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sexta-feira, julho 13, 2018

Guccifer 2.0 e mais 11 oficiais da GRU foram acusados nos EUA

foto @Tom Williams / CQ Roll Call / Sipa USA / Scanpix / LETA
Em 13 de julho de 2018 o Procurador-Geral Adjunto dos EUA, Rod Rosenstein, acusou formalmente os 12 funcionários da GRU russa de interferência nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Os acusados hackearam o servidor de e-mail do Partido Democrata, publicaram os documentos roubados e acederam ilegalmente aos dados dos eleitores norte-americanos.

Os acusados

Os 12 acusados (Victor Netyksho, Boris Antonov, Dmitry Badin, Ivan Ermakov Aleksey Lukashev, Sergei Morgachev, Nicholay Kozachek, Pavel Ershov, Artem Malyshev, Alexander Osadchuk, Alexey Potemkin e Anatoly Kovalev) são funcionários da GRU (com vários patentes militares, 1º e 2º tenentes, coronéis, ou referidos simplesmente como “militares”). Todos, exceto Alexander Osadchuk e Alexei Potemkin, serviram na unidade militar № 26165, localizado na avenida Komsomolsky Prospekt em Moscovo, onde, como se sabe servem os criptógrafos, criadores de algoritmos para descodificação e outros especialistas de TI). Osadchuk e Potemkin  serviram na unidade № 74455, supostamente situado na rua Kirov № 22, no bairro moscovita de Khimki; este lugar na acusação é também chamado de “Torre”.
A unidade militar № 26165, na avenida Komsomolsky Prospekt em Moscovo | Google Earth
Os agentes são conectados entre eles, por exemplo, Boris Antonov e Dmitry Badin efetuavam a supervisão geral das atividades de vários outros funcionários da lista (por exemplo, Ivan Ermakov, Alexey Lukashev, entre outros).

Sabe-se que Sergey Morgachev, Nikolay Kozachek, Pavel Ershov e Alexander Osadchuk desenvolveram, testaram e aplicaram software malicioso X-Agent (desenvolvido pelo grupo hacker Fancy Bear, ligado à Rússia).

O procurador especial Robert Mueller e a sua equipa de investigação conhecem os nomes de código que os agentes russos usaram, executando ações, que neste momento levaram à sua acusação. Nikolai Kozachek é referido como “kazak” e “blablabla1234565”. Lukashev criou usuários “Den Katenberg” e “Juliana Martynova”, Ivan Ermakov – “Keith S. Milton”, “James McMorgans”, “Karen W. Millen”. Alexander Osadchuk e Alexey Potemkin usavam os pseudónimos DC Leaks e Guccifer-2.0; através deles eram distribuídos os documentos roubados da sede de Hillary Clinton e do Comité Nacional do Partido Democrata dos Estados Unidos.

A acusação

De acordo com a investigação, oficiais da GRU atacaram os computadores de mais de 300 pessoas ligadas ao Comité Nacional do Partido Democrata dos Estados Unidos, o comité do partido nas eleições ao Congresso e da campanha presidencial de Hillary Clinton. Eles enviaram cartas em nome do Google, supostamente contendo uma notificação de configurações de segurança. Dentro havia um link que levava ao site criado pelo GRU. Para disfarçar, usaram o serviço de encurtamento de ligações URL. Em março de 2016, o correio do chefe da sede eleitoral de Clinton John Podesta foi hackeado. Na caixa dele estavam mais de 50 mil correspondências.

Em abril de 2016, os acusados criaram uma caixa de correio cujo endereço diferia em apenas uma letra do endereço de um dos participantes da campanha de Clinton. Deste endereço eles enviaram os e-mail de phishing aos mais de 30 funcionários da sede da candidatura presidencial. As cartas supostamente continham uma referência ao documento .xlsx com os ratings da Hillary Clinton. Na verdade, a ligação levava para um site criado pela GRU.

Ao mesmo tempo, oficiais da GRU atacaram os sistemas de computação do comité do Partido Democrata para as eleições ao Congresso. O acesso foi obtido usando um e-mail de phishing enviado para uma das funcionárias do comité. Ela passou pelo link enviado para ela e digitou a senha. Em abril-junho de 2016, os acusados instalaram o programa de spyware X-Agent em pelo menos 10 computadores conectados à rede do comité do Partido Democrata. O programa gravou as teclas digitadas pelo usuário e tirou fotos da tela de seu computador, transferindo depois os dados roubados para o servidor que a GRU alugou no Arizona.

Com a ajuda do X-Agent, foram roubadas as senhas de um funcionário do comité do Partido Democrata para as eleições ao Congresso, que também teve acesso à rede do Comité Nacional do Partido Democrata. Assim, pelo menos 33 computadores conectados à esta rede foram hackeados.

Nos computadores hackeados, os acusados procuraram documentos que mencionassem Hillary Clinton, Donald Trump e o candidato republicano Ted Cruz. Eles também copiaram pastas com informações sobre a investigação do ataque dos militantes islâmicos contra a Embaixada dos EUA em Benghazi em 2012 (Hillary Clinton na época serviu como Secretária de Estado dos EUA, ela depôs sobre o caso nas audiências do Congresso). Além disso, oficiais da GRU obtiveram acesso aos documentos financeiros – em particular, aos planos de arrecadar doações para a campanha de Clinton.

Para divulgar estes documentos, os membros da GRU criaram o suposto hacker romeno Guccifer 2.0. Como é referido no documento, quando em junho de 2016 Guccifer 2.0 foi acusado de ser a cobertura dos serviços de inteligência russos, de um dos servidores da unidade militar russa № 74455 foram feitas as consultas sobre algumas frases em inglês (por exemplo, o pedido da tradução da frase “tradução bem conhecida” ou ortografia da palavra illuminati). Cerca de duas horas depois, essas frases apareceram em um dos comunicados de Guccifer 2.0, onde o suposto hacker negou categoricamente a sua conexão com a Rússia.
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Ao mesmo tempo, em junho de 2016, os acusados ​​lançaram o site do DCLeaks, onde publicaram uma parte da correspondência roubada. Para promovê-lo, as contas foram criadas no Facebook e em outras redes sociais. Além disso, eles passaram os documentos roubados aos terceiros, que na acusação americana se menciona como Organização 1. Muito provavelmente é o projecto WikiLeaks.

