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sexta-feira, novembro 07, 2025

Indira Gandhi, primeira-ministra da Índia e agente do KGB «Vano»

Indira Gandhi em Moscovo/ou, 8 de Junho de 1976. Foto: AP Photo/Boris Yurchenko

Em 31 de outubro de 1984, Indira Gandhi, a primeira-ministra da Índia e agente da KGB com o pseudônimo/codinome de «Vano», foi assassinada em Nova Delhi por dois de seus guarda-costas sikhs. 

Indira Gandhi serviu como primeira-ministra da Índia duas vezes: de 1966 a 1977 e de 1980 a 1984. Durante sua vida, visitou a URSS nove vezes. A primeira vez foi em 1953, como parte da delegação do primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, como secretária pessoal de pai. Foi então que a KGB se interessou por ela como uma pessoa capaz de influenciar o Nehru. Como seu primeiro «presente» em 1955, ela recebeu um paletó de pele valioso vindo diretamente dos serviços secretos soviéticos. 

Jovem Indira, década de 1950

Na década de 1960, Moscovo/ou começou a financiar a participação do partido de Gandhi na corrida eleitoral. Após a cisão no Partido do Congresso Nacional Indiano em 1970, Moscovo/ou apoiou Gandhi e seus partidários. Gandhi conquistou a plena confiança dos soviéticos após a conclusão e ratificação do «Tratado de Paz, Amizade e Cooperação com a URSS» em 1971.

A corrupção no país atingiu proporções sem precedentes. KGB entregava dinheiro em malas na residência de Gandhi. Ao mesmo tempo, Indira (agente «Vano»), que supostamente se destacava por uma vida ascética, sequer devolvia as malas. Gandhi nomeou o ex-secretário parlamentar do primeiro-ministro Jawaharlal Nehru (pai de Indira) - Lalit Narayan Mishra - para ser responsável pela arrecadação de fundos do partido.

O famoso jornalista indiano Kuldeep Nayar relembrou aqueles tempos da seguinte forma: «Não vou falar sobre a corrupção da imprensa, mas todos sabem como malas com dinheiro circulavam de mão em mão naquela época». Na década de 1970, o KGB soviético criou uma poderosa rede de agentes na Índia, que incluía muitos líderes regionais, veículos de comunicação e ministros, chefiada pela primeira-ministra Indira Gandhi.

Essa informação tornou-se amplamente conhecida graças ao arquivo de documentos secretos da KGB, pertencente ao ex-oficial da KGB Vasily Mitrokhin, que ele levou para o Reino Unido em 1992 e publicou em colaboração com o jornalista Christopher Andrew.

Uma informação é considerada confiável se provém de pelo menos duas fontes independentes entre si. Os fatos sobre a cooperação de Indira Gandhi com a KGB foram confirmados pelo ex-primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros da federação russa e chefe da comissão interdepartamental para a desclassificação de documentos do PCUS, Mikhail Poltoranin, em seu livro «Poder equivalente ao TNT: O legado do czar Boris». Como os arquivos do KGB não são abertos ao público na rússia e segundo Poltoranin, para não prejudicar os ex-agentes e agentes ativos de Moscovo/ou, essas duas fontes são suficientes para considerar Indira Gandhi, no mínimo, uma agente de influência do Kremlin.

Faça click para consultar o livro em russo

No livro mencionado acima, Poltoranin observa que, em dezembro de 1974, por meio de um confidente não identificado, Indira Gandhi transmitiu à camarilha de Brejnev sua sincera gratidão pelos 10 milhões de rúpias indianas fornecidas pela URSS para «algumas medidas preparatórias sigilosas para as eleições» (cerca de 1250.000 dólares). KGB, chefiada por Yuriy Andropov, emitiu uma ordem para fornecer a Gandhi 55 milhões de rúpias para as eleições. Ela recebeu a primeira parcela de 10 milhões em janeiro de 1975.

Vários outros ministros e líderes regionais estavam sob custódia da KGB. O ex-general da KGB, Oleg Kalugin, afirmou que, graças a Indira Gandhi e seu círculo íntimo, os espiões de Moscovo/ou tinham muitas fontes de informação nos ministérios da inteligência, contra-inteligência, polícia, defesa e relações exteriores da Índia. Segundo ele, a Índia tornou-se um “modelo de infiltração da KGB em governos do Terceiro Mundo” e recebeu o título honorário de “Residentura Principal” do KGB.

Usando a fachada fornecida pelos soviéticos por meio do agente “Vano”, a KGB lançou uma verdadeira guerra de informação na Índia. O KGB desinformavam Indira Gandhi sobre a ligação da oposição indiana aos EUA (tentando comprometer principalmente S. K. Patil), de modo que “Vano” demonstrasse sinais de obsessão por perseguição. A opinião pública foi ativamente manipulada. Em 1973, a URSS financiava 10 jornais e uma agência de notícias. Naquele ano, os soviéticos publicaram 3.789 artigos na imprensa/mídia indiana. Em 1975, esse número aumentou para 5.510 publicações.

9 de Dezembro de 1980, Gandhi recebe Brejnev em Nova Dehli

Durante a crise política de 1975 e a decretação do estado de emergência por Gandhi no país, a URSS cometeu um erro. Baseados em suas visões totalitárias, concluíram que, graças ao estado de emergência, Indira Gandhi havia assumido o controlo/e total do país e que sua reeleição seria apenas uma formalidade. O Kremlin destinou 10,6 milhões de rublos para sua campanha eleitoral, o que, à taxa de câmbio de Moscvo/ou, equivalia a cerca de 17,9 milhões de dólares, e ordenou ao Partido Comunista da Índia que lhe desse apoio irrestrito. Não é difícil imaginar a surpresa desagradável dos figurões do Kremlin quando o povo indiano preferiu Morarji Desai, com quem Moscovo/ou, para dizer o mínimo, não simpatizava. Indira Gandhi conseguiu retornar ao poder em 1980 e fez de tudo para seguir a linha política do Kremlin.

