecimento completo daqueles que foram usados e abusados pela despotia estatal russa. 

O máximo com que os russos podem contar de sua “pátria” nesses casos são os caixões. De zinco.

Algumas tropas russas escavaram na famosa «Floresta Ruiva» de Chornobyl, um pedaço de floresta desabitada de 10 quilómetros quadrados que, em abril de 1986, sofreu o impacto da radiação, segundo algumas estimativas, uma ordem de magnitude pior do que a radiação liberada no bombardeio atômico de Hiroshima, no Japão, em 1945. Posteriormente, as equipa/es de emergência soviéticas cobriram todo o território com uma camada de areia para conter a poeira altamente radioativa. Mesmo com a camada protetora em cima, mesmo no final da década de 2010, ficar parado por mais de alguns minutos em qualquer lugar da «Floresta Ruiva» era perigoso, e quanto mais tempo alguém ficasse exposto, maior seria o perigo.

De acordo com uma declaração do exército russo publicada em 31 de março de 2023 e amplamente divulgada pela mídia ucraniana, o primeiro soldado russo na “Operação Militar Especial” (termo do Kremlin para a Guerra russo-ucraniana) morreu semanas após ser exposto a radiação perigosa. na Zona de Exclusão de Chornobyl, e que, a partir do início de 26 de Abril, mais soldados foram hospitalizados com enjoos causados pela radiação – com 73 em estado grave.

Relatórios subsequentes nas redes sociais russas colocaram um número de soldados relatando sintomas de enjoo causado pela radiação em suas cadeias de comando provavelmente na casa das centenas.

Ler mais em inglês

terça-feira, julho 07, 2020

O filme documental “Poeira Azure” sobre a tragédia de Chornobyl

O filme documental ucraniano “Poeira Azure” (Azure Dust) mostram a tragédia do acidente nuclear de Chornobyl através da vida de duas pessoas, que na época do desastre viviam na cidade de Pripyat. O filme retrata uma questão delicada: os abortos forçados pelo estado soviético das mulheres da região afetada pelo desastre nuclear.

O césio-137 é uma das várias substâncias radioativas liberadas ao meio-ambiente durante o acidente na quarta unidade da fábrica/usina nuclear de Chornobyl. Do latim, a palavra “césio” é traduzida como “azul celestial”. Juntamente com outras substâncias perigosas, essa “poeira azulada” infectou toda a Zona de Exclusão e, posteriormente, matou milhares de vidas.
Os criadores do projeto documental “Poeira Azure” conseguiram encontrar dois heróis com um destino único, que na época do desastre viviam em Pripyat. Eles, como outros moradores da cidade, foram evacuados bastante tardiamente. No entanto, apesar de tudo, eles conseguiram sobreviver e mostrar com seu próprio exemplo que é possível derrotar o sistema e superar circunstâncias difíceis, graças à perseverança, esperança e fé.

O filme é uma espécie de guia para a Zona de Exclusão. Graças às cenas únicas que os autores do projeto puderam filmar na cena da tragédia, o público poderá mergulhar completamente na atmosfera dos eventos e, junto com os heróis, sentir a atmosfera terrível e surpreendente que prevalece no local onde ocorreu um dos maiores desastres tecnogénicos do século XX.

O filme é legendado em inglês.

quarta-feira, maio 13, 2020

Leituras: "Meia-Noite em Chernobyl" de Adam Higginbotham

O dia 26 de abril de 1986 foi um ponto de viragem na História. O acidente em Chornobyl não mudou apenas a nossa perceção da energia nuclear, mas também o conhecimento da delicada ecologia do planeta. Chornobyl foi igualmente importante na destruição da URSS.

por: Nuno Coelho, in Ministério dos Livros

O dia 26 de abril de 1986 foi um ponto de viragem na História. O acidente em Chornobyl não mudou apenas a nossa perceção da energia nuclear, mas também o conhecimento da delicada ecologia do planeta. Chornobyl foi igualmente importante na destruição da URSS e, como tal, na vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria. Para Moscovo, foi um desastre político e financeiro – provocando a bancarrota de uma economia já vacilante -, mas também ambiental e científico.

Esta é a história nunca contada dos eventos que começaram no centro de controlo do reator 4 da central nuclear de Chornobyl. Depois de centenas de entrevistas, consultas de cartas, memórias inéditas e documentos só agora tornados públicos, Adam Higginbotham revela-nos os acontecimentos dramáticos daquela noite através dos olhos dos homens e mulheres que os testemunharam em primeira mão e que enfrentaram um inimigo aterrador e invisível.