Osadchuk e Kovalev também são acusaram de que no verão de 2016 eles hackearam a página da comissão eleitoral de um dos estados dos EUA e roubaram dados pessoais de cerca de meio milhão de eleitores. Eles também invadiram o site da empresa, que produzia software para verificar os dados dos eleitores. Um pouco mais tarde, o FBI descobriu o ataque e apurou algumas das suas circunstâncias; neste ponto, Kovalev e seus cúmplices apagaram/deletaram as contas usadas nesta operação.

terça-feira, março 27, 2018

Hacker “solitário romeno” Guccifer 2.0 é oficial do GRU russo

O alegado hacker “solitário romeno”, Guccifer 2.0, contatado e defendido pelo conselheiro do presidente Donald Trump – Roger Stone, é um oficial russo, afeto ao GRU do Estado-maior do exército russo, escreve a publicação americana The Daily Beast.

O conselheiro do Donald Trump – Roger Stone admitiu abertamente que manteve a correspondência com Gucifer 2.0, o mesmo Stone exigia “parar de acusar a Rússia” de ataque informático contra os servidores do Partido Democrata dos EUA. Por sua vez, Guccifier 2.0, hacker alegadamente “solitário”, divulgava a informação confidencial dos democratas, com ajuda da WikiLeaks e do Julian Assange para desacreditar Hillary Clinton, a oponente do Trump nas eleições presidenciais americanas.

Em janeiro de 2017, a CIA, a NSA e o FBI avaliaram “com alto grau de confiança” que “a inteligência militar russa (GRU) usou a persona Guccifer 2.0 e a página DCLeaks.com para divulgar os dados dos democratas e outras vítimas dos EUA”. Embora o documento americano não chamou diretamente Guccifer de oficial de inteligência russo, nem forneceu qualquer evidência das suas afirmações.
Ler o documento, 25 páginas, PDF
Um dos especialistas que estava à caça Guccifer 2.0 era Kyle Ehmke, pesquisador de inteligência da empresa de segurança cibernética ThreatConnect. Não era definitivamente fácil provar a ligação entre o hacker e serviços secretos russos. Ehmke trabalhou em uma investigação do ThreatConnect que tentou rastrear os metadados dos e-mails do Guccifer. Mas a trilha sempre terminava no mesmo centro de dados na França. Ehmke acabou descobrindo que a Guccifer estava se conectando através de um serviço de anonimato chamado Elite VPN, um serviço de rede privada virtual que tinha um ponto de saída na França, mas estava sediado na Rússia.

Habitualmente Guccifier 2.0 trabalhava, usando Elite VPN, mas uma vez ele se esqueceu de o ativar, o que permitiu aos serviços de segurança dos EUA determinar o nome do oficial do GRU, que usava este nick (possivelmente em algum momento o mesmo nick passou ser usado por um oficial ou hacker mais experiente, pois, como mostra The Daily Beast, o seu inglês se tornou muito mais evoluído), quando trabalhava no quartel-general do GRU em Moscovo.

Empresas de segurança e dados revelados das secretas americanas identificaram anteriormente o GRU como a agência que dirige “Fancy Bear”, a organização hacker que dez anos atrás penetrava nos servidores da NATO-OTAN, da Casa Branca de presidência do Obama, de uma estação de televisão francesa, da Agência Mundial Antidopagem (WADA) e inúmeras ONGs, forças armadas e agências civis na Europa, na Ásia Central e no Cáucaso.

Naturalmente, essa descoberta providenciará mais meios para a equipa do procurador especial americano Robert Mueller, encarregado de investigar a equipa do Donald Trump e eventualmente o próprio Trump no domínio dos seus contactos ilegais com os serviços secretos russos.

Ler mais em inglês.

Espanha prende o líder russo do grupo hacker Cobalt

No dia 26 de março na cidade espanhola de Alicante foi detido o líder russo do grupo de hackers Cobalt, especializado no roubo de dados pessoais e activos financeiros no ramo banqueiro e de hotelaria.
Vídeo e imagem que mostra atuação de um grupo hacker afiliado ao Cobalt em 2015
A detenção, anunciada pelo ministro de Interior espanhol, Juan Ignacio Zoido, é uma operação conjunta do FBI, em cooperação com polícias especializadas de Azerbaijão, Belarus, Roménia, Taiwan e Ucrânia (vídeo que mostra atuação de um grupo hacker afiliado ao Cobalt é de 2015):

Na Ucrânia, a Polícia Nacional ucraniana deteve um membro do grupo Cobalt, de 30 anos que desempenhava as funções do programador. Ele criava e desenvolvia os vírus e vendia os dados relevantes nas páginas especializados dos hackers. Como informa a Polícia Nacional da Ucrânia, os restantes membros do grupo Cobalt residem no território da federação russa:

Sabe-se que inicialmente, os hackers se especializavam em ataques sem contato contra as ATM. Além dos sistemas de gestão de caixas eletrónicas, os cibercriminosos tentavam constantemente obter acesso as portas de pagamento e processamento de cartões. No final de 2017, pela primeira vez na história do sistema financeiro da Rússia, eles fizeram um ataque bem-sucedido contra um banco usando o sistema de transferências interbancárias (SWIFT). Ao grupo Cobalt são atribuídos os 11 ataques bem-sucedidos contra os bancos russos (todos os maiores bancos, menos o banco estatal), com o roubo de mais de 1 bilhão de rublos (cerca de 17.460.000 dólares).
O programador de Cobalt detido na Ucrânia
Além disso, o grupo Cobalt é responsabilizado pelos numerosos ataques aos bancos no Reino Unido, Holanda, Espanha (tudo indica que na Espanha os programas maliciosos são compartilhados entre os hackers de grupos Anunak, Cobalt e Carbanak), Roménia, Belarus, Polónia, Estónia, Bulgária e outros países. A Europol reconhece que os hackers do Cobalt causaram sérios danos à indústria financeira global: “A escala de perdas foi extremamente significativa. Por exemplo, o programa Cobalt permitia aos criminosos roubarem até 10 milhões de euros durante uma única brecha de segurança”.

quarta-feira, março 08, 2017

Wikileaks: como se defender do PocketPutin

No dia 7 de março, Wikileaks publicou um grande arquivo de documentos, alegadamente pertencentes à CIA. Arquivo, chamado Year Zero, contém os esquemas de hacking usados pelos serviços secretos para aceder aos telemóveis baseados em iOS e Android, mas também aos “televisões inteligentes” de Samsung.

