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domingo, agosto 03, 2025

O perigo de interação com as páginas «patrioteiras» geradas pela AI

Em resumo, porque não se deve curtir/dar likes ou comentar este tipo de publicações. São postagens com imagens de militares, crianças ou animais com uma legenda curta e muito emotiva. O objetivo é fazer com que a pessoa goste ou comente a publicação. 

Por que razão não deve fazer isso? 

Primeiro: com a ajuda destas postagens são promovidos grupos e páginas. Muitas vezes, os administradores de páginas com nomes e avatares patrióticos do tipo «Patriotas da Ucrânia»; «Ucrânia é a nossa mãe»; «Juntos pela Ucrânia» e afins, não têm nada a ver com Ucrânia. Em vez disso, são moderados à partir da Arménia, do Vietname e de outros países longínquos e não particularmente conhecidos como amigos da Ucrânia (adivinhem, pfr, por quem são geridos e quem os financia). No entanto, com a ajuda de publicações emotivas, os grupos aumentam o número de seus seguidores/subscritores e depois, num belo dia, mudam os tópicos das suas publicações, e a pessoa que se inscreveu nas páginas com orações pelos soldados ucranianos recebe informações sobre a «traição total e absoluta» e teses propagandísticos russos de que «tudo está perdido». 

Segundo: com a ajuda destas postagens, os seus gestores identificam o público especialmente vulnerável a um determinado tipo de informação emotiva. Ou seja, aqueles que são facilmente induzidos às falsificações sobre os militares ucranianos, reagem aos animais fofinhos, etc. Depois disso, estas mesmas pessoas podem ser alvo fácil de publicações especiais que influenciarão a sua perceção sobre um determinado tópico específico. 

Terceiro: efetuamos uma pequena experiência prática. A partir de uma das contas, começámos a interagir com estas imagens, à primeira vista, inocentes, e um dia depois o nosso feed de notícias estava cheio de postagens sobre as maravilhas da vida na União Soviética, sobre como era boa a infância soviética, as citações, imagens e memes de filmes soviéticos. De salientar que não seguimos nenhuma destas páginas. Significa, que quando começa a curtir/dar likes às publicações do tipo «Me parabenize pelo meu aniversário», rapidamente receberá uma porção de propaganda russa que apelará às emoções, e torna-se mais difícil repelir tais publicações e o efeito das mesmas. Dessa forma, a propaganda moscovita está a investir na divulgação de opiniões saudosistas, naturalmente pró-soviéticos (não necessariamente comunistas), que, em teoria, devem aumentar a aceitação do «mundo russo» e diminuir o sentimento de pertença à Ucrânia, à Geórgia, aos Estados Bálticos, etc. 

Por favor, partilhe esta publicação com amigos que possam interagir com publicações semelhantes ou, melhor ainda, converse com eles sobre por que razão não o devem fazer. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Vulgarização da estética da marginalidade criminal no exército russo

Devido ao aumento significativo do número de prisioneiros no exército russo de ocupação, os militares russos iniciaram a campanha especial para adaptar o seu comando militar às especificidades da interação com o contingente criminoso, informa GUR MOU. 


Explicação de tipos de tatuagens

O Ministério da Defesa russo está a distribuir materiais metodológicos elaborados para o trabalho psico-social com os reclusos. Os manuais para os oficiais do serviço psy-war explicam como decifrar e interpretar o significado das tatuagens de reclusos, analisar as suas alcunhas e perceber a hierarquia «das prisas», explicar as regras de comportamento perante os «chefões», etc. Os «da cunha», «mujiques», «cabrões», «galos» – os oficiais do exército russo aprendem as regras e a terminologia específicas para lidar com contingente vindo dos sub-mundo criminal. 

Significado de tatuagens anelares 

Os autores dos manuais explicativos que devem auxiliar à lidar com bandidos nas fileiras do exército russo admitem que os mecanismos habituais de gestão de pessoal não funcionam nestes grupos, pelo que, para impor a disciplina, os oficiais russos devem procurar uma abordagem especial para com os prisioneiros. 

