quarta-feira, abril 02, 2025

Quo Vadis Estados Unidos?

Provavelmente já ouviu falar de Yuri Bezmenov, ex-oficial da 1ª Direção Geral do KGB que desertou para Canadá e revelou no Ocidente os modus operandi da secreta soviética. Bezmenov é mais conhecido por explicar o esquema de sabotagem ideológica que o KGB usou e que hoje continua à ser usado pelo regime russo. 

Este esquema, tal como descrito por Bezmenov, é constituído por 4 etapas: 

1. Desmoralização: esta fase dura 15 a 20 anos e envolve a destruição gradual dos valores sociais: morais, educacionais, culturais, legais, etc. 

2. Desestabilização: esta fase dura 2 a 5 anos e implica o estabelecimento de uma ditadura populista e o isolacionismo. 

3. Crise: esta fase dura 2 a 6 meses e envolve uma tomada violenta de poder por parte de agentes internos e externos. 

4. Normalização: esta etapa é ilimitada no tempo e envolve a transferência do país para o controlo externo da URSS/rússia, bem como a eliminação dos participantes das etapas anteriores. 

De acordo com este esquema, por exemplo, ocorreram os acontecimentos que levaram à Revolução da Dignidade na Ucrânia e à invasão russa em 2014 (mas os russos não tiveram em conta a subjetividade e a paixão muito maiores do que o normal do povo ucraniano, e o plano falhou no final da etapa 3).

Creio que os acontecimentos que estão a ocorrer agora nos EUA são uma versão ligeiramente modificada deste esquema. A primeira etapa decorreu da forma clássica e está agora concluída. A segunda etapa já está em curso, mas o seu tempo está o mais comprimido possível, em relação ao prazo da terceira. Isto é compreensível, porque a rússia simplesmente não possui de 2 a 5 anos, a sua economia não vai durar tanto tempo, por isso estão com pressa. A questão é saber quando ocorrerá a transição para a terceira fase, quem será a figura americana escolhida pelos russo e como será exactamente estabelecido o controlo/e externo (porque a intervenção militar russa directa parece bastante improvável).

A minha versão atual, da qual não tenho muita certeza, é a seguinte.

A figura-fantoche norte-americana, que poderá ser escolhida pelos russos, é provavelmente Bernie Sanders, que é atualmente o político mais popular dos Estados Unidos (% da aprovação, menos a % de desaprovação, ver a imagem em baixo). 

Pensem nisto: uma personagem de banda desenhada, um herói de memes, um homem que é considerado quase um comunista nos Estados Unidos, é o político mais popular dos Estados Unidos. Recentemente, organizou o maior comício nos EUA dos últimos 20 anos em Denver, com 35.000 pessoas (nada mau para Denver, mas é patético, em termos americanos, claro).

Relativamente ao cenário de estabelecimento de controlo/e externo, o meu entendimento é que o plano é privar os EUA de aliados e arrastá-los para várias guerras em simultâneo com a intenção de infligir uma derrota militar aos EUA às mãos da China. É precisamente sobre este aspecto que tenho mais dúvidas.

Mas, de qualquer modo, não vejo nenhuma força dentro dos EUA que tenha subjetividade, paixão e recursos suficientes para impedir a implementação deste plano. Portanto, a questão é saber se a Ucrânia se manterá como observadora não envolvida ou se tentará intervir activamente na situação.

segunda-feira, março 31, 2025

Shevchenko e Aldridge: a amizade entre o poeta ucraniano e o grande trágico negro

A improvável amizade entre o poeta nacional ucraniano Taras Shevchenko (1814-1861) e o ator afro-americano Ira Aldridge (1807-1867) oferece uma boa oportunidade para revisitar esta história notável e a sua ilustração da relação simbólica entre Ucrânia e Estados Unidos da América. 

Imagine: nos meados do século XIX, um lendário ator afro-americano que escapou da escravatura para ir ao outro lado do globo conhecer um grande poeta ucraniano – um antigo servo e prisioneiro político do regime czarista russo. Imagine a compreensão mútua interna e a solidariedade na interação criativa entre dois artistas extraordinários.

por: Olga Kerziouk, Curadora de Estudos Ucranianos, Londres 

O retrato de um homem muito simpático, com olhos grandes e bigodes, adornava todos os livros sobre o poeta nacional da Ucrânia, Taras Shevchenko. Foi pintado a lápis italiano preto e branco e finalizado por Shevchenko a 25 de dezembro de 1858.

