quarta-feira, agosto 13, 2025

Gareth Jones, o jornalista que escreveu sobre o Holodomor na Ucrânia

Na cidade costeira de Barry, fica a campa do Gareth Jones, o corajoso jornalista galês que foi o primeiro a escrever sobre o Holodomor na Ucrânia. Sobre o seu túmulo estava um cesto com as cores ucranianas. Jones era «um homem que sabia demais», razão pela qual foi assassinado.

É interessante como o sul do País de Gales está intimamente ligado à Ucrânia. Na cidade de Merthyr Tydfil, que fica a quarenta minutos de carro de Barry, nasceu e viveu John Hughes, engenheiro, industrial e fundador da cidade de Donetsk (nome de fundação: Yuzovka).

Annie Gwen, a mãe do Gareth R. V. Jones

Se não tivesse comprado terras na Donbas (onde antes apenas os pastores com os seus cães costumavam ir), não tivesse construído lá uma casa, não tivesse fundado a sua empresa lá, provocando uma verdadeira revolução industrial na região, então talvez Annie Gwen, a mãe de Gareth Jones, não se tivesse tornado governanta dos seus netos. Foi ela que o ensinou em casa até aos sete anos de idade.

Annie Gwen e família do Arthur Hughes

Arthur Hughes, filho do John Hughes

Talvez se ela não tivesse contado ao filho sobre as estepes ucranianas, sobre as antigas Kyiv e Kharkiv «com as suas universidades e feiras mundialmente famosas», ele não teria ido para lá, não teria testemunhado o terrível crime de Estaline, não teria escrito sobre ele nos jornais mais famosos do mundo. E talvez o mundo nem sequer tivesse ouvido falar do Holodomor durante muito tempo. E talvez Orwell não tivesse escrito a sua «Revolução dos Bichos». Tais cadeias de acontecimentos estendiam-se desde o engenheiro galês.

A capa da edição ucraniana de “A Revolução dos Bichos”
(“A Quinta dos Animais”), 1947

Annie Jones deixou as memórias da sua estadia na Ucrânia. É certo que, para ela, tudo era a «rússia», a começar pela Polónia (que chamou de «rússia polaca», nessa altura a Polónia também era oprimida pelo império russo, a língua polaca era suprimida e proibida, os ocupantes russos tentavam impor o amor ao seu czar). Annie não separa os ucranianos dos russos, embora descreva os ucranianos com as sua canções e roupas bordadas. Permaneceu nas estepes de Donetsk apenas alguns anos e foi obrigada a fugir da epidemia de cólera. Mas ela lembrava-se muito desta viagem, em Kyiv ficou simplesmente maravilhada: «A sagrada e antiga Kiev apareceu diante dos meus olhos assim que atravessámos o vasto Dniepre. Fiquei impressionada com a onda de igrejas a brilhar no céu azul com as suas torres e cúpulas douradas. Vi uma grande multidão de peregrinos que tinham vindo aqui a pé da Sibéria». A época, descrita pelo escritor ucraniano Nechui-Levytsky na sua novela «Nuvens». Aí, ele, começando também pelos peregrinos de terras distantes até à Lavra (Mosteiro) de Pechersk, demonstra bem a total russificação e desprezo impostos pela cultura ucraniana, tanto nas cidades como nas aldeias.

Os pais do Gareth Jones junto à casa

A casa do Gareth Jones em 2022

Em sua casa, na década de 1930, reuniam-se muitos jovens europeus, incluindo alguns simpatizantes nazis britânicos. Certa vez, Gareth Jones chegou a escrever aos seus familiares pedindo-lhes que não os cumprimentassem com a mão levantada e a exclamação «Heil». Quando voou no mesmo avião com Hitler (entrevistou o ditador alemão), escreveu os seus pensamentos: «Se este avião cair agora, certamente mudará a história».


A campa do Gareth Jones em Barry

Como os habitantes locais ficam surpreendidos quando os ucranianos lhes falem de todas estas pessoas. Principalmente sobre John Hughes, que fundou a moderna Donetsk. Eles não acreditavam nisso ao princípio. Para muitos aqui, parece que estão a descobrir a sua própria história através da história ucraniana.

Texto e fotos: a jornalista ucraniana Antonina Maliei

1 comentário:

Anónimo disse...

Existe um filme sobre ele na a Netflix chamado “A Sombra de Estalin” ( título em português no Brasil, em Portugal pode ter outro nome) , é muito bom, eu recomendo.