Significado de tatuagens nas pernas

O aumento do número de condenados nas fileiras das forças russas de ocupação levou a um aumento do número de conflitos internos e de confrontos violentos entre prisioneiros e outros grupos de militares que participam na guerra russa de ocupação contra Ucrânia. A campanha de reeducação dos oficiais russos testemunha objetivamente o aprofundamento da criminalização do exército russo.

domingo, maio 25, 2025

Anti-semitismo estatal soviético: KGB à procura do sionismo

Imagens do filme anti-semita soviético «O oculto e claro
(Os Objectivos e os Actos dos Sionistas)», Moscovo, 1973

As décadas de 1960-1990 foram marcadas, na União Soviética, pela luta implacável contra o sionismo e «cosmopolitismo sem raízes». Qualquer manifestação da religiosidade ou de outros elementos de judaismo, eram perseguidos de uma forma bastante paranóica. 

A propaganda estatal soviética rotulou a religião judaica como a «base ideológica do sionismo». «O judaísmo, tal como o sionismo, é uma ideologia reaccionária e nacionalista, imbuída de misticismo e dirigida contra as tarefas revolucionárias internacionais do proletariado», rezava o livro soviético «Judaísmo sem adornos», citado no artigo histórico da página ucraniana Verdade Histórica. 

A minúcia do KGB no combate aos «agentes do sionismo» roçava muitas vezes a paranóia. Sinais de propaganda hostil foram procurados e encontrados até em caixas de doces e decorações de árvores de Natal. 

«Miragem deliriosa»: propaganda visual soviética anti-Israel.
Revista satírica «Crocodilo», 1970.

Entre as maiores «ameaças a toda a humanidade progressista», com que a propaganda da URSS do pós-guerra assustava persistentemente os seus próprios cidadãos, o sionismo ocupava um dos lugares de liderança. A ideologia e o movimento político que visavam o regresso dos judeus à sua terra natal histórica adquiriram características demoníacas na boca das autoridades soviéticas. «Reacionário», «agressivo», «racismo», «imperialismo» e, claro, «fascismo» — estes rótulos estavam abundantemente espalhados em cada um dos milhares de artigos, panfletos e livros da época dedicados ao «nacionalismo burguês judaico». 

«Sionismo vs fraternidade dos trabalhadores». 
Cartoon do livro de Trokhym Kichko «Judaísmo sem adornos», 1963.

Com igual zelo, os porta-vozes do regime soviético «desmascararam» tanto a política de Israel (apoiando constantemente os países árabes que lhe eram hostis) como os verdadeiros e supostos apoiantes do sionismo entre os seus próprios cidadãos. 

O rótulo «sionista» podia ser colado à qualquer cidadão de origem judia, independentemente das suas opiniões. As autoridades sublinharam diligentemente que «não há anti-semitismo na URSS» e até criaram um «comité antisionista», formado pelos «judeus domesticados», uma parte da elite judaica, leal ao regime comunista. 

«Comité anti-sionista do público soviético»

As campanhas «anti-sionistas» soviéticas tornaram-se particularmente agudas durante a Crise do Suez (1956-1957), a Guerra dos Seis Dias (1967) e a Guerra do Yom Kippur (1973), e no contexto da luta dos judeus soviéticos pelo seu direito de emigrar. 

Hoje falaremos de cinco casos mais caricatos em que a caça aos «sionistas» tomou na Ucrânia soviética. Todas as histórias remontam ao reinado de Leonid Brejnev e foram encontradas em arquivos do KGB da RSS da Ucrânia, que estão atualmente armazenados no Arquivo Setorial Estatal do SBU. 

Os documentos são, na sua maioria, em forma de chamadas «mensagens informativas» em que o KGB reportava à alta direção do Partido Comunista da Ucrânia sobre acontecimentos extraordinários que ocorriam na república. 

1. 1968. Na cidade ucraniana de Odessa, o professor local e guia turístico Arnold Vdovets (1937) é detido e preso preventivamente. Vendia, dentro da sinagoga, e ao preço de 50 copeque, as «emblemas sionistas» metálicas.


O documento não especifica o aspeto destas emblemas. Muito provavelmente eram estrelas de seis pontas (estrela «Magen David»). Este símbolo, que tem sido utilizado sob vários nomes por muitos povos há milénios e está localizado na bandeira de Israel, causava uma «alergia» particularmente aguda no regime soviético. 

As autoridades expuseram um «grupo criminoso» de Odessa-Leningrado pela produção e venda de emblemas «sionistas». Foi instaurado um processo-crime contra Vdovets nos termos do art. 148.º do Código Penal da Ucrânia soviética — «Pratica da atividade comercial ilegal», punível de até três anos de prisão efetiva. Mais tarde, e com a ordem expressa do Procurador-geral da URSS, Vdovets foi transferido de Odessa para o Leninegrado, onde o caso seria investigado e possivelmente julgado. O seu desfecho e o destino posterior dos praticipantes é desconhecido. 

