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quarta-feira, janeiro 02, 2019

Vídeo promocional das forças especiais da polícia israelita

A polícia israelita divulgou o vídeo promocional que mostra a atuação das suas forças especiais na libertação dos reféns, vítimas dos terroristas. Tudo absolutamente normal, menos uma pequena mera coincidência...


Bónus
Ler mais: A URSS e o terrorismo internacional
Wadie Haddad (1927 – 1978) era um dos líderes mais esquerdistas das organizações palestinianas, o comandante da ala militar do Frente Popular de Libertação de Palestina (FPLP). De acordo com Arquivo Mitrokhin, desde 1968 Haddad era agente do KGB, alcunha “Nacionalista”, recebendo da União Soviética as armas, explosivos e financiamento. O que coincide com os anos da sua maior atividade terrorista ao nível internacional. Entre 1968 à 1976 Haddad foi responsável pelo sequestro dos 6 aviões civis e pelo massacre dos passageiros no Aeroporto de Lod em Tel Aviv.

segunda-feira, abril 09, 2018

Arquivo Mitrokhin: a rede do KGB em Portugal

O jornal português “Expresso” se dedicou ao estudo do Arquivo Mitrokhin guardado na Universidade de Cambridge. Se trata de maior coleção de materiais sobre as atividades dos serviços secretos soviéticos, que só recentemente se tornaram disponíveis ao público geral. A publicação de hoje é sobre os segredos da KGB em Lisboa e as suas ligações com Portugal.

por: Paulo Anunciação, Expresso (link apenas para os assinantes), a versão curta

A residentura do KGB em Portugal

Os documentos do arquivo, guardados no The Churchill Archives Centre – possuem diversos materiais dedicados ao Portugal, no período entre 1974 à 1982: pelo menos 172 menções do país.

Em 1980 a residentura do KGB em Portugal era encabeçada pelo Youri A. Semenitchev (Yuriy Semenychev), oficialmente o 1º secretário da embaixada e contava com 14 operativos: 6 pertenciam à linha “PR” («inteligência estratégica política, económica e militar, medidas ativas»), 2 — à linha «KR» (contra inteligência e segurança») e mais 2 — à linha «N» («apoio dos ilegais»). Além disso, a residentura possuía um operador de rádio, um agente de codificação, um agente da linha «H» («inteligência científica e técnica») e mais um — à linha «RP» («inteligência radioeletrónica»).

Todos os agentes do KGB em Portugal trabalhavam sob cobertura legal, ocupando os diversos postos na embaixada ou no serviço consular da missão soviética em Lisboa. Em 1980 o agente da linha «H» em Portugal era Boris F. Kesarev — oficialmente o chefe da representação comercial soviética. Anteriormente ele mostrou o seu serviço em Paris (em dezembro de 1974 foi condecorado pela Ordem da Bandeira Vermelha, a condecoração assinada pessoalmente pelo chefe do KGB, Yuriy Andropov). Outros agentes usavam outras disfarças: Victor P. Nesterov, oficial do KGB da linha “PR” usava a cobertura do correspondente do jornal «Izvestia», o mesmo acontecia com outros “jornalistas” soviéticos das agências TASS e APN. O arquivo Mitrokhin menciona os agentes L. K. Agapov (correspondente do «Izvestia» em Lisboa entre 1975 e 1978) e Viktor Gundarev, delegado em Portugal da Associação do Transporte do Mar Negro (em 1986, Gundarev, na altura o vice-chefe da residentura do KGB em Grécia, a sua companheira, diretora da escola soviética em Atenas e filho de 7 ou 8 anos fugiram para os EUA, com ajuda da CIA).
Oficial do KGB Victor P. Nesterov,
ainda estudante-finalista da Universidade Estatal de Moscovo, 1972
A residentura do KGB começou funcionar em Lisboa em agosto de 1974, a embaixada soviética, situada temporariamente no hotel “Tivoli”, se abriu no fim de julho do mesmo ano. O primeiro embaixador soviético em Portugal, Arnold Kalinin aterrou em Lisboa em 7 de agosto. Anteriormente ele trabalhou na embaixada soviética em Cuba, falava espanhol e português (mais tarde foi transferido para Angola), encabeçando a embaixada que no verão de 1974 contava com mais de 210 funcionários soviéticos, incluindo 15 diplomatas de carreira (muitos deles agentes do KGB).