O que divulgou Wikileaks?

O projeto do Julian Assange colocou on-line 8.761 documentos e ficheiros, alegadamente pertencentes ao centro de vigilância cibernética da CIA nos EUA. A primeira parte do arquivo geral da CIA, que próprio Wikileaks chama de maior «vazamento» na história da secreta americana recebeu o nome de Year Zero, todo o arquivo é chamado na Wikileaks de Vault 7.

Wikileaks afirma que uma parte das ferramentas de hacking, contidas no arquivo foram criadas pela CIA, outras – recebidas de outras fontes. Em geral, se fala das ferramentas para hackear os dispositivos baseados em iOS e Android, como escreve The Verge, o arquivo possui não menos que 24 exploites dos Android e 14 de iOS. Arquivo também possui as referências aos programas para hackear os sistemas Windows, Linux e MacOS, se menciona a existência dos 5 servidores chamados PocketPutin, que pode ser traduzido como «Putin de bolso» ou «colocar no» (to put in).

Geralmente, os exploites se baseiam, nas assim chamadas «falhas do dia zero», as falhas não eliminadas e conhecidas apenas pelos hackers. Apple já informou que a maioria das falhas descritas no arquivo já foi eliminada, embora não explicou quando. Os documentos revelados pelo Wikileaks sugerem que quando os hackers ligados às secretas encontravam as falhas, eles não informavam os criadores dos dispositivos, para que os seus exploites continuassem a funcionar.

O arquivo publicado foi censurado pela Wikileaks: foram retiradas todas as referências aos operativos dos serviços secretos, assim como os seus alvos. Arquivo diz que CIA possui na Alemanha um centro europeu da guerra cibernética, na base do seu consulado em Frankfurt.

Quem foi a “toupeira” do Wikileaks?

O projeto afirma que a base de dados circulava livremente entre os operativos e ex-operativos da CIA. Um deles, alegadamente, a passou ao Wikileaks, preferindo ficar no anonimato. [Podemos imaginar o cenário de mais uma tentativa russa de beneficiar quando Assange divulga os segredos ocidentais].

Hacking das «televisões inteligentes»?

Arquivo fala de vulnerabilidades das televisões Samsung Smart TV com comando de voz. As falhas encontradas permitiam às secretas gravarem as conversas remotamente, nos quartos com a presença destes aparelhos e as enviar aos servidores da secreta. Samsung prometeu verificar estas alegações.

Hacking do WhatsApp e Telegram?!

Em muitos artigos sobre o arquivo da Wikileaks se diz que as secretas criaram as ferramentas para capturar as mensagens trocadas em sistemas com alto nível de segurança, casos de Telegram, WhatsApp e Signal. De acordo com arquivo publicado, isso não corresponde à realidade: as secretas conseguem capturar as mensagens antes da sua codificação, no caso em que possuem o acesso ao aparelho transmissor, mas não se diz nada sobre o hacking dos próprios serviços de mensagens.

Como se defender da intrusão das secretas?

— Não utilize os dispositivos, hackeados para instalar os programas não certificados, quando não está totalmente confiante nas suas ações;
— Nunca instale os programas de uma fonte insegura;
— Sempre atualize os dispositivos e instale os patches de segurança mais recentes;
— Escolhe um fabricante que durante longos períodos efetua apoio dos seus produtos;
— Se lembre que os dispositivos que já não recebem o apoio do fabricante ficam mais vulneráveis.

sábado, outubro 08, 2016

Estado fora da lei de Vladimir Putin

O presidente Vladimir Putin está transformando rapidamente a Rússia em uma nação fora da lei. Como um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o país compartilha uma responsabilidade especial de respeitar o direito internacional. No entanto, o seu comportamento na Ucrânia e na Síria viola não apenas as regras destinadas a promover a paz em vez do conflito, mas também decência humana comum.

por: Conselho Editorial da The New York Times

Esta verdade amarga foi deixada bem clara por duas vezes na quarta-feira (28/09/2016). Uma equipa de investigação liderada pelos Países Baixos concluiu que o sistema de mísseis terra-ar que abateu um avião Malaysia Airlines sobre Ucrânia, em julho de 2014, matando 298 pessoas à bordo, foi enviado da Rússia aos separatistas apoiados pelos russos e voltou para a Rússia na mesma noite. Enquanto isso, na Síria, aviões de guerra russos e sírios atingiram dois hospitais no setor controlado pelos rebeldes de Aleppo, como parte de uma agressão que ameaça a vida de mais de 250.000 pessoas em uma guerra que já custou cerca de 500.000 vidas sírias.

A Rússia se esforçou para colocar a culpa do acidente aéreo em cima da Ucrânia. Mas o novo relatório, produzido pelo Ministério Público da Holanda, Austrália, Bélgica, Malásia e Ucrânia, confirma descobertas anteriores. Ele usa padrões rígidos e meticulosos de provas e documentos, não só sobre a implantação do sistema de mísseis da Rússia que causou o desastre, mas também sobre o encobrimento contínuo de Moscovo.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Pavló Klimkin, disse ao The Times na semana passada que seu governo está determinado a trazer a Rússia e os indivíduos que dispararam o míssil à justiça.

Algumas autoridades ocidentais acusaram a Rússia de crimes de guerra, as acusações que podem ser implementados através de canais internacionais, mesmo se Moscovo bloquear o pedido formal ao Tribunal Penal Internacional. Novas sanções contra a Rússia também devem ser consideradas. Sr. Putin, sem dúvida, irá lutar contra qualquer ação, usando seu poder de veto no Conselho de Segurança, mas seja qual for a sua resposta, os Estados Unidos devem dar o seu apoio a postura da Ucrânia em exigir as responsabilidades.