“Meia-Noite em Chornobyl”, uma obra amplamente premiada e que inspirou a série de sucesso da HBO, mostra-nos não só as dificuldades épicas de um império a morrer, mas também o heroísmo individual e desesperado num momento transformador da História.

quarta-feira, agosto 21, 2019

Chornobyl: o desastre nuclear aos olhos do Politburo, do KGB e da CIA – 1ª parte

Documentos desclassificados detalham reações de alto nível, encobrimentos e críticas. Fontes incluem notas do Politburo, diários, protocolos nunca antes traduzidos ao inglês. Livro de Instruções Eletrónicas do Arquivo de Segurança Nacional (EUA) № 681.

Documentos dos escalões mais altos da União Soviética, incluindo notas, protocolos e diários das sessões do Politburo logo após o desastre nuclear de Chornobyl, em 1986, detalham uma sequência de encobrimentos, revelações, choques, mobilização, bravura individual e batalhas burocráticas da reação soviética, de acordo com o e-book “Top Secret Chernobyl” publicado pelo National Security Archive.

As principais fontes incluem protocolos do Grupo Operacional do Politburo sobre Chornobyl que foram publicados em russo pelo jornalista e ex-deputada do Soviete Supremo da URSS Alla Yaroshinskaya em 1992. A postagem começa com o ensaio de Yaroshinskaya (escrito exclusivamente para esta publicação) revendo a história de Chornobyl e os seus próprios esforços que datam de 1986 para documentar e expor as mentiras e o sigilo que cercou o desastre.

Também estão incluídos trechos do diário do membro do Politburo Vitaly Vorotnikov, notas sobre as sessões do Politburo por Anatoly Chernyaev, e trechos de raras “cópias oficiais de trabalho” das sessões do Politburo publicadas em russo pelo ex-diretor RosArchiv (Arquivo russo) Rudolf Pikhoia em 2000. A publicação também contém reações desclassificadas do departamento de inteligência do Departamento de Estado dos EUA, da CIA e do Jack Matlock do Conselho de Segurança Nacional, além de relatos do KGB da Ucrânia Soviética.

Consultar o arquivo.

domingo, julho 07, 2019

Maria Sovenko: a única pessoa que nasceu na zona de exclusão de Chornobyl

Mariyka (Maria) Sovenko é uma figura importante na história do desastre nuclear de Chornobyl que aconteceu em 1986 na Ucrânia. Foi a única pessoa que nasceu e viveu até aos 7 anos na zona contaminada pela radiação, mesmo após os habitantes de Pripyat terem sido evacuados. Hoje tem 19 anos, é estudante de turismo e está saudável.


por Ana Luísa Bernardino, MAGG.pt

Filha de Lydia e de Mykhaylo Sovenko, que era um dos bombeiros chamados ao IV reator da central na noite da explosão, cresceu numa área contaminada e que, até hoje, não é habitada, com exceção dos seus pais, que se recusaram a deixar a cidade, uma vez que a União Soviética não lhes deu uma nova morada, ou seja, uma casa onde pudessem viver.
Mariyka Sovenko e a mãe Lydia, na zona de exclusão
Foi só no momento do nascimento da filha [em 1999] que Lydia percebeu que estava grávida, tendo dado à luz com a ajuda do marido. Assim que a notícia do nascimento de um bebé em Chornobyl se tornou pública, Lydia foi tratada como “uma criminosa” porque teve um bebé naquela zona, tendo-se recusado a abandonar a sua casa, diz o Daily Mail.
Ignorando os avisos emitidos pelo governo, relativos aos perigos para a saúde do contacto com aquela radiação, Lydia educou Mariyka naquela cidade. A menina bebeu leite de vacas que pastavam em terras, potencialmente contaminadas pela radiação, assim como mergulhou em águas também infetadas.
“Se elas [as pessoas] acham que ela é uma mutante ou tem duas cabeças, estão completamente enganadas”, disse Lydia, pela altura em que Mariyka já tinha 5 anos. “Ela é uma criança adorável, absolutamente saudável, tanto quanto podemos ver.”
Numa entrevista que deu em 2006, a criança disse: “Eu gostava que houvesse apenas outra criança aqui. Eu podia mostrar-lhe a minha casa e a aldeia — podíamos divertir-nos muito”.
Apesar da pressão para mudarem de cidade por parte das autoridades, os pais de Mariyka não cederam. Preferiram continuar naquela casa. No entanto, aos 7 anos, mudaram-se, de modo a que a filha pudesse ir para a escola.