O documento do KGB sublinha que não havia nada de «antissoviético» nas ações dos detidos — é puro comércio. Entretanto, na URSS houve casos em que todos compreendiam: uma pessoa era acusada de crimes económicos, mas o verdadeiro motivo da perseguição era a «nocividade ideológica» daquilo que se vendia ou fabricava. 

Não é por acaso que o texto realça que as emblemas eram «sionistas». Por exemplo, na década de 1970-80, centenas de pessoas surdas e mudas (ou que se passavam por estas) vendiam, nos comboios suburbanos os calendários de bolso com retratos de Estaline (e também as imagens eróticas) — dificilmente corriam o risco de ir para a prisão por causa do retrato de Estaline, como aconteceu com Arnold Vdovets.

2. O KGB e os cidadãos vigilantes podiam encontrar «propaganda sionista» não só nas emblemas, mas também nos objectos completamente inesperados. Aconteceu, por exemplo, na cidade mineira de Shakhtarsk, na região de Donetsk. 

O ano novo de 1981 aproximava-se, e as decorações «natalinas» para árvores de Ano Novo apareciam nas prateleiras das lojas locais, como é habitual. Os cidadãos vigilantes repararam numa «estrela de seis pontas semelhante ao símbolo sionista» no brinquedo «Cometa».

A venda de «Cometas» foi interrompida. A fábrica de Terebovlya, na região de Ternopil, onde foi feito o brinquedo «destrutivo», foi investigada pelo departamento local do KGB. Os agentes descobriram onde foram entregues as decorações de Ano Novo e enviaram informações aos colegas de outras regiões.

Um dos sites de classificados está a vender um brinquedo soviético «Cometa» com uma estrela de seis pontas. Talvez os produtos da fábrica de Terebovlya que indignaram os habitantes de Shakhtarsk fossem exatamente iguais.

3. A fábrica de chocolate «Svitoch», de Lviv, opera há quase um século e meio. Para celebrar o aniversário da revolução bolchevique de outubro de 1917, em 1967 a fábrica lançou um lote especial de doces «Leite de pássaro». Os rebuçados com o novo design de caixa foram chamadas «Fogo de artifício festivo». Estaria tudo bem, até que alguém (não se sabe se foi o próprio KGB ou «cidadãos vigilantes») reparou que o desenho no pacote repetia o desenho de um selo postal israelita. 

Se comparar duas fotos do ficheiro, a semelhança não é óbvia. Mas tudo isto é uma cópia a preto e branco de baixa qualidade. Se encontrar o mesmo selo na Internet, torna-se claro: a imagem de fogo de artifício é realmente a mesma. 

O design de doces (à esquerda) e o selo Israelita (à direita)

O selo original foi emitido pelos Correios de Israel em 1966 para o Dia da Independência. Foi uma série inteira desenhada pelo famoso artista israelita Eliezer Weishoff. Ele é autor de centenas de cartazes, postais e selos, moedas e notas, logótipos, ilustrações para livros infantis, monumentos e esculturas. Weishoff ainda está vivo, tem 87 anos. 

 Fontes: fineartamerica.com, cafepress.com

É o trabalho deste artista que vimos na editora, chamado «Fogo de artifício sobre Tel Aviv». Está numa base de dados de imagens que várias empresas comerciais podem imprimir na sua t-shirt, almofada, caneca e assim por diante. 

Há uma outra ligação ténue entre Weishoff à Ucrânia. É coautor do desenho da nota de 50 shekels de 1985. A nota retrata o escritor e Prémio Nobel Shmuel Yosef Agnon, que nasceu em Buchach, vila na atual região ucraniana de Ternopil. 

O Prémio Nobel Shmuel Yosef Agnon, natural de Buchach,
região de Ternopil, é destacado na nota de 50 shekels. Imagem: wikipedia

Mas voltemos à Direcção do KGB de Lviv. O artista desenhador da caixa de doces, Petró Chekanov, foi trazido ao KGB, onde confessou tudo: sim, um amigo judeu polaco enviou-lhe exatamente este selo israelita para a sua coleção. O artista gostou do desenho e decidiu pedi-lo «emprestado». Exclusivamente com fins lucrativos e, como consta no documento, «sem qualquer intenção». 