Parece não haver nenhuns travões do Putin em relação à Síria. Durante meses, ele fingiu negociar uma solução política para uma guerra civil de cinco anos entre o seu cliente, o presidente Bashar al-Assad e os rebeldes apoiados pelos Estados Unidos e alguns países árabes. Mas apesar dos apelos do secretário de Estado, John Kerry, que passou uma enorme quantidade de tempo e esforço para negociar dois momentos do cessar-fogo distintas (e de curta duração), os russos e sírios, apoiados por tropas terrestres iranianas, continuaram a matança.

Nos últimos dias, Putin mostrou novamente suas cores verdadeiras com ataques aéreos que incluíram poderosas bombas anti-bunkers que podem destruir hospitais subterrâneos e zonas de segurança onde os civis buscam abrigo. Em 19 de setembro, a Rússia bombardeou um comboio de ajuda humanitária, que, tal como hospitais e os civis não devem ser alvos sob a lei internacional.

Na quarta-feira (28/09/2016), Kerry ameaçou retirar a equipa americana de Genebra, onde os dois lados haviam estabelecido um centro para colaborar no cessar-fogo. Mas isso é provável que tenha pouco efeito, e Kerry tem poucos, se houver, cartas diplomáticas para jogar.

O Presidente Obama durante muito tempo se recusou a aprovar a intervenção militar direta na Síria. E o Sr. Putin pode ser assumindo que é pouco provável que o Sr. Obama enfrentará a Rússia nos seus últimos meses e com a campanha eleitoral americana em pleno andamento. Mas com o reduto rebelde em Aleppo está sob a ameaça de cair às forças do governo [do Damasco], os funcionários do governo [dos EUA] disseram que tal resposta é novamente está sob a consideração.

Putin sonha ser ser o homem em uma missão de devolver a Rússia à grandeza. Rússia pode realmente ser uma grande força para o bem. No entanto, seu comportamento irresponsável – massacrar os civis na Síria e na Ucrânia, anexando Crimeia, hackeando os computadores das agências governamentais americanas, esmagando a dissidência em casa – sugere que a coisa mais distante de sua mente é se tornar um parceiro construtivo na busca da paz.

10 anos sem Anna Politkovskaia
Ela foi assassinada há dez anos. No dia do aniversário dele. Como uma prenda? Ele próprio, na altura, deixou a escapar que sua morte trouxe mais danos do que os seus artigos...

Estado fora da lei de Vladimir Putin (II)

Os EUA acusaram oficialmente o governo da Rússia dos ataques de hackers!
O Departamento de Segurança Interna dos EUA e o gabinete do Diretor Nacional de Inteligência dos EUA emitiram uma declaração conjunta em que se referem ao envolvimento directo do governo russo na pirataria da correspondência eletrónica de cidadãos e organizações americanas, incluindo das organizações políticas: Estes furtos e divulgações são destinados a interferir no processo eleitoral nos EUA. Essa atividade não é nova para Moscovo, as táticas e técnicas semelhantes os russos usaram em toda a Europa e Eurásia, por exemplo, para influenciar a opinião pública lá. Acreditamos, com base no escopo e sensibilidade desses esforços, que apenas os mais altos funcionários da Rússia poderiam ter autorizado essas atividades. [...]

Alguns estados [americanos] também têm sentido recentemente os acessos e penetração de seus sistemas eletrónicos eleitorais, o que na maioria dos casos foi originado à partir dos servidores operados por uma empresa russa. No entanto, não estamos agora em posição de atribuir essa atividade ao governo russo (ler o texto integral).

domingo, setembro 04, 2016

Como Rússia benefícia quando Julian Assange revela segredos ocidentais

As autoridades americanas dizem que o Julian Assange e WikiLeaks provavelmente não possuem as ligações diretas com os serviços russos de inteligência. Mas as agendas de WikiLeaks e do Kremlin, muitas vezes, são articuladas.

por: Jo Becker, Steven Erlanger e Eric Schmittaug, NYT (versão curta em português @Ucrânia em África)

Julian Assange, editor do WikiLeaks, ganhou a fama mundial em 2010 quando publicou enormes arquivos de comunicações do governo americano altamente classificados que expuseram os segredos de suas guerras no Afeganistão e no Iraque e as suas manobras diplomáticas às vezes cínicas ao redor do mundo. Mas em uma entrevista na televisão em setembro passado, ficou claro que ele ainda tinha muito a dizer sobre “O Mundo Segundo Império dos EUA”, o subtítulo de seu livro mais recente, “Os ficheiros WikiLeaks”.

À partir dos limites apertados da embaixada do Equador em Londres, onde lhe foi concedido asilo há quatro anos em meio, o Sr. Assange oferece uma visão da América como superbully: uma nação que tem alcançado poder imperial, proclamando lealdade aos princípios dos direitos humanos quando implanta de seu aparato militar e de inteligência em para obrigar os países à fazer o seu lance, e pune pessoas como ele que ousam falar a verdade.

Notavelmente ausente da análise do Sr. Assange, no entanto, foi a crítica de outra potência mundial, a Rússia, ou seu presidente, Vladimir Putin, que dificilmente vive de acordo com o ideal de transparência da WikiLeaks. O governo de Putin reprimiu duramente os dissidentes – os espionando, os prendendo, às vezes assassinando os opositores, ao consolidar o controlo sobre os meios de comunicação social e a Internet. Se o Sr. Assange aprecia a ironia do momento em denunciando a censura em entrevista na Russia Today, o canal de propaganda controlado pelo Kremlin – isso não é facilmente perceptível.

Agora, o Sr. Assange e WikiLeaks estão de volta no centro das atenções, agitando a paisagem geopolítica com novas divulgações e uma promessa de mais para vir.

