sexta-feira, julho 04, 2025

O poeta que amava Ucrânia fora dos canones do «realismo socialista»

No dia 2 de julho de 1951, o jornal soviético «Pravda» publica o artigo prográmatico, visando o poeta ucraniano Volodymyr Sosiura e ao seu poema «Amem a Ucrânia». O título do «Pravda» é ineqívoco: «Contra a perversões ideológicas na litaratura». 

Jornal soviético «Pravda», 2 de julho de 1951

Mas o que o comunista ucraniano Volodymyr Sosiura fez de errado? Afinal, ele exorta Ucrânia «ideologicamente errada». Não a Ucrânia comunista soviética, mas «Ucrânia em geral, Ucrânia «eterna»...» Quando ao poema, escrevem os caluniadores moscovitas: «qualquer inimigo [...] do campo nacionalista, como Petliura, Bandera, etc., se unirá a tal criatividade». 

«Amem a Ucrânia como o sol, como a luz.

Como o vento, as ervas e a água...

Amem o espaço centenário da Ucrânia,

Orgulhem-se da sua Ucrânia,

Da sua beleza nova e eternamente viva,

E da sua fala do rouxinol».

No entender dos propagandistas moscovitas no poema «não há imagem infinitamente querida por todo o verdadeiro patriota – a imagem da nossa Pátria socialista, a Ucrânia Soviética». Ou seja, a ideologia soviética não previa e não tolerava a possibilidade de amar Ucrânia, sem que essa Ucrânia seja comunista. Todo e quaisquer manifestação da cultura ucraniana só era tolerada, caso o seu autor/criador, manifestasse, de alguma maneira, que essa manifestação cultural ou é remotamente comunista ou intercalada com a cultura russa. Fora disso, estas manifestações eram consideradas nacionalistas e combatidas pelas autoridades soviéticas. 

Mas o ataque da «Pravda» continua contra outras manifestações da cultura ucraniana: «a imprensa ucraniana não criticou o poema vicioso, tendo este sido publicado várias vezes na Ucrânia. É necessário falar sobre isto também porque os erros não se cometem apenas na literatura. As distorções no trabalho ideológico também ocorrem no campo da arte. Assim, a ópera «Bohdan Khmelnitsky» foi representada no palco do Teatro de Ópera e Balé de Kiev, em homenagem ao Taras Shevchenko, cujo libreto, como já foi observado no Pravda, contém erros graves». Os autores não dão os pormenores, mas pode-se supor que a ópera, não foi suficientemente servil à dominação cultural russa, e como tal, foi violentemente criticada pela propagandistas moscovitas. 

A crítica moscovita imediatamente encontrou os ecos nos ataques contra os poetas e escritores ucranianos, perpetuadas pelos comunistas locais. Assim, o Secretário do Comité Central do Partido Comunista (Bolcheviques) da Ucrânia Olexiy Kirichenko numa reunião do Politburo do CC do PC da Ucrânia a propósito da publicação no jornal Pravda do artigo “Contra as distorções ideológicas na literatura” declarou o seguinte (4 de julho de 1951): 

«V. Sosiura celebrou o seu regresso ao Kiev nos primeiros dias após a libertação da capital dos ocupantes fascistas com o poema «Regresso». [...] Em vez de mostrar que o povo de Kiev deve a sua libertação ao grande líder e mestre dos trabalhadores da nossa Pátria, ao melhor amigo do povo ucraniano, o Camarada Estaline, ao glorioso e heróico Exército Vermelho, à ajuda dos povos irmãos e, sobretudo, ao grande povo russo, e de exprimir a alegria do povo libertado de Kiev com o avanço vitorioso dos nossos soldados para o Ocidente, V. Sosiura ignora tudo isto. Os seus sentimentos são tomados pela «querida traiçoeira de olhos azuis», «gato preto de juba branca», «tranças prateadas do Dnipro», etc. 

No mesmo discurso, o nosso Kirichenko (entre junho de 1953 e dezembro de 1957 se tornou o 1º Secretário do CC do PC da Ucrânia, o primeiro ucraniano étnico nesta posição) ainda se mostra preocupado, pela lingúistica ucrania, pois sente a necessidade de «para limpar o dicionário, para proteger a língua ucraniana de palavras que foram impostas em certa época pelos nacionalistas ucranianos. [...] Devemos também ter o cuidado e as medidas para livrar a língua ucraniana do polonismo e do germanismo». 

