terça-feira, agosto 12, 2025

A história familiar dos nacionalismos russo e ucraniano

No seu livro «Uma Dinastia Dividida», o historiador suíço Fabian Baumann oferece uma perspectiva inesperada sobre o nacionalismo: não como uma inevitabilidade histórica, mas como uma escolha política consciente dos mulheres e homens.

O autor estuda as reivindicações culturais e históricas da Ucrânia, na vida dinâmica de uma periferia imperial e no seu papel de suportar – ou, então, se libertar – desse mesmo império, a vida política e cultural como um projecto familiar e, de forma mais ampla, o nacionalismo como uma escolha política contingente.

Utilizando uma abordagem micro-histórica, examina o destino da família Shulgin de Kyiv, que em menos de meio século se dividiu em dois ramos nacionais opostos: russo e ucraniano. Esta divisão foi causada não só pelas circunstâncias políticas, mas também pela vida familiar, na qual as mulheres desempenharam um papel decisivo, moldando a visão do mundo das gerações seguintes, bem como a educação e os laços sociais. A revolução russa de 1917 separou finalmente os Shulgin: assim Volodymyr Shulgin morreu na batalha de Kruty, defendendo a República Popular da Ucrânia, e um primo seu lutou contra Ucrânia. 

Uma narrativa cativante e magistralmente construída, baseada em fontes de arquivo — diários, memórias e correspondência de descendentes de ambos os ramos — revela diferentes dimensões da construção da nação no século XIX e início do século XX. A história dramática dos Shulgins tornou-se o reflexo de um processo mais vasto: a gradual, mas inevitável, divergência entre a Ucrânia e a rússia, que culminou na guerra atual. 

Política de moda do império russo 

«Em julho de 1879, Yakiv Shulgin foi preso em Odessa (sul da Ucrânia atual) e deportado, por ordem administrativa, em Yeniseysk, na Sibéria Central. Os motivos da prisão não eram claros: um documento da polícia russa de novembro de 1879 afirma que Shulgin «contactava regularmente o círculo de Kovalsky, participava em reuniões com Witten e Afanasyeva, pertencia ao partido revolucionário, comunicava com membros do Partido dos Insatisfeitos de Odessa e correspondia-se com revolucionários de Kiev». A polícia russa mencionou ainda a sua detenção em Paris e, estranhamente, acusou Yakiv e um seu amigo de viajarem para a localidade ucraniana de Zhmerynka e chamarem a atenção das autoridades com «as peculiaridades do traje, usando chapéus com abas escandalosamente largas». 

Yakiv Shulgin (1851-1911)

Muito possivelmente, se tratava de um chapéu «calabresa», como o do pintor ucraniano Pylyp Chirko, no retrato do seu amigo e também pintor, ucraniano Nikolay Yaroshenko. O chapéu «calabresa» era comum entre os estudantes democratas (desde os narodnik aos niilistas) do império russo – os «radicais», como se dizia na época. O dito chapeu teve a influência da imagem de um garibaldiano com um chapéu de abas largas.

«O Estudante», 1881

Um outro ilustre representante da parte ucraniana da família Shulhyn. Olexander Shulhyn, Ministro fundador do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, embaixador da Ucrânia na Bulgária (1918); membro do Governo da Ucrânia no exílio, morreu em Paris em 1960.











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