sábado, fevereiro 23, 2013

Os crimes do comunismo soviético: “Operação Lentil”

No dia 23 de fevereiro de 1944 começou o hediondo crime estalinista, a deportação geral de chechenos e inguches da sua pátria no Cáucaso para as repúblicas da Ásia Central e para o Cazaquistão. A limpeza étnica soviética, denominada Operação Lentil, durou até 9 de março e atingiu entre 496.000 à 650.000 cidadãos, dos quais até 1957 sobreviveram apenas cerca de 395.000 pessoas. 
Antes, no dia 2 de novembro de 1943 foram deportados os carachais, mais tarde, no dia 8 de março de 1944 foi a vez dos bálcaros. Sensivelmente na mesma época o regime soviético deportou os mesquetinos, em maio de 1944 chegou a vez dos tártaros da Crimeia e outros.
Os vagões semelhantes eram usados para transportar os chechenos e inguches
As deportações resultaram na perda direta de até cerca de 90-100 mil pessoas, ou seja 20% da população geral daquelas pequenas nações. As pessoas morriam do frio, fome, doenças. Eles perderam tudo, mas guardaram no seu coração a fé.
A família ingush Gadziev junto à sua filha falecida, Cazaquistão, 1944
Contam as testemunhas: “Quando todos foram colocados nos vagões de mercadorias, começou o pânico, motivado pelos acontecimentos e pelo desconhecimento do futuro. De repente, um velho gritou:Gente, não tenham medo! Não seremos levados para o lugar onde não existe o Alá”. Depois disso as pessoas se calaram e sossegaram…”, escreve Muhammad Karachai.


Devido à enorme desigualdade de forças, houve pouca resistência. De acordo com dados oficiais soviéticos, 780 pessoas foram mortas durante a operação, 2016 «elementos anti-soviéticos» foram presos, mais de 20 mil armas de fogo, mantidos em casas chechenas desde a guerra civil russa, foram confiscados. Conseguiram escapar às montanhas 6.544 pessoas. Alguns funcionários do NKVD relataram «uma série de faсtos feios da violação da legitimidade revolucionária, execuções arbitrárias das mulheres velhas, enfermos e paralíticos chechenos que ficaram por trás da deportação e não poderiam seguir no reassentamento», mas ninguém foi punido. Pelo contrário, por decreto de 8 de março de 1944, 714 participantes da deportação foram condecorados «pelo desempenho exemplar de atribuições especiais», incluindo as condecorações militares: Ordem de  Suvorov, de Kutuzov e da Bandeira Vermelha. A tragédia mais terrível ocorreu na aldeia de alta montanha de Khaybakh, onde 705 pessoas foram assassinadas. No local de Khaybakh ficaram apenas ruínas. Sua única "culpa" consistia no facto de que em 23 de fevereiro na região caiu uma pesada nevasca e os moradores não conseguiram descer das montanhas e assim interferiram no horário de deportação. O comissário de NKVD do 3º grau Mikhail Gvishiani (mais tarde – o padrinho do casamento do primeiro-ministro soviético Alexei Kosygin) ordenou que as pessoas fossem levadas ao estábulo e queimadas, usando os métodos dos nazis que estes aplicavam na II G.M.

A suposta culpa
Ler os documentos
A decisão de deportar chechenos e ingushes foi justificada pelo Presídio do Soviete Supremo da URSS pelo suposto facto de que “durante a Grande Guerra Patriótica, especialmente durante as ações das tropas fascistas alemãs no Cáucaso, muitos chechenos e ingushes traíram a sua Pátria, passando ao lado dos invasores fascistas, juntaram-se às fileiras de sabotadores e batedores, eram lançados pelos alemães na retaguarda do Exército Vermelho, criando os bandos armados ao pedido dos alemães para lutar contra o poder soviético”.

De acordo com os dados divulgados pelo historiador russo Vasily Filkin, 28,5 mil combatentes chechenos e ingushes lutaram nas fileiras do Exército Vermelho (19,5 mil voluntários e 9.000 militares no activo), de acordo com a informação da Sociedade chechena de veteranos da guerra – eram até 44 mil pessoas. Cerca de 2.300 chechenos e ingushes morreram na frente da batalha.