No sequência do sucesso da série, disponível na plataforma de streaming da HBO, que trouxe a história do desastre nuclear novamente para cima da mesa, Mariyka, agora com 19 anos, deu uma entrevista ao Sunday Express. Não querendo falar sobre o seu passado, avançou que está saudável, que é estudante de turismo e que trabalha num bar.  “Estou bem. Estou a trabalhar.”
Ainda que viva e trabalhe fora da zona de exclusão onde cresceu (está em Kyiv), a estudante — que frequenta numa instituição reputada — ainda consegue autorização para lá entrar, uma vez que a mãe, hoje com 66 anos, ainda vive lá.

A saúde e sucesso da jovem é encarado como um sinal, juntamente com o renascimento da vida animal e vegetal, hoje com mais alces, javalis, lobos, pássaros ou flores selvagens.
Os pais da jovem atualmente com 19 anos não sairam da zona de exclusão porque a União Soviética
não lhes atribuiu uma nova morada
“As pessoas daqui acreditam que Mariyka é um símbolo do renascimento de Chornobyl, um sinal de Deus que eles interpretam como uma bênção para viver aqui, de que a vida está a voltar para este lugar arruinado”.

domingo, junho 30, 2019

Os filhos dos filhos de Chornobyl que Portugal adotou (mas só durante o verão)

A história do programa português “Verão Azul” de apoio às crianças mais desfavorecidas da zona de Chornobyl — iniciativa 100% privada de responsabilidade social da seguradora Liberty Seguros, com apoio dos particulares, praticamente desconhecida pela sociedade.

por: Tânia Pereirinha, Observador.pt (versão curta)

Vivem a 50 km da antiga central nuclear e têm problemas de saúde por causa disso. Durante 5 semanas por ano, no verão, fogem da radioatividade e mudam-se para as casas dos pais portugueses.

Há 33 anos, quando o maior acidente nuclear alguma vez registado aconteceu, Tanya tinha 8 anos e Vasyl, o irmão mais velho, 10. Como todas as outras crianças de Musiiky, uma pequena aldeia junto a Ivankiv, hoje a cidade habitada mais próxima de Chornobyl, foram enfiados à pressa e sem grandes explicações num autocarro com destino ao Mar Negro. Era normal, todos os anos iam para o acampamento; em vez de ser no final das aulas, em 1986 ia ser antes, logo nos últimos dias de abril.

Como de costume, os pais ficaram para trás, a trabalhar, e as crianças seguiram viagem rumo a Odessa, na Crimeia. Ficaram por lá durante três meses, à guarda de monitores, sem dramas e com mergulhos, mais ou menos alheios à existência do reator destruído a apenas 50 quilómetros de casa e ao próprio estatuto de refugiados nucleares.

Quando regressaram, a cidade de Pripyat já era fantasma mas em Musiiky a vida continuava, como de costume. Ainda assim, nunca mais seria a mesma, conta agora ao Observador Anya Kot, 20 anos, a mais velha das duas filhas de Tanya [Tetiana] — hoje, aos 41, professora de Geografia, ainda a morar em Musiiky.
Anya Kot tinha 9 anos quando passou férias em Portugal pela primeira vez.
Ganhou uma nova família em Peniche | Observador.pt
Para escapar à radiação libertada pela explosão de um dos quatro reatores nucleares de Chornobyl, Tanya foi enviada para a Crimeia. Em 2008, 22 anos depois do desastre e um após enviuvar (o pai de Anya morreu num acidente de viação, tinha ela 8 anos e a irmã, Anastasiya, apenas 1), também ela meteu a filha, então com 9 anos, num autocarro pelo mesmo motivo — a radioatividade da central desativada desde dezembro de 2000 continua (e continuará) a contar vítimas durante pelo menos mais algumas décadas.

O destino é que foi diferente: primeiro aeroporto de Kyiv, depois Lisboa, a seguir Peniche, para a casa de Maria e Hernâni Leitão, a família de acolhimento que a recebeu.