Qual poderá ser a tal «intenção» neste caso? Porque razão o caso interessou ao KGB em primeiro lugar? Seguramente o KGB não estava preocupado com os direitos de propriedade intelectual de Eliezer Weishoff. Obviamente, a questão era que o selo não era um selo qualquer, mas sim, um selo israelita. Embora não existia nenhuma imagem «criminosa» como a estrela de seis pontas no desenho, o KGB mesmo assim teve de perguntar se Chekanov estava de alguma forma secretamente a pretender promover ideias sionistas. Aparentemente, o artista de Lviv não foi mais afetado neste caso. Ao contrário de Weishoff, a Google não sabe nada sobre o destino posterior do Chekanov. 

4. Os postais israelitas que vinham de Israel para cidadãos soviéticos. Em 1970, os funcionários do KGB, que violavam o segredo da correspondência nas estações de correio, reuniram uma «colecção» inteira de panfletos «de natureza militarista, exortando o poder do exército israelita». 

Informe do KGB sobre os «postais de caráter militarista» com anexo de 18 postais

Um dos postais, retirados, ilegalmente, pelo KGB do correio

A maioria delas são fotos a cores de desfiles militares e de soldados das Tsahal/FDI na Velha Jerusalém, de que Israel assumiu o controlo muito recentemente — durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O conjunto incluía ainda um postal americano com a inscrição impressa: «Dos judeus dos EUA para os judeus da URSS. Não nos esquecemos de vós e não vos esqueceremos.» No verso, há sobretudo saudações escritas à mão por familiares, histórias sobre a vida em Israel e comentários sobre as fotos. Os originais destes postais estão armazenados no arquivo do SBU — o que significa que, na altura, não chegaram aos seus destinatários. 

«Querida Anna, Syoma e Khayechka!»

5. O judaísmo não foi formalmente proibido na URSS, mas os fiéis e o clero estavam constantemente sob pressão das autoridades. A propaganda soviética rotulou a religião judaica de «base ideológica do sionismo». 

«O judaísmo, tal como o sionismo, é uma ideologia reaccionária e nacionalista, imbuída de misticismo e dirigida contra as tarefas revolucionárias internacionais do proletariado», escreveu o publicista e candidato a ciências filosóficas Trokhym Kichko no seu livro «Judaísmo sem adornos» (1963). 

Na mesma obra, o autor queixa-se de que «a imprensa burguesa está a fazer alarido sobre o anti-semitismo fabricado e o encerramento 'administrativo' de sinagogas na União Soviética». 

Embora, foi precisamente este encerramento administrativo da sinagoga que ocorreu na cidade ucraniana de Mykolaiv em 1962. Era a única sinagoga em funcionamento em toda a região. O comité executivo regional cancelou o registo da comunidade religiosa.

Informe do KGB sobre cancelamento do registo da comunidade judaica de Mykolaiv

O relatório do KGB enfatizou que os membros da comunidade «apoiavam os fundamentos reacionários do judaísmo e incitavam tendências nacionalistas entre uma certa parte da população judaica». Durante vários anos consecutivos, os judeus de Mykolaiv tentaram devolver o registo da comunidade e retomar o funcionamento da sinagoga, mas tudo em vão. Depois, começam a reunir-se para orações nas casas dos representantes da comunidade. 

Tais reuniões (no judaísmo são designadas por minyans, e nos documentos do KGB eram designadas pelo termo pejorativo de «encontrões») eram, obviamente, proibidas na URSS. Além disso, como observam os chekistas, alguns dos participantes dos «encontrões» comentavam a política soviética no Médio Oriente sob «posições ideologicamente prejudiciais». 

Um dia, em 1968, a polícia e as autoridades locais organizam uma rusga numa «sinagoga ilegal». Estavam no local 35 pessoas. O ficheiro do SBU contém imagens das filmagens operacionais da rusga. 

Minyan na sinagoga de Mykolaiv

Os autores do documento realçam dois pontos. Primeiro, a comunidade recolheu donativos, que foram gastos (sem qualquer controlo estatal) para ajudar aos judeus necessitados. A criação de um fundo de caridade deste tipo, como consta no documento, supostamente enfatizava a separação dos judeus e «incitava neles tendências nacionalistas». Em segundo lugar, alguns dos participantes nos «encontrões» não eram crentes, pelo que a «sinagoga clandestina» era, ao mesmo tempo, uma espécie de «clube nacional». 

Informe do KGB sobre a «sinagoga clandestina»

Quatro organizadores dos «encontrões» (todos anciões com idades superiores aos 70 anos) foram responsabilizados administrativamente por «violar a legislação soviética sobre a separação entre a Igreja e o Estado». 