Por outro lado, durante a II G.M. foram detectadas oito grupos de pára-quedistas alemães, com um total de 77 pessoas, que foram lançados no território da Chechénia, que, de acordo com os dados de NKVD-NKGB, na “sua maioria” eram compostos pelos residentes locais.
Noman Çelebicihan
Décadas antes, em 23 de fevereiro de 1918, na cidade de Sebastopol, na cadeia civil, os marinheiros bolcheviques russos fuzilaram Noman Çelebicihan, o líder dos tártaros da Crimeia, presidente da República Popular da Crimeia (QHC), o primeiro mufti dos muçulmanos da Crimeia, Lituânia, Polônia e Belarus (1885-1918). O seu corpo foi atirado ao Mar Negro. Ele foi o autor do verso «Ant etkenmen!» («Eu jurei!») que se tornou o hino dos tártaros da Crimeia, recorda-nos a blogueira ucraniana Hanna Cherkasska.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Estaline e as redes sociais


A “Organização russa de vítimas das repressões políticas ilegais” (http://rosagr.natm.ru), criou uma série de pósteres, chamados “Estaline – ele é como…”, onde usando uma linguagem moderna explica à juventude do seu país a magnitude das repressões estalinistas.

Nos pósteres Estaline é comparado com os serviços populares da Web e as redes sociais: “Estaline – ele é como Facebook – exortava partilhar as informações” ou “Estaline – ele é como YouTube – permitia carregar e enviar”.

Cada póster é acompanhado pela informação histórica que ilustra os fatos citados. Os usuários da Internet acolheram o projeto de maneira diversa, uns gostam, outros nem tanto.

Fonte:

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Selos dos Correios clandestinos da Ucrânia


Correios clandestinos da Ucrânia é o nome do serviço de correios do Departamento estrangeiro da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) que no período entre 1949 e 1983 editava na Diáspora os selos não oficiais da Ucrânia livre.

O trabalho de criação e edição de selos estava ao cargo do Dr. Lyubomyr Rykhtitskiy, radicado em Chicago. Os selos ucranianos se colavam nas cartas e postais ao lado dos selos oficiais.
poeta Taras Shevchenko

Os primeiros selos surgiram em 1949 em Munique, onde provavelmente eram produzidos. No fim da década de 1950 – início de 1960, os selos eram produzidos em Chicago. Última edição é datada de 1983.

Durante a sua existência ativa os Correios clandestinos da Ucrânia produziram cerca de 3700 tipos de selos, tendo em conta que quase totalidade de selos eram produzidos com e sem “dentes”, o número geral chega aos 7000 tipos. Os Correios também produziam os blocos memoriais de selos, no total foram produzidos mais de 470 blocos. Alguns selos e blocos foram inutilizados com os carimbos especiais. O seu design estava ao cargo dos desenhadores ucranianos famosos.
Roman Shukhevych, 25º aniversário da morte

Em dezembro de 2001, no Museu da luta de libertação nacional dos Cárpatos na cidade de Ivano-Frankivsk foi aberta a mostra “Correios clandestinos da Ucrânia”. Uma parte importante de selos exibidos era dedicada ao funcionamento dos Correios clandestinos da Ucrânia durante a II G.M. Em junho de 2005, na cidade de Kolomya também foram exibidos os selos dos Correios clandestinos da Ucrânia, mais de 200 exemplares foram oferecidas à cidade pelo colecionador ucraniano Ivan Maksymchuk de Chicago.