No primeiro ano do funcionamento as comunicações com o «centro» (a sede do KGB em Moscovo) eram organizadas via Paris. No decorrer da Guerra Fria em Paris estava o maior número dos agentes soviéticos — pelo menos 50 — mais do que em qualquer outra cidade da Europa Ocidental. Em 1977 o volume de relatórios criptografados de Lisboa era tão grande – foram enviados 5.837 criptogramas de 938.906 grupos que a estação pediu ajuda: “A carga é incrível, precisamos de uma nova máquina de criptografia”, lemos em uma das notas do Mitrokhin de 1978.

A residentura também teve outras reclamações: “Portugal é um país periférico que está isolado há muito tempo e, portanto, aqui não é possível trabalhar em muitas questões internacionais significativas”, diz uma das anotações. A residentura reclama do facto de que “muitos golpes e contra-golpes (28 de setembro de 1974, 11 de março de 1975, 25 de novembro de 1975) destruíram vários contatos e conexões com os portugueses, o que os obriga a estabelecer novos contatos”.

De acordo com o registo de 1978, a embaixada soviética em Lisboa reparou e equipou três novas salas – duas delas para a residentura do KGB. As contas de 1979, copiados por Mitrokhin, indicam uma falta grave de fundos na administração da residentura da capital portuguesa – 9.400 rublos. “As despesas de acordo com o Artigo 1 UA (agentes) totalizaram 10.400 rublos, enquanto as despesas de acordo com o Artigo 1 UD (despesas operacionais) totalizaram 18.000. O montante total de 28.400 rublos (conversível em moeda estrangeira) excede o planeamento financeiro em 9.400 rublos (conversível em moeda estrangeira)”

Nome de código: «Patrick»

Durante décadas o Partido Comunista Português (PCP) negava, de forma categórica, qualquer tipo de cooperação com os serviços secretos soviéticos. Na entrevista publicada no jornal oficial do PCP, Avante!, em 13 de Outubro de 1994, o líder comunista Álvaro Cunhal assegurou que PCP pediu repetidamente ao partido comunista soviético e aos outros países socialistas “que dêem instruções específicas para que os respetivos serviços secretos se abstenham de tentar encontrar informação ou recrutamento entre membros do nosso partido”.

Os arquivos da KGB, copiados por Vasily Mitrokhin, mostram um quadro completamente diferente. O PCP não só permitia, mas também estimulava e encorajava o recrutamento de membros e apoiantes do partido pelo KGB. Os documentos mostram que muitos dos agentes portugueses do KGB foram recrutados sob a direção ou recomendação do PCP.

Em dezembro de 1974, o chefe da residentura do KGB em Lisboa (“Leonid”) reuniu-se com o líder do PCP, Álvaro Cunhal, num dos apartamentos secretos do partido. “Questões específicas foram discutidas. A conversa ocorreu não com palavras, mas com a ajuda de papel e lápis, por medo de escutas telefónicas”. De acordo com esse registo, Cunhal declarou a sua prontidão para “cooperar em qualquer assunto de interesse do KGB”. Foi decidido que a KGB treinaria dois membros do partido para detectar dispositivos de escutas (Cunhal prometeu selecionar “dois camaradas de confiança”). O líder português também anunciou que entregaria ao KGB “os materiais da PIDE e da NATO/OTAN à disposição do partido”.
A propaganda do PCP de 1976
Outro nome que mais constantemente é encontrado nos registos relativos ao Portugal é “Patrick”, o nome do código claramente indicado ao Octávio Pato, um dos membros principais do Comité Central do PCP, deputado e candidato nas eleições presidenciais de 1976. Os seus encontros a residentura do KGB em Lisboa eram de natureza regular (“uma ou duas vezes por mês”). Numa dessas reuniões, “Patrick” entregou “informações militares secretas sobre os americanos, obtidas por meio de um agente do PCP”, está escrito num dos documentos. Ao KGB também eram fornecidas as informações sobre o partido, sobre questões políticas nacionais e sobre a NATO/OTAN. Mitrokhin também informa que em 1980 a Primeira Direção do KGB em Moscovo estava discutindo a possibilidade de fornecer aos comunistas portugueses “meios técnicos especiais” com a finalidade de instalá-los em “objetos de interesse” em Portugal.