Gandhi e um Brejnev já completamente senil, Moscovo, 1982

Em 31 de outubro de 1984, Indira Gandhi foi assassinada a tiros por dois de seus guarda-costas sikhs em sua residência em Nova Delhi. Beant Singh atirou nela três vezes com seu revólver, e Satwant Singh disparou 30 tiros com sua submetralhadora/fuzil. Indira Gandhi foi levada às pressas para o Instituto de Ciências Médicas da Índia (AIIMS), onde foi declarada morta. O assassinato foi realizado em retaliação à Operação Estrela Azul, uma operação militar que Indira Gandhi ordenou em junho de 1984 para expulsar militantes sikhs do Templo Dourado em Amritsar.

Mas agentes de Moscovo/ou permaneceram e continuam a operar na Índia e em todo o mundo. Assim, Vyacheslav Trubnikov, residente de um dos centros de espionagem em Délhi entre 1971 e 1977, tornou-se posteriormente um confidente do Presidente Putin, chefiou o serviço de inteligência estrangeira (SVR) russo de 1996 a 2000, trabalhou depois como Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da federação russa e, em 2004, regressou à capital indiana como embaixador da rússia.

Atualmente, as atividades dos serviços secretos russos já custaram a vida e a saúde de centenas de milhares de ucranianos. Só há uma maneira de acabar com este desastre: esmagar o monstro principal no seu covil.

sábado, junho 21, 2025

As campanhas de desinformação criadas pelos serviços secretos soviéticos e russos

Um cartaz de 1986 das Filipinas mostra o sucesso da campanha para culpar os EUA pela SIDA/VIH. Foto: Peter Charlesworth/Getty Images

Durante mais de meio-século, o KGB soviético orquestrava e dirigia várias campanhas de desinformação, as chamadas «medidas ativas» da era pré-Internet, usadas em todo o mundo, mas pensadas, sobretudo, para influenciar o público ocidental. Foi o KGB que lançou a campanha global de desinformação, alegando que o VIH-SIDA tinha sido descoberto no Pentágono.

A conversa com Dr. Todd Leventhal sobre as campanhas de desinformação soviéticas na era pré-Internet, as «medidas ativas», usadas pelo KGB em todo o mundo, como os Estados Unidos as combateram na década de 1980 e deixaram de o fazer. Também sobre paralelos históricos que nos vêm à mente no contexto moderno. 

O nosso interlocutor tem cerca de 25 anos de experiência em desinformação soviética, russa, irlandesa e de outros países, teorias da conspiração e histórias falsas. Trabalhou para a Agência de Informação dos EUA (USIA) e para o Departamento de Estado dos EUA. Foi autor e coautor de vários relatórios nesta área, entre os quais “Soviet Active Measures in the Postwar Era” in 1992 and “Rumors of Child Organ Trafficking: A Modern Urban Legend” in 1994. 

Após a sua reforma, o Sr. Leventhal desempenhou as funções de Consultor Sénior para a Desinformação sobre a Rússia na Divisão de Envolvimento Global do Estado (GEC) do Departamento de Estado até 2022. 

— Fale-nos dos exemplos mais memoráveis ​​de desinformação durante o seu trabalho. 

Eu era especialista em desinformação soviética e, mais tarde, russa, iraquiana e em qualquer outra desinformação estrangeira que se espalhasse pelo mundo. Os casos mais poderosos de desinformação que encontrei foram a história sobre a criação artificial da SIDA-AIDS nos Estados Unidos, histórias sobre o alegado rapto de crianças para transplantes de órgãos e teorias da conspiração sobre os ataques do 11 de Setembro. 

A desinformação baseia-se frequentemente em histórias que ameaçam os valores mais profundos das pessoas, causando medo, raiva e ressentimento, e aumentando o ódio e o confronto entre diferentes comunidades, grupos sociais ou países. 

Por exemplo, durante a Guerra do Golfo de 1991, espalharam-se pelos territórios palestinianos rumores de que soldados americanos em Meca e Medina tinham bebido cerveja no túmulo do Profeta e caminhado nus nestas duas cidades holandesas do Islão. 

É exatamente este tipo de história sobre a violação de normas sagradas que atrai muita atenção e indignação. Claro que não era verdade. Não havia permissão para soldados americanos perto de Meca ou Medina. Mas as pessoas da região acreditaram, repetiram e contaram a outros esta história porque violava os seus valores mais sagrados. 

Outro exemplo é a falsa história de que os americanos terão viajado para a América Latina para adoptar ou raptar crianças pequenas e bebés, a fim de os matar e extrair os seus órgãos para transplantes nos seus filhos americanos nascidos naturalmente. Diferentes versões da história do transplante de órgãos em crianças espalharam-se pelo mundo. Começaram logo após a invenção dos medicamentos que tornaram os transplantes de órgãos possíveis na década de 1980. 

O governo soviético espalhava frequentemente histórias de terror nas quais as pessoas acreditavam e estavam dispostas a aceitar. Quanto mais terríveis eram os detalhes destes rumores nas histórias, mais as pessoas acreditavam, porque as coisas horríveis atraem a atenção. 

As novas tecnologias criam espaço para rumores, manipulação e desinformação. Por exemplo, na década de 1970, muitas pessoas tinham inicialmente medo do micro-ondas, que se tornou comum nesta época. Estes receios deram origem à história com o rumor de que alguém tentou secar um gato molhado no micro-ondas e este explodiu. Tanto quanto sei, isso nunca aconteceu, mas já ouvi esta história, assim como muitas outras. Foi popular porque expressava, sob a forma de uma história fácil de repetir, os receios sobre o que era uma tecnologia nova para muitas pessoas na década de 1970. 

— E quanto à história do rapto de crianças «para obtenção de órgãos»? 

— Assumiu diferentes formas nos diferentes países, mas geralmente envolvia os ricos a explorar os pobres. Por exemplo, um amigo meu da República Checa contou-me que ouviu do pai, na década de 1980, que os alemães vinham ao seu país roubar crianças. Os checos não gostavam dos alemães desde a Segunda Guerra Mundial, pelo que esta história rapidamente ganhou popularidade. 

(No período pós-soviético, surgiram rumores na rússia e na Ucrânia de que os americanos adotavam crianças para extração de órgãos. Os cidadãos pós-soviéticos não conseguiam compreender porque outra razão os americanos adoptariam as crianças indesejáveis, abandonadas, com problemas físicos. A dominação comunista, que durou mais de 70 anos, aniquilou os sentimentos da bondade ou de compaixão como os valores-base da sociedade). Na comunidade negra dos Estados Unidos, corria um falso rumor afirmando que os negros seriam mortos num hospital para que os seus órgãos pudessem ser transplantados para as pessoas brancas, para salvar as suas vidas. 