Selos dos Correios clandestinos da Ucrânia (13):

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Ouro cossaco da A. K. Shevchenko


O tríler políticoBequest(“Herança”, ainda não foi publicado em português), da escritora britânica nascida na Ucrânia, Anna Shevchenko, tem todos os ingredientes para se tornar uma ótima escolha de leitura e quem sabe, uma boa produção de Hollywood. Até agora o livro foi traduzido para 12 idiomas (Ein fatales Erbe, Héritage).

por: Laura Raiz, Bequest (texto adotado)

O livro explora a lenda do ouro cossaco perdido, supostamente depositado no Banco da Inglaterra, no século 18 por Hetman Pavlo Polubotok, assegurando o futuro independente para Ucrânia. Andriy Polobutko, um descendente de Hetman Polubotok, tenta reivindicar a herança da família, e instrui Kate, uma advogada inglesa com ascendência ucraniana, para o ajudar com aspetos legais da recuperação do ouro.

Como este súbito afluxo de dinheiro irá influenciar o equilíbrio de poder entre Rússia e Ucrânia recém-independente, e teria consequências graves para o Banco da Inglaterra, a tentativa de recuperação atrai a atenção dos serviços de inteligência e governos russo e britânico. Taras Petrenko, um ucraniano étnico e funcionário do Serviço de Segurança da Rússia (FSB), tem a missão de tentar evitar qualquer reclamação do ouro. Desde a independência da Ucrânia, Taras foi posto a trabalhar nos arquivos, pois as suas lealdades foram vistas com suspeição. Mas agora ele tem a chance de recuperar a sua carreira.

A ação leva-nos à Londres, Rússia, Argentina, Cambridge e Ucrânia, na procura da documentação que poderá ajudar na reivindicação de herança, é vista à partir das perspetivas de Kate e do Taras. A história das anteriores tentativas dos membros da família Polobutko de reivindicar o ouro cossaco (todos frustrados pelos serviços de inteligência russos), se entrelaçam na narrativa. Isso permite mostrar a jovem pungente do século XVIII, Sophia Polobutko e a sua descendente da década de 1960, a estudante Oksana, iludida por uma falsa sensação de segurança da Primavera do Khrushov.

Ambos, Taras e Kate, na sua caminhada, são vítimas da ordem política pós-Guerra Fria, embora com a infelicidade mais evidente do Taras, devido as suas lacunas de educação e abusos sofridos no exército.

Os factos e a ficção são cuidadosamente entrelaçados neste livro: a lenda de ouro dos cossacos foi fundada em uma verdadeira lenda (Ouro do Polubotok), os extratos do diário e as experiências de repressão acadêmica por parte das autoridades são tomadas à partir da experiência familiar da autora.

“Bequest” é um romance intrigante e agradável, lida com o tema central com subtileza surpreendente de caracterização. O enredo, as passagens entre as épocas diferentes, as perspetivas, são habilmente manipulados pela autora. Este romance deve agradar os fãs de John Le Carre and David Downing, interessados na era pós-soviética.

A entrevista de escritora:

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Carga policial em Kyiv


                              deputado Olexander Bryhynets
Hostynny Dvir, o centro comercial histórico, construído em 1809 na baixa da cidade de Kyiv, desde 2011 está no centro de controvérsia, hoje se transformou na batalha campal entre os ativistas que defendem o edifício e a polícia de choque, que age no interesse dos promotores da construção civil.

Em agosto de 2011, o Gabinete dos Ministros da Ucrânia retirou o edifício da lista dos Monumentos da Arquitetura da Ucrânia, sob a proteção estatal. Em abril de 2012, a Câmara municipal de Kyiv autorizou a reconstrução do edifício, para o transformar em complexo comercial e de escritórios com parque de estacionamento incorporado. Os trabalhos da reconstrução começaram logo no dia seguinte, mesmo na falta da documentação exigida por lei.

Desde o dia 26 de maio de 2012 o complexo é defendido pelos ativistas que advogam a devolução o estatuto do Monumento da Arquitetura da Ucrânia ao edifício e são contra a sua transformação no centro comercial. Ativistas abriram uma passagem livre para o pátio interior do complexo e organizam lá as ações culturais e artísticas diárias.

No dia 18 de fevereiro de 2012, a polícia de choque atacou, espancou e deteve os ativistas, incluindo os deputados do parlamento da Ucrânia pela VO Liberdade (VO Svoboda).