Em julho de 1977, durante uma visita do Octávio Pato ao Moscovo, a Primeira Direção do KGB lhe pediu para ajudar na seleção de candidatos portugueses que serão submetidos a treino específico para realizar as operações especiais contra a NATO. “Patrick”, disse que não tinha objeção para indicar os membros do partido para determinada missão secreta periódica “nos interesses da URSS”, mas expressou preocupação sobre a potencial perda de “bons comunistas confiáveis” para o trabalho de inteligência de longo prazo. Pato prometeu discutir essa questão com Cunhal.

De acordo com os documentos do arquivo Mitrokhin, mais tarde “Patrick” apresentou à residentura do KGB em Lisboa os nomes de cinco potenciais candidatos – cinco comunistas portugueses “que não ocupavam as posições de responsabilidade no partido” – e entregou os passaportes portugueses limpos e outros documentos [de identificação] que poderiam ser necessários para a criação de novas identidades dos candidatos.

No início de 2016 e para colher a posição do partido, o jornal Expresso contactou o serviço de imprensa do PCP, que seguindo as deixas do Cunhal declarou que: «nega veementemente velhas falsificações, difamações e provocações anti-comunistas».
Ver o documento original em formato PDF
[No entanto, os dados do arquivo Mitrokhin são corroborados, de forma absolutamente independente pelo arquivo Bukovsky. Nomeadamente, em abril de 1980, o camarada Octávio Pato, pediu o CC do PCUS financiar a compra dos “equipamentos especiais do fabrico estrangeiro para garantir a segurança do partido”. Em 13 de maio do mesmo ano, o CC do PCUS concordou (documento número CT210/62) e incumbiu o Ministério das Finanças da URSS alocar à Direção dos serviços do CC do PCUS as divisas no valor 2.500 rublos expressos em divisas (equivalente aos 3.000 USD). O CC do PCUS também deu a ordem ao KGB para comprar e fornecer os equipamentos aos “amigos portugueses”. A questão foi coordenada com o chefe do KGB, Yuri Andropov e os gastos forma cobertos pelo orçamento do PCUS [ver o documento em formato PDF]].

Aproximação ao Mário Soares

Arquivo Mitrokhin possui três menções do Mário Soares, que no período de 1972 e 1977 era alvo da tentativa de aproximação por parte do KGB. Para o efeito, Portugal foi repetidamente visitado pelo agente do KGB V(ladimir?) I. Koblikov, sob o disfarce de visitas oficiais da União das Sociedades soviéticas para Amizade e laços culturais com países estrangeiros. Os objetivos reais do Koblikov, no entanto, eram “estabelecer contactos e relação de confiança com os partidos socialista e comunista”. Cunhal estava ciente da missão para se aproximar de Soares, cujo nome de código era “Merkuriy” (Mercúrio); é de notar que KGB atribuía os nomes de código não apenas aos seus agentes e funcionários, mas também às pessoas que eram alvos de suas operações clandestinas. “Koblikov recebeu informações de “Mercuriy” e a carta ao Brejnev. No entanto, as metas previstas não foram cumpridas”, – menciona um dos registos.

Uma nota de 1977 observa que Soares, então primeiro-ministro do governo constitucional, estava na lista de contatos de um dos agentes da KGB em Lisboa, nome de código “Yaroslav”. “Graças à ajuda das pessoas de confiança da residentura [do KGB em Lisboa] e graças aos esforços de bastidores de Mário Soares, a residentura conseguiu fechar os semanários reacionários “Telex” [dirigido pelo Sammy Santos] e “A Rua” [dirigido pelo Manuel Maria Múrias], que publicavam regularmente materiais anti-soviéticas”. Também se diz que, graças à influência do mesmo Soares sobre os líderes do partido e sobre os círculos militares e políticos portugueses, foi adiada por um período longo, reprogramada para 1978, a conferência europeia contra a ameaça soviética.

