Enciclopédia da vida ucraniana histórica e contemporânea
quarta-feira, julho 09, 2025
RARET: a voz do mundo livre vinda de Portugal
A RARET (RÁdio RETransmissão) foi um antigo centro retransmissor, instalado em Portugal, que colocava no ár a rádio Free Europe (Europa Livre/Rádio Liberdade), que
tinha como objetivo combater o comunismo, funcionando entre 1951 e 1996.
Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo | Foto: D.R. via 'Restos de Coleção
Dois trabalhadores numa das torres da RARET / Foto: Roberto Caneira
Foi instalada em 1951, na Herdade da Nossa Senhora da Glória, no coração do Ribatejo, a 73 km de Lisboa, segundo o blog A Minha Rádio. Na antiga Glória do
Ribatejo, em Salvaterra de Magos, e hoje se situa um grande complexo abandonado e devoluto. Em tempos, a RARET (Sociedade Anónima de Rádio Retransmissão, SARL) foi um antigo centro retransmissor, instalado em Portugal pelos americanos, e que
colocava no ar a Rádio Free Europe (Europa Livre/Rádio Liberdade), que tinha como objetivo conter o comunismo. RARET funcionou durante 45 anos neste local, entre 1951 e 1996, e colocou esta região quer na rota da Guerra Fria, quer nos programas bastante robustos do desenvolvimento social local.
Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo | Foto: D.R. via ‘Restos de Coleção’
Funcionário a trabalhar numa das antenas da RARET / Foto: Roberto Caneira
A RARET chegou a Portugal no início da década de 1950, com um acordo entre os governos de Portugal e dos Estados Unidos para construir uma estação de rádio para emitir informação
livre aos países da Europa comunista. De estação de rádio, depressa passou a uma comunidade. Lá, foi construída uma escola, complexo desportivo, piscina, área residencial para
funcionários e até uma maternidade, usadas, pela população local de forma gratuíta.
Na rádio, ouvia-se a informação do e sobre o mundo ocidental, notícias, sem censura, vindas das nações cativas, leituras de livros prescritos e proibidos e a transmissão de música proibida pela censura comunista,
assim como a divulgação da música popular portuguesa, geralmente a de fadista Amália Rodrigues.
O objetivo era difundir a informação livre entre as nações sob ocupação comunista, situadas atrás da «cortina de ferro», crinado as condições para que estas nações se revoltassem, em busca de liberdade. Em 1960,
a RARET passou a transmitir programas em 18 línguas para os países e nações sob ocupação ou sob a influência da União Soviética.
A RARET revolucionou a vida da população de Glória do Ribatejo. Os serviços públicos por si prestados eram gratuítos, como, por exemplo, uma escola, um posto médico, a escola profissional, de técnicos de rádio. A realidade da época é retratada na série “Glória”, a primeira
produção portuguesa da Netflix, anunciada como «sendo uma história de ficção assente num contexto e em factos reais».
“Glória” é um thriller de espionagem histórico, centrado na RARET, em pleno Portugal da década de 1960. A série mostra como a vila da Glória, se tornou um improvável palco da Guerra Fria, local, à volta da qual se competiam as forças ocidentais e soviéticas.
No centro desta história está a personagem, pressupõe-se fictícia, de João Vidal, um jovem de uma família influente, com ligações ao Estado Novo português, recrutado pelo KGB depois de se politizar no decorrer da Guerra Colonial. João ver-se-á envolvido nas intrincadas teias do jogo da espionagem e, no final de contas, se torna um assassino friou e calculista, traindo o seu país, lutando, com todas as suas forças para transformar Portugal numa ditadura comunista, o que não consegue, mas não por falta da vontade.
Escola local construída e financiada pela RARET
Posto médico local, construído e financiado pela RARET
A maioria dos portugueses que trabalhava na RARET não se ineressavam muito pela finalidade do centro transmissor. Eram apenas técnicos, sem muita cultura geral e sem as ligações
político-partidárias, algo garantido pela secreta PIDE, a congénere portuguesa do KGB. Os primeiros anos de vida da rádio não foram fáceis. A RARET interferia, com muita facilidade, nas frequências, usadas pelas transmissões soviéticas, mas graças a um dos funcionários, o italiano Pasqualino, que conseguia distinguir a língua russa, o erro era rapidamente resolvido.
Em maio de 1985, a RARET foi alvo de um atentado terrorista bombista falhado, junto à uma das antenas e exatamente nas vésperas da visita do presidente americano Ronald Reagan, reinvidicado por um grupo, que surgiu de nada e que desapareceu sem deixar os rastos, auto-denominado «Grupo anti-capitalista
e antimilitarista». Não houve vítimas, apenas pequenos danos materiais, o que levou a que, nesse ano, houvesse um grande investimento na modernização das instalações da RARET. Muitas das vezes os atentados deste tipo são organizados pelos serviços secretos. Embora em 1985 na URSS começa a Perestroika, as posições do KGB eram fortes, e isso podeia ser uma espécie de aviso aos americanos e aos portugueses para retirar o RARET de Portugal. O que realmente acabou por acontecer, embora 11 anos mais tarde...
A rádio estava funcionando de vento em popa até 1989, quando se deu a queda do Muro de Berlim, estabelecendo uma ponte entre os países comunistas e o ocidente. Depois, a sua importância foi gradualmente diminuíndo e em 1996,
as instalações da RARET fecharam oficialmente e, dois anos depois, estavam completamente abandonadas, permanecendo assim até hoje.
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