Os detidos foram levados para a esquadra da polícia do bairro Pechersk em Kyiv, da onde podem seguir para o tribunal distrital do mesmo bairro, onde aparentemente serão julgados. O vice-chefe do Parlamento ucraniano, Ruslan Koshulynskiy, que veio para visitar os detidos na esquadra, não foi permitido de vê-los. A esquadra está bloqueada pelos ativistas da VO Liberdade que exigem a libertação de seus companheiros e é defendida pela polícia de choque e polícia à civil. Polícia também não permite a entrada das pessoas no edifício, incluindo imprensa e as testemunhas do ataque policial.

O ministro do Interior da Ucrânia, Vitaly Zakharchenko, tinha prometido que ninguém será julgado hoje e que os detidos serão libertados. Mas enquanto isso não aconteceu, os deputados da VO Liberdade ocuparam o gabinete do Ministro do Interior, exigindo a demissão dos oficiais da polícia de choque que permitiram o espancamento das pessoas. Nomeadamente o coronel Alexandrov e tenente-coronel Feshuk. Os deputados exigem a instauração de um inquérito para averiguar as circunstâncias de espancamento e detenção dos deputados do Parlamento ucraniano.

Um dos detidos é deputado da VO Svoboda Andriy Mishenko, polícia lhe disse que “não quer saber do estatuto dele e que ele será detido”, informam os seus colegas.

No total, 37 ativistas foram detidos durante o ataque contra Hostynny Dvir, alguns dos detidos foram feridos pela polícia, informa a TVI.ua

Ver a carga policial no YouTube:


Proletários de todo o mundo, vejam!

O que vos trará o "comunismo" estalinista...

O colecionador ucraniano, Mykola Matusevych, é o novo dono do achado único, a Declaração da Liderança da OUN “Após o fim da II G.M. na Europa” e do panfleto do Exército Insurgente Ucraniano (UPA).

Colecionador de Volyn, Mykola Matusevych explica: “Declaração da OUN, escrita em 1945 e reeditada em 1949 é um artefacto muito raro, alguns exemplares se encontram nos arquivos do NKVD-KGB-SBU, mais alguns em coleções privadas”. Pois, quando NKVD cercava os esconderijos do UPA, usava as granadas para atingir os insurgentes ou estes próprios as usavam para não cair nas mãos do inimigo. Por isso muita documentação era perdida juntamente com a morte dos combatentes.

O panfleto do UPA foi impresso entre 1947 e 1949, é uma espécie da banda desenhada insurgente que conta sobre as peripécias do quotidiano soviético, mostra as diferenças das vivências da elite comunista por um lado e dos camponeses, operários e os intelectuais por outro. No topo da imagem está escrito com as letras garrafais: “Proletários de todo o mundo, vejam!” Os documentos, alegadamente, foram achados no sótão de uma casa particular, escondidos entre os jornais da época soviética.

Fonte:    

domingo, fevereiro 17, 2013

Arquimandrita Klementiy: condenado pela fé


Licenciado em Direito, deputado do parlamento austro-húngaro, jovem aristocrata ucraniano Kazimir Sheptytsky, surpreendeu todo o mundo, quando em 1907 deixou a sua carreira política em Viena e em 1911 se tornou o monge sob o nome de Klementiy (Clemente).

por: Volodymyr Vyatrovych, historiador

As relações entre a Igreja Greco-Católica Ucraniana (UGCC) e a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) nunca eram fáceis. Ambas as estruturas viam como o seu objetivo supremo a defesa dos ucranianos e a garantia da sua autorrealização. Mas se a igreja preconizava a via do crescimento espiritual das individualidades, OUN escolheu a luta ativa e a revolta militar.

No tempo de paz estes dois caminhos pareciam mutualmente excludentes, durante a II G.M., a política repressiva nazi e comunista aproximou igreja e OUN. Os arquivos do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), testemunham as tentativas do Metropolita da UGCC Andrey Sheptytsky, resolver o conflito entre dois ramos da OUN: OUN-M e OUN-R, sobre a mediação da igreja entre a resistência ucraniana e polaca em 1942-1944, sobre o auxílio médico e material da igreja ao Exército Insurgente Ucraniano (UPA) ou sobre as atividades de alguns padres da igreja nas fileiras do UPA ou na clandestinidade.

O poder soviético voltou à Ucrânia Ocidental em 1944, as pessoas se recordavam muito bem a experiência da “sovietização” de 1939-1941, que resultou em assassinatos e deportações de centenas de milhares de moradores da região, entre eles vários sacerdotes.

Pressentindo a repetição da tragédia, o Metropolita Sheptytsky enviou à Moscovo a delegação da UGCC, chefiada pelo seu irmão mais novo, Klementiy Sheptytsky. Delegação foi recebida pelo chefe do Conselho dos Cultos religiosos junto do Conselho dos Comissários do Povo, Ivan Polianskiy, que assegurou que poder soviético não planeia as repressões ou perseguições. Em Moscovo, padre Klementiy teve um encontro com representantes do NKVD (entre eles Pavel Sudoplatov), que pediu a UGCC se tornar o mediador entre Moscovo e a resistência ucraniana.

O encontro entre UGCC e os representantes da OUN-UPA se deu no fim de 1945 na Igreja de São Jorge em Lviv. A resistência recusou os contactos com Moscovo, não acreditando na sua sinceridade. As repressões aumentavam do dia para o dia, visando a resistência, cidadão comum e em breve a própria igreja.

Em 11 de abril de 1945 foram presos todos os bispos da UGCC, os padres foram coagidos em “unir-se” à Igreja Ortodoxa Russa (IOR). Klementiy, que após as detenções, de-facto, liderava a igreja, exortou o clero e os fieis a não ceder à pressão do poder soviético. Em março de 1946, estado soviético organiza a reunião magna da UGCC que proclama a “entrada” da igreja ucraniana na IOR. Os padres ficam com a escolha: ceder a tentação do poder soviético ou resistir, arriscando a prisão.    

Claramente, Klementiy Sheptytsky, foi um dos que decidiram resistir, por isso, já em 30 de maio de 1947 a Direção do MGB (Ministério da Segurança Estatal) de Lviv assina a ordem da sua prisão. Padre Klementiy era acusado de atividades antissoviéticas e a colaboração com OUN.
Capa do processo do Klementiy Sheptytsky no MGB

Klementiy Sheptytsky, — escrevia major Bozhko do MGB, — era figura influente na formação do movimento nacionalista e desempenhava o papel importante na luta prática da OUN-UPA contra o poder soviético”. No dia 6 de junho começaram os interrogatórios do sacerdote que tinha 78 anos, que duraram quase meio ano. Durante este tempo, o padre, como “criminoso perigoso” foi transferido da cadeia do MGB em Lviv, para a cadeia homóloga em Kyiv.

Klementiy negava todas as acusações, mas os interrogadores tinham as informações precisas, recebidas de outros padres e monges. Assim foi provado que no mosteiro de Univ existia o esconderijo do UPA (descoberto em 17 de janeiro de 1946), que os monges ajudavam à resistência e o chefe da farmácia do mosteiro, Matkovskiy, sistematicamente fornecia os medicamentos à UPA. Dois monges passaram à clandestinidade e mais um, ainda durante a ocupação nazi, se juntou à UPA, tornou-se o capelão da escola dos oficiais da guerrilha e morreu no combate com tropas soviéticas. O próprio padre Klementiy escondia o médico insurgente, que cuidava dos combatentes feridos.

Padre Klementiy não negava estas acusações, mas os classificava como obrigação cristã e não como atividades políticas. Não revelava nenhuns nomes dos padres vivos ou dos resistentes, limitando-se a confirmar os factos já conhecidos pelo MGB.