O último registo de arquivo Mitrokhin sobre Mário Soares não está datado, mas supõe-se que se refira ao início dos anos 1980, quando André Gonçalves Pereira atuou como ministro dos Negócios Estrangeiros / Relações Exteriores dos VII e VIII governos constitucionais (1981-82). “Patrick [Octávio Pato] do PCP informou-nos que o partido possui os dados comprometedores das ligações entre M. Soares e A. Gonçalves Pereira com a CIA e os americanos, embora não haja provas visíveis, fotos ou contas bancárias. Este material pode ser usado em um outro país”, dizia a nota.

«Agulhas» do PCP

Em 1991, após a apreensão de arquivos do PCUS pelo governo russo de Boris Yeltsin, foi publicada uma série de documentos para identificar os números exatos desembolsados pela URSS aos “partidos irmãos” no Ocidente. Considera-se que na década de 1980 – um momento em que a URSS estava sofrendo uma tremenda escassez de moeda estrangeira – PCUS distribuiu mais de 200 milhões de dólares entre os «partidos irmãos» fora do bloco soviético. No seu livro “Cunhal, Brezhnev e 25 de Abril” (2013), o jornalista e historiador português José Milhazes relata que naquele período PCP recebia entre 700.000 dólares (em 1981) até um milhão de dólares (em 1987-1989) em subsídios soviéticos.
Ler mais | imagem @darussia 
Tal como no caso dos outros partidos, a atribuição de recursos financeiros de Moscovo ao PCP era decidido pelo Comité Central do PCUS, e as transferências estavam ao cargo do KGB. Na correspondência entre o “centro” e a residentura de Lisboa, esse dinheiro sempre era chamado de “agulhas”. No Canada, por exemplo, subsídios ao Partido Comunista Canadense receberam o nome de código de “trigo americano”.

Nos registos de Mitrokhin de 1977 sobre o encontro de agentes soviéticos com “Patrick” – o contacto preferencial da residentura do KGB em Lisboa entre a elite comunista – é relatado que, além de a troca de informação política, se falou sobre “a questão dos preparativos especiais necessários para a transmissão de "agulhas"”.

Documentos raramente se referem aos valores específicos. Em um dos registos é relatado que representantes do jornal soviético «Pravda» participaram em setembro de 1978 no festival Avante! e «entregaram 576.000 escudos portugueses» – que aos preços de 2015 corresponderiam aos 43.000 Euros (de acordo com a atualização dos valores com base no índice de preços ao consumidor).