Hoje, onze anos e outras tantas viagens para Portugal depois, Anya ostenta com orgulho a cidade piscatória da zona Oeste no perfil de Facebook: é natural de Peniche e vive em Peniche. Ou então não, mas está a trabalhar para isso: “Na Ucrânia é outra vida, há problemas de guerra, problemas de política, problemas de radiação. Aqui uma pessoa com 70 anos já viveu mais do que é normal. Estou a estudar Turismo, mas não há turismo na Ucrânia. Trabalho num banco e vejo que há pessoas que ganham 100 euros por mês e nem o gás conseguem pagar. Não quero ficar aqui e viver menos, quero juntar dinheiro para ir para Portugal. Vou ter uma vida mais feliz, com certeza”.

É num português quase irrepreensível que Anya Kot fala com o Observador, via Messenger, a partir da casa onde vive com o namorado em Brovary, nos subúrbios de Kyiv. Durante um ano, chegou a ter aulas uma vez por semana, com uma amiga de família, mas de resto tudo o que sabe aprendeu em Portugal, a um ritmo de cinco semanas de férias por ano, entre os 9 e os 16 anos, a idade limite para integrar o programa Verão Azul da Liberty Seguros.

De pioneira do programa de apoio às crianças mais desfavorecidas da zona de Chornobyl — fez parte do primeiro grupo de nove a viajar para o País — passou a monitora. “Este ano só vou uma semana por causa do trabalho. Chego no dia 14 de julho, volto a 21”.

De Ivankiv para Portugal

Terá sido em 2006 ou 2007, depois de um almoço com amigos espanhóis no entretanto falido Gemelli, que o CEO da Liberty resolveu seguir-lhes o exemplo e fazer alguma coisa pelas crianças vítimas da radioatividade na Ucrânia. “Não consegui dormir nessa noite, a minha cabeça tinha-se transformado num verdadeiro turbilhão de sentimentos desencontrados e conflituantes com o que me tinha sido contado ao almoço. Acordei rebentado e com umas olheiras gigantes de choro e falta de sono, mas com uma firme e inabalável decisão”, recordou José António Sousa em 2017 num livro sobre o programa de intervenção social da seguradora.

“A conversa com os meus amigos espanhóis foi a pedra basilar para a Liberty Seguros começar a contribuir para trazer a Portugal, no verão de cada ano, um grupo de crianças de uma cidade chamada Ivankiv, próxima de Chornobyl, permitindo-lhes assim passar um verão saudável, alimentando-se apropriadamente, vivendo no seio de famílias portuguesas [...]”, continuou a explicar o gestor, no mesmo texto.
O programa Verão Azul admite crianças entre os 6 e os 16 anos | Observador.pt
No início, as famílias de acolhimento eram apenas as dos funcionários da empresa; com o passar dos anos e a divulgação do projeto, qualquer residente em solo nacional passou a poder candidatar-se para receber uma (ou mais) crianças de Chernobyl em casa.

  • 1000 euros por criança é o valor médio gasto pela Liberty Seguros em viagens e seguros
  • Em 2019 serão 29 as crianças a viajar para Portugal
  • Os gastos com a estadia, alimentação e atividades de cada uma das crianças ficam a cargo das respetivas famílias de acolhimento
  • 36 foi o número máximo de crianças trazidas para Portugal num só ano
  • Podem candidatar-se crianças entre os 6 e os 16 anos. “Mas em Portugal não é habitual quererem receber crianças com menos de 8 ou 9 anos”, diz Paulo Guerra Pires
Como Anya foi das primeiras crianças a viajar de Ivankiv para Portugal, Paulo Guerra Pires foi também dos primeiros mas a fazer o percurso inverso. Gestor de sinistros da Liberty, faz parte do grupo restrito de funcionários encarregues de eleger, com a ajuda do Centro Social e Psicológico Doviria, criado na cidade menos de 10 anos depois do desastre, as crianças que seguem para as cinco semanas de férias em Portugal. “Todos podem candidatar-se, quando lá vou visito todas as casas, conheço os pais, e falo com os miúdos, para ver se têm o mínimo interesse em vir. Queremos que não venham apenas para comer e melhorar a saúde, mas também para aproveitarem qualquer coisa.”

[...]

Depois [...] só o advento das novas tecnologias e da internet veio, nos últimos anos, dar alguma contemporaneidade: “Eu e a minha família recebemos a Alina, durante seis anos, e a Karolina, por outros três. A Karolina, por exemplo, tem 10 irmãos e irmãs, que foi ela que ajudou a criar. É das mais velhas, tem 19 anos, e a mais nova tem uns 3 ou 4. A casa é pequena, têm um quarto para os pais, outro para os meninos e outro para as meninas, e cada um tem tarefas definidas: um trata dos coelhos, outro dos porcos, outro vai buscar água… São uma família pobre mas estruturada, têm eletricidade, um poço, o pai tem um empregozeco, salgam carne para o inverno, fazem compotas para aproveitar a fruta… A vida gira muito à volta disto, não há cinemas, uma vez por outra fazem um teatro, mas de resto não se passa nada. A grande revolução para estas pessoas foi a internet. Agora têm noção do que se passa no exterior mas há 11 anos, quando lá fui pela primeira vez, nem isso, só havia televisão”.