As pessoas pertencentes a um determinado grupo que se sentem discriminadas são mais propensas a acreditar em várias teorias da conspiração sobre determinados grupos ou forças poderosas que tentam prejudicá-las. O governo dos EUA tem sido frequentemente visto como uma força desse tipo. 

Estas histórias são baseadas no medo e incitam ao ódio. As pessoas que acreditam em teorias da conspiração tendem a acreditar em teorias diferentes, mesmo que se contradigam. 

Mitos sobre o VIH-SIDA e as armas biológicas

— Que temas da propaganda soviética «herdou» a propaganda russa? 

As histórias falsas sobre o desenvolvimento de armas biológicas pelos Estados Unidos sempre foram um tema favorito dos serviços de informação soviéticos, porque estas armas assustam as pessoas. Os russos ainda exploram este tema, espalhando mentiras sobre a alegada operação de laboratórios biológicos americanos na Ucrânia. 

Desinformação sobre os laboratórios biológicos americanos na Ucrânia espalhada pelo Ministério da Defesa russo em março de 2022

Na década de 1980, a desinformação soviética afirmava que o VIH-SIDA tinha sido inventado como arma biológica em Fort Detrick (um laboratório do Exército dos EUA localizado em Frederick, Maryland, a 64 quilómetros de Washington, D.C.). Este laboratório foi o centro de desenvolvimento e testes de armas biológicas de 1943 a 1969, até que o presidente Nixon anunciou a sua destruição nos Estados Unidos. 

Em 1983, as agências de informação soviéticas publicaram uma notícia falsa no jornal indiano «Patriot» sobre a descoberta do VIH-SIDA como arma biológica. Como soubemos mais tarde por desertores soviéticos, o jornal foi fundado em Nova Deli por agentes do KGB. Conheci um homem que o fez e que mais tarde fugiu para o Ocidente. Esta publicação fazia parte de uma campanha regional contra o Paquistão. O artigo continha uma mentira descarada de que o Paquistão estava a usar armas biológicas contra a Índia. 

Declaração nº 2955 do KGB [à Segurança Estatal Búlgara], 7 de setembro de 1985.
Fonte: CDDAABCSSISBNA-R, Fundo (F.) 9, Opis (Op.) 4, A.E. 663, pp. 208-9.

Dois anos depois, o KGB lançou uma campanha global de desinformação, alegando que o VIH-SIDA tinha sido descoberto no Pentágono durante experiências com armas biológicas. Sabemos exatamente o que aconteceu através de investigadores que encontraram documentos nos arquivos do serviço de informações búlgaro. Os russos referiram o artigo mencionado no jornal «Patriot» e uma publicação na publicação soviética «Literaturnaya Gazeta», que o KGB utilizava frequentemente para disseminar desinformação (o artigo de Valentin Zapyevalov, «Pánico no Ocidente, ou o que está por detrás da sensação da AIDS», publicado a 30 de outubro de 1985). 

«Literaturnaya Gazeta», 30 de outubro de 1985

Esta publicação fazia parte de uma campanha de desinformação do KGB com o objetivo de desacreditar os Estados Unidos no panorama internacional. Afirmava que o vírus da imunodeficiência humana tinha sido criado nos Estados Unidos no âmbito de um programa de desenvolvimento de armas biológicas. 

A notícia foi publicada pela agência de notícias soviética «Novosti» (agência de Imprensa «Novosti», APN — uma organização de propaganda fundada em 1961, que fazia parte da Primeira Direcção Principal do KGB da URSS, que se dedicava a operações de inteligência e especiais no estrangeiro). 

O serviço secreto da Alemanha de Leste, Stasi, divulgou esta história, acrescentando pormenores: as pessoas infectadas pelo VIH-SIDA terão fugido do laboratório de Fort Detrick e chegado à grande cidade mais próxima — Nova Iorque, onde a SIDA foi descoberta pela primeira vez. A história, que foi divulgada pela Stasi, continha apenas alguns factos. No entanto, espalhou-se massivamente, pois continha informações sensacionalistas, embora falsas, sobre a origem de um novo perigo que ninguém conhecia na altura. É assim que funciona a publicidade. Se uma farsa contém cinco factos, três verdadeiros e dois fictícios, é mais fácil acreditar. 

Medidas Ativas

— Como descobriu que esses rumores e histórias eram fruto dos serviços secretos soviéticos? 

Os desertores soviéticos e do bloco soviético falaram-nos sobre isso. Por exemplo, Ladislav Bittman, que tinha sido vice-chefe do departamento de desinformação do serviço de informações estrangeiras da Checoslováquia de 1964 à 1966, contou ao governo americano as suas atividades, realizadas em cooperação com o KGB soviético, quando desertou em 1968. Posteriormente, escreveu um livro sobre as suas ações, chamado «The Deception Game», publicado em 1972. O seu livro dedicado às operações dos StB/KGB no Brasil na década de 1960, «A KGB e a Desinformação Soviética — Uma Visão Em Primeira Mão», foi publicado no Brasil em 2019. 

Consultar o livro

Outro desertor, Stanislav Levchenko, chefiou o departamento de medidas ativas da residência do KGB em Tóquio, no Japão. Desertou em 1979. As suas revelações, e outras, levaram a administração Reagan a criar o Grupo de Trabalho de Medidas Ativas Interagências do governo americano em 1981 para rastrear, expor e combater a desinformação soviética e outras operações de influência política. 

Consultar o livro

Em 1992, Vasily Mitrokhin, um major reformado do KGB que tinha sido arquivista sénior no arquivo de informações estrangeiras do KGB de 1972 a 1984, desertou para o Reino Unido. Revelou ter feito notas secretas sobre milhares de documentos secretos do KGB, que os serviços de informação britânicos transportaram secretamente para o Ocidente. Estas notas constituíram a base dos seus livros posteriores sobre as actividades do KGB em todo o mundo, particularmente no Ocidente, e tornaram-se manuais sobre a desinformação soviética e as operações de influência secreta para os serviços de informação ocidentais. 