Retrato de Ira Aldridge da autoria do Taras Shevchenko (Wikimedia Commons)

A 10 de novembro de 1858, Ira Aldridge interpretou Otelo pela primeira vez num dos teatros de São Petersburgo, na altura a capital russa, e Taras Shevchenko, um ávido leitor de Shakespeare e fervoroso espectador de teatro, estava na plateia, juntamente com os seus amigos (a família do conde Fiódor Tolstoy e outros). Ficou muito entusiasmado com a atuação e começou a chorar. 

Página de rosto de 'Um breve livro de memórias e carreira teatral de Ira Aldridge'

A 12 de novembro, Shevchenko encontrou-se pessoalmente com Aldridge na casa do Conde Tolstoi, onde Shevchenko era um convidado frequente. Tornaram-se grandes amigos (Aldridge chamava “artista” ao Shevchenko, tendo dificuldade em pronunciar o seu apelido ucraniano). Duas jovens filhas do Conde Tolstoi, Katya (Ekaterina Tolstoy Junge) e Olya, serviam frequentemente de intérpretes para eles. A 6 de dezembro, Shevchenko enviou uma carta ao seu amigo ator russo (nascido como semi-escravo, o servo, como o próprio Shevchenko) Mikhail Shchepkin, cheia de admiração pelo talento de Aldridge, “que faz milagres em palco”. “Ele mostra Shakespeare ao vivo”, escreveu Shevchenko. O amigo do Kobzar, Mikhail Mikeshin, fez um esboço satírico de Shevchenko em admiração diante de Aldrigde e o próprio Shevchenko acrescentou “O meu mudo espanto perante Ira Aldridge” (imagem abaixo). 

Taras Shevchenko desenhado por Mikhail Mikeshin

Em 1913, o pintor russo Leonid Pasternak fez o seu desenho de Aldridge e Shevchenko, que está reproduzido em livros sobre eles. O original está guardado no Museu do Teatro Central Estatal de Bakhrushin, em Moscovo.

Leonid Pasternak: «Shevchenko e Aldridge em São Petersburgo», 1913

Em 1861-1866, Aldridge visitou muitos lugares na Ucrânia: Kyiv, Kharkiv, Odessa, Zhytomyr e Kropyvnytskiy (na altura Elisavetgrad). Aprendeu russo e alemão e também se apresentou com sucesso utilizando esses idiomas. As suas apresentações atraíram grandes públicos em todos os lugares. O famoso dramaturgo ucraniano Ivan Karpenko-Karyi caminhou quilómetros desde a aldeia de Bobryntsi até Elisavetgrad para assistir à sua apresentação. 

Taras Shevchenko and Ira Aldridge: (The Story of Friendship between the Great Ukrainian Poet and the Great Negro Tragedian), by Demetrius M. Corbett, The Journal of Negro Education, Vol. 33, No. 2 (Spring, 1964), pp. 143-150 (8 pages)

A biografia deste extraordinário ator afro-americano (especialmente famoso pelos papéis shakespearianos) é fascinante e continua a atrair a merecida atenção. O seu bicentenário em 2007 foi celebrado em muitos países e os anais de um seminário sobre o mesmo foram publicados na Alemanha em 2009: Ira Aldridge 1807-1867. The Great Shakespearean Tragedian on the Bicentennial Anniversary of his Birth (Frankfurt am Main, 2009; YD.2009.a.9405). 

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Em 2012, Red Velvet, uma peça de Lolita Chakrabarti sobre Aldridge e a sua interpretação do papel de Otelo (publicada como livro; Londres, 2014; YK.2013.a.13939) estreou no Tricycle Theatre em Londres, com Aldridge interpretado por Adrian Lester. Cada vez mais pessoas estão a descobrir a vida extraordinária de Aldridge.

 

Foram publicadas mais diversos livros sobre Ira Aldridge em várias línguas, na sua maioria em inglês, mas também em ucraniano: editora Mystetstvo (Arte): «Aira Oldridzh: nehrytianskyi trahik» (Kyiv, 1966) X.898/2832); «Poet i trahik» (Kyiv, 1964; X. 908/1462), de Ivan Kulinych, os autores ucranianos exploraram, sobretudo a amizade de Taras Shevchenko e Ira Aldridge. 