Das primeiras vezes que viajou para a zona de Ivankiv, conta o gestor de seguros, ainda teve medo das radiações e por várias vezes perguntou às pessoas por que motivo não tinham fugido dali depois do acidente nuclear. “Respondiam-me sempre a mesma coisa: «Tenho aqui a minha casa, que eu próprio construí, tenho amigos e família, o que vou fazer para outro lado qualquer da Ucrânia?!». Com a passagem do tempo, o perigo deixou de ser tão direto, pelo menos para quem, como eu, vai lá durante dois ou três dias e depois se vem embora. Agora, quando há um surto de gripe, as escolas fecham, porque as crianças não têm defesas e ficam todas doentes. Também há muitas alergias e a incidência de cancro da tiróide é muito alta. [...]
Os pais das crianças no momento da despedida, em Ivankiv, a 50 quilómetros de Chornobyl
| Observador.pt
Anya Kot recorda-se bem de, pelo menos nos primeiros anos em que viajou para Portugal, passar o início das férias de médico em médico, a fazer check-ups gerais. “Tinha alguns problemas de coração e de nariz — adenóides acho que se diz assim –, custava-me a respirar. Como não comia bem, tinha muitas dores de barriga. E também tinha problemas com os olhos, compraram-me uns óculos. É muito triste, muitas das pessoas que ficaram nesta terra morreram por causa da radiação, outras têm cancro e problemas de pele. O ar é tapado, faz muito mal. Comemos comida que está na terra com radiação, bebemos água com radiação, tomamos banho com radiação. Lembro-me, quando era pequena, de que quando chovia o chão ficava com umas coisinhas amarelas…”
A irmã de Anya, Nastya (Anastasiya), costuma ficar com uma família de Vila do Conde.
Há uns anos, visitaram o Buçaco juntas | Observador.pt
Um dos objetivos do programa Verão Azul é esse mesmo: interromper, através do ar, do sol, do mar e da alimentação, o ciclo de radioatividade a que estas crianças, filhas dos filhos de Chornobyl, estão sujeitas. Apesar de ser apenas durante algumas semanas, garante Paulo Guerra Pires, faz toda a diferença: “Os estudos dizem que o sol e a praia são bastante benéficos para eles. Um mês em Portugal permite-lhes baixar muito os níveis de radiação e recuperar um pouco. Ao mesmo tempo, aproveitam para comer melhor, viver melhor e ver um pouco o mundo, queremos abrir perspetivas de vida também. A maior parte destas crianças vive a 90 quilómetros de Kyiv e nunca lá foi”.

O regresso a Chornobyl

Os casos de Alina, que hoje tem 22 anos e está a fazer um mestrado em Kiev, na área do Direito Internacional; de Anya, de 20, que trabalha e estuda com o objetivo de se mudar para Portugal; e de Karolina, de 19, que está a tirar enfermagem, estão bem longe de ser a regra na zona de Ivankiv. Mas é exatamente por isso que têm meios e capacidade para conversar com o Observador sobre como é nascer e viver num dos sítios mais tétricos do mundo.

Via sms, com a ajuda de um tradutor online, Karolina Vasyanovytch explica que também os pais, ele condutor de tratores, ela doméstica, foram levados para a Crimeia três dias depois do acidente nuclear de 26 de abril de 1986. Uma vez regressados a Musiiky, não voltaram a sair.
A roda-gigante é o símbolo mais reconhecível da cidade-fantasma de Prypiat
 GettyImages | Observador.pt 
Nos últimos 23 anos, tiveram onze filhos: Petró, de 23, Maksym, de 22, Karolina, de 19, Yuri, de 18, Cristina, de 17, Veronica, de 16, Darya, de 14, Roman, de 13, Nastya, de 11, Sofia, de 10, e Mariana, de 4. Só Sofia já não vive na aldeia: “As pessoas já estão habituadas a isto e já não têm medo, mas há muitos problemas de saúde, doenças cardíacas, cancros de tiróide… A minha irmã Sofia teve problemas nas pernas, tinha muitas dores, fomos ao hospital e os médicos disseram-nos que não percebiam o que se passava, que estava tudo bem. Por causa disso, passou a morar em Espanha. Está lá já há um ano”, conta Karolina, que entre os 12 e os 17 anos passou os verões em Portugal, primeiro com Luís e Margarida Leite, em Espinho, mais tarde com Paulo Guerra Pires e Paula Mourão, em Paço de Arcos. “Passaram a ser da minha família e sinto muito a falta deles. Gosto muito de Portugal, das pessoas, da arquitetura, da comida e das estradas — são muito mais bonitas e largas do que na Ucrânia”, diz, num português traduzido automaticamente e nem sempre muito percetível.