continua

sexta-feira, março 30, 2018

«Watergate vermelho»: quando Portugal expulsava agentes do GRU e do KGB

Diário de Lisboa de 21 de Agosto de 1980 (@ Fundação Mário Soares)
Em 20 de Agosto de 1980, invocando a Convenção de Viena, o governo centrista português do Primeiro-ministro Sá Carneiro expulsa, por «intromissão nos assuntos internos portugueses» quatro agentes soviéticos, afetos à embaixada soviética em Lisboa: um do GRU e três do KGB. Era o culminar do processo de «Watergate vermelho».
Os detalhes deste episódio estão contados no 13.º capítulo da biografia Sá Carneiro
(ed. Esfera dos Livros). Leia os excertos mais relevantes
Eram o capitão-de-fragata Vladimir V. Koniaev (nos arquivos americanos é referido como Vladimir Konyayev), formalmente adjunto do adido naval da embaixada mas na verdade espião do GRU; e Albert A. Matveev (Albert Matveyev), ministro-conselheiro e número dois da embaixada, em Portugal desde 1974; Alexandre S. Koulaguine (Aleksandr Kulagin), terceiro-secretário e Youri A. Semenitchev (Yuriy Semenychev), conselheiro da embaixada, todos pertencentes à residentura do KGB em Lisboa, sendo este último o seu principal responsável.
A lista parcial dos espiões soviéticos expulsos dos diversos países entre 1970-1984
O primeiro-ministro português Sá Carneiro agiu assim, após, através do seu amigo e assessor militar, Carlos Azeredo, receber uma cassete gravada, de forma clandestina, durante uma sessão organizada no Teatro São Luiz em Lisboa pela Associação de Amizade entre Portugal e a URSS – na fita, ouvia-se o embaixador soviético Arnold Kalinin (1929-2011) a discursar e a criticar duramente a política externa da Aliança Democrática. Sá Carneiro também recebeu uma lista com cerca de dez nomes de espiões soviéticos a actuar em Portugal a partir da missão diplomática soviética – um era do GRU, o serviço de informações militares, e os restantes do KGB.
As denúncias de espionagem económica do PCP ao favor da URSS
Entre as actividades ilícitas graves daqueles espiões contavam-se: o envolvimento em acções de agitação e propaganda nos distritos de Évora e de Beja, tentativas de boicotar a Reforma Agrária; intermediação no financiamento clandestino soviético ao Partido Comunista Português (PCP) e aos sindicatos da CGTP, da linha comunista; e gestão de um sistema de escutas telefónicas a embaixadas ocidentais.
Os oficiais russos expulsos em todo o mundo até o dia 29/03/2018 (sem contar com Eslovénia).
Portugal decide que não apoiará os seus aliados da NATO e da EU...
Os diplomatas tinham cinco dias úteis para fazerem as malas e abandonarem Lisboa. A 26 de agosto de 1980, antes do fim do prazo, foram levados pelo embaixador soviético ao aeroporto da Portela e embarcaram num voo da Aeroflot. Era o fim do processo a que Sá Carneiro chamou «Watergate vermelho».

terça-feira, outubro 13, 2015

A URSS e o terrorismo internacional

Hoje em dia, quando o terrorismo internacional está em ofensiva contra a civilização, é interessante conhecer os mecanismos que os governos socialistas usavam no passado para criar as sinergias na luta de classe contra o “capitalismo opressor”.

Wadie Haddad (1927 – 1978) era um dos líderes mais esquerdistas das organizações palestinianas, o comandante da ala militar do Frente Popular de Libertação de Palestina (FPLP). De acordo com arquivo Mitrokhin, desde 1968 Haddad era agente do KGB, alcunha “Nacionalista”, recebendo da União Soviética as armas, explosivos e financiamento. O que coincide com os anos da sua maior atividade terrorista ao nível internacional. Entre 1968 e 1976 Haddad foi responsável pelo sequestro dos 6 aviões civis e pelo massacre dos passageiros no Aeroporto de Lod em Tel Aviv.

Em 23 de Outubro de 1974, o chefe do KGB, Yuri Andropov, informa o chefe do Comité Central do PCUS e líder da URSS, Leonid Brejnev, sobre os contactos, desde 1968 com o membro do Bureau Político da FPLP, chefe do departamento das operações externas, Wadie Haddad.

Num encontro com residente do KGB no Líbano, à decorrer em abril de 1974, Haddad explicou a perspetiva do programa da sua organização, que pode ser sintetizada de seguinte maneira:
- O aumento da eficiência da luta contra Israel, sionismo e imperialismo americano;
- ações contra pessoal americano e israelita nos (territórios) dos terceiros países;
- ações de sabotagem e terrorismo no território de Israel;
- organização de ações de sabotagem contra o cartel diamantífero;
FPLP se preparava para atacar os grandes depósitos de petróleo nos diversos países do globo (Arábia Saudita, Golfo Pérsico, Hong-Kong, etc); destruição dos navios petroleiros e superpetroleiros; ações contra os representantes americanos e israelitas no Irão, Grécia, Etiópia, Quénia, ataque contra o centro diamantífero em Tel Aviv.

Para conseguir os seus objetivos, Haddad pediu a URSS lhe conceder “alguns tipos de meios técnicos especiais, necessários para condução de algumas operações de sabotagem”. Andropov assegura o Brejnev que “tipo de relações com Haddad permite ao (KGB / URSS), em certo grau, controlar as ações do departamento das operações externas da FPLP, exercer a influência favorável à União Soviética e também, efetuar, nos interesses do (KGB / URSS), as operações ativas, usando as forças da FPLP e seguindo a conspiração necessária”. No fim da carta, Andropov diz que “acha conveniente tratar o pedido do Haddad de forma positiva na questão de concessão dos meios especiais pedidos” (Andropov ao Brejnev, 23/10/1974, http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75a.pdf).