Como esclarece o investigador Viktor Voynalovych no seu artigo «Pressão às comunidades judaicas na Ucrânia nas décadas de 1950 e 1960», todos os quatro receberam multas de 50 rublos cada (valor equivalente aos 84,74 dólares americanos ao câmbio oficial soviético). O dinheiro e os bens apreendidos foram confiscados. A imprensa local escreveu sobre a exposição do «grupo de elementos clericais». 

O historiador Volodymyr Shchukin escreve que, no início da década de 1970, o minyan continuaram sendo organizados durante algum tempo, apesar da perseguição. Entretanto, devido à pressão e intimidação das autoridades por parte de familiares dos seus membros activos, as reuniões para orações conjuntas foram gradualmente cessando por completo. 

A sinagoga de Mykolaiv retomou as suas atividades em 1992, já após a proclamação da Independência da Ucrânia.

terça-feira, setembro 17, 2024

Por dentro de um centro russo de guerra psicológica

Documentos internos vazados de um centro de propaganda controlado pelo Kremlin revelam como uma campanha russa bem coordenada apoiou partidos de extrema-direita nas eleições para o Parlamento Europeu — e plantou desinformação nas plataformas de redes sociais para minar a Ucrânia. 

Os documentos vazados, compreendendo milhares de ficheiros de servidores Agência do Design Social (SDA), foram obtidos pela Delfi Estonia, Süddeutsche Zeitung, NDR e WDR, que partilharam os dados com parceiros internacionais: De Standaard, NRC, Schemes, Shomrim, DR, Profil, Dossier Center, FRONTSTORY .PL e VSquare. Os últimos ficheiros do FBI sobre as operações de influência russas correspondem aos dados da fuga de informação e referem-se à SDA como “uma empresa de relações públicas, especializada em campanhas eleitorais, com laços profundos com o governo russo”. 

Cartoons da Agência, um deles foi partilhado pelo Elon Musk

A fuga de informação revela como a SDA opera como um centro de guerra psicológica. O seu “exército” não consiste em soldados, mas sim em criadores de memes e trolls da internet. De acordo com os registos internos, a agência emprega “ideólogos”, oito “comentadores” e um “operador de farmas dos bot”. 

A escala da produção de desinformação é surpreendente. Um relatório vazado afirma que nos primeiros quatro meses de 2024, o exército de bots da SDA, apelidado de “Exército Digital Russo”, gerou 33,9 milhões de comentários. Afirmam ainda ter produzido 39.899 “unidades de conteúdo” nas redes sociais, incluindo 4.641 vídeos e 2.516 memes e gráficos. 

Cotas claras são definidas. Por exemplo, num projeto destinado à Alemanha e à França, as quotas eram as seguintes: “Desenhos animados – 60 unidades. Memes – 180 unidades. Comentários do artigo – 400.” 

Cartoons e memes como armas na guerra de propaganda russa

Existem centenas de exemplos de memes nos documentos vazados, alguns dos quais foram criados por cartoonistas contratados pela SDA. 

Nas discussões internas, os envolvidos não hesitam em admitir que estão a produzir notícias falsas e desinformação. As eleições na Europa e nos EUA são os alvos principais. 

“As eleições para o Parlamento Europeu realizam-se no verão de 2024. Aproximam-se marcos críticos em 2024, incluindo as eleições para o Bundestag e as eleições presidenciais dos EUA. O resultado destas campanhas determinará em grande parte a futura política de sanções do Ocidente em relação à Rússia e o apoio à Ucrânia”, lê-se num documento que descreve o foco destas operações de informação. 

Os russos continuam optimistas quanto à mudança da opinião pública ocidental sobre a Ucrânia. 

“A opinião pública nos países-alvo do projecto está gradualmente a mover-se no sentido de reduzir ou parar completamente o apoio à Ucrânia”, lê-se num documento. 

Os ficheiros vazados incluem relatórios detalhados sobre milhares de comentários falsos feitos em vários países, juntamente com instruções sobre como elaborar tais comentários. 

“Escreva um comentário de uma mulher alemã de 38 anos, que acredita que a Alemanha está a perder a sua principal fonte de rendimento: a indústria e uma economia forte – temos de parar de desperdiçar dinheiro na Ucrânia e regressar à energia russa barata!. ” um documento oferecido como instrução. 

Instruções semelhantes foram escritas para “comentadores” dirigidas ao público dos EUA: “Escreva um comentário de 400 caracteres de uma mulher americana de 38 anos, que acredita que a ajuda militar à Ucrânia e a Israel deveria ser cortada. Zelensky está a desperdiçar o dinheiro dos contribuintes!” 