Ao telefone, via Messenger, Anya Kot é mais eloquente. Recorda a birra que fez da primeira vez que a “mãe Maria” lhe pôs um prato de polvo cozido à frente — “Chorei tanto, tanto quando vi aquilo na mesa, não queria comer, nunca tinha visto polvo antes. Não gostei nada, queria vomitar! Agora adoro polvo, é tão bom!” –, e garante que a alimentação portuguesa não só sabe bem como faz bem à saúde — “Nos primeiros anos em que vim para Portugal e comi peixe de mar, batatas e outras frutas fiquei melhor”.

Apesar de não ter visto ainda a série da HBO que voltou a colocar Chornobyl na ordem do dia, a estudante de Turismo não é alheia à moda mais ou menos recente que incluiu a cidade abandonada de Pripyat e a velha central nuclear nos roteiros turísticos e até já obrigou o argumentista da série a pedir contenção nas selfies e afins. “Agora em Pripyat há um hotel e há sempre muita gente a chegar em autocarros. Para mim não é normal, isto não é uma zona para fazer excursões e passeios.”

Apesar disso, ela própria já visitou Chornobyl. [...] Já lá fui umas três vezes, a primeira vez quando tinha 12 anos, com a minha mãe, o meu padrasto e a minha mana, Nastya. Lembro-me de que havia muita polícia, abriram as portas do nosso carro, saímos e fomos revistados. Depois deram-nos um papel que tínhamos de devolver à saída.”

Nessa visita, recorda Anya, a primeira coisa que fizeram foi procurar a casa de uma tia, que em abril de 1986 deixou Pripyat apenas com a roupa que tinha vestida e os documentos de identificação para nunca mais voltar — hoje vive com a família na zona de Donetsk, a mais de 850 quilómetros de distância. “Havia muitas árvores, tudo era verde. Entrámos na casa da minha tia e estava tudo igual: havia água na garrafa, colheres em cima da mesa, a cama estava aberta e os jogos das crianças espalhados pelo chão. Pripyat era uma grande cidade, tinha tudo — até coisas que não existiam em Kyiv [Sic!]. Tinha hotéis [na verdade só 1], restaurantes [3], um grande rio, parques, escolas [5], universidade. Se não tivesse acontecido o que aconteceu, se calhar hoje era a capital da Ucrânia.”
Anya em Musiiky, com a mãe, Tanya, e a irmã, Anastasyia | Observador.pt
Numa altura em que turistas posam com máscaras de gás e compram canecas, ímanes e até preservativos que brilham no escuro, acredita Anya Kot, é necessária uma chamada à realidade: ali morreram pessoas. “Foi impressionante, os meus tios não trabalhavam em Chornobyl, mas todas as pessoas que trabalhavam e que morreram na altura fizeram tudo por nós, para que pudéssemos agora viver nesta zona. Todos os anos, no dia de Chornobyl, passam filmes e notícias na televisão. É um dia muito difícil, é uma história muito triste e emocional.”

Paulo Guerra Pires, que desde o divórcio deixou de acolher crianças mas continua empenhado no programa que durante cinco semanas por ano resgata crianças à radioatividade de Chornobyl, bate na mesma tecla: “Com a passagem do tempo, percebemos que alguns miúdos morreram. Lembro-me de perguntar à minha miúda e de ela me dizer que um amigo nunca mais tinha aparecido, que nunca mais tinha ido à escola. Nunca se sabe bem o que aconteceu, não fazem propaganda sobre o assunto, é um pouco tabu, mas Chornobyl continua a provocar vítimas”.