Com a permissão do CC do PCUS № 147/42 de 14 de agosto de 1974, em setembro de 1975, Wadie Haddad visitou Moscovo ilegalmente (não oficialmente).

Em resultado da pressão política da URSS, Haddad “chegou à conclusão sobre a necessidade de levar o grosso modo das suas operações dos países terceiros ao território de Israel e os territórios palestinianos”, prometendo aos dirigentes soviéticos de se “abster da condução das ações terroristas não inteligentes e irracionais”. Por sua vez, Haddad pediu à URSS “lhe conceder ajuda na obtenção de alguns tipos de meios técnico-militares e a sua fabricação dos componentes estrangeiros” (não soviéticos). O KGB propõe ao CC do PCUS à satisfez parcialmente o pedido do Haddad, concedendo lhe ilegalmente os meios técnico-militares soviéticos e também “alguns tipos de armamentos e meios especiais, fabricados (pelo KGB / URSS) à partir dos componentes estrangeiros”. (Andropov ao CC do PCUS, 10/01/1975, http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75c.pdf).

Na sequência da cooperação proveitosa entre o terrorista internacional e as altas lideranças da URSS, em agosto de 1974, Aleksey Kossygin. o chefe do Conselho dos Ministros da URSS, ordenou ao Banco Estatal de URSS a entrega ao KGB de 37.625 rublos em forma de divisas estrangeiras (cerca de 22.198 USD ao câmbio oficial soviético da época), para a condução das operações especiais, valor coberto pelo fundo de reserva do Conselho dos Ministros da URSS (http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75b.pdf).

Em maio de 1975, o KGB da URSS, de acordo com a decisão do CC do PCUS, entregou ao Haddad armamento e munições de fabrico estrangeiro (não soviético): 53 espingardas de assalto; 50 pistolas; entre as quais 10 com silenciadores e 34.000 munições A entrega decorreu na baia de Aden, no período noturno, de forma conspirativa e sem o contato direto, com auxílio do navio da armada soviética. Dentro do FPLP apenas Haddad sabia que o armamento foi dornecido pela URSS (a carta do chefe do KGB Andropov ao chefe do CC do PCUS, Leinid Brejnev, de 16 de maio de 1975, http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75d.pdf).

Haddad morreu em 1978, na RDA, supostamente de leucemia. De acordo com o livro “Striking Back”, publicado pelo jornalista Aaron J. Klein in 2006, Haddad foi eliminado pelo Mossad, que lhe enviou o chocolate belga tratado com um veneno indetectável de ação lenta.

sábado, janeiro 10, 2015

Xadrez, KGB e reféns soviéticos

O xadrez, tal como balé e cosmos, era uma das poucas áreas onde a União Soviética realmente estava melhor do que o mundo ocidental. Para manter a status quo, o jogo merecia uma atenção especial, quer do Bureau Político do PCUS, quer do seu braço armado, o KGB...

No verão – outono de 1978, nas Filipinas, decorria o jogo de apuramento do campeão de mundo de xadrez entre o campeão da URSS Anatoly Karpov e o vencedor do torneio dos pretendentes, Viktor Korchnoi, que em 1976 se tornou “o não retornado” à URSS.

Os funcionários soviéticos organizavam uma espécie de espectáculo paralelo para desmoralizar Korchnoi, criando os escândalos, recorrendo aos “psicólogos”, Karpov se recusou à apertar a mão do Korchnoi, entre outras coisas.

Mas o principal “trunfo” soviético eram os reféns: a família do Korchnoi à quem não foi permitida à saída da URSS. O seu filho, Igor Kortchnoi, foi expulso da universidade por causa da “traição” do pai, como consequência, o jovem foi imediatamente chamado à servir no exército soviético. Durante algum tempo ele estive em fuga na clandestinidade, mas quando se apresentou voluntariamente no comissariado militar, foi detido e acabou por ser sentenciado à 2,5 anos de prisão efetiva pela “recusa de cumprir o SMO”.