Ivan Kulinych: «Poet i tragik», Kyiv, 1964

Este viajado e muito amado ator (também atuou na Alemanha, Áustria, Holanda, Hungria, Sérvia, Súiça) morreu durante uma digressão na Polónia a 7 de agosto de 1867. Os seus planos de regressar aos EUA, a sua terra natal, após o fim da Guerra Civil (era também um abolicionista assumido) nunca se concretizaram. Aldridge recebeu um funeral de Estado na Polónia e o seu túmulo encontra-se no Cemitério Antigo em Łódź. 

Túmulo de Ira Aldridge em Łódź (foto: Jan W. Raczkowski, Wikimedia Commons)

É emocionante prestar homenagem a esta grande vida que tocou a vida e a imaginação de outras pessoas em muitos países e culturas. Taras Shevchenko, cujos 213º aniversário celebramos este ano, foi um deles.

Faça click para ver as fotos e excepto da peça

Em 2014-16, em Nova Iorque, a companhia teatral Yara Arts Group, residente no Teatro Experimental La MaMa e liderada pela ucraniano-americana Virlana Tkacz, apresentou a sua peça teatral, «Dark Night Bright Stars», especialmente dedicada à amizade entre Shevchenko e Aldridge. Yara Arts Group é a companhia que lida frequentemente com uma ideia complexa e historicamente contingente da cultura ucraniana. Tkacz é muito conhecida na cena teatral do centro de Nova Iorque, bem como pelas suas colaborações com a lenda da Broadway Andre DeShields.

Ler mais: AQUI e AQUI

História da Ucrânia e dos cossacos ucranianos, 1796

O historiador austríaco Johann Christian Engel escreveu em 1796: «A UCRÂNIA, do ponto de vista do seu território, é igual a um reino; é uma terra fértil, generosamente dada pela natureza; é a fronteira entre a Europa culta e a Ásia incivilizada, o pasto e a porta de inúmeras hordas asiáticas que tentaram inundar a Europa, e só por essa razão merece grande atenção. 

Agora UCRÂNIA faz parte do grande império russo. Mas como é que isso foi parar ao domínio russo? Como aconteceu que os cossacos independentes se encontraram sob o jugo de Moscovo? Como é que os MOSCOVITAS (não os russos!) tiveram a sorte de colocar correntes nos cossacos?» 

Hetman da Cossacos de Zaporizhia Bohdan Chmelnytskiy

Como podem ver, Lenine não inventou Ucrânia, nem os ucranianos (como disse o «grande historiador» putin), como escreve a ativista ucraniana Ala Zarvanytska. 

A sua obra «História da Ucrânia e dos Cossacos Ucranianos, e também do Reino da Galícia e Wladimir» (Die Geschichte der Ukraine und der ukrainischen Kosaken, wie auch der Königreiche Halitsch u. Wladimir) foi publicada em 1792 em Halle. 

Faça click para ler o texto original

Johann Christian Engel estudou filologia clássica e história na Universidade de Göttingen, foi aluno do historiador alemão August-Ludwig Schlotzer, um dos fundadores da teoria «normandista» da origem do estado Rus' de Kyiv (não confundir com o estado russo). Primeira obra independente de Engel foi «Comentário sobre a república militar ou uma comparação entre Espartanos, Cretenses e Cossacos» (Commentatio de republica militari seu comparatio Lacedaemoniorum, Cretensium, Cosaccorum; Göttingen, 1790) mostrou a influência de Heyne e Schlözer.

Os voluntários brasileiros na Legião Internacional da Ucrânia

Imagem ilustrativa: Facebook do Rafael Leite

O voluntário brasileiro Rafael Leite que nunca foi militar no Brasil conta a sua história da participação na defesa da Ucrânia, desde a sua chegada à Ucrânia até ingressar na Legião Internacional.

 

O voluntário Jeferson, do 2º Batalhão da Legião Internacional, é um outro civil brasileiro, formado em agropecuária, com experiência de pequeno empresário, também nunca foi militar no Brasil:

domingo, março 30, 2025

Confirmada a morte de 100 mil soldados russos na guerra contra Ucrânia

Jornalistas da Mediazona e do serviço russo da BBC, juntamente com uma equipa de voluntários, com base em fontes abertas, estabeleceram os nomes exatos de 100.001 militares russos mortos na guerra na Ucrânia (atualizado em 27 de março de 2025). 

“Mesmo de acordo com a nossa metodologia, este está longe de ser um número completo: os voluntários acumularam mais de 10 mil (10.269) obituários “em análise”. Nem todos são únicos, e é impossível simplesmente somar estes dois números, uma vez que algumas das entradas ali contidas são duplicadas”, observa Mediazona. 