Em julho de 2016, a organização publicou cerca de 20.000 e-mails do Comitê Nacional Democrata, sugerindo que o partido tinha conspirado com a campanha de Hillary Clinton para minar o seu principal oponente, o senador Bernie Sanders. Assange que tem sido abertamente crítico de Hillary – prometeu mais revelações que poderiam abalar (upend) a sua campanha contra o candidato republicano, Donald J. Trump. Separadamente, o WikiLeaks anunciou que iria revelar em breve algumas das jóias da coroa da inteligência norte-americana: um conjunto “primitivo” dos códigos de ciberespionagem.

Os funcionários dos Estados Unidos dizem acreditar que existe um alto grau de confiança de que o material do Partido Democrata foi copiado ilegalmente pelo governo russo, e suspeitam que os códigos podem ter sido roubados pelos russos também. Isso levanta uma questão: será que WikiLeaks se tornou a máquina de lavagem de material comprometedor obtido pelos espiões russos? E, mais amplamente, qual exatamente é a relação entre Assange e Kremlin de Putin?

Estas questões colocam mais no lugar de destaque a posição proeminente da Rússia na campanha presidencial norte-americana. Putin, em confronto repetido com Hillary Clinton quando ela era secretária de Estado, elogiou publicamente o Sr. Trump, que devolveu o elogio, apelando aos laços mais estreitos com a Rússia e fala favoravelmente de anexação da Crimeia pelo Putin.

No início do WikiLeaks, Assange disse que ele era motivado por um desejo de utilização da “criptografia para proteger os direitos humanos”, e se concentrará em governos autoritários como Rússia.

Mas a verificação da The New York Times de actividades de WikiLeaks durante os anos do exílio do Sr. Assange encontrou um padrão diferente: seja por convicção, conveniência ou coincidência, WikiLeaks libera documentos, juntamente com as muitas das declarações do Sr. Assange, muitas vezes beneficiado Rússia, às custas do Ocidente.

Entre os funcionários dos Estados Unidos, reina o consenso do que o Sr. Assange e WikiLeaks provavelmente não possuem as ligações diretas com os serviços russos de inteligência. Mas eles dizem que, pelo menos no caso de e-mails dos democratas, Moscovo sabia que tinha um escoamento favorável em WikiLeaks, onde intermediários poderiam deixar os documentos furtados na caixa de entrada digital anónima do grupo.

Em uma entrevista em 24/08/2016 com o The Times, Assange disse a senhora Clinton e os democratas levantam “uma histéria neo-macartista sobre a Rússia”. Não há “nenhuma evidência concreta”, disse ele, do que a informação publicada pela WikiLeaks vêm de agências de inteligência, embora indicou que ficaria feliz em aceitar tal material [de tais fontes].

Além disso, Assange explica o seu aparente desinteresse em focar na Rússia pelas questões de “recursos limitados da WikiLeaks e dos obstáculos de tradução”, por considerar que a Rússia é um “pequeno jogador no cenário mundial”, em comparação com países como a China e os Estados Unidos. Em todo o caso, como disse ele, “a corrupção do Kremlin é uma velha história”. [...]

Eventos recentes, no entanto, deixaram alguns defensores da transparência se perguntando se WikiLeaks perdeu o seu caminho. Há uma grande diferença entre publicar os materiais de um delator como o/a Chelsea Manning – o/a soldado que entregou ao WikiLeaks o arquivo de informações militares e os telegramas diplomáticos e aceitar as informações, mesmo indirectamente, do serviço de inteligência estrangeiro que procura fazer avançar os seus próprios interesses poderosos, disse John Wonderlich, o diretor-executivo da Sunlight Foundation, um grupo dedicado a transparência governamental.

“Eles estão apenas alinhar-se com quem lhes dá a informação para chamar a atenção ou se vingar contra os seus inimigos”, disse Wonderlich. “Eles estão acolhem [as ações] dos governos em espiar uns contra outros e se interromper nos processos democráticos dos outros, todo isso em nome, muito fraco, do interesse público”.

Outros vêem o Sr. Assange assumindo uma abordagem cada vez mais cega ao mundo, o que, associado ao seu próprio secretismo, deixou-os desiludidos.

“A batalha pela transparência deveria ser global; pelo menos Assange afirmou isso no início”, disse Andrei A. Soldatov, um jornalista investigativo que escreve extensivamente sobre os serviços de segurança da Rússia. “É estranho que este princípio não está sendo aplicado à si pelo próprio Assange e às suas relações com um país em particular, e que é a Rússia”, disse Soldatov.

Apoio de Moscovo

WikiLeaks estava apenas começando em 2006, quando o Sr. Assange, de nacionalidade australiana, enviou uma declaração de missão aos potenciais colaboradores. Um de seus objetivos, disse ele, era ajudar a expor o comportamento “ilegal ou imoral” por parte dos governos no Ocidente. Assange deixou claro, porém, que o seu foco principal estava em outro lugar. “Nossos alvos principais são os regimes altamente opressivos na China, Rússia e Eurásia Central”, escreveu ele.

Pouco depois de lançar os arquivos de guerra, em 2010, o Sr. Assange ameaçou cumprir essa promessa. WikiLeaks, ele disse á um jornal de Moscovo, tinha obtido materiais comprometedores “sobre a Rússia, sobre o seu governo e seus empresários”.

Mas a vida de Assange foi abalada. Em 20 de novembro de 2010 um mandado internacional foi emitido para sua prisão em conexão com acusações de agressão sexual na Suécia, o que ele nega. Oito dias depois, WikiLeaks publicou um arquivo de telegramas do Departamento de Estado dos EUA, que lançaram a luz nua e crua – e indesejável – sobre as relações diplomáticas americanas.

Como o Sr. Assange apontou na entrevista com The Times, muitos dos telegramas envolvem os julgamentos contundentes em relação à Rússia; uma vez chamada de “Estado mafioso”. Mas os documentos se mostraram muito mais prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos do que a da Rússia, e as autoridades em Moscovo pareciam imperturbáveis. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, rejeitou o Sr. Assange como um “pequeno ladrão correndo por aí na Internet”.


Assange, perguntado logo depois pela revista Time se ele ainda planeava expor as relações secretas do Kremlin, reiterou a sua promessa anterior. “Sim, de facto”, disse ele. Mas o assalto prometido não se concretizaria. Em vez disso, com o amontuar dos problemas legais do Sr. Assange, Putin viria em sua defesa. [...]