O método de coerção usado pelo KGB era muito simples. Cada vez quando Korchnoi ganhava uma partida (aconteceu 4 vezes), o seu filho era colocado no campo de concentração no isolamento solitário e o pai “traidor” era informado sobre a situação do filho-refém. Korchnoi, obviamente, ficava desesperado com o destino do Igor, teoricamente e efetivamente, isso diminuía a sua concentração, o que, por sua vez, deveria facilitar a vitória “limpa” do campeão soviético.

Apenas 6 anos mais tarde a família do Korchnoi consegui se livrar do “paraíso socialista”. A decisão de permitir a sua saída foi tomada diretamente pelo Secretariado do Comité Central do PCUS, com a participação especial do chefe do KGB, Yuri Andropov (Fonte).

Dado que alguns trolls pró-soviéticos tentam desmentir estes factos, o próprio Igor Kortchnoi, estabelece a cronologia dos acontecimentos:
  
1978: foi chamado para servir no exército, exactamente nas vésperas da partida em Baguio;
1979: foi condenado à prisão nas vésperas do sorteio do ciclo dos pretendentes;
1980: foi enviado ao campo de concentração de Sverdlovsk nas vésperas da partida dos quartos do final com Tigran Petrosian;
1980: no campo de concentração recebeu uma série de reprimendas antes do semifinal com Lev Polugaevsky;
1981: no campo de concentração foi encarcerado no isolamento punitivo, exatamente antes da partida do Merano.

Bónus
Leiam sobre e assistam o filme Pawn Sacrifice que narra a história do chamado “Jogo do Século”, disputa de xadrez entre o americano Bobby Fisher (ator Tobey Maguaire) e soviético Boris Spassky (Liev Schreiber).

Ler em português:

Quer ajudar derrotar o huylo?
SOS Exército; Feather Phoenix; Tetiana Rychkova, Angry iDar

sexta-feira, junho 29, 2012

O KGB da Ucrânia em 1970


O KGB da Ucrânia Soviética (UKGB), era um dos braços mais ativos do KGB soviético. Segunda república mais populosa da URSS, Ucrânia possuía fronteiras terrestres e marítimas com alguns países estrangeiros, as aspirações independentistas não foram totalmente extintas e a considerável minoria judaica era vista pelas autoridades como “alvo potencial do inimigo sionista”. O arquivo Mitrokhin permite saber até que ponto UKGB penetrava na sociedade e controlava todos os aspetos da vida quotidiana dos cidadãos da Ucrânia.

Em fevereiro de 1971 em Kyiv se reuniu a chefia do UKGB para discutir os resultados do trabalho dos ckekistas ucranianos no ano anterior, o chefe do KGB republicano, Vitaly Fedorchuk*, apresentou o resumo das suas atividades.


Em Kyiv, Kharkiv e Odessa foram descobertas os grupos judaicos clandestinos de inspiração sionista, que procuravam ajudar as pessoas a emigrar para Israel.


Entre 40.000 ucranianos que visitaram os países estrangeiros, 33 cidadãos da Ucrânia soviética tiveram os contatos com os estrangeiros (quaisquer contatos informais entres os cidadãos da URSS e os estrangeiros eram fortemente “desaconselhados” pelo KGB).


A tripulação do navio cargueiro “Bashkiria”, incluindo os agentes (informadores à tempo integral) do KGB e os seus “contatos de confiança” se dedicavam ao contrabando, como castigo pela “deslealdade” KGB deteve algumas pessoas, dissolveu a tripulação, privando-a de permissão para navegar no estrangeiro (enquanto os cidadãos ocidentais colaboravam com KGB por dinheiro, vingança, afinidade ideológica com comunismo, os cidadãos da URSS muitas vezes encaravam KGB apenas como uma alavanca prática para prosseguir na carreira ou visitar os países estrangeiros).   