Perdas russas na valiação do Estado Maior-general das FAU.
O número de baixas é a soma de KIA, MIA, WIA e POW

No terceiro aniversário da invasão em grande escala da rússia contra Ucrânia, a Meduza e a Mediazona publicaram um estudo que mostrava que entre 160.000 à 165.000militares russos morreram na guerra (última atualização da estimativa do número de mortos: 24 de fevereiro de 2025, a estimativa em si é do final de 2024). Este número é uma estimativa estatística do excesso de mortalidade masculina durante a guerra. Foi o resultado de uma comparação e análise de documentos específicos: as listas de nomes dos mortos, compiladas por voluntários desde o início da invasão, e o Registo de Casos de Herança, que publica informação sobre todos os herdeiros russos. A avaliação não inclui cidadãos de outros países que lutaram ao lado da Rússia, incluindo residentes dos territórios temporariamente ocupados (TOT) de Luhansk, Donetsk e outras regiões da Ucrânia. O número também se limita aos mortos e não inclui os feridos. 

O Mediazona publicou também uma lista de militares russos mortos na guerra, que os jornalistas têm mantido há três anos, juntamente com o serviço russo da BBC e uma equipa de voluntários. 

Blogueiro 

Em termos de comparação, em 10 anos da guerra no Afeganistão, a União Soviética teve 15.051 baixas mortais, deles — 14.427 militares do exército soviético (as perdas separadas do KGB — 576 pessoas, incluindo 514 de tropas da guarda-fronteira, subordinadas ao KGB e 28 do Ministério do Interior) e 53.753 feridos (contusões, ferimenos militares e quotidianos). O número de perdas irrecuperáveis ​​não incluia 417 militares desaparecidos ou que foram capturados durante os combates, até 1999, 287 destas pessoas não tinham regressado à URSS, rússia ou outros estados do espaço pós-soviético. Os números finais de militares mortos não incluem os que morreram devido aos ferimentos e doenças, após a sua evacuação do Afeganistão, nos hospitais do território da URSS.

Dmytro Dontsov, o pai do «nacionalismo integral» ucraniano

A 30 de março de 1973, em Montreal, no Canadá, aos 90 anos, faleceu o destacado jornalista, ensaista, criítico literário, político, ideólogo e fundador do nacionalismo integral ucraniano, Dmytro Dontsov (1883 - 1973).

Nascido em Melitopol, no sul da Ucrânia, estudou em São Petersburgo e cedo se envolveu na política, passando do ideal socialista e social-democrata ao nacionalismo ucraniano: voluntarista, embutido no poder e através da «violência criativa da uma minoria com a iniciativa».

Dmytro Dontsov, estudante em S. Patersburgo, 1902-1908

Em 1939, nas vésperas da ocupação soviética da Ucrânia Ocidental, Dontsov deixou Ucrânia, vivendo em em várias capitais europeias: Bucareste, Praga, Berlim e Paris. Mais tarde, mudou-se para os Estados Unidos e daí para o Canadá, onde viveu em Montreal de 1947 até à sua morte. Aí permaneceu de 1947 a 1953. Lecionou literatura ucraniana na universidade local. No entanto, não foi sepultado em Montreal, mas sim nos Estados Unidos – no cemitério ucraniano de South Bound Brook.

Por ocasião do aniversário do destacado político e publicista, recordaremos uma das suas coletâneas de artigos, escritos e publicados no Canadá. Assim, os artigos nele incluídos foram escritos entre 1948 e 1954 e publicados em 1955 em Toronto.

O título, de forma concentrada, transmite a ideia principal da coleção e apela às palavras sobre o veneno «do cálice moscovita», sobre o qual Taras Shevchenko escreveu e que durante séculos mudou a consciência dos ucranianos, transformando-os em «pequenos russos» e súbditos do império. Dmytro Dontsov analisa como funciona este veneno e que consequências provoca.

Dmytro Dontsov: «Veneno moscovita», 1955

Tomemos a liberdade de expor uma breve citação do artigo «Apelo aos Hrytsis» (1952), que parece relevante no nosso tempo: «Em severa agonia, a ideia de nacionalismo nasce na Ucrânia, espancada e arranhada por golpes de fora, minada de dentro pelas minhocas «nativas».

Os três principais tipos de ucranianos, brilhantemente criados por Gogol, ainda vivem nesta terra. São eles, um cossaco, um «pequeno russo» sentimental (mortadela, copo, mulher, casa do campo) e um «desprezível pequeno russo», um informador, um especulador ou um gangster...» 

