Era um anarquista consistente e sincero, com um carisma extraordinário, a capacidade de encontrar uma linguagem comum com pessoas de diferentes visões e posições de vida, sempre pronto a ajudar. David considerava-se um seguidor ideológico de Ivan Franko, Mykhaylo Dragomanov, Lesya Ukrayinka, Nestor Makhno. Estava convicto que só com a libertação social, seria possível a libertação nacional dos ucranianos, e o futuro da Ucrânia estaria numa sociedade igualitária e democrática, escreve o seu camarada Illia Vlasiuk.
Em meados dos anos 2000, David, filho, neto e bisneto de artistas, juntou-se à criação do movimento antifa em Kyiv. Nesses anos, os seus opositores eram frequentemente não só os movimentos intolerantes, principalmente à cultura punk ou à diferença, mas também apoiantes do pan-eslavismo (a ideia dos «três povos irmãos»). Sempre considerou os seus inimigos (e agiu em conformidade) os esquerdistas autoritários, estalinistas, apoiantes da URSS – aqueles que no Ocidente são chamados de tankies e que hoje servem à propaganda imperial russa. O jovem, que se identificava com a subcultura SHARP (skinheads contra o preconceito racial), provou corajosamente o poder da solidariedade com os seus punhos. David era cético em relação ao mundo da arte profissional. Autodenominava-se não como um artista, mas como desenhador. Embora tenha desenvolvido o seu próprio estilo artístico único, os heróis dos seus primeiros trabalhos eram antifas de rua e manifestantes. Diego Rivera, Heorhiy Narbut e Maria Prymachenko pareciam unir-se nele numa luta comum. Nas suas obras mais maduras, Chichkan voltou-se para os clássicos ucranianos, o populismo e a revolução ucraniana. David sempre se opôs ao establishment e impôs-lhe um discurso político sério. As realizações artísticas de David Chichkan são inestimáveis.
Chichkan dialogava com os seus camaradas e adversários com humor e sinceridade, apresentando sempre argumentos de ferro e reconhecendo os argumentos dos outros. Entre a esquerda, era considerado um dissidente fervoroso com quem era difícil argumentar. Os seus oponentes ideológicos apenas conseguiam «calar» David gritando, em vez de refutar as teses e os factos apresentados. Os extremistas destruíam as suas exposições e exigiram censura (e o establishment por vezes cedia), mas não o enfrentaram no debate público. Sentia conscientemente a sua ucranianidade, pois via o projeto da ucranianidade na luta contra todas as injustiças. David apoiou e participou em todos os processos políticos e protestos sociais dos últimos 20 anos, foi membro de várias organizações anarquistas e sindicais. Foi ativista do Maydan de 2013-14, criticou a oposição parlamentar pelos resultados pouco ambiciosos alcançados na Revolução de Dignidade. Sendo bastante famoso no mundo da arte, Chichkan sempre desmascarou a propaganda anti-ucraniana nas plataformas internacionais sobre o «golpe» ou a «junta nazi de Kiev».
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| Lesya Ukrayinka |
Com o início da invasão russa de grande escala, não foi aceite no exército e David tornou-se o porta-voz gráfico dos e das combatentes antiautoritários/as doexército ucraniano. Tendo recuperado a saúde, David se mobilizou às FAU. Apesar da oportunidade de servir em condições mais seguras, Chichkan escolheu o simples posto de soldado operador de morteiro e a luta direta contra o fascismo, o imperialismo e o sistema totalitário russo – uma causa a que se dedicou e pela qual deu a vida.
A ideologia de David não era exclusivamente utópica, mas também prática, baseada na realidade da sociedade ucraniana. O civismo e o anarcossindicalismo, na sua visão, exigiam uma implementação concreta aqui e agora: preservar e expandir os direitos e as oportunidades dos trabalhadores e das mulheres, superar a opressão colonial e redistribuir a riqueza em favor daqueles que não a possuem. Considerava o fascismo russo a maior ameaça à implementação dessas ideias na atualidade. David combinou esta ideologia com uma abordagem prática como nenhuma outra e tornou-se um pilar e uma lenda do movimento anti-autoritário na Ucrânia.
David Chichkan deixa a sua amada esposa e o seu filho pequeno. O seu sorriso, apoio, sensibilidade e recetividade ficaram para sempre gravados na memória de inúmeros amigos e amigas. A sua causa será continuada, será continuada por outros combatentes e guerreiras, a escuridão será vencida e a vida será preenchida com fitas coloridas.
Blogueiro: apesar de não compartilhar as crenças ideológicas do David Chichkan, uma coisa está certa. David estava na linha da frente, defendendo Ucrânia com as armas nas mãos. A sua ação real superou quaisquer ideologia. Somente o podem criticar as pessoas que estejam nas fileiras das FAU...






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