UKGB controlava 800 empresas, institutos, ministérios e departamentos, os sistemas de transporte ferroviário, rodoviário e aéreo, nenhum agente secreto estrangeiro foi descoberto naquele ano. Em contrapartida, em 1970, UKGB descobriu na Ucrânia 153 grupos “ideologicamente perigosos”, que contavam com 637 membros e 13 grupos nacionalistas com 60 membros. Entre eles, 313 pessoas foram perseguidos judicialmente, cerca de 3.000 se ficaram pelas “conversas profiláticas”. UKGB detetou 12 linhas de contato da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) com Ucrânia, na cidade de Mykolaiv foi descoberta a unidade clandestina que “tentava” divulgar os panfletos da OUN. Chekistas notavam a disseminação do nacionalismo no Leste da Ucrânia, nas províncias de Dnipropetrovsk, Odessa, Mykolaiv, Khmelnitsky, cidade de Kyiv.

O Serviço operativo e técnico do UKGB confiscou mais de 20.000 documentos considerados “ideologicamente perigosos” (violando o segredo da correspondência privada dos cidadãos sem nenhuma permissão do judiciário). Apenas duas cartas (na Crimeia e Lviv) continham “indícios da correspondência clandestina dos agentes”.


O 2° Serviço efetuou mais de 8.500 ações de escutas (também ilegais) nos hotéis, apartamentos, etc. UGKB tinha em andamento 163 casos judiciais contra 183 cidadãos, efetuou 6 julgamentos públicos, mas lamentava conseguir condenar judicialmente apenas cerca de 34% dos detidos. Cada funcionário do UKGB em média trabalhava com 7 – 9 agentes, considerando ter poucos informadores entre “sionistas, nacionalistas, intelectuais, instituições superiores do ensino”. Na cidade de Kharkiv o 5° serviço possuía 14 residenturas (núcleos permanentes que juntavam os agentes do KGB e os seus informadores), reforçados com mais de 80 agentes.


Em 1970 UKGB recrutou 4 cidadãos estrangeiros, em 1969 – três (provavelmente ucranianos étnicos, eles eram mais vulneráveis à chantagem por causa dos laços familiares na Ucrânia).


Os 133 especialistas ucranianos da cidade de Zaporizhia foram designados para trabalharem na construção de uma fábrica metalúrgica na Índia, entre eles 12 agentes e 15 “contatos de confiança” (ou seja, a taxa de penetração do KGB é de 21,05%).


UKGB manifestava a preocupação com a cidade de Chernivtsi, onde cerca de ¼ da população eram judeus e a fronteira próxima com a Roménia não era “suficientemente guarnecida”. Para reforçar a tropa de guarda – fronteira (subordinada ao KGB), UKGB usava os seus funcionários operativos e até 67 grupos de “voluntários populares”, cerca de 2.000 pessoas, considerando, no entanto, que isso “não era a resolução da questão”.


Mas a preocupação maior eram os estrangeiros, cidadãos da Romênia, Polônia e Checoslováquia, que visitando a URSS particularmente, nos períodos de 30-40 dias, por vezes permaneciam no país até 2 anos e “tendo a vontade, podiam ficar para sempre”. Nos comboios internacionais Varsóvia – Bucareste e Varsóvia – Bucareste – Varna, os passageiros em trânsito tinham a possibilidade de conviver com os cidadãos soviéticos, permanecer no território da URSS durante alguns dias. Os automobilistas da Roménia e da Bulgária, em trânsito para RFA e os Países Nórdicos não eram controlados, mudavam as rotas pré-definidas, aproveitavam as paragens prolongadas para fazer os negócios com os cidadãos soviéticos.


Blogueiro


Como podemos ver, o legado do Estaline, que após a II G.M., tinha proibido os casamentos entre os cidadãos soviéticos e os estrangeiros era bem presente no pensamento do KGB ainda nos anos 1970. Olhando para qualquer estrangeiro como para o espião potencial, mesmo se este estrangeiro provinha do bloco dito socialista.


* Parece que o próprio destino castigou Fedorchuk, nos últimos anos da sua vida general vivia absolutamente sozinho, o seu filho suicidou-se, a esposa e filha morreram, a neta vivia separadamente.