Dmytro Dontsov. «Veneno moscovita». – Toronto-Montreal, 1955. – 296 p.

Os textos da colectânea podem ser lidos, em ucraniano, AQUI. 

Fonte: Diáspora.ua

Entre acordos de paz e os crimes de guerra

Quando um europeu comum, ao pequeno-almoço, fica entre um croissant e leitura das notícias sobre prédios destruídos e escolas em chamas em Kharkiv, é improvável que isso lhe deixe uma impressão significativa, pois diz respeito a uma cidade desconhecida que fica muito longe.

No entanto, Kharkiv é a segunda cidade mais populosa da Ucrânia, com uma população de 1,5 milhões. Assim, um europeu médio pode facilmente imaginar cidades comparáveis, como Munique (1,5 milhões de pessoas), Marselha (1,6 milhões de pessoas) ou Barcelona (1,6 milhões de pessoas). Por outro lado, imaginar crianças a jogar futebol alegremente num estádio escolar em Marselha e, de repente, um drone de ataque ou um míssil balístico embater nesse mesmo local seria extremamente desagradável.

A 27 de março, as tropas russas voltaram a atacar Kherson (279.000 pessoas) em plena luz do dia, atacando a estação ferroviária e as infraestruturas circundantes, bem como o centro da cidade. Duas pessoas que aguardavam numa paragem de transporte público morreram instantaneamente, e outras foram hospitalizadas.

No dia anterior, a 26 de Março, drones kamikazes russos atacaram massivamente edifícios exclusivamente residenciais em Kharkiv, onde nunca existiram unidades militares ou fábricas. Como resultado, os incêndios devastaram a cidade durante toda a noite, vários prédios de apartamentos foram danificados e cerca de vinte civis ficaram feridos, entre eles um rapaz de 5 anos e uma rapariga de 14 anos.

No mesmo dia, Dnipro, a quarta maior cidade da Ucrânia, com uma população de quase 1 milhão de habitantes e um importante centro científico, de investigação e industrial, conhecida como a capital espacial da Ucrânia, foi atacada por drones e mísseis balísticos. Como resultado deste ataque, vários edifícios residenciais, 60 carros particulares e instituições de ensino foram destruídos e três civis sofreram ferimentos graves.

A 24 de março, em plena luz do dia, os russos lançaram um ataque com mísseis no centro de Sumy (com 256.000 habitantes), resultando em 108 pessoas gravemente feridas, incluindo 23 crianças. Um grande número de objectos completamente civis, que não tinham qualquer relação com as actividades de combate, sofreram danos significativos, três edifícios residenciais foram completamente destruídos e mais de 3.000 janelas foram partidas pela onda de explosão.

É também de realçar que as áreas povoadas nas regiões da linha da frente sofrem não só com mísseis e drones, que ameaçam todo o território da Ucrânia, mas também com as bombas voadoras e artilharia russa de longo alcance. Isto aplica-se às regiões de Kharkiv, Sumy, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson, onde casas particulares, escolas, jardins de infância, empresas e quintas são destruídas diariamente.

Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia está a acontecer, de facto, não muito longe da UE, mas bem ao longo das suas fronteiras orientais. Por exemplo, um voo de Kyiv à Paris demora três horas, enquanto um voo de Londres para Lisboa demora, em média, outras três horas. Portanto, o combate de alta intensidade que tem vindo a ocorrer na Europa de Leste há três anos afecta significativamente a situação em todo o continente europeu de uma forma ou de outra e, embora os residentes comuns possam não se aperceber deste facto, os líderes políticos da maioria dos países da UE, Reino Unido, Noruega, Islândia e Suíça estão ansiosos por um fim rápido para a guerra.

Paradoxalmente, nem todos os políticos ocidentais, particularmente nos EUA, percebem perfeitamente que a guerra foi iniciada pela rússia com a sua invasão em grande escala e sem provocação da Ucrânia, e que é precisamente a federação russa que pode pôr fim à guerra.

No entanto, como as últimas semanas mostraram, Moscovo não está interessada em pôr fim à guerra, uma vez que as delegações russas apenas participam formalmente em negociações mediadas pelos EUA e pela Arábia Saudita, demonstrando uma posição inflexível e apresentando a Kyiv exigências deliberadamente irrealistas que, de facto, significam uma capitulação completa. E embora tenha sido alcançado um acordo para proibir os ataques às infra-estruturas energéticas e civis, as tropas russas continuam a realizar ataques aéreos permanentes à Ucrânia, que afectam particularmente as infra-estruturas críticas das grandes cidades e a população civil.