Certificado, foto oficial e identificação do oficial do KGB do Mitrokhin
Imagem: Amazon

Posteriormente, Mitrokhin editou um dicionário de termos de inteligência do KGB. Inclui o termo «medidas ativas», que o KGB utilizava para se referir a operações secretas de influência estrangeira. Estas consistiam em atividades destinadas a prejudicar o inimigo, enfraquecê-lo através da agitação da situação, fomentar controvérsias, aumentar a desconfiança nos governos visados ​​e destruir a reputação dos seus representantes. Podem incluir qualquer coisa que atenda ao objetivo geral.

domingo, abril 27, 2025

Yevgeni Brik: o espião que voltou do frio

Um espião ilegal soviético criado emo Brooklyn chega ao Canadá nos dias iniciais da Guerra Fria, mas se apaixona e decide se tornar um agente duplo de Ottawa. No entanto, é traído por um oficial da RCMP falido, que o vende, por dinheiro, aos soviéticos. 

Essa é a história de Yevgeni Brik, contada no livro, Shattered Illusions: KGB Cold War Espionage in Canada. Foi escrito por Donald Mahar, um oficial de inteligência canadense aposentado, que conheceu Brik pessoalmente. 

Brik nasceu na União Soviética, em Novorossiysk, às margens do Mar Negro. Quando Brik era criança, a família se mudou para Nova York, quando seu pai foi transferido para trabalhar na AmTorg, a primeira empresa comercial da União Soviética nos EUA, que servia de «guarda-chuva» as atividades de inteligência soviética nos Estados Unidos. 

Agente ilegal do KGB, Evgeny Brik

Mahar conta ao apresentador convidado do The Current, Dave Seglins, que quando a família se estabeleceu no Brooklyn, «a vida do jovem Yevgeni Brik mudou para sempre. Com o passar dos anos, esse jovem aprendeu a falar inglês perfeitamente, mas com um sotaque bem característico do Brooklyn.» 

Tornando-se um agente do KGB 

Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, Brik retornou à URSS para se juntar às forças armadas. Ele se filiou ao Partido Comunista e tornou-se oficial de comunicações em uma unidade de infantaria soviética. 

Mahar diz que o inglês que aprendeu crescendo no Brooklyn — e o sotaque que o acompanhava —, juntamente com a habilidade de conhecer o Código Morse russo, lhe renderam um emprego na KGB como um «ilegal» — um espião soviético que se infiltrava no exterior. 

O primeiro posto de Brik foi no Canadá em 1951. Ele chegou a Halifax e passou pela alfândega canadense usando um passaporte canadense «emprestado». 

Mahar afirma acreditar que Brik passou seus dois primeiros anos no Canadá viajando, familiarizando-se com o país em que supostamente cresceu. «Os soviéticos acreditavam que tinham um patriota — um jovem altamente treinado em quem podiam confiar. No entanto, suas ilusões estavam prestes a ser destruídas», disse Mahar ao The Current. 

Tornando-se um agente duplo 

Durante suas viagens, Brik se apaixonou por uma canadense Larissa Cunningham — à quem confidenciou que não era um fotógrafo canadense chamado David Soboloff; mas um espião soviético chamado Yevgeni Brik. 

Em 1953, ela o convenceu a ir para Ottawa para se entregar à Real Canadense Polícia Montada (RCMP) e foi assim que Brik se tornou um agente duplo. Ele recebeu um codinome — «Gideon» — e contou tudo sobre seus contatos na embaixada soviética, suas agendas de reuniões, locais de entrega de objetos, além de códigos ultrassecretos para invadir transmissões de rádio de Moscovo/ou. 

A Polícia Montada Real Canadense prometeu proteger «Gideon» como se fosse um deles. Mas foi um oficial da RCMP traiu o nosso agente duplo. Um cabo da RCMP, chamado James Douglas Finley Morrison recebeu ordens de levar Brik de volta para sua casa em Montreal após uma visita à sede da RCMP em Ottawa. 

«Em uma completa violação de segurança, o oficial sênior revelou ao Morrison quem Brik realmente era; diz que ele é um espião soviético, que ele é um agente duplo.» Mahar diz que Morrison estava extremamente endividado na época e viu uma oportunidade. «Morrison reconheceu que poderia extorquir dinheiro dos soviéticos», por lhes contar que Brik havia mudado de lado e agora estava trabalhando para o Canadá. 

Brik foi chamado de volta a Moscovo/ou. Brik pensou que era para um retreinamento padrão e para ver sua família, mas foi rapidamente preso e desapareceu. A RCMP acreditou que ele foi executado. Em vez de execução, Brik foi enviado para a prisão. Ele foi libertado após 15 anos. 

Em 4 de setembro de 1956, em uma sessão fechada do Colégio Militar da Suprema Corte, Brik foi condenado a quinze anos de prisão. O fato de ele ter escapado da pena de morte provavelmente se deve à sua cooperação no que Arquivo Mitrokhine descreve como um «jogo operacional». Brik não foi autorizado a se encontrar com nenhum membro do SIS/MI6 na embaixada britânica de Moscovo/ou, provavelmente por medo de que ele contasse o que havia acontecido com ele, mas foi instruído a marcar um encontro, o que não ocorreu. Ao manter vigilância no local da reunião, a KGB conseguiu identificar Daphne Park (mais tarde, a Baronessa), na altura a 2ª Secretária da embaixada britânica em Moscovo, que apareceu lá como agente do SIS/MI6. 

Em 1992, enquanto a União Soviética estava em colapso, um russo idoso apareceu na Embaixada Britânica em Vilnius, na Lituânia com uma mensagem codificada para os oficiais de inteligência canadenses. 

Yevgeni Brik (à esquerda) com o agente do CSIS Donald Mahar (à direita)
olhando um cardápio em seu quarto de hotel na Suécia após a exfiltração de
Yevgeni Brik. (Donald Mahar)

Era Evgeni Brik e ele queria voltar para o Canadá. 

«Mal podíamos acreditar no que víamos quando víamos esta mensagem», diz Mahar, que trabalhava na inteligência da Polícia Montada Real Canadense na época. Ele foi enviado aos arquivos para desenterrar arquivos antigos de Gideon e encontrar três perguntas que só o verdadeiro Yevgeni Brik poderia responder. 

«A mensagem foi enviada, os britânicos responderam e disseram que ele havia respondido às três perguntas com perfeição.»

O primeiro-ministro Brian Mulroney foi informado. «Toda a consideração será dada a este homem que foi traído pela covardia de um oficial da Polícia Montada Real Canadense», escreveu Mulroney na época. 

