Voluntários da Comunidade Internacional Voluntária de informação InformNapalm analisaram dezenas de casos de mortes em circunstâncias suspeitas de altos quadros do sector estatal russo, ocorridas entre 30 de janeiro de 2022 e 7 de julho de 2025 (* o título do artigo é de responsabilidade do nosso blogue).
A grande maioria das vítimas ocupava cargos-chave em sectores estratégicos para a rússia: petróleo e gás, finanças, indústria de defesa, transportes e administração pública.
A análise baseia-se em informações provenientes de fontes abertas. Foram incluídos 34 casos que, segundo os investigadores, podem ser vistos como parte de uma tendência — tanto pelo padrão de alegados suicídios, como por indícios de possíveis envolvimentos de terceiros ou dos serviços secretos russos com o objectivo de eliminar figuras-chave e encobrir casos de corrupção ou segredos sensíveis, disfarçando os homicídios como suicídios.
Não apresentamos conclusões definitivas, apenas apontamos padrões que, no futuro, poderão ser relevantes para outras investigações, estudos e acontecimentos relacionados com a federação russa.
Para facilitar a compreensão dos dados, disponibilizamos uma infografia acompanhada de uma descrição mais detalhada dos casos e das tendências observadas.
Clique na infografia para ampliar:
Distribuição das mortes por ano:
- Ano de 2022: 19 casos
- Ano de 2023: 9 casos
- Ano de 2024: 3 casos
- Ano de 2025: 3 casos (até 7 de Julho)
O pico de mortes ocorreu em 2022, coincidindo com o início da invasão russa em grande escala à Ucrânia e com o reforço significativo das sanções internacionais. Esse período poderá ter sido marcado por um aumento da tensão interna e, possivelmente, por certas “purgas” dentro das elites russas, muito provavelmente relacionadas com o desvio e a lavagem de capitais.
Em 2023, o número de mortes diminuiu, o que poderá indicar uma mudança nas circunstâncias ou um reforço do controlo da informação. Os dados disponíveis para 2024 e 2025 mostram uma diminuição contínua, embora ainda seja prematuro tirar conclusões definitivas.
A grande maioria das vítimas estava, de uma forma ou outra, ligada à indústria do petróleo e gás, como a Gazprom, Lukoil, Novatek ou TAIF e ao sector financeiro, incluindo instituições como o Gazprombank, Loko-Bank, RosEuroBank e a Bolsa de Moscovo. A lista inclui ainda representantes da indústria de defesa, da logística e de estruturas governamentais.
Isto indica que as circunstâncias obscuras destas mortes afectam sectores essenciais ao funcionamento da economia e do sistema político russos.
A análise dos contextos em que ocorreram estas mortes revela vários “cenários” repetitivos, sugerindo acções centralizadas e direccionadas, bem como sinais de interferência nas investigações e tentativas de enquadramento mediático nos meios de comunicação russos para apresentar os acontecimentos sob o “ângulo correcto”.
1. “Suicídios” e “tragédias familiares”: esta é a categoria mais comum, que em vários casos é acompanhada pela morte de familiares. Exemplos: Leonid Shulman, Aleksandr Tyulyakov, Mikhail Tolstosheya, Vladislav Avaiev, Sergey Protosenya, Pavel Pchelnikov, Vladimir Makarov, Vitaliy Robertus.
2. Quedas de altura. Este é o segundo cenário mais frequente. Entre os casos incluídos nesta categoria estão:
- Ravil Maganov (caiu da janela de um hospital),
- Marina Yankina (caiu da janela do seu apartamento),
- Kristina Baikova (caiu do 11º andar),
- Mikhail Rogachov (caiu do 10º andar),
Andrey Badalov (caiu da varanda do 17º andar).Um dos casos mais mediáticos foi o de Pavel Antov, que caiu da janela do mesmo hotel na Índia, no mesmo local onde, pouco antes, o seu amigo Vladimir Bidanov havia morto subitamente em circunstâncias suspeitas. Outro caso notório é o de Andrey Krukovskiy, que terá morrido ao cair de um trilho de montanha.
3. “Acidentes” e mortes “súbitas”: alguns casos são apresentados como acidentes: Ivan Pechorin (caiu de um barco), queda do iate de Georgiy Chibisov ou mortes súbitas por doença (Dmitriy Teslenko, Alexandr Subbotin, Dmitriy Konoplyov, Alexandr Buzakov, Vladimir Nekrasov, Petr Chuvilin, Sergey Grishin).
4. Mortes por violência: os casos de Vasyliy Melnikov e Yuriy Voronov envolvem ferimentos de faca e bala, sendo a morte de Melnikov acompanhada pelo assassinato da sua mulher e filhos.
5. Morte nos Centros de detenção preventiva (SIZO): Igor Shkurko foi encontrado morto na cadeia SIZO de Yakutsk, o que levanta questões sobre as condições de detenção e o respeito pelos direitos humanos.
6. “Encontrados mortos”: algumas pessoas, como Alexei Ogaryov e Oleg Zatsepin, foram simplesmente “encontradas mortas”, sem mais detalhes sobre as circunstâncias da sua morte.
A maioria das mortes ocorreu em território russo (Moscovo, região de Moscovo, São Petersburgo, Nizhniy Novgorod, Sóchi, Yakutsk). Contudo, a geografia abrange também o estrangeiro: Argentina (Dmitriy Teslenko), Reino Unido (Mikhail Tolstosheya), Espanha (Sergei Protosenya) e Índia (Vladimir Bidanov e Pavel Antov).
Isto indica que a chamada “geografia das mortes” não se limitou apenas ao território russo.
A hipótese mais provável, analisando do ponto de vista de mortes violentas, é a eliminação de testemunhas.
Muitos dos falecidos ocupavam cargos que lhes davam acesso a informações confidenciais sobre esquemas de corrupção, operações financeiras de lavagem de dinheiro ou outros segredos relacionados com os altos dirigentes do regime russo ou gestores de grandes projectos.


1 comentário:
Esse Glenn ainda será possivelmente vítima dessa queima de arquivo? Seu “marido” teria sido uma dessas vítimas ?
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