É de notar, que à partir de 1945, Estaline mostra a sua inclinação e as claras preferências culturais e políticas ao «grande povo russo», que, perefraseando a distopia satírica do George Orwell, na União Soviética, era um povo «mais igual do que os outros». Na URSS e dentro do PCUS surge o não oficial «Partido russo», o movimento nacionalista informal (décadas de 1950-1980), cuja ideologia incluía o nacionalismo étnico russo, a xenofobia étnica e o anti-semitismo. Por outr lado, a sua participação ativa na luta contra o nazismo abriu, na Ucrânia soviética, a esperança de um futuro melhor, mais próspero economicamente e mais livre, no domínio das liberdades individuais e nacionais. Alias, durante a guerra nazi-soviética (parte da II G.M.), o estado soviético mostrou uma certa abertura neste domínio, criando a ordem militar «Bohdan Khmelnitsky» ou dando nomes de «ucranianas», as frentes militares do Exército Vermelho. Neste âmbito podemos analisar o ataque da propaganda moscovita, que claramente tentou mostrar aos ucranianos: «vocês não existem fora da URSS e fora da amizade com o grande povo russo. Quaisquer tentativa de amar Ucrânia fora dos canones, será alvo de censura e de perseguição». 

Vigiado pela própria esposa 

A segunda esposa do Volodymyr Sosiura, Maria Danilova, nasceu em Leningrado, foi a ex-aluna da escola de balé, 12 anos mais nova que o poeta. Ambos não eram modelos de fidelidade conjugal e frequentemente brigavam. «Murka» – como Maria era conhecida entre os próximos – era capaz de atirar/jogar a máquina de escrever do marido pela janela, rasgar seus manuscritos, cortar em pedaços as suas gravatas. Os amigos do poeta consideravam a sua esposa uma fofoqueira, intrigante, buscadora de dinheiro e de fama. Muito possivelmente com algum transtorno mental. 

Maria e Volodymyr Sosiura, década de 1930. Foto: gazeta.ua

A NKVD recrutou Maria no outono de 1941, em Moscovo/ou ou em Ufa, para onde o casal foi evacuado da Ucrânia após o início da guerra nazi-soviética. Segundo Maria, agente «Danina», ela estava sendo treinada para trabalhar na clandestinidade na ocupação alemã. O mais provável, que a principal tarefa de Maria Sosyura, desde o início, era espiar o marido, suspeito, pelas autoridades soviéticas, de simpatizar com o nacionalismo ucraniano. 

Em 1948, Maria «Danina» cometeu um erro fatal (fruto do possível transtorno mental). Numa carta ao chefe da União dos Escritores da Ucrânia, Oleksandr Korniychuk, ela admitiu ser uma agente do NKVD-MGB e revelou alguns detalhes de seu trabalho. Korniychuk denunciou Maria ao MGB. A atitude do escritor pode ser compreendida – ele temia, que dessa forma, a secreta soviética poderia testar a sua própria lealdade (Korniychuk foi atacado pelos propagandistas soviéticos devido ao seu libreto à ópera «Bohdan Khmelnitsky»).

Processo contra Maria Sosyura no MGB

A carta não era uma provocação do MGB e, em novembro de 1949, a agente foi presa. Os interrogatórios continuaram até fevereiro de 1950. Maria foi acusada de revelar segredos de Estado e de preferir agitação antissoviética, pois escrevia as cartas aos dirigentes soviéticos se queixando da pouca atenção dada ao marido. No final, MGB conseguu extrair a confissão de que ela havia escrito 10 cartas aos líderes da Ucrânia soviética, «caluniando a realidade soviética e os escritores ucranianos». 

Por «divulgação de informações não sujeitas à publicação e produção e distribuição de cartas de conteúdo antissoviético», em agosto de 1950, o Conselho Especial de Segurança do Estado da URSS condenou «Murka» aos 10 anos em um campo de trabalho correcional. Maria passou os 4 anos seguintes em campos do GULAG nos Urais, na Sibéria e no Cazaquistão. 

Em 1953, Stalin faleceu e os prisioneiros políticos tinham esperança de libertação. Maria Sosiura estava entre os candidatos ao perdão. Ela escreveu ao Nikita Khrushchev, pedindo não o perdão, mas um novo interrogatório, garante que aquelas suas cartas não eram de natureza antissoviética. 

Maria foi ouvida. Em setembro de 1954, a comissão de revisão de casos criminais reduziu a sua pena para 3 anos do GULAG. Como já havia cumprido este tempo, a exausta presidiária de 44 anos logo retornou ao Kyiv. Ao saber disso, Sosyura se separou da sua 3ª esposa e novamente se casou com Maria. 

Após a morte do marido, em janeiro de 1965 a vida da viúva de um clássico foi tranquila e bastante confortável. Em 1992, Maria Sosiura foi totalmente reabilitada. O Tribunal da Cidade de Kyiv concordou com a tese de que apenas funcionários públicos podem ser punidos por revelar segredos de Estado. O caso contra a agente foi arquivado por falta de provas de crime. Ela viveu mais três anos com a consciência tranquila. 

Maria e Volodymyr Sosyura, década de 1960, Arquivo CDKFFA da Ucrânia

Os escritores ucranianos se lembrarão por muito tempo da esposa do poeta. «Por um lado, ela era extravagante. Por outro, era escandalosamente vulgar. Por outro, era uma emancipada: fumava e usava palavrões nas conversas. Era muito inteligente», recorda o prosador Mykhailo Slaboshpytsky.

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