Um dia depois da prisão de Assange [em Londres] o presidente russo apareceu em uma entrevista coletiva com o primeiro-ministro francês. Atirando-se contra a pergunta que sugeriu que os telegramas diplomáticos retratam a Rússia como antidemocrática, Putin aproveitou a oportunidade para atacar o Ocidente.

“Na medida em que a democracia se desenvolve, deve ser uma democracia completa. Por que então eles colocaram Assange na prisão?”, ele perguntou. [...] Foi a primeira de várias vezes em que o Sr. Putin tomava o partido de Assange. Ele chamou as acusações contra Assange “politicamente motivadas” e declarou que o fundador do WikiLeaks está sendo “perseguido por espalhar a informação que recebeu dos militares EUA sobre as ações dos EUA no Médio Oriente, incluindo no Iraque”.

Em janeiro de 2011, Kremlin emitiu um visto de entrada ao Assange, e um oficial russo sugeriu que ele merecia o Prémio Nobel da Paz. Em seguida, em abril de 2012, com o financiamento da WikiLeaks à secar – sob pressão americana, Visa e MasterCard tinha parado de aceitar doações – Russia Today começou a transmitir um show chamado “O Mundo de Amanhã” com o Sr. Assange como o anfitrião.

Quanto ele ou WikiLeaks receberam pelos 12 episódios ainda não está claro. Em uma declaração por escrito, Sunshine Press, que funciona como seu porta-voz, disse que a Rússia Today “estava entre uma dezena de empresas de radiodifusão que adquiriram a licença de radiodifusão para o seu show”.

Um mundo dividido

Um ano mais tarde, um homem que em breve apagará Assange em termos de fama embarcou em um avião em Hong Kong. Seu nome era Edward J. Snowden, ele era um agente fugitivo da Agência de Segurança Nacional, que chocou o mundo e colocou em tensão as alianças americanas através do vazamento de documentos que revelavam uma rede liderada pelos Estados Unidos de programas de vigilância global.

Sr. Snowden não tinha dado os seus milhares de documentos confidenciais ao WikiLeaks. Ainda assim, foi por sugestão do Sr. Assange que o voo do Sr. Snowden em que este embarcou em 23 de Junho, 2013, acompanhado pelo seu colega da WikiLeaks, Sarah Harrison, seguia para Moscovo, onde o Sr. Snowden permanece até hoje, depois dos Estados Unidos cancelarem, no caminho, o seu passaporte.

Na verdade, preocupado que ele seria visto como um espião, Sr. Snowden esperava apenas passar por Rússia no seu caminho para a América do Sul, o Sr. Assange relatou mais tarde, um plano que ele não tinha aprovado na íntegra. Rússia, ele acreditava, poderia proteger melhor o Sr. Snowden de um sequestro da CIA, ou pior.

“Agora eu pensei, e de fato aconselhei ao Edward Snowden, que ele estaria mais seguro em Moscovo”, Assange disse ao programa noticioso Democracy Now.
Anos antes, durante uma reunião de novembro de 2010 com os jornalistas da The New York Times, em negociação pelo acesso aos telegramas diplomáticos, Assange tinha meditado sobre a procura de refúgio na Rússia. Antecipando as consequências prováveis ​​da libertação dos telegramas, Assange falou de se mudar para a Rússia e a criar a WikiLeaks lá. Seus associados mostraram-se céticas da ideia, dado aparato de vigilância implacável do Kremlin e um controlo rígido sobre a mídia. [...]

Durante o seu tempo isolado na embaixada equatoriana, sob vigilância constante, sua desconfiança instintiva do Ocidente endureceu, tornando-se cada vez mais insensível aos abusos do Kremlin, que ele via como um “baluarte contra o imperialismo ocidental”, disse um apoiante seu, que como muitos outros pediu anonimato por medo de irritar o Sr. Assange.

Outra pessoa que colaborou com o WikiLeaks no passado, acrescentou: “Ele vê tudo através do prisma de como ele é tratado. América e Hillary Clinton ter-lhe causado problemas, e a Rússia nunca tinha”.

O resultado tem sido um “confronto unidimensional com os EUA”, diz Daniel Domscheit-Berg, que antes de deixar a WikiLeaks em 2010 foi um dos parceiros mais próximos do Sr. Assange.

E o beneficiário desse confronto, que se trava em uma série de declarações públicas do Sr. Assange e estrategicamente cronometrados com os documentos publicados pela WikiLeaks, tem sido muitas vezes o Sr. Putin. Enquanto a publicação dos documentos do Partido Democrata parece ser a primeira vez em que a WikiLeaks publicou material que os funcionários dos Estados Unidos afirmam ser roubado por inteligência russa, as agendas de WikiLeaks e Putin têm sido repetidamente articuladas desde que o Sr. Assange fugiu para a embaixada [do Equador].

Assange tem, por vezes feito, as críticas brandas do governo do Putin. Em uma entrevista de 2011, por exemplo, ele falou sobre a “putinização” da Rússia. No Twitter, ele também chamou a atenção para Pussy Riot, a banda punk, cujos membros foram presos depois de criticarem Putin.

Mas na maior número de casos, Assange tem permanecido em silêncio sobre alguns dos movimentos mais severos do presidente russo. Foi o Sr. Snowden, por exemplo, não o Sr. Assange, que denunciou no Twitter em julho a lei que dá os novos e radicais poderes de vigilância ao Kremlin. Assange, perguntado na entrevista sobre a nova lei e outros casos semelhantes, reconheceu que a Rússia tinha sofrido “autoritarismo rasteiro”. Mas, ele sugeriu que “esse mesmo desenvolvimento” tinha ocorrido nos Estados Unidos.


Assange também tomou uma posição decididamente pró-russa das hostilidades na Ucrânia, onde a administração Obama acusou Putin de apoiar os separatistas. Os Estados Unidos, o Sr. Assange disse a um jornal argentino em março do 2015, foram intromitidos lá, fomentando a agitação por “tentando levar Ucrânia para a órbita ocidental, para arrancá-la fora da esfera de influência da Rússia”. Após a anexação da Crimeia, ele disse que Washington e seus aliados de inteligência tinham “anexado todo o mundo” através da vigilância global.