Mahar fazia parte da equipe encarregada de trazer Brik de volta ao Canadá em segurança. Ele não quis discutir os detalhes, mas a equipe conseguiu. 

Yevgeni Brik na cabine de comando do 747 da Canadian Airlines, retornando
ao Canadá durante uma operação de exfiltração do CSIS. (Donald Mahar)

Brik viveu uma vida tranquila em Ottawa. Ele morreu em 2011, aos 89 anos. 

Mahar acredita que a história de Brik ainda é relevante hoje. Ele afirma que a inteligência russa continua a usar espiões infiltrados como Brik em todo o mundo ocidental, inclusive no Canadá.

«Não é uma aula de história», diz Mahar. «Isso continua.»

Em junho de 1983, o ex-oficial da RCMP envolvido em contrainteligência foi preso sob a acusação de ter passado informações secretas a agentes soviéticos há mais de 25 anos, informou a polícia canadense. A polícia disse em um comunicado que James Douglas Finley Morrison — que já havia usado o nom de código/codinome «Long Knife» em seu trabalho de espionagem — foi preso na terça-feira em Prince Rupert, em British Columbia.

Casos de espiões ilegais russos descobertos no Canadá ou com passagem pelo Canadá: 

1996: Yelena Borisovna Olshanskaya «Laurie Catherine Mary Lambert» (nome de solteira Brodie) e Dmitriy Olshansky «Ian Mackenzie Lambert». A real Laurie Brodie nasceu em Setembro de 1963 em Quebec e morreu em Toronto aos dois anos de idade. O real Ian Mackenzie Lambert nasceu em Ontário e morreu, aos 3 meses em fevereiro de 1966.

O casal Olshansky em tribunal

2006: «Paul William Hampel», espião russo, que usava o cartidão de nascimento falso, passado em Ontário.

2010: Andrey Bezrukov «Donald Heathfield» e Elena Stanislavovna Vavilova «Tracy Lee Ann Foley». Bezrukov usava a identidade de Donald Howard Heathfield, o filho de um diplomata canadense, que morreu em 1962 com algumas semanas de vida.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Vídeo promocional das forças especiais da polícia israelita

A polícia israelita divulgou o vídeo promocional que mostra a atuação das suas forças especiais na libertação dos reféns, vítimas dos terroristas. Tudo absolutamente normal, menos uma pequena mera coincidência...


Bónus
Ler mais: A URSS e o terrorismo internacional
Wadie Haddad (1927 – 1978) era um dos líderes mais esquerdistas das organizações palestinianas, o comandante da ala militar do Frente Popular de Libertação de Palestina (FPLP). De acordo com Arquivo Mitrokhin, desde 1968 Haddad era agente do KGB, alcunha “Nacionalista”, recebendo da União Soviética as armas, explosivos e financiamento. O que coincide com os anos da sua maior atividade terrorista ao nível internacional. Entre 1968 à 1976 Haddad foi responsável pelo sequestro dos 6 aviões civis e pelo massacre dos passageiros no Aeroporto de Lod em Tel Aviv.

segunda-feira, abril 09, 2018

Arquivo Mitrokhin: a rede do KGB em Portugal

O jornal português “Expresso” se dedicou ao estudo do Arquivo Mitrokhin guardado na Universidade de Cambridge. Se trata de maior coleção de materiais sobre as atividades dos serviços secretos soviéticos, que só recentemente se tornaram disponíveis ao público geral. A publicação de hoje é sobre os segredos da KGB em Lisboa e as suas ligações com Portugal.

por: Paulo Anunciação, Expresso (link apenas para os assinantes), a versão curta

A residentura do KGB em Portugal

Os documentos do arquivo, guardados no The Churchill Archives Centre – possuem diversos materiais dedicados ao Portugal, no período entre 1974 à 1982: pelo menos 172 menções do país.

Em 1980 a residentura do KGB em Portugal era encabeçada pelo Youri A. Semenitchev (Yuriy Semenychev), oficialmente o 1º secretário da embaixada e contava com 14 operativos: 6 pertenciam à linha “PR” («inteligência estratégica política, económica e militar, medidas ativas»), 2 — à linha «KR» (contra inteligência e segurança») e mais 2 — à linha «N» («apoio dos ilegais»). Além disso, a residentura possuía um operador de rádio, um agente de codificação, um agente da linha «H» («inteligência científica e técnica») e mais um — à linha «RP» («inteligência radioeletrónica»).

Todos os agentes do KGB em Portugal trabalhavam sob cobertura legal, ocupando os diversos postos na embaixada ou no serviço consular da missão soviética em Lisboa. Em 1980 o agente da linha «H» em Portugal era Boris F. Kesarev — oficialmente o chefe da representação comercial soviética. Anteriormente ele mostrou o seu serviço em Paris (em dezembro de 1974 foi condecorado pela Ordem da Bandeira Vermelha, a condecoração assinada pessoalmente pelo chefe do KGB, Yuriy Andropov). Outros agentes usavam outras disfarças: Victor P. Nesterov, oficial do KGB da linha “PR” usava a cobertura do correspondente do jornal «Izvestia», o mesmo acontecia com outros “jornalistas” soviéticos das agências TASS e APN. O arquivo Mitrokhin menciona os agentes L. K. Agapov (correspondente do «Izvestia» em Lisboa entre 1975 e 1978) e Viktor Gundarev, delegado em Portugal da Associação do Transporte do Mar Negro (em 1986, Gundarev, na altura o vice-chefe da residentura do KGB em Grécia, a sua companheira, diretora da escola soviética em Atenas e filho de 7 ou 8 anos fugiram para os EUA, com ajuda da CIA).
Oficial do KGB Victor P. Nesterov,
ainda estudante-finalista da Universidade Estatal de Moscovo, 1972
A residentura do KGB começou funcionar em Lisboa em agosto de 1974, a embaixada soviética, situada temporariamente no hotel “Tivoli”, se abriu no fim de julho do mesmo ano. O primeiro embaixador soviético em Portugal, Arnold Kalinin aterrou em Lisboa em 7 de agosto. Anteriormente ele trabalhou na embaixada soviética em Cuba, falava espanhol e português (mais tarde foi transferido para Angola), encabeçando a embaixada que no verão de 1974 contava com mais de 210 funcionários soviéticos, incluindo 15 diplomatas de carreira (muitos deles agentes do KGB).