Por exemplo, todos os ucranianos ficaram chocados com a notícia de que, no dia 23 de Março, uma menina de 5 anos e o seu pai foram mortos (enquanto a sua mãe estava hospitalizada em estado grave) num ataque de drones em Kyiv e que eram deslocados internos das áreas da linha da frente da região de Zaporizhzhia. Noutra zona, uma idosa foi queimada viva num incêndio ocorrido após um ataque de um drone armado com uma ogiva termobárica. No dia 25 de março, uma criança de 3 anos e a sua mãe de 36 foram mortas num ataque bombista na aldeia de Kurytivka, na região de Donetsk.

Os ucranianos têm lido diariamente uma série de notícias semelhantes nos últimos três anos. Seria absurdo pensar que, nestas condições, os cidadãos da Ucrânia não querem o fim imediato da guerra! No entanto, não procuram um cessar-fogo temporário, mas sim uma paz duradoura baseada na justiça, no direito internacional e no respeito pelos princípios da inviolabilidade das fronteiras e da integridade territorial dos Estados.

Por sua vez, a liderança da rússia não depende tanto da vitória das suas próprias tropas no campo de batalha, mas do método de pressão terrorista em todo o território da Ucrânia através de ataques aéreos permanentes que destroem implacavelmente as infraestruturas críticas e causam baixas significativas entre os civis. O Kremlin presume que o povo ucraniano fugirá para a Europa ou recorrerá à agitação política, exigindo que Kyiv cesse imediatamente a resistência ao agressor e conclua um acordo de paz com Moscovo em quaisquer termos, o que, de facto, significa a capitulação da Ucrânia à rússia.

Os mestres do Kremlin acreditam que, ao continuarem a matar ucranianos pacíficos, incluindo crianças, quebrarão o espírito de luta, a força de vontade e o desejo de liberdade da nação política ucraniana, independentemente da origem étnica dos seus representantes e da língua da sua comunicação quotidiana. Actualmente, o objectivo de Putin não é capturar rapidamente Kharkiv, Sumy, Dnipro e outras grandes cidades ucranianas (como espera fazer mais tarde), mas sim forçar os ucranianos à «paz» no sentido exacto que Moscovo dá à palavra, em vez de Ucrânia e dos seus aliados ocidentais.

Pela palavra «paz», o Kremlin quer dizer a demissão do Presidente Zelensky e do povo que está para vir, que concordaria com a anexação da Crimeia, Sebastopol, as regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, que já foram incluídas na Constituição da federação russa, ao poder em Kyiv e, finalmente, a entrada de uma Ucrânia fantoche e diminuída no Estado da União da rússia e Belarus, bem como na União Económica Euroasiática.

Por conseguinte, putin ordenou não só lutar contra o exército inimigo, mas também realizar o genocídio da nação ucraniana por todos os meios disponíveis para atingir o seu objectivo. Como o Kremlin está convencido, quanto mais cidadãos ucranianos se tornarem refugiados nos países da UE, melhor será para as futuras autoridades de ocupação. Outros ucranianos pressionariam Ucrânia para assinar uma capitulação. Assim, enquanto o Ocidente pretende que Moscovo conclua um acordo de paz com Kyiv o mais rapidamente possível em termos mutuamente aceitáveis, a rússia prefere claramente continuar a cometer crimes de guerra.

sábado, março 29, 2025

A história do mercenário togolês capturado pelas FAU

O mercenário togolês Dosen Touseh (1998) procurava o emprego na rússia, assinou o contrato, foi enviando para a linha da frente. Foi atingido por um drone ucraniano. Sofreu a queimadura por frio. Foi capturado pelas FAU. Irá sofrer a amputação dos pés. 

Este é um resumo curto das aventuras de um cidadão togolês de 27 anos na rússia e na Ucrânia. Mais um africano que correu atrás do “rublo largo” e assinou um contrato com as forças armadas russas (sem saber ler russo) no dia 16 de dezembro de 2024, pensando que serviria algures na retaguarda. Neste caso, foi-lhe prometido um emprego como polícia (!) em Saratov (!!) Naturalmente, o mercenário não chegou ao Saratov, nem sequer poderia trabalhar na polícia, por não saber falar russo. Quando se aprecebeu o que realmente tinha assinado, o rapaz tentou fugir, mas já era tarde demais. 