[…]

Durante a prisão do arquimandrita Klementiy, no ocidente foi publicado “Apelo da Ucrânia em Luta à toda a emigração ucraniana”. No documento se dizia:   

Revela aos todos os povos, este país, onde é sufocada a religião, oprimida a igreja, ferrada a liberdade de consciência, espezinhada, não só a moralidade cristã, mas também a moralidade universal humana... Conte sobre a destruição das igrejas ucranianas Autocéfala e Greco-católica, os assassinados e deportações de bispos, sacerdotes e fiéis ucranianos. Explique aos estrangeiros que a Igreja Ortodoxa Russa atual não tem nada a ver com uma igreja livre e são agentes dos serviços de segurança.

Além da liderança da resistência ucraniana, este apelo foi apoiado pelo líder da UGCC na clandestinidade, padre Mykola Khmiliovskiy (1880-1963). As duas clandestinidades ucranianas, nacionalista e eclesial, uniram os esforços para levar a verdade sobre situação da Ucrânia ao mundo livre.

No dia 15 de janeiro de 1948 foi terminada a parte investigativa e uma semana depois preparada a sentença acusatória, baseada nos artigos 54-1 e 54-2 do Código Penal – “traição da pátria”. No dia 28 de fevereiro a “reunião especial” do MGB condenou padre Klementiy aos 8 anos da prisão, passados na famigerada prisão de Vladimir.

Alto, magro, com uma longa barba branca, ligeiramente curvado, com o rosto e os olhos amigáveis​​, calmo, — descreve Klementiy Sheptytsky na prisão, um dos seus companheiros de cela, membro da OUN, Ivan Kryvytskyi. — Na conversa em nada é parecido com um monge, mais um homem educado secular... Ele não falava muito, nunca disse as palavras desnecessárias. Respondia ou falava de forma sucinta e clara. Andava apenas com a bengala, até mesmo em cela (prisional)...”

O sacerdote velho, adoentado e enfraquecido, não cumpriu a sentença, no dia 1 de maio de 1951, às 21h00, foi constatada a sua morte. Klementiy Sheptytsky foi sepultado entre outros detidos da cadeia, o local exato da sua campa é desconhecido.

Quarenta anos depois, o mesmo poder soviético que o matou, alguns meses antes do seu próprio fim, reabilitou o sacerdote, reconhecendo a falta de qualquer culpa fornal do Klementiy Sheptytsky. Em 1995 ele foi oficialmente reconhecido pelo estado do Israel como “Justo entre as Nações”, pelo salvamento de judeus durante a II G.M. Em 2001, o Papa João Paulo II, durante a sua visita apostólica à Ucrânia, beatificou Sheptytsky, em conjunto com 27 outras personalidades da Igreja Greco-Católica Ucraniana.

Fonte:

Revista “Os emigrantes”, 2ª adição


A editora brasileira CORD e a sua coordenadora Cláudia Regina Fialka, apresentam a 2ª edição da revista (BD) “Os Imigrantes” (A vinda da família ucraniana para Brasil).

O projeto pretende resgatar as tradições milenares que transformaram o quadro socioeconômico do Brasil com a imigração, é um resgate aos valores que antepassados ucranianos trouxeram ao seu novo país.

Dentro de alguns dias a revista será impressa e distribuída no Brasil, Ucrânia e Moçambique. É de notar que na página 13 da revista aparece o logotipo do nosso blogue (ler mais sobre o projeto).

Ver a revista online:

sábado, fevereiro 16, 2013

A Declaração de Independência da Lituânia


A Declaração de Independência da Lituânia (Lietuvos Nepriklausomybės Aktas) ou Declaração de 16 de Fevereiro foi assinada pelo Conselho da Lituânia em 16 de fevereiro de 1918, proclamando a restauração de um Estado independente da Lituânia, governado por princípios democráticos e cidade de Vilnius como sua capital. A Declaração foi assinada por todos os vinte representantes do Conselho, presididos por Jonas Basanavičius. A Declaração de 16 de Fevereiro foi o resultado final de uma série de resoluções sobre o assunto, incluindo uma aprovada pela Conferência de Vilnius e a Declaração de 8 de Janeiro. O caminho para a Declaração foi longo e complexo devido à pressão exercida pelo Império Alemão ao Conselho a fim de formar uma aliança. O Conselho teve que cuidadosamente manobrar entre os alemães, cujas tropas estavam presentes na Lituânia e as demandas do povo lituano.