No primeiro ano do funcionamento as comunicações com o «centro» (a sede do KGB em Moscovo) eram organizadas via Paris. No decorrer da Guerra Fria em Paris estava o maior número dos agentes soviéticos — pelo menos 50 — mais do que em qualquer outra cidade da Europa Ocidental. Em 1977 o volume de relatórios criptografados de Lisboa era tão grande – foram enviados 5.837 criptogramas de 938.906 grupos que a estação pediu ajuda: “A carga é incrível, precisamos de uma nova máquina de criptografia”, lemos em uma das notas do Mitrokhin de 1978.

A residentura também teve outras reclamações: “Portugal é um país periférico que está isolado há muito tempo e, portanto, aqui não é possível trabalhar em muitas questões internacionais significativas”, diz uma das anotações. A residentura reclama do facto de que “muitos golpes e contra-golpes (28 de setembro de 1974, 11 de março de 1975, 25 de novembro de 1975) destruíram vários contatos e conexões com os portugueses, o que os obriga a estabelecer novos contatos”.

De acordo com o registo de 1978, a embaixada soviética em Lisboa reparou e equipou três novas salas – duas delas para a residentura do KGB. As contas de 1979, copiados por Mitrokhin, indicam uma falta grave de fundos na administração da residentura da capital portuguesa – 9.400 rublos. “As despesas de acordo com o Artigo 1 UA (agentes) totalizaram 10.400 rublos, enquanto as despesas de acordo com o Artigo 1 UD (despesas operacionais) totalizaram 18.000. O montante total de 28.400 rublos (conversível em moeda estrangeira) excede o planeamento financeiro em 9.400 rublos (conversível em moeda estrangeira)”

Nome de código: «Patrick»

Durante décadas o Partido Comunista Português (PCP) negava, de forma categórica, qualquer tipo de cooperação com os serviços secretos soviéticos. Na entrevista publicada no jornal oficial do PCP, Avante!, em 13 de Outubro de 1994, o líder comunista Álvaro Cunhal assegurou que PCP pediu repetidamente ao partido comunista soviético e aos outros países socialistas “que dêem instruções específicas para que os respetivos serviços secretos se abstenham de tentar encontrar informação ou recrutamento entre membros do nosso partido”.

Os arquivos da KGB, copiados por Vasily Mitrokhin, mostram um quadro completamente diferente. O PCP não só permitia, mas também estimulava e encorajava o recrutamento de membros e apoiantes do partido pelo KGB. Os documentos mostram que muitos dos agentes portugueses do KGB foram recrutados sob a direção ou recomendação do PCP.

Em dezembro de 1974, o chefe da residentura do KGB em Lisboa (“Leonid”) reuniu-se com o líder do PCP, Álvaro Cunhal, num dos apartamentos secretos do partido. “Questões específicas foram discutidas. A conversa ocorreu não com palavras, mas com a ajuda de papel e lápis, por medo de escutas telefónicas”. De acordo com esse registo, Cunhal declarou a sua prontidão para “cooperar em qualquer assunto de interesse do KGB”. Foi decidido que a KGB treinaria dois membros do partido para detectar dispositivos de escutas (Cunhal prometeu selecionar “dois camaradas de confiança”). O líder português também anunciou que entregaria ao KGB “os materiais da PIDE e da NATO/OTAN à disposição do partido”.
A propaganda do PCP de 1976
Outro nome que mais constantemente é encontrado nos registos relativos ao Portugal é “Patrick”, o nome do código claramente indicado ao Octávio Pato, um dos membros principais do Comité Central do PCP, deputado e candidato nas eleições presidenciais de 1976. Os seus encontros a residentura do KGB em Lisboa eram de natureza regular (“uma ou duas vezes por mês”). Numa dessas reuniões, “Patrick” entregou “informações militares secretas sobre os americanos, obtidas por meio de um agente do PCP”, está escrito num dos documentos. Ao KGB também eram fornecidas as informações sobre o partido, sobre questões políticas nacionais e sobre a NATO/OTAN. Mitrokhin também informa que em 1980 a Primeira Direção do KGB em Moscovo estava discutindo a possibilidade de fornecer aos comunistas portugueses “meios técnicos especiais” com a finalidade de instalá-los em “objetos de interesse” em Portugal.

Em julho de 1977, durante uma visita do Octávio Pato ao Moscovo, a Primeira Direção do KGB lhe pediu para ajudar na seleção de candidatos portugueses que serão submetidos a treino específico para realizar as operações especiais contra a NATO. “Patrick”, disse que não tinha objeção para indicar os membros do partido para determinada missão secreta periódica “nos interesses da URSS”, mas expressou preocupação sobre a potencial perda de “bons comunistas confiáveis” para o trabalho de inteligência de longo prazo. Pato prometeu discutir essa questão com Cunhal.

De acordo com os documentos do arquivo Mitrokhin, mais tarde “Patrick” apresentou à residentura do KGB em Lisboa os nomes de cinco potenciais candidatos – cinco comunistas portugueses “que não ocupavam as posições de responsabilidade no partido” – e entregou os passaportes portugueses limpos e outros documentos [de identificação] que poderiam ser necessários para a criação de novas identidades dos candidatos.

No início de 2016 e para colher a posição do partido, o jornal Expresso contactou o serviço de imprensa do PCP, que seguindo as deixas do Cunhal declarou que: «nega veementemente velhas falsificações, difamações e provocações anti-comunistas».
Ver o documento original em formato PDF
[No entanto, os dados do arquivo Mitrokhin são corroborados, de forma absolutamente independente pelo arquivo Bukovsky. Nomeadamente, em abril de 1980, o camarada Octávio Pato, pediu o CC do PCUS financiar a compra dos “equipamentos especiais do fabrico estrangeiro para garantir a segurança do partido”. Em 13 de maio do mesmo ano, o CC do PCUS concordou (documento número CT210/62) e incumbiu o Ministério das Finanças da URSS alocar à Direção dos serviços do CC do PCUS as divisas no valor 2.500 rublos expressos em divisas (equivalente aos 3.000 USD). O CC do PCUS também deu a ordem ao KGB para comprar e fornecer os equipamentos aos “amigos portugueses”. A questão foi coordenada com o chefe do KGB, Yuri Andropov e os gastos forma cobertos pelo orçamento do PCUS [ver o documento em formato PDF]].