Dois dias depos, no dia 18 de dezembro, já estive na linha da frente. No dia 16 de fevereiro de 2025, na sua primeira missão real de combate, o seu grupo internacional foi liquidado por um único ataque de drone ucraniano. Ferido, refugiou-se num abrigo, onde três dias depois os militares ucranianos o encontraram com os membros congelados. Os médicos ucranianos conseguiram salvar-lhe os braços, mas o mercenário teve muito menos sorte com as suas pernas – mais provavelmente terá os pés amputados. 

Apesar de receber uma parte do dinheiro prometido pelos russos, o togolês não está nada satisfeito. Foi enganado, ficou aleijado para sempre e não se sabe quanto tempo passará em cativeiro ucraniano – a parte russa deixou de precisar dele no preciso momento em que foi ferido em batalha. O contrato assinado valeu a pena dos pés perdidos? A resposta é óbvia.

Canto vermelho do Exército Lituano, 1940

«Viva o líder de todos os povos, o camarada Estaline»

Estamos no verão de 1940, no curtíssimo período de tempo, em que a Lituânia ainda era formalmente independente, mas de facto, já se tornou um satélite da URSS. 

Além de Estaline e Voroshilov, há retratos dos líderes interinos do estado lituano – Vincas Krėvė-Mickevičius (o primeiro-ministro da Lituânia «popular» entre 24 de junho de 1940 à 1 de julho de 1940) e Justas Paleckis (presidente da Lituânia «popular» entre 17 de junho de 1940 à 24 de agosto de 1940). O primeiro estudou em Kyiv (1904) e Lviv (doutoramento em filologia 1908). Durante a Segunda Guerra Mundial, foi para o Ocidente e morreu nos EUA em 1954. O segundo permaneceu como um influente funcionário do PC soviético durante muito tempo, escapou todas as repressões comunistas e morreu em 1980. 

O filho de Paleckis, Justas Vincas Paleckis, atualmente é eurodeputado social-democrata e membro do Partido dos Socialistas Europeus. O seu filho e neto de Justas, Algirdas Paleckis, é um ex-diplomata lituano e ativista pró-Kremlin, em julho de 2021 foi julgado e condenado à seis anos de prisão por espionagem à favor da rússia. O Tribunal de Recurso da Lituânia confirmou a sentença em maio de 2022, embora baixou o termo prisional para 5 anos e meio.

Foto: Lietuva senose fotografijose

Texto: Eduard Andruschenko

sexta-feira, março 28, 2025

Amigos Portugueses da Ucrânia [1956]

Em 1956 surgiu em Lisboa a iniciativa da criação do grupo chamado Amigos Portugueses da Ucrânia, a ideia conjunta dos ativistas ucranianos da Espanha e de um grupo de destacados dirigentes portugueses, ligados à vida política, à literatura e ao jornalismo de Lisboa. 

A iniciativa para a criação dos Amigos Portugueses da Ucrânia partiu de um grupo de destacados dirigentes portugueses em Lisboa, entre os quais o Monsenhor Avelino Gonçalves (1895 – 1981), diretor do diário lisboeta Novidades; Pedro Correia Marques (1890 – 1972), colunista, comentador e editor do diário lisboeta Voz; Dr. João Ameal (1902 – 1982), historiador e filósofo, membro do Parlamento português; Francisco Costa (1900 – 1988), poeta e romancista; Silva Dias, director da Rádio Nacional de Portugal (possivelmente José Sebastião da Silva Dias, 1916 — 1994, professor universitário, que também foi jornalista e inspector da Polícia Judiciária); Dr. R. Valadão do Secretariado Nacional da Informação (possivelmente Ramiro Machado Valadão, 1918 — 1997, jornalista e político, Presidente da RTP) e J. M. de Almeida, jornalista (possivelmente João Henrique de Oliveira Moreira de Almeida, 1892 – 1972, diretor d'O Dia). 