Tal como o Sr. Trump, que ficou a ganhar com o vazamento [dos documentos] do Partido Democrata, o Sr. Assange apoiou o voto da Grã-Bretanha na saída da União Europeia, e ele tem repetidamente indo contra a NATO – atacando as duas organizações que Putin mais gostaria de minar ou destruir.

Em setembro de 2014, por exemplo, o Sr. Assange escreveu no Twitter sobre o que chamou de “acordo corrupto” que a Turquia preparou para forçar a supressão de uma estação de televisão pró-curda na Dinamarca, em troca de permitir que o primeiro-ministro do país, Anders Fogh Rasmussen, assuma o comando da NATO.

O momento da sua postagem no Twitter foi curioso em duas maneiras. Baseou-se em um cabo diplomático que ganhou as manchetes quando foi divulgado pela WikiLeaks quatro anos antes. Seguido pelo um bate-papo com a duração de um mês entre Sr. Rasmussen e Putin, com o presidente russo atacando o chefe da NATO pela gravação secreta de suas conversas privadas e a resposta do Sr. Rasmussen acusando Putin de jogar um “jogo duplo” na Ucrânia através da emissão de declarações conciliatórias, enquanto concentrava as tropas na fronteira e fornecia as armas aos separatistas.

Assange novamente tinha reciclado a história em junho de 2016 – dias depois de presidente ucraniano Petró Poroshenko escolher Sr. Rasmussen como o seu assessor especial – desta vez através de uma aparência de vídeo em um fórum de mídia russa com a presença de Putin e programado para coincidir com o 75º aniversário da Bureau de Informação Soviética.

Uma questão de timing

Depois, existem os vazamentos reais. Alguns, como os documentos da Igreja de Scientologia, não oferecem nenhum benefício óbvio aos russos. Mas muitos outros oferecem.

A organização publicou os vazamentos de material sobre Arábia Saudita e Turquia, que são aliados dos Estados Unidos, mas também em diferentes graus são os regimes autoritários. Os vazamentos ocorreram durante uma época de grande tensão entre estes países e a Rússia.

Os documentos sauditas, por exemplo, que destacaram os esforços de manipular a opinião pública mundial sobre o reino, foram publicadas meses depois que o Sr. Putin acusou os sauditas de manter baixo os preços do petróleo para prejudicar as economias da Rússia e seus aliados Irão e Venezuela.

Outro conjunto de vazamentos beneficiou indiretamente Rosatom, empresa de energia atômica estatal da Rússia. Esses documentos detalharam uma “guerra corrupta multi-bilionária entre as empresas ocidentais e chinesas” – incluindo principais concorrentes da Rosatom para obter urânio e outros direitos minérios na República Centro-Africana.

WikiLeaks parece estar consciente de um problema de percepção quando se trata de Rússia.

Quando Russia Today começou a transmitir programa de televisão do Sr. Assange, ele brincou em uma declaração que isso seria usado para “manchar” a ele: “Assange é um fantoche sem esperança do Kremlin”.

E a Sunshine Press, a voz de relações públicas do grupo, apontou que em 2012 WikiLeaks publicou também um arquivo que chamou de Syria Files – mais de dois milhões de e-mails de e sobre o governo do presidente Bashar al-Assad, a quem a Rússia está apoiando na guerra civil síria.

No entanto, no momento do lançamento, colega do Sr. Assange, Sra. Harrison, caracterizou o material como “embaraçoso para a Síria, mas também é embaraçoso para os adversários da Síria”. Desde então, o Sr. Assange acusou os Estados Unidos de deliberadamente desestabilizar Síria, mas não criticou publicamente os abusos dos direitos humanos por parte de Assad e das forças russas que lutam lá. [...]

Entre novembro de 2013 à maio 2016, WikiLeaks publicou documentos que descrevem deliberações internas em dois pactos comerciais: a Parceria Trans-Pacífica, que liberaliza o comércio entre os Estados Unidos, Japão e outros 10 países do Pacífico e do Acordo sobre Comércio de Serviços (TiSA), entre os Estados Unidos, outros 21 países e da União Europeia.

A Rússia, que foi excluída [de ambos os acordos], foi o adversário mais vocal dos pactos, com o Sr. Putin retratando-os como um esforço para dar aos Estados Unidos uma alavanca injusta na economia global.

Os esboços divulgados pelo WikiLeaks causaram a polêmica entre os ambientalistas, defensores da liberdade na Internet e da privacidade, líderes trabalhistas e os oponentes mais ferrozes de governança corporativa, entre outros. Eles também alimentaram os ressentimentos populistas contra o livre comércio, que se tornou um fator importante na política americana e europeia. O material foi lançado em momentos críticos, com o aparente objetivo de frustrar as negociações, disseram autoridades comerciais americanas.

WikiLeaks destacou, nas suas contas de Twitter, a discórdia nacional e internacional.

Os negociadores americanos assumiram que os vazamentos tinham vindo de uma parte envolvida que buscava alavancagem. Então, em julho de 2015, no dia em que os negociadores americanos e japoneses foram trabalhando nos detalhes finais da Parceria Trans-Pacífica, veio o que WikiLeaks apelidou no seu lançamento de “Target Tokyo”.

Baseando-se nos documentos ultra secretos da NSA, os documentos revelavam os 35 alvos norte-americanos de espionagem no Japão, incluindo membros do gabinete [dos Ministros] e negociadores comerciais, bem como empresas como a Mitsubishi. O acordo comercial foi finalmente finalizado – embora não tenha sido ratificado pelo Senado dos Estados Unidos – mas a liberação de documentos fez criou uma brecha nas negociações.

“A lição para o Japão é esta: não espere uma superpotência de vigilância global agir com honra e respeito”, disse Assange, em um comunicado à imprensa na época. “Há apenas uma regra: não há regras”.

