domingo, julho 06, 2025

Os cidadãos comuns que arriscaram tudo para fugir da União Soviética

«As fronteiras da Pátria são sagradas e invioláveis». Cartaz do W. Ansikeew

Entre 1929 e 1989 os cidadãos soviéticos praticamente não tinham oportunidades de emigrar legalmente. Uma das poucas opções era casar com um(a) estrangeiro(a). Por isso, aqueles que desejavam deixar a URSS tinham de recorrer a medidas extremas e inventar esquemas de rotas alternativas. A história registou os fugitivos mais desesperados que, para viajarem ao estrangeiro, desviaram os aviões, envenenaram-se ou atiraram-se dos navios no mar alto. 

«Moça de biquini vermelho» 

Liliana Gasinska sonhava em deixar a URSS desde a adolescência. Em busca deste objetivo, conseguiu um emprego como servente no cruzeiro soviético «Leonid Sobinov». Em janeiro de 1979, o navio atracou no porto de Sydney. Após algumas tentativas mal sucedidas de pedir ajuda, a jovem saiu do navio pela janela e nadou em direção ao porto. Sabendo um pouco de inglês, explicou-se a um transeunte, pedindo ajuda. 

A famosa «menina de biquini vermelho»,
como Liliana foi conhecida na Austrália

Os representantes do consulado soviético iniciaram uma verdadeira caça a Gasinska, mas os repórteres locais foram mais rápidos. Em busca de publicações de grande visibilidade, esconderam Liliana em troca de uma entrevista prometida. Disse lhes que o comunismo que odiava se baseava apenas na propaganda e na mentira, e que uma pessoa mentalmente sã não era capaz de se deixar levar por isso. Liliana Gasinska pediu asilo político, que lhe foi negado, no entanto, ela recebeu a permissão de ficar no país. Pousou para a 1ª edição australiana de Penthouse, fez cinema, dançarina, casou duas vezes e foi a mãe de dois filhos, no fim se mudou para Grã-Bretanha, onde vive, feliz, até hoje. 

Pilotos fugitivos 

Em 1948, os pilotos militares Anatoly Barsov (1917-?) e Pyotr (Peter) Pirogov (1920-1987) voaram num bombardeiro Tu-2 pertencente à força aérea soviética, da Ucrânia para Áustria, onde solicitaram asilo político, especialmente às autoridades de ocupação americanas. 

Petr Pirogov (à esquerda) e Anatoly Borzov numa conferência de imprensa para os meios de comunicação ocidentais, logo após a aterragem na base aérea americana de Vogler.
Foto: LIFE / Wikimedia

Os Estados Unidos aceitaram receber ambos os militares. Pirogov conseguiu estabelecer-se rapidamente no seu novo país. Colaborando com um agente literário, escreveu um livro de memórias e deu palestras. 

Livro do Peter Prigov publicado em 1950 

Três anos depois, Pirogov se casou com Valentina, uma russo-americana, filha dos emigrantes. Pirogov trabalhou na Rádio Liberdade, na Biblioteca do Congresso, se graduou em linguística e foi o professor associado na Escola de Línguas e Linguística da Universidade de Georgetown. 

Pirogov e Barsov nos EUA

Anatoly Barsov não se encaixou nos EUA, ficou desiludido com a liberdade americana, não queria aprender o inglês, começou a beber, por fim contactou a embaixada soviética, recebendo a promessa de «ficar na cadeia por apenas dois anos» em caso de regresso voluntário. Voltou, ficou preso por cerca de 8 meses, no fim daquele período, aparentemente, foi fuzilado. Já após a morte do Estaline, em 1957, a embaixada soviética nos EUA entregou uma carta ao Pirogov, supostamente escrita pelo Barsov. Apesar de ser escrita numa caligrafia muito semelhante ao do Barsov, a carta não tinha erros ortográficos (Barsov fazia muitos) e estava assinada pelo apelido oficial, «Barsov», enquanto Anatoly sempre assinava as suas cartas com o seu apelido de nascença, Borzov (ele teve que mudar o apelido, para esconder o parentesco, o seu pai foi um pequeno empresário, algo que impossibilitava o engresso do Anatoly na escola dos pilotos, reservada aos filhos de «operários e camponeses»). 

Viktor Belenko (à direita). /Foto: avatars.mds.yandex.net

Outro piloto, que procurou a vida melhor no estrangeiro foi Viktor Belenko. O piloto de caça MiG-25P fugiu ao Japão, pedindo o asilo nos Estados Unidos. Na URSS, foi condenado à morte à revelia, o KGB expalhava os rumores do que Belenko ora «morreu no acidente rodoviário», ora «pediu para voltar e está na cadeia». 

O livro biográfico, escrito pelo John Barron

Na realidade o piloto foi feliz nos EUA, trabalhou, durante décadas como piloto, e acabou por falecer em setembro de 2023. 

Para os EUA via Índia 

Em 1986, Dmitry Sokolenko, ucraniano étnico de 25 anos, residente em Novosibirsk, rússia, fugiu da miserável e triste URSS. Considerando várias opções, decidiu-se pelo visto turístico. A escolha recaiu sobre a Índia, como um destino acessível ao cidadão comum, mas ao mesmo tempo não um Estado socialista (os riscos de extradição eram baixos). Depois de reunir uma pilha de papéis e obter as autorizações necessárias, Sokolenko viu-se a bordo de um avião Moscovo-Déli. Após a aterragem, o jovem, que não se destacava no grupo de turistas, dirigiu-se para o hotel. Mas, depois de esperar até à meia-noite, saiu do quarto e correu para a embaixada americana, onde viveu durante duas semanas. 

Ler o livro, em PDF

Um dos representantes da ONU lhe ajudou com um pedido de asilo americano e organizou o transporte de contrabandistas ao Nepal. De seguida, o caminho passou pelo Paquistão, França e Itália. De Roma Sokolenko voou para Nova Iorque, onde começou uma nova vida. Em 2003 Sokolenko escreveu o livro biográfico «Como escapei à URSS: das notas de um cidadão do universo», que foi publicado em 2009. 

Arriscando a vida 

Em abril de 1970, um navio de pesca soviético que navegava à 150 milhas de Nova Iorque enviou um sinal de socorro para a costa. O facto é que uma cozinheira (ou servente) de 22 (ou de 25) anos estava a morrer. A letã Daina Palena foi levada de urgência para o hospital, onde se descobriu que tinha ingerido medicamentos potentes. Acontece que a jovem se tinha auto-envenenado propositadamente, com a intenção de ficar nos EUA, pedindo o asilo político. 

20 de abril de 1970. Foto da Daina Palena no hospital
público de Staten Island, em Nova York

Pālēna passou cerca de uma semana num hospital de Nova Iorque sob a supervisão de membros da missão diplomática soviética. Ao recuperar os sentidos, a letã confirmou a seriedade da sua intenção de não regressar a casa, afirmando que não tinha arriscado a vida em vão. Ela contou as autoridades que os cidadãos soviéticos eram privados de vontade política, não tinham o direito de organizar manifestações e que as mais pequenas iniciativas que contradissessem a ideologia oficial eram reprimidas. As autoridades americanas, após cerca de três semanas de reflexão, finalmente acederam ao pedido de Daina, apoiada pela Diáspora letã nos EUA. 

Pālēna conseguiu um emprego como vendedora num supermercado em Nova Jérsia. Muitos letões nos EUA ofereceram-se para a ajudar com roupas, habitação e trabalho. O seu dentista letão, Švarcbergs, trabalhava no hospital para o qual foi levada e assumiu as funções de intérprete. Daina Pālēna é natural de Sigulda e vem de uma família de sete filhos. O resto da sua família está na Letónia. Infelizmente, nada mais se sabe sobre as suas atividades posteriores.

Atravessar o Oceano Pacífico a nado 

O oceanólogo Stanislav Kurilov sonhava viajar pelo mundo, mas o regime soviético não deixava. Em 1974, Kurilov saltou de um navio de cruzeiro no Oceano Pacífico e nadou, cerca de 100 km até à ilha filipina mais próxima, Siargao. A ousada fuga foi divulgada na imprensa, e o cidadão foi julgado na União Soviética à revelia, deixado, pelas autoridades filipinas de viajar até o Canadá, onde vivia a sua irmã e onde recebeu a cidadania. 

No Canadá continuou a dedicar-se à investigação marinha, até se casar, com uma israelita e se mudar para Israel, onde trabalhou na oceanografia, escreveu o livro de memórias, e morreu vários anos depois enquanto realizava os mergulhos.

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