O autor estuda as reivindicações culturais e históricas da Ucrânia, na vida dinâmica de uma periferia imperial e no seu papel de suportar – ou, então, se libertar – desse mesmo império, a vida política e cultural como um projecto familiar e, de forma mais ampla, o nacionalismo como uma escolha política contingente.
Utilizando uma abordagem micro-histórica, examina o destino da família Shulgin de Kyiv, que em menos de meio século se dividiu em dois ramos nacionais opostos: russo e ucraniano. Esta divisão foi causada não só pelas circunstâncias políticas, mas também pela vida familiar, na qual as mulheres desempenharam um papel decisivo, moldando a visão do mundo das gerações seguintes, bem como a educação e os laços sociais. A revolução russa de 1917 separou finalmente os Shulgin: assim Volodymyr Shulgin morreu na batalha de Kruty, defendendo a República Popular da Ucrânia, e um primo seu lutou contra Ucrânia.
Uma narrativa cativante e magistralmente construída, baseada em fontes de arquivo — diários, memórias e correspondência de descendentes de ambos os ramos — revela diferentes dimensões da construção da nação no século XIX e início do século XX. A história dramática dos Shulgins tornou-se o reflexo de um processo mais vasto: a gradual, mas inevitável, divergência entre a Ucrânia e a rússia, que culminou na guerra atual.
Política de moda do império russo
«Em julho de 1879, Yakiv Shulgin foi preso em Odessa (sul da Ucrânia atual) e deportado, por ordem administrativa, em Yeniseysk, na Sibéria Central. Os motivos da prisão não eram claros: um documento da polícia russa de novembro de 1879 afirma que Shulgin «contactava regularmente o círculo de Kovalsky, participava em reuniões com Witten e Afanasyeva, pertencia ao partido revolucionário, comunicava com membros do Partido dos Insatisfeitos de Odessa e correspondia-se com revolucionários de Kiev». A polícia russa mencionou ainda a sua detenção em Paris e, estranhamente, acusou Yakiv e um seu amigo de viajarem para a localidade ucraniana de Zhmerynka e chamarem a atenção das autoridades com «as peculiaridades do traje, usando chapéus com abas escandalosamente largas».
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| Yakiv Shulgin (1851-1911) |
Muito possivelmente, se tratava de um chapéu «calabresa», como o do pintor ucraniano Pylyp Chirko, no retrato do seu amigo e também pintor, ucraniano Nikolay Yaroshenko. O chapéu «calabresa» era comum entre os estudantes democratas (desde os narodnik aos niilistas) do império russo – os «radicais», como se dizia na época. O dito chapeu teve a influência da imagem de um garibaldiano com um chapéu de abas largas.
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| «O Estudante», 1881 |
Um outro ilustre representante da parte ucraniana da família Shulhyn. Olexander Shulhyn, Ministro fundador do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, embaixador da Ucrânia na Bulgária (1918); membro do Governo da Ucrânia no exílio, morreu em Paris em 1960.












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