Blogueiro: um texto bastante interessante, pois quase toda a gente conhece o programa estatal cubano de recepção das crianças ucranianas e quase ninguém conheçe o propgrama privado português. Um certo senão é a personagem Anna Kot, que tem alguns problemas com a lógica e com a memória. A estudante de Turismo ora diz que “não há turismo na Ucrânia”, para logo à seguir confirmar que “Agora em Pripyat há um hotel e há sempre muita gente a chegar em autocarros”. Embora a frase mais risível é essa: “Pripyat era uma grande cidade, tinha tudo — até coisas que não existiam em Kyiv. Tinha hotéis, restaurantes, um grande rio, parques, escolas, universidade.” Na realidade em 1986 em Pripyat existiam apenas 3 restaurantes e 1 hotel (para a população local de 47.500 pessoas), naturalmente na cidade nunca existiu qualquer universidade (mas apenas 15 estabelecimentos pré-escolares para 4.980 crianças, 5 escolas completas para 6.786 crianças e 1 escola técnico-profissional para 600 alunos).

sábado, junho 29, 2019

O retrato triste mas fiel de um típico homem soviético

O visual do típico cidadão soviético das décadas de 1960-90 era simplesmente inconfundível. Principalmente nos homens: os fatos/ternos permanentemente amarrotados e mal feitos, dentes maus/ruins e ausência de um bom penteado.

Com apenas um reparo, na verdade, muitos cidadãos da URSS queriam ter uma outra vida melhor e após a queda da União Soviética começaram à viver de forma absolutamente diferente — se dedicar aos negócios, trabalhar para si mesmo, ganhar dinheiro, etc. Assim, o seu visual mudou radicalmente – eles começaram se vestir decentemente, arranjaram os dentes, seguiam as dietas e melhoraram a figura.
Ator britânico Jared Harris no papel do académico soviético Leonid Legasov
Na recente série sensacional “Chernobyl”, os atores britânicos e americanos conseguiram reencarnar, com a maior precisão possível, os cidadãos soviéticos. Os maquilhadores, figurinistas e produtores fizeram um trabalho incrível – reproduzindo os moradores da URSS de maneira absolutamente fidedigna.

1. Má figura e má pele

Os cidadãos soviéticos, em massa, não tinham nem o tempo, nem a motivação, nem as instalações para se dedicar ao desporto de forma a manter a sua saúde (alguns entusiastas claramente eram apenas a excepção da regra geral).
Uma cervejaria soviética sob o teto
Em segundo lugar (mas talvez é à razão principal), a má figura soviética era o fruto de uso, durante décadas, de alimentos de má qualidade – a boa carne ou frutos do mar eram um deficit terrível na URSS, a dieta soviética tinha pouquíssimos legumes frescos e um excesso de carboidratos: cereais, batatas e massas. Por isso, na idade de 35-40 anos, a figura de um homem soviético médio adquiria uma silhueta reconhecível – a barriga inchada, que se destacava ainda mais por causa de uma forte lordose lombar (por falta de exercícios físicos), e na parte superior do corpo havia ombros estreitos e braços magros.

Adicionando à isso a má aparência, a pele cor de cinza amarelado ou cinza “cor-da-terra” e má pele. Na URSS a maioria absoluta de homens e um número considerável de mulheres fumavam, naturalmente os cigarros soviéticos desagradáveis ​​com tabaco extremamente prejudicial, com uma grande percentagem de substâncias carcinógenos e alcatrão. Além disso, o tabaco soviético era cultivado e secado com a ajuda de agro-químicos, que ingeridos com o fumo também não aumentavam a saúde dos fumadores. Acrescente a isso o trabalho prejudicial à saúde e pesado nas fábricas soviéticas – e você entenderá por que as pessoas tinham toda essa aparência.

Dentes maus/ruins 
A venda da "boa carne" soviética em algum mercado kolkhoziano
Na URSS os alimentos e a situação ecológica geral eram bastante más/ruins, mas a odontologia era REALMENTE péssima. Por causa da má qualidade nutricional e da ecologia pobre, os cidadãos médios começavam à perder os dentes aos 35-40 anos, ou mesmo antes – e a ausência de odontologia de qualidade apenas reforçava este estado de coisas. URSS fabricava os mísseis e foguetes, mas não conseguia fabricar uma prótese dental ou uma pasta dentífrica em condições.
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Até a década de 1990, a URSS produzia e comercializava o “pó dentífrico” – um abrasivo que gastava os dentes quase até a raiz, razão pela qual os dentes mais ou menos saudáveis ​​se transformaram numa espécie de presas cinzentas. Mesmo as estrelas de cinema soviético – cuja aparência era o seu ganha-pão – raramente tinham bons dentes, e quase em todos os filmes soviéticos o povo sorria ao estilo “cú de frango”, timidamente escondendo os dentes estragados.
Ao mesmo tempo, a propaganda soviética ridicularizava, por todos os meios, o modo de vida e os sorrisos saudáveis dos americanos – “eles estão sorrindo com todos os dentes, provavelmente não são pessoas, mas robôs!” (o conto soviético Secretário Capaz de 1959).