Na foto em cima são retratados os 20 membros do Conselho da Lituânia após assinarem a Declaração de 16 de fevereiro de 1918.

Nos anos 1920-1930, a Lituânia era uma boa aliada do movimento independentista ucraniano, da UVO e da OUN, em 1929, o país inclusivamente concedeu o passaporte diplomático ao líder da OUN, coronel Eugene Konovalets.

Ler mais:

Bónus

O filme “Absolutamente Sozinhos” sobre a luta da resistência lituana contra ocupação soviética e Museus da ocupação soviética

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

O maior cossaco francês

Em 1803 em Paris nasceu Prosper Mérimée. Aos onze anos ele assistiu a parada dos cossacos de Don nos Champs-Élysée, traduzindo a palavra desconhecida “cossaco” como “vrijbuiter”, pirata das estepes, lendo tudo, que conseguia encontrar, sobre a história da Sich de Zaporizhia.


Na obra do Guillaume Levasseur de Beauplan, Mérimée leu: “O verdadeiro cossaco era tido aquele, que passou por todos os 13 porohy. Por isso, – dizia Beauplan, sou cossaco de verdade”. Com tempo, o próprio Mérimée escreverá para uma fidalga polaca, sua amiga: “Estes dias tomei conhecimento de um livro recém-publicado que me interessou e divertiu. Me parece bem pensado e muito bem escrito, mas reparo nele: ele é demasiadamente polaco. Você sabe, quando à mim, sou Cossaco”. Escritor se considerava como “cossaco no espírito”, dando a prioridade não aos “fidalgotes”, mas aos “cossacos valentes”.
Livro do de Beauplan publicado em 1660

Mérimée era jurista de formação, acadêmico, senador, conselheiro do Napoleão. Para escrever “Cármen” escritor aprendeu espanhol e viveu com os ciganos. Estudando os cossacos, aprendeu ucraniano, polaco e russo para poder pesquisar os arquivos. Em várias obras suas ele descreve a época dos cossacos, as mais famosas são «Les Cosaques de l'Ukraine et leurs derniers atamans» (publicada no jornal “Moniteur Universel”, em 21-23 de junho de 1854), «Bogdan Chmielnicki» (publicado no “Journal des Savants” em janeiro-julho de 1863, saído em livro em 1865). No seu drama inacabado “Les debuts de un aventurier” (1853), no capítulo 6º, uma grande passagem descreve os cossacos de Zaporizhia e os seus hábitos. Em 1863 Márimée publica mais uma obra dedicada aos cossacos ucranianos “Les Cosaques d’autrefois”.

Graças às obras do Mérimée, na França aumentou o interesse pela Ucrânia, principalmente entre os historiadores, folcloristas, especialistas em literatura. Influenciado pelas suas obras, em 1869, o Senado francês decidiu incluir o estudo da história ucraniana nas escolas públicas francesas. É de notar que na mesma época em que a monarquia russa proibia o uso da palavra “Ucrânia”, França era único país do mundo onde se estudava a história dos cossacos ucranianos.

Prosper Mérimée era um bom amigo do Nicolas Gogol, ele traduziu em francês a sua tragicomédia “O Inspector Geral”. Em 1851 na revista francesa «Revue des deux Mondes» aparece o artigo da crítica literária «Nicolas Gogol», em que Mérimée avalia muito positivamente a obra do Gogol, o colocando ao lado do Aristófanes, François Rabelais ou Charles Dickens. Mérimée também nutria uma grande amizade pela escritora ucraniana Marko Vovchok, traduzindo ao francês o seu conto A Cossaca (“Kozatchka” ou “La fille de cosaque”), tragédia de uma jovem ucraniana livre que se casa por amor com filho de um servo, se transformando ela própria, na serva dos nobres polacos.