Aproximação ao Mário Soares

Arquivo Mitrokhin possui três menções do Mário Soares, que no período de 1972 e 1977 era alvo da tentativa de aproximação por parte do KGB. Para o efeito, Portugal foi repetidamente visitado pelo agente do KGB V(ladimir?) I. Koblikov, sob o disfarce de visitas oficiais da União das Sociedades soviéticas para Amizade e laços culturais com países estrangeiros. Os objetivos reais do Koblikov, no entanto, eram “estabelecer contactos e relação de confiança com os partidos socialista e comunista”. Cunhal estava ciente da missão para se aproximar de Soares, cujo nome de código era “Merkuriy” (Mercúrio); é de notar que KGB atribuía os nomes de código não apenas aos seus agentes e funcionários, mas também às pessoas que eram alvos de suas operações clandestinas. “Koblikov recebeu informações de “Mercuriy” e a carta ao Brejnev. No entanto, as metas previstas não foram cumpridas”, – menciona um dos registos.

Uma nota de 1977 observa que Soares, então primeiro-ministro do governo constitucional, estava na lista de contatos de um dos agentes da KGB em Lisboa, nome de código “Yaroslav”. “Graças à ajuda das pessoas de confiança da residentura [do KGB em Lisboa] e graças aos esforços de bastidores de Mário Soares, a residentura conseguiu fechar os semanários reacionários “Telex” [dirigido pelo Sammy Santos] e “A Rua” [dirigido pelo Manuel Maria Múrias], que publicavam regularmente materiais anti-soviéticas”. Também se diz que, graças à influência do mesmo Soares sobre os líderes do partido e sobre os círculos militares e políticos portugueses, foi adiada por um período longo, reprogramada para 1978, a conferência europeia contra a ameaça soviética.

O último registo de arquivo Mitrokhin sobre Mário Soares não está datado, mas supõe-se que se refira ao início dos anos 1980, quando André Gonçalves Pereira atuou como ministro dos Negócios Estrangeiros / Relações Exteriores dos VII e VIII governos constitucionais (1981-82). “Patrick [Octávio Pato] do PCP informou-nos que o partido possui os dados comprometedores das ligações entre M. Soares e A. Gonçalves Pereira com a CIA e os americanos, embora não haja provas visíveis, fotos ou contas bancárias. Este material pode ser usado em um outro país”, dizia a nota.

«Agulhas» do PCP

Em 1991, após a apreensão de arquivos do PCUS pelo governo russo de Boris Yeltsin, foi publicada uma série de documentos para identificar os números exatos desembolsados pela URSS aos “partidos irmãos” no Ocidente. Considera-se que na década de 1980 – um momento em que a URSS estava sofrendo uma tremenda escassez de moeda estrangeira – PCUS distribuiu mais de 200 milhões de dólares entre os «partidos irmãos» fora do bloco soviético. No seu livro “Cunhal, Brezhnev e 25 de Abril” (2013), o jornalista e historiador português José Milhazes relata que naquele período PCP recebia entre 700.000 dólares (em 1981) até um milhão de dólares (em 1987-1989) em subsídios soviéticos.
Ler mais | imagem @darussia 
Tal como no caso dos outros partidos, a atribuição de recursos financeiros de Moscovo ao PCP era decidido pelo Comité Central do PCUS, e as transferências estavam ao cargo do KGB. Na correspondência entre o “centro” e a residentura de Lisboa, esse dinheiro sempre era chamado de “agulhas”. No Canada, por exemplo, subsídios ao Partido Comunista Canadense receberam o nome de código de “trigo americano”.

Nos registos de Mitrokhin de 1977 sobre o encontro de agentes soviéticos com “Patrick” – o contacto preferencial da residentura do KGB em Lisboa entre a elite comunista – é relatado que, além de a troca de informação política, se falou sobre “a questão dos preparativos especiais necessários para a transmissão de "agulhas"”.

Documentos raramente se referem aos valores específicos. Em um dos registos é relatado que representantes do jornal soviético «Pravda» participaram em setembro de 1978 no festival Avante! e «entregaram 576.000 escudos portugueses» – que aos preços de 2015 corresponderiam aos 43.000 Euros (de acordo com a atualização dos valores com base no índice de preços ao consumidor).

continua

sexta-feira, março 30, 2018

«Watergate vermelho»: quando Portugal expulsava agentes do GRU e do KGB

Diário de Lisboa de 21 de Agosto de 1980 (@ Fundação Mário Soares)
Em 20 de Agosto de 1980, invocando a Convenção de Viena, o governo centrista português do Primeiro-ministro Sá Carneiro expulsa, por «intromissão nos assuntos internos portugueses» quatro agentes soviéticos, afetos à embaixada soviética em Lisboa: um do GRU e três do KGB. Era o culminar do processo de «Watergate vermelho».
Os detalhes deste episódio estão contados no 13.º capítulo da biografia Sá Carneiro
(ed. Esfera dos Livros). Leia os excertos mais relevantes
Eram o capitão-de-fragata Vladimir V. Koniaev (nos arquivos americanos é referido como Vladimir Konyayev), formalmente adjunto do adido naval da embaixada mas na verdade espião do GRU; e Albert A. Matveev (Albert Matveyev), ministro-conselheiro e número dois da embaixada, em Portugal desde 1974; Alexandre S. Koulaguine (Aleksandr Kulagin), terceiro-secretário e Youri A. Semenitchev (Yuriy Semenychev), conselheiro da embaixada, todos pertencentes à residentura do KGB em Lisboa, sendo este último o seu principal responsável.
A lista parcial dos espiões soviéticos expulsos dos diversos países entre 1970-1984
O primeiro-ministro português Sá Carneiro agiu assim, após, através do seu amigo e assessor militar, Carlos Azeredo, receber uma cassete gravada, de forma clandestina, durante uma sessão organizada no Teatro São Luiz em Lisboa pela Associação de Amizade entre Portugal e a URSS – na fita, ouvia-se o embaixador soviético Arnold Kalinin (1929-2011) a discursar e a criticar duramente a política externa da Aliança Democrática. Sá Carneiro também recebeu uma lista com cerca de dez nomes de espiões soviéticos a actuar em Portugal a partir da missão diplomática soviética – um era do GRU, o serviço de informações militares, e os restantes do KGB.
As denúncias de espionagem económica do PCP ao favor da URSS
Entre as actividades ilícitas graves daqueles espiões contavam-se: o envolvimento em acções de agitação e propaganda nos distritos de Évora e de Beja, tentativas de boicotar a Reforma Agrária; intermediação no financiamento clandestino soviético ao Partido Comunista Português (PCP) e aos sindicatos da CGTP, da linha comunista; e gestão de um sistema de escutas telefónicas a embaixadas ocidentais.
Os oficiais russos expulsos em todo o mundo até o dia 29/03/2018 (sem contar com Eslovénia).
Portugal decide que não apoiará os seus aliados da NATO e da EU...
Os diplomatas tinham cinco dias úteis para fazerem as malas e abandonarem Lisboa. A 26 de agosto de 1980, antes do fim do prazo, foram levados pelo embaixador soviético ao aeroporto da Portela e embarcaram num voo da Aeroflot. Era o fim do processo a que Sá Carneiro chamou «Watergate vermelho».