Má roupa, mau calçado e maus acessórios

As roupas soviéticas comuns eram uma merda, pareciam uma merda e eram feitas dos materiais mais ruins e baratos. Os fatos/ternos masculinos eram castanhos/marrom-acinzentados e pareciam algum tipo de roupa de trabalho, os fatos/ternos femininos também não eram melhores. Tudo era feito de tecidos pesados ​​de lã com a adição de materiais sintéticos – eram simplesmente insuportáveis.
A compra de leite ou de kvas ao céu aberto
As mulheres tentavam costurar algo, usando tecidos mais ou menos decentes, partilhando e trocando os padrões de costura que valiam seu peso em ouro. Um bom paletó só podia ser encomendado no ateliê e custava desde 150 rublos (desde 2 salários mínimos ou um médio, desde 254 dólares ao câmbio oficial). Roupas bonitas começaram a aparecer apenas no fim da década de 1980 – quase no fim da URSS.

O calçado soviético deixava entrar água, era feio e custava caro – as botas femininas minimamente atraentes custavam desde 80 rublos. O sonho do homem soviético era “conseguir” sapatilhas/tênis checoslovacos “Botas” ou sapatos Salamander produzidos na RDA. A URSS era simplesmente era incapaz de produzir o calçado decente.

Mas o verdadeiro horror eram os acessórios. Basta recordar os horríveis óculos soviéticos “à Chikatilo”, pesados, eles pressionavam fortemente o nariz e cobriam metade do rosto – transformando até mesmo um homem bonito numa aberração com dois “televisores” na face.

Desarrumação geral

Além disso, existia nos cidadãos uma certa desarrumação geral – no “país dos sovietes”, ter uma boa aparência considerava-se um “mau tom”, uma espécie de desafio público ao Estado dos operários e camponeses, o cidadão soviético médio procurava se parecer bastante cinzento – para não ser considerado um stilyaga.
Uma cervejaria soviética ao céu aberto
No cinema soviético, até a época da Perestroika, uma personagem de boa aparência e de boas maneiras sempre era um herói negativo – e/snobe, arrogante, tentando de todas as maneiras romper com o “coletivo” e fugir ao seu honroso dever de construir o comunismo. Ainda na década de 1970-80 as patrulhas da juventude comunista Komsomol, podiam cortar, à força, os cabelos “demasiadamente cumpridos” dos rapazes ou rasgar/estragar as suas roupas se as considerar “indecentes”. 
Stilyagi na URSS, última foto é de 1984
As meninas podiam ser e eram fortemente criticadas nas reuniões do Komsomol pela sua “aparência imprópria burguesa” [as roupas elegantes e bonitas, corte de cabelo “demasiadamente ocidental”, unhas bem cuidadas e pintadas]. Ao contrário, os tipos bêbados e desleixados eram considerados algo como “proletários” e da “classe trabalhadora”.

O país da legítima infelicidade. Em jeito de epílogo.

Ao tudo o que foi descrito acima, é necessário acrescentar a humildade e opressão geral – o cidadão soviético médio sempre teve medo dos chefes e diretores, tentava, de todas as maneiras possíveis e imaginárias, ser indistinguível da multidão. O fato/terno amassado e mal ajustado acinzentado, uma camisa ligeiramente amarfanhada e amarelada, devido às numerosas lavagens, um cinto de cabedal/couro gasto, o relógio com uma pulseira oxidada, óculos de aro de tartaruga, sapatos gastos e empoeirados.

Essa aparência de cidadãos soviéticos foi ditada, em primeiro lugar, pelo baixo padrão de vida real na URSS e, em segundo lugar, pela memória genética das repressões estalinistas – quando Estado matou todos os melhores e mais brilhantes. Não se destaque, seja mais cinzento possível, tente ser invisível aos olhos das autoridades, não expresse a sua opinião, não sorria, tente parecer infeliz – e então o Estado não te tocará...

Fotos: arquivo | Texto: Maxim Mirovich e [Ucrânia em África]