domingo, maio 07, 2017

A SIDA/AIDS na União Soviética (11 fotos)

A propagação da SIDA/AIDS na URSS fez parte da pandemia global no fim do século XX, mas a sua situação na União Soviética mereceu o mesmo tratamento da catástrofe do Chornobyl – começaram falar do problema só quando já era impossível oculta-lo.

A situação da SIDA na URSS foi tratada tal como muitos outros problemas, tais como Chornobyl ou a prostituição – durante muito tempo o regime escondia e ocultava as suas causas e consequências, perseguindo aqueles que tentavam denunciar o problema, e então, quando a verdade tornou-se impossível de esconder, agiu com discursos pretensiosos ao estilo “mas na América este problema existe há muito tempo, as autoridades soviéticas conhecem o assunto e até já achamos uma solução eficaz para o problema”. Tendo em conta que o programa real da educação pública foi iniciada muitíssimo tardiamente.

02. Em primeiro lugar, o que se sabe sobre SIDA/AIDS: os primeiros casos de “doença incomum” foram registados pelos médicos no final da década de 1970. Durante algum tempo não se percebia com quem se estava à lidar: as pessoas sofriam de “doenças oportunistas”, próprias aos organismos com a imunidade muito baixa, parecidas com as pneumonias graves prolongadas. Após o início de ensaios clínicos, em 1981, nos Estados Unidos foram aparecendo as primeiras publicações sobre casos de SIDA/AIDS, foram descritos os primeiros casos da doença na África e na Europa.

As autoridades sanitárias da União Soviética, não podiam não saber do aparecimento de uma nova doença perigosa, mas não tomaram quaisquer medidas para a possível prevenção da epidemia, pois a descreviam como doença de “drogados e prostitutas”, que, segundo as autoridades, claramente não existiam na URSS.
Na foto em cima – o exame de sangue de HIV-SIDA num dos laboratórios especializados de Moscovo, que foi criado mais tarde. Até 1988 as informações sobre os infectados pela HIV-SIDA não eram divulgadas publicamente.

03. O primeiro caso de infecção por HIV na União Soviética foi registado no início de 1986 – o vírus foi “trazido” para URSS, por um dos tradutores que trabalhou em África. Em primeiro lugar, o tradutor [possivelmente um tradutor militar, a imprensa soviética o descrevia como gay] teve que assinar um acordo de não-divulgação (em troca do tratamento médico condigno), mas mesmo assim, ele conseguiu infectar várias [25?] pessoas através do contato sexual. Na época, as pessoas infectadas pelo HIV eram isoladas da sociedade e a informação sobre a sua existência era escondida e bloqueada de todas as maneiras.
Em 25 de agosto de 1987 na URSS foi aprovado o decreto “Sobre as medidas de profilaxia de contaminação do vírus de SIDA”, mas o público em geral permanecia sem a informação, e SIDA/AIDS continuava a ser chamada na imprensa soviética de “doença dos toxicodependentes e prostitutas”, não informando quase nada sobre a sua prevenção.

04. Os novos casos de infecção, por via não-sexual foram registados em 1988 na cidade de Elista, a capital da Kalmykia – em um dos hospitais foram infectados várias crianças [75 crianças e 4 mulheres]. Durante muito tempo culparam os médicos por usarem as seringas não esterilizadas. O hospital realmente sentia a escassez grave de seringas [reutilizáveis!], a mesma seringa [reutilizável] era usada para fazer duas injeções (antes de ser esterilizada): no entanto, embora mesmo a esterilização não ajudaria muito, pois o equipamento soviético de esterilização não matava o vírus HIV. Uma outra versão do que aconteceu – as crianças receberam os produtos sanguíneos infectados, enviados de outras cidades, os médicos não sabiam que estes produtos continham o vírus.
As crianças infetadas de Elista
Tornou-se evidente que a SIDA não se limitará na URSS pelos “drogados e prostitutas”, e que a União Soviética simplesmente não estava preparada para a pandemia – o país produzia pouquíssimos preservativos [em 1988 as farmácias soviéticas dispunham de menos de 3 preservativos por ano (!) para cada homem adulto na idade de 20 a 60 anos!] e seringas descartáveis.
À direita o preservativo soviético (de má qualidade) "tipo A"; "número 1", preço de 2 copeque, fabricado em março de 1983
05. Outro aspecto da ocultação de informações sobre a SIDA aos cidadãos, por parte do Estado soviético, revelou-se na atitude da população para com os doentes – muitas vezes estas pessoas se tornaram párias reais, evitadas pelos seus amigos, as pessoas desconheciam como a doença é transmitida – durante muito tempo circularam os rumores que “SIDA é transmitida pelo ar” e que a doença matava “a pessoa em um ano”, os doentes de HIV-SIDA eram tratados pela sociedade soviética como leprosos.