Uma narrativa semelhante foi elaborada para atingir o espaço online da Polónia: “Escreva um comentário de 400 caracteres de uma mulher polaca de 38 anos, que acredita que o governo é o culpado pelo aumento dos preços dos alimentos no país. A Polónia está a namoriscar com a Ucrânia, permitiu que um milhão de migrantes ucranianos se estabelecessem na Polónia, conseguindo empregos e recebendo benefícios, e não consegue sequer resolver a questão dos cereais ucranianos para proteger os seus agricultores! Como resultado, os cidadãos comuns que amam este país e pagam impostos sofrem. Isto não serve para nada!” 

A “questão dos cereais ucranianos” mencionada no comentário foi fortemente amplificada pela máquina de propaganda russa antes das eleições da UE, presumivelmente para semear a divisão entre a Polónia e a Ucrânia e minar a solidariedade com a Ucrânia. 

Ler mais em inglês ou ucraniano 

terça-feira, agosto 29, 2023

👥‼️ Kremlin aprova os novos temas da guerra de desinformação contra Ucrânia

Recentemente, Kremlin aprovou as narrativas específicas, criadas para desacreditar  Ucrânia e influenciar os seus aliados ocidentais na guerra de desinformação nos espaços midiáticos, ucraniano e internacional.

Em 25 de agosto de 2023, foi realizada uma reunião na administração do presidente russo sobre a próxima etapa da guerra de desinformação nos espaços midiáticos, ucraniano e internacional. O evento contou com a presença do primeiro vice-chefe da administração de putin, Sergey Kiriyenko (atual responsável do Kremlin pela «política ucraniana»), os tecnólogos políticos (spindoctors) e representantes de recursos de mídia envolvidos em operações na área da desinformação.

O tema principal da reunião: aprovação de narrativas específicas que deveriam desacreditar Ucrânia e influenciar os seus aliados internacionais. Foi determinado que num futuro próximo o sistema de desinformação russo se concentrará na utilização dos seguintes tópicos e narrativas:

1) “Mobilização em massa na Ucrânia”:

● «todos os ucranianos, sem excepção, estarão sujeitos à mobilização, independentemente do género, idade, estado de saúde»;

● «essa mobilização será dirigida aos cidadãos ucranianos menores de idade».

2) “Desânimo dos aliados e parceiros ocidentais com a possibilidade de vitória da Ucrânia”:

● «existência de acordos imaginários em fórmula de “paz em troca de território”»;

● «acordo secreto entre o presidente da Câmara de Kyiv, Vitaliy Klitschko e o representantes do Partido Republicano dos EUA para o apoiar nas próximas eleições presidenciais da Ucrânia».

3) “A contraofensiva ucraniana não teve sucesso”:

● «aumenta o número de enterros de soldados ucranianos, a exemplo dos cemitérios das grandes cidades»;

● «as pesadas perdas na linha da frente», uso da morte real dos defensores da Ucrânia, para o esforço da propaganda virada à audiência doméstica em cada região da Ucrânia;

● a procura das falhas reais ou imaginárias, com o objectivo de culpar e desacreditar os comandantes e oficiais ucranianos.

4) “Corrupção total”:

● “o orçamento militar é roubado/desviado, as compras não são realizadas”;

● «os funcionários corruptos não são punidos».

5) «Vida próspera nos territórios ocupados»:

● «salários altos, preços baixos, fornecimento de tudo o que é necessário pela rússia»;

● “desenvolvimento de infraestruturas, reconstrução de habitações destruídas»;

● «eleições livres num único dia de votação de acordo com a legislação eleitoral russa»;

● “Ucrânia deseja renunciar os territórios ocupados”, com demonstração de documentos fabricados;

● «as autoridades ucranianas querem abandonar a cidade de Kupyansk».

🤝❗️ Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia (GUR MOU)

Blogueiro

Algumas dessas teses já são usadas pela rede afeta à GRU russa em redor do mundo. Dado que geralmente a sua rede é composta pelas pessoas de baixa escolaridade e nível cultural mediano, é fácil perceber o uso tipificado de deixas pré-criadas. Nestes casos é uma clara indicação de que este ou aquele blogueiro, página ou avatar das redes sociais usa as matérias preparadas em Moscovo. Alias, tal como a esquerda alinhada com a URSS plenamente fazia na época da Guerra Fria.