segunda-feira, março 31, 2025

Shevchenko e Aldridge: a amizade entre o poeta ucraniano e o grande trágico negro

A improvável amizade entre o poeta nacional ucraniano Taras Shevchenko (1814-1861) e o ator afro-americano Ira Aldridge (1807-1867) oferece uma boa oportunidade para revisitar esta história notável e a sua ilustração da relação simbólica entre Ucrânia e Estados Unidos da América. 

Imagine: nos meados do século XIX, um lendário ator afro-americano que escapou da escravatura para ir ao outro lado do globo conhecer um grande poeta ucraniano – um antigo servo e prisioneiro político do regime czarista russo. Imagine a compreensão mútua interna e a solidariedade na interação criativa entre dois artistas extraordinários.

por: Olga Kerziouk, Curadora de Estudos Ucranianos, Londres 

O retrato de um homem muito simpático, com olhos grandes e bigodes, adornava todos os livros sobre o poeta nacional da Ucrânia, Taras Shevchenko. Foi pintado a lápis italiano preto e branco e finalizado por Shevchenko a 25 de dezembro de 1858.

Retrato de Ira Aldridge da autoria do Taras Shevchenko (Wikimedia Commons)

A 10 de novembro de 1858, Ira Aldridge interpretou Otelo pela primeira vez num dos teatros de São Petersburgo, na altura a capital russa, e Taras Shevchenko, um ávido leitor de Shakespeare e fervoroso espectador de teatro, estava na plateia, juntamente com os seus amigos (a família do conde Fiódor Tolstoy e outros). Ficou muito entusiasmado com a atuação e começou a chorar. 

Página de rosto de 'Um breve livro de memórias e carreira teatral de Ira Aldridge'

A 12 de novembro, Shevchenko encontrou-se pessoalmente com Aldridge na casa do Conde Tolstoi, onde Shevchenko era um convidado frequente. Tornaram-se grandes amigos (Aldridge chamava “artista” ao Shevchenko, tendo dificuldade em pronunciar o seu apelido ucraniano). Duas jovens filhas do Conde Tolstoi, Katya (Ekaterina Tolstoy Junge) e Olya, serviam frequentemente de intérpretes para eles. A 6 de dezembro, Shevchenko enviou uma carta ao seu amigo ator russo (nascido como semi-escravo, o servo, como o próprio Shevchenko) Mikhail Shchepkin, cheia de admiração pelo talento de Aldridge, “que faz milagres em palco”. “Ele mostra Shakespeare ao vivo”, escreveu Shevchenko. O amigo do Kobzar, Mikhail Mikeshin, fez um esboço satírico de Shevchenko em admiração diante de Aldrigde e o próprio Shevchenko acrescentou “O meu mudo espanto perante Ira Aldridge” (imagem abaixo). 

Taras Shevchenko desenhado por Mikhail Mikeshin

Em 1913, o pintor russo Leonid Pasternak fez o seu desenho de Aldridge e Shevchenko, que está reproduzido em livros sobre eles. O original está guardado no Museu do Teatro Central Estatal de Bakhrushin, em Moscovo.

Leonid Pasternak: «Shevchenko e Aldridge em São Petersburgo», 1913

Em 1861-1866, Aldridge visitou muitos lugares na Ucrânia: Kyiv, Kharkiv, Odessa, Zhytomyr e Kropyvnytskiy (na altura Elisavetgrad). Aprendeu russo e alemão e também se apresentou com sucesso utilizando esses idiomas. As suas apresentações atraíram grandes públicos em todos os lugares. O famoso dramaturgo ucraniano Ivan Karpenko-Karyi caminhou quilómetros desde a aldeia de Bobryntsi até Elisavetgrad para assistir à sua apresentação. 

Taras Shevchenko and Ira Aldridge: (The Story of Friendship between the Great Ukrainian Poet and the Great Negro Tragedian), by Demetrius M. Corbett, The Journal of Negro Education, Vol. 33, No. 2 (Spring, 1964), pp. 143-150 (8 pages)

A biografia deste extraordinário ator afro-americano (especialmente famoso pelos papéis shakespearianos) é fascinante e continua a atrair a merecida atenção. O seu bicentenário em 2007 foi celebrado em muitos países e os anais de um seminário sobre o mesmo foram publicados na Alemanha em 2009: Ira Aldridge 1807-1867. The Great Shakespearean Tragedian on the Bicentennial Anniversary of his Birth (Frankfurt am Main, 2009; YD.2009.a.9405). 

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Em 2012, Red Velvet, uma peça de Lolita Chakrabarti sobre Aldridge e a sua interpretação do papel de Otelo (publicada como livro; Londres, 2014; YK.2013.a.13939) estreou no Tricycle Theatre em Londres, com Aldridge interpretado por Adrian Lester. Cada vez mais pessoas estão a descobrir a vida extraordinária de Aldridge.

 

Foram publicadas mais diversos livros sobre Ira Aldridge em várias línguas, na sua maioria em inglês, mas também em ucraniano: editora Mystetstvo (Arte): «Aira Oldridzh: nehrytianskyi trahik» (Kyiv, 1966) X.898/2832); «Poet i trahik» (Kyiv, 1964; X. 908/1462), de Ivan Kulinych, os autores ucranianos exploraram, sobretudo a amizade de Taras Shevchenko e Ira Aldridge. 

Ivan Kulinych: «Poet i tragik», Kyiv, 1964

Este viajado e muito amado ator (também atuou na Alemanha, Áustria, Holanda, Hungria, Sérvia, Súiça) morreu durante uma digressão na Polónia a 7 de agosto de 1867. Os seus planos de regressar aos EUA, a sua terra natal, após o fim da Guerra Civil (era também um abolicionista assumido) nunca se concretizaram. Aldridge recebeu um funeral de Estado na Polónia e o seu túmulo encontra-se no Cemitério Antigo em Łódź. 

Túmulo de Ira Aldridge em Łódź (foto: Jan W. Raczkowski, Wikimedia Commons)

É emocionante prestar homenagem a esta grande vida que tocou a vida e a imaginação de outras pessoas em muitos países e culturas. Taras Shevchenko, cujos 213º aniversário celebramos este ano, foi um deles.

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Em 2014-16, em Nova Iorque, a companhia teatral Yara Arts Group, residente no Teatro Experimental La MaMa e liderada pela ucraniano-americana Virlana Tkacz, apresentou a sua peça teatral, «Dark Night Bright Stars», especialmente dedicada à amizade entre Shevchenko e Aldridge. Yara Arts Group é a companhia que lida frequentemente com uma ideia complexa e historicamente contingente da cultura ucraniana. Tkacz é muito conhecida na cena teatral do centro de Nova Iorque, bem como pelas suas colaborações com a lenda da Broadway Andre DeShields.

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