No Hospital № 2 de Moscovo foi criado um departamento especial para o tratamento de casos de HIV-SIDA; naquela época não existia a terapia anti-retroviral decente, e todas as pessoas diagnosticadas com HIV eram condenadas. As imagens muito assustadoras daquele hospital, tiradas em 1990:

06. O quarto feminino. É evidente que os familiares ou parentes tentam apoiar a moça, isso se nota pela quantidade de flores, pela comida cara e rara (café, frutas), mas a disposição geral da imagem é simplesmente horrível.

07. Dr. Oleg Yurin conversa com mais uma paciente, fotografia do mesmo Hospital № 2 de Moscovo.

08. Em 1990-1991, nos últimos meses da sua existência a União Soviética começou a campanha em grande escala de “alfabetização” da população em questões de HIV-AIDS. A campanha começou muito tardiamente – com atraso de três ou quatro anos, caso contrário se poderiam evitar muitos casos de contaminação, assim como melhorar a adaptação dos doentes na sociedade.

Durante a campanha foram publicadas várias brochuras sobre a SIDA, distribuídas nas empresas, nas fábricas e nos hospitais, e também foram produzidos inúmeros cartazes sobre o tema. Na foto de 1990 atrás Dr. Oleg Yurin é possível ver um desses cartazes. No canto superior esquerdo se vê o logótipo da campanha “Anti-HIV” daqueles anos – a caveira negra, encravada em algo como duas metades do coração. A maioria dos cartazes da época pretendiam assustar e realmente pareciam algo assustadores.
O cartaz se chama “A prevenção da infecção do HIV ao pessoal hospitalar”, ou seja, até o final da década de 1980, mesmo o pessoal médico soviético não possuía as informações completas sobre o HIV, embora nos países ocidentais essa informação já estava disponível há bastante tempo.

09. Um cartaz raro da mesma época no chão da fábrica poligráfica abandonada da cidade de Minsk:
"O que é SIDA?"
10. Ao mesmo tempo [em 1990-91] a União Soviética começou a importação maciça de preservativos e seringas descartáveis ocidentais, o que ajudou a retardar a propagação da epidemia O músico soviético/russo Mstislav Rostropovich [privado da cidadania soviética em 1978], em 1990 comprou do seu próprio bolso 600.000 seringas descartáveis, as oferecendo ao Ministério da Saúde da União Soviética:
Fotos @Getty Images | Internet | Texto @Maxim Mirovich

Blogueiro
Além disso, o surgimento da pandemia da SIDA/AIDS foi usado pelo KGB e Stasi numa bem-sucedida campanha de desinformação, com uso de sofisticadas técnicas de manipulação de informação e formação da opinião pública. No seu artigo “Soviet Bloc Intelligence and Its AIDS Disinformation Campaign”, o historiador americano Thomas Boghardt explica detalhadamente como KGB e à partir de 1988 Stasi influenciou e usou diveros cientistas, jornalistas e escritores ocidentais para divulgar a versão do que HIV-SIDA foi criado nos “laboratórios secretos do Pentágono”, usando para o efeito os “prisioneiros que se tornaram gays”, a teoria de conspiração ridícula e não científica, mas que até hoje é citada pelos diversos idiotas úteis (dentro e fora dos países em desenvolvimento) com a “verdade oculta”.
Os cartazes soviéticos, dedicados à problemática da SIDA
O Dr. Thomas Boghardt é um historiador sénior do Centro de História Militar do Exército dos EUA, a sua especialização são as operações de inteligência militar dos EUA na Europa pós II G.M. Ele serviu como historiador no International Spy Museum em Washington, D.C., e como professor convidado na Universidade de Thyssen em Georgetown. Dr. Boghardt é autor de vários livros, incluindo Spies of the Kaiser (2005) e The Zimmermann Telegram (2012). Ele é Ph.D. em história europeia moderna pela Universidade de Oxford.

Ler artigo original: Operação Infecção (PDF, 24 páginas). 

1 comentário:

victor gustavo disse...

Obrigado por trazer esse belo material. Parabens pelo Blog.