Devido a proveniência dos arquivos, os funcionários da inteligência dos EUA assumem que o Sr. Assange recebeu acesso aos alguns dos documentos da NSA copiados pelo Sr. Snowden. Mas em uma entrevista, Glenn Greenwald, um dos dois jornalistas responsáveis ​​pela arquivo completo de Snowden, disse que o Sr. Snowden não tinha dado seus documentos à WikiLeaks e que os documentos “Target Tokyo” nem estavam entre aqueles que Sr. Snowden tinha roubado. [...] O sr. Assange disse que tinha as suas próprias fontes separadas do material da NSA.

Isso levanta a questão de saber se há um outro, ainda secreto, delator da NSA que está vazando documentos para WikiLeaks, ou se os arquivos foram obtidos a partir do exterior através de uma operação de ciberespionagem sofisticada, possivelmente, patrocinado por um ator estatal. Esta questão foi sublinhada pela declaração do Sr. Assange, há algumas semanas que ele iria liberar os códigos que os Estados Unidos utilizam para invadir outros.

Isso levou alguns antigos colaboradores [da WikiLeaks] à questionar quem está passando ao Sr. Assange essa informação nos dias de hoje.

“Eu não acho que ele iria receber nada que fosse abertamente do FSB”, disse um deles. “Ele não iria confiar neles o suficiente. Mas se alguém poderia plausivelmente ser visto como um grupo de hackers, ele aceitaria por bem. Ele nunca foi muito profundo sobre a verificação das fontes ou motivações”.

Os Papéis do Panamá

Em abril deste ano, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos desencadeou uma torrente de artigos que reverberou em todo o mundo.

Baseado em 11,5 milhões de documentos que vazaram de uma empresa de advogacia panamenha, especializada na criação de empresas offshore secretas, os “Papéis do Panamá” ofereceram uma olhada ao mundo sombrio em que os bancos, escritórios de advocacia e empresas de gestão de ativos ajudavam aos ricos e poderosos esconder a sua riqueza e evitar os impostos.

Foi o maior arquivo de documentos vazados que os jornalistas alguma vez tinham manuseado, e por isso não foi surpresa que o WikiLeaks inicialmente estava ligada ao trabalho do consórcio no Twitter. Mas o que chocou alguns dos jornalistas envolvidos era o WikiLeaks fez em seguida.

Entre as maiores histórias [dos Papéis do Panamá] uma tinha mostrando como biliões de dólares acabaram em empresas de fachada controladas por um dos amigos mais próximos de Putin, um violoncelista chamado Sergei P. Roldugin. Quase uma dúzia de organizações de notícias, incluindo dois dos últimos jornais independentes da Rússia, Vedomosti e Novaya Gazeta, haviam colaborando no rastreamento do dinheiro.

Mas WikiLeaks se focou na contribuição de apenas uma: Organized Crime and Corruption Reporting Project (https://www.occrp.org/en). Em uma série de postagem no Twitter após as revelações sobre o Sr. Roldugin, WikiLeaks questionou a integridade do OCCRP, observando que o projeto recebeu doações da Fundação Soros e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

Assange, em uma entrevista à Al Jazeera, reiterou a sugestão de que o consórcio, com uma agenda pró-ocidental, escolheu os documentos mais chamativos para liberar. “Houve claramente um esforço consciente para ir contra Putin, contra a Coreia do Norte, contra as sanções, etc.”, disse ele.

Na verdade, as revelações do consórcio serviram de base aos muitos artigos contundentes com os alvos ocidentais, incluindo sobre o uso de empresas offshore em paraísos fiscais pelo pai do então primeiro-ministro David Cameron da Grã-Bretanha. Outros, focados em uma empresa offshore criada pelo presidente ucraniano, Sr. Poroshenko, um inimigo Putin.

No entanto, Putin aproveitou a deixa da WikiLeaks sobre a controvérsia para se defender. Ele declarou que, enquanto os artigos sugeriram que “há este amigo do presidente russo, e eles dizem que ele fez algo, provavelmente relacionado com a corrupção, na verdade, não existe aqui nenhuma corrupção”. “Além disso”, acrescentou Putin, “sabemos agora de WikiLeaks que os funcionários e órgãos estaduais nos Estados Unidos estão por trás de tudo isso”. [...]

Roman Shleynov, que trabalhou no projeto pela primeira vez no [jornal] Vedmosti e depois como editor do Organized Crime and Reporting Project, disse que “estava perdido” para explicar o ataque de Assange contra os “Papeis do Panamá”.

“Para mim foi uma surpresa que o Sr. Assange estava repetindo a mesma desculpa que os nossos funcionários, mesmo nos tempos soviéticos, costumava dizer – que é tudo uma conspiração do exterior”, disse Shleynov. “Eu entendo a sua luta com os Estados Unidos”, acrescentou, “mas eu nunca pensei que ele iria usar o nosso trabalho, o trabalho de jornalistas russos, para fazer tal declaração. Eu respeitava e ainda respeito o que Julian Assange fez, mas eu mudei minha opinião sobre ele como pessoa”.

Conflitos públicos

Assange sempre insistiu: “Eu sou WikiLeaks”, e isso parece mais verdadeiro do que nunca. [...]

Após a liberação dos documentos do Partido Democrata neste verão, Edward Snowden criticou  WikiLeaks no Twitter por não proteger os números de cartões de crédito e de Segurança Social de indivíduos particulares citados nos documentos.

WikiLeaks atirou em resposta no Twitter: “O oportunismo não vai garantir lhe o perdão da Clinton & curadoria [de dados] não é a censura dos fluxos de caixa do partido governamental”.

Sr. Greenwald disse sobre Sr. Assange: “Ele alienou um monte de gente”. [...] Alguns dos seus maiores defensores, como a herdeira Jemima Goldsmith Khan, se voltaram contra ele, perturbados com aquilo que consideram como “padrões duplos”.

Em um artigo de opinião para o New Statesman, Khan escreveu que WikiLeaks, que foi criada para produzir uma sociedade mais justa, “tem sido culpada da mesma ofuscação e desinformação como aqueles que procurou expor”.

Ler o artigo completo em inglês e ver a entrevista da Jo Becker com Assange no Facebook: