quarta-feira, agosto 06, 2025

Oleg Sohanievich: artista ucraniano que fugiu da URSS num barco insuflável

Oleg Sokhanievich, década de 1970

O poeta, artista, escultor e dissidente ucraniano Oleg Sokhanevich se tornou a lenda viva da sua geração, após a espectacular fuga da URSS por mar, navegando mais de 300 km até à Turquia num barco insuflável.

Oleg Sahanievich nasceu em 1935 na cidade ucraniana de Tulchyn. Estudou na Escola das Belas Artes de Kyiv. Depois de se formar em Kyiv, foi admitido na Escola de Arte «Mukhin», em Leningrado, e mais tarde transferido ao Instituto «Ilya Repin» de Leningrado na faculdade de Pintura, Escultura e Arquitetura, onde se formou em 1962. 

Oleg Sokhanievich, arte, 1990

A sua carreira artística não se desenvolvia devido a posição não-conformista de criar fora dos padrões do realismo socialista. A arte de Sohanievich foi fortemente criticada pelas autoridades soviéticas por ser abstrata e não seguir as diretrizes artísticas soviéticas. A sua carreira e desenvolvimento artísticos não foram possíveis sob tais restrições. As autoridades negaram a permissão para exposição pública dos seus trabalhos. Sohanievich decidiu firmemente abandonar a URSS e, como não tinha meios legais para viajar para o estrangeiro, decidiu-se por uma fuga extremamente perigosa por mar. 

«Tres anos se passaram após a Academia, ainda cá estou. Pintor-abstracionista sovietico. Um quadro triste. Nenhuma perspetiva. Não é possível dizerque eu esteja sentado de braços cruzados, mas sem resultados ainda, tudo na mesma, e cada vez mais difícil, — pois, além de tudo, nasci com talento, o que é muito incomodo aqui, ainda maisse você é ambicioso e sabes que trabalhas bem. Que vá tudo para o inferno!» – escreveu Sokhanevich no livro da sua memoria “Apenas o impossivel”. 

Em 1965, fez uma tentativa falhada de chegar à Turquia a nadar, à partir de uma praia perto de Batumi, na Geórgia. Com apenas 17 quilómetros até à Turquia, aquela fronteira estava extremamente bem vigiada e guardada. Sohanievich escondeu as roupas debaixo de uma pedra na praia e começou a nadar, escondendo a cabeça com o capuz das luzes da patrulha fronteiriça que patrulhava a zona. Infelizmente, a forte corrente impediu o seu avanço, acabando por desistir e regressar à costa. 

Sohanievich e sua escultura em técnica «Escultura de Stress»

Este fracasso não diminuiu o seu desejo de escapar. A 7 de agosto de 1967, ele e o seu amigo, o artista de Leningrado Gennady “Cosmos” Gavrilov (1934-1990?), que decidiu fugir com ele, saltaram do navio de cruzeiro «Rossiya», que fazia a ligação entre Yalta e Novorossiysk. Na água, encheram o barco insuflável de borracha, escondido numa mochila e começaram a remar rumo ao sul. Ao nono dia, chegaram à costa turca, tendo nadado mais de 300 km em 119 horas. Em breve Sohanievich foi autorizado a emigrar para os Estados Unidos.

Navio soviético «Rossija», que serviu do ponto de fuga ao Ocidente

«O avião sobrevoa a Europa – no azul ofuscante das nuvens, nos cristais de neve das montanhas, nos campos entrecortados por estradas. Só aqui se compreende verdadeiramenteo quão enorme é a rússia. E os infortúnios que lhe são impostos são proporcionais ao seu tamanho. Aparentemente, tal é o seu destino no mundo – não viver e impediros outros de viverem». 

O episódio marcante da biografia de Sokhanevich tornou-se conhecido, principalmente, graças à bravura da canção «A Glorificação de Oleg Sokhanevich», do poeta e tradutor russo Anri Volokhonsky e poeta e artista vanguardista Alexey «Khvost» Khvostenko (música e performance - Alexey Khvostenko): 

Escapei do cativeiro,

Desejei a liberdade,

Naveguei na superfície das águas,

Eu não sou um bashi, muito menos um bazouk,

Não sou inimigo, nem o amigo,

Por favor, não me causem problemas.

Oleh Sohanievich, exposição em Nova Iorque, 1972

Nos EUA Sohanievich viveu em Nova Iorque. A aura de Nova Iorque, os seus arranha-céus e a cultura do East Village tiveram um impacto significativo na sua visão artística. Em 1972, segundo as suas próprias palavras, pegou num pedaço de metal da rua, começou a dobrá-lo com as mãos e criou uma escultura que, entre outras, foi feita por ele num curto espaço de tempo e demonstrada numa exposição coletiva no edifício Union Carbide em 1972. 

Nos EUA, o artista, dotado pela natureza de uma força física notável, trabalhou desde meados da década de 1970 como estivador nas empresas de mudanças, para poder prosseguir o seu trabalho criativo artístico, se sustentando e criando arte que não dependesse do comércio. Sokhanevich escrevia poesia, fazia pinturas abstratas e arte gráfica. Mas o seu género mais reconhecível era a escultura de stress, ou escultura feita de metal tenso. O próprio artista referia-se ao estilo artístico das suas pinturas como «Minimalismo Abstrato» e às suas esculturas como «Escultura de Stress».

Oleg Sokhanevich declama a poesia, Nova Iorque, cerca de 1990:

A informação da morte do Oleg Sokhanevich (1935-2017) na sequência de uma doença foi publicada na página de Kamil Chalayev a 24 de outubro de 2017. O artista, escultor e poeta tinha 82 anos. 

Uma das últimas fotos do artista

Já Gennadiy Gavrilov pintava quadros para a antiga aristocracia russa e desenhava retratos personalizados de celebridades. O dinheiro fácil e, consequentemente, as bebedeiras prejudicaram a sua saúde. Gavrilov sofreu um acidente vascular cerebral e passou os seus últimos anos num casebre de pobre, num bairro social. Nos seus últimos dias, confessou aos amigos que o acontecimento mais marcante e importante da sua vida foi esta incrível, impressionante, fuga de 10 dias através do Mar Negro: “Era a minha causa. Eu fiz. Encontrei-me nisso como pessoa. Esta fuga é o acontecimento mais importanteda minha vida.”

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