terça-feira, outubro 13, 2015

A URSS e o terrorismo internacional

Hoje em dia, quando o terrorismo internacional está em ofensiva contra a civilização, é interessante conhecer os mecanismos que os governos socialistas usavam no passado para criar as sinergias na luta de classe contra o “capitalismo opressor”.

Wadie Haddad (1927 – 1978) era um dos líderes mais esquerdistas das organizações palestinianas, o comandante da ala militar do Frente Popular de Libertação de Palestina (FPLP). De acordo com arquivo Mitrokhin, desde 1968 Haddad era agente do KGB, alcunha “Nacionalista”, recebendo da União Soviética as armas, explosivos e financiamento. O que coincide com os anos da sua maior atividade terrorista ao nível internacional. Entre 1968 e 1976 Haddad foi responsável pelo sequestro dos 6 aviões civis e pelo massacre dos passageiros no Aeroporto de Lod em Tel Aviv.

Em 23 de Outubro de 1974, o chefe do KGB, Yuri Andropov, informa o chefe do Comité Central do PCUS e líder da URSS, Leonid Brejnev, sobre os contactos, desde 1968 com o membro do Bureau Político da FPLP, chefe do departamento das operações externas, Wadie Haddad.

Num encontro com residente do KGB no Líbano, à decorrer em abril de 1974, Haddad explicou a perspetiva do programa da sua organização, que pode ser sintetizada de seguinte maneira:
- O aumento da eficiência da luta contra Israel, sionismo e imperialismo americano;
- ações contra pessoal americano e israelita nos (territórios) dos terceiros países;
- ações de sabotagem e terrorismo no território de Israel;
- organização de ações de sabotagem contra o cartel diamantífero;
FPLP se preparava para atacar os grandes depósitos de petróleo nos diversos países do globo (Arábia Saudita, Golfo Pérsico, Hong-Kong, etc); destruição dos navios petroleiros e superpetroleiros; ações contra os representantes americanos e israelitas no Irão, Grécia, Etiópia, Quénia, ataque contra o centro diamantífero em Tel Aviv.

Para conseguir os seus objetivos, Haddad pediu a URSS lhe conceder “alguns tipos de meios técnicos especiais, necessários para condução de algumas operações de sabotagem”. Andropov assegura o Brejnev que “tipo de relações com Haddad permite ao (KGB / URSS), em certo grau, controlar as ações do departamento das operações externas da FPLP, exercer a influência favorável à União Soviética e também, efetuar, nos interesses do (KGB / URSS), as operações ativas, usando as forças da FPLP e seguindo a conspiração necessária”. No fim da carta, Andropov diz que “acha conveniente tratar o pedido do Haddad de forma positiva na questão de concessão dos meios especiais pedidos” (Andropov ao Brejnev, 23/10/1974, http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75a.pdf).

Com a permissão do CC do PCUS № 147/42 de 14 de agosto de 1974, em setembro de 1975, Wadie Haddad visitou Moscovo clandestinamente (não oficialmente).

Em resultado da pressão política da URSS, Haddad “chegou à conclusão sobre a necessidade de levar o grosso modo das suas operações dos países terceiros ao território de Israel e os territórios palestinianos”, prometendo aos dirigentes soviéticos de se “abster da condução das ações terroristas não inteligentes e irracionais”. Por sua vez, Haddad pediu à URSS “lhe conceder ajuda na obtenção de alguns tipos de meios técnico-militares e a sua fabricação dos componentes estrangeiros” (não soviéticos). O KGB propõe ao CC do PCUS à satisfez parcialmente o pedido do Haddad, concedendo lhe clandestinamente os meios técnico-militares soviéticos e também “alguns tipos de armamentos e meios especiais, fabricados (pelo KGB / URSS) à partir dos componentes estrangeiros”. (Andropov ao CC do PCUS, 10/01/1975, http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75c.pdf).

Na sequência da cooperação proveitosa entre o terrorista internacional e as altas lideranças da URSS, em agosto de 1974, Aleksey Kossygin. o chefe do Conselho dos Ministros da URSS, ordenou ao Banco Estatal de URSS a entrega ao KGB de 37.625 rublos em forma de divisas estrangeiras (cerca de 22.198 USD ao câmbio oficial soviético da época), para a condução das operações especiais, valor coberto pelo fundo de reserva do Conselho dos Ministros da URSS (http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75b.pdf).

Em maio de 1975, o KGB da URSS, de acordo com a decisão do CC do PCUS, entregou ao Haddad armamento e munições de fabrico estrangeiro (não soviético): 53 espingardas de assalto; 50 pistolas; entre as quais 10 com silenciadores e 34.000 munições A entrega decorreu na baia de Aden, no período noturno, de forma conspirativa e sem o contato direto, com auxílio do navio da armada soviética. Dentro do FPLP apenas Haddad sabia que o armamento foi dornecido pela URSS (a carta do chefe do KGB Andropov ao chefe do CC do PCUS, Leinid Brejnev, de 16 de maio de 1975, http://bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/plo75d.pdf).

Haddad morreu em 1978, na RDA, supostamente de leucemia. De acordo com o livro “Striking Back”, publicado pelo jornalista Aaron J. Klein in 2006, Haddad foi eliminado pelo Mossad, que lhe enviou o chocolate belga tratado com um veneno indetectável de ação lenta.