O engenheiro ucraniano Andriy Kishka (1909– 2006) 
Foto: esu.com.ua

O engenheiro e economista ucraniano Andriy Kishka (1909 – 2006), que também era jornalista e político, entre 1951 e 1964 residiu na Espanha, onde representava o governo da Ucrânia no exílio (DT UNR), autor e promotor das Associações dos Amigos das Nações Oprimidas, ao comentar o estabelecimento dos Amigos Portugueses da Ucrânia declarou: «No meu contacto com os líderes portugueses, descobri que a abordagem pela qual os portugueses iniciaram este trabalho deve ser considerada única. Quando estava a caminho de Lisboa, apercebi-me de que Portugal está longe da Ucrânia e nunca tinha mantido relações com ela; sabia de muitos penitenciários notáveis como Sua Excelência Fernando Cento (1883 —1973) e Sua Excelência Ildebrando Antoniutti (1898 – 1974), Núncios Apostólicos em Lisboa e Madrid, respectivamente, demonstraram um interesse activo pela minha missão, mas eu também sabia que o estabelecimento de uma tal Associação em Portugal seria uma tarefa difícil. Disse aos meus Amigos Portugueses da Ucrânia que, ao criarem a Associação, mostraram que possuíam o talento tradicional para a descoberta inerente à nação portuguesa, porque tinham descoberto o facto real de que as dificuldades do mundo tinham as suas raízes na escravização da Europa de Leste», escreveu o jornalista, historiador e educador ucraniano Dr. Nicholas (Mykola) D. Chubaty (1889 – 1975), fundador e editor, até 1957, da revista ucraniana em língua inglesa, Ukrainian Quarterly, publicada nos EUA entre 1944 à 2010. 

Naquela altura, quer Eng. Kishka, quer os Amigos da Ucrânia em Lisboa, tinham a convicção, definitivamente ingénua de que, através da libertação das nações cativas do império soviético, a própria nação russa também seria libertada do fardo de subjugar mais de cem milhões de não russos e, assim, encontraria uma oportunidade favorável para desenvolver os seus próprios talentos e verdadeiras liberdades democráticas cristãs. 

Os propósitos e objectivos dos Amigos Portugueses da Ucrânia foram amplamente discutidos em jornais de Lisboa como a Voz, Novidades e Diário de Notícias, bem como na rádio portuguesa. Os seus propósitos foram resumidos da seguinte forma: «Fornecer ao mundo informações verdadeiras sobre a Ucrânia; contribuir para o estabelecimento de relações amistosas entre Portugal e a Ucrânia.» 

O plano de estabelecer uma Associação de amizade entre as nações livres do mundo ocidental e as nações actualmente escravizadas pela Moscovo comunista e seus associados foi o início de uma cruzada cristã idealista pela verdade, a fim de desmascarar a hipocrisia comunista da USSR. Na época, Moscovo/ou estva a esforçar-se por se posicionar como libertadora dos antigos povos coloniais que já foram libertados ou estavam a ser libertados, ao mesmo tempo que continuava uma opressão colonial de pelo menos quinze nações com uma tradição e cultura milenares. 

Ucrânia, potencialmente um dos países mais rico da Europa, em termos dos seus solos, recursos naturais e humanos, estava exposto à exploração mais brutal por parte do governo central do império colonial soviético. 

A criação desta associação de amizade para a Ucrânia em Portugal (a primeira do género) foi cordialmente acolhida por ucranianos em todo o mundo. O bispo grego-católico ucraniano, Neil Savaryn (1905 – 1986), do Canadá Ocidental, escreveu aos Amigos Portugueses da Ucrânia: «Nesta grande obra pode ser prevista a nossa próxima missão na Europa de Leste, que foi tão vigorosamente proclamada ao mundo pela Mãe de Deus em Fátima». O Comité do Congresso Ucraniano da América (UCCA), a organização central de um milhão de americanos de ascendência ucraniana, escreveu por ocasião da criação dos Amigos Portugueses da Ucrânia o seguinte: «Expressaste a tua convicção e sabedoria política de que a tua simpatia pela nação escravizada da Ucrânia é uma arma psicológica potente que, quando utilizada de forma adequada e sensata, pode revelar-se uma NATO invencível que conduza a uma guerra pacífica de libertação de todas as nações escravizadas pela União Soviética.» 

No entanto, o grupo Amigos Portugueses da Ucrânia não durou por muito tempo, nem se sabe se desenvolveu alguma atividade prática, devido a simples ausência dos ucranianos em Portugal. Enquanto na vizinha Espanha, a comunidade ucraniana, nas décadas de 1950-60, era composta por cerca de 50 pessoas, na sua maioria radicados em Madrid, em Portugal a situação era oposta. Faltavam cerca de duas décadas até a chegada da primeira ucraniana conhecida, estabelecida em Portugal, de forma permanente, Sra. Ludmila Gallasch-Hall, a futura «madrinha dos ucranianos», ou seja, da emigração ucraniana que se estabeleceu em Portugal, em massa, à partir de 1989-91, a mãe da Aline Gallasch-Hall de Beuvink, a destacada professora, investigadora e deputada na CML.

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