sexta-feira, julho 18, 2025

Sefton Delmer: o mestre da propaganda negra psy-war

O livro de Peter Pomerantsev «How to Win an Information War: The Propagandist Who Outwitted Hitler» (Como Vencer a Guerra da Informação. O Propagandista que Derrotou Hitler), conta uma história incrível do Sefton Delmer, jornalista e propagandista britânico que, durante a Segunda Guerra Mundial, criou mais de duas dezenas de estações de rádio que transmitiam os seus programas à Alemanha e aos territórios por ela ocupados, fazendo-se passar por rádios nazis.

O livro é bonito porque está escrito não tanto como um romance pop científico, que de facto é, mas como um thriller.

Sefton Delmer. Foto Kurt Hutton/Picture Post/Hulton Archive/Getty Images.

Um rapaz que nasceu em Berlim e cresceu na Alemanha nas vésperas da Primeira Guerra Mundial (o pai trouxe a família da Austrália) encontra-se em Inglaterra. Por isso, desde a infância que teve problemas com a sua identidade e com a forma como as pessoas que o rodeavam o percecionavam: na Alemanha, era inglês, em casa, em Inglaterra, era alemão. Ao mesmo tempo, Pomerantsev traça paralelos no livro não só entre essa época e a nossa, porque o tema do livro é a propaganda e a guerra, mas também com a sua própria vida, porque depois de os seus pais terem emigrado da URSS, de Kyiv, também viveu na Alemanha e em Inglaterra e sentiu, na primeira pessoa, o que era ser diferente.

A edição ucraniana do livro

Delmer fez-me lembrar tanto Ben Bradley, o lendário editor do «The Washington Post» durante a era Watergate, que tinha trabalhado em Paris no início da sua carreira e adorava a vida social, como Walter Duranty, do «The New York Times», que tinha trabalhado em Moscovo durante o Holodomor e adorava festas e orgias, enquanto negava a existência da fome na Ucrânia. Delmer regressou à Alemanha durante a crescente popularidade de Hitler como correspondente de um jornal britânico, e Ernst Röhm, um dos primeiros capangas de Hitler, Goebbels e o próprio Adolf Hitler comunicaram de bom grado com ele. Aceitaram-no como um dos seus, aparentemente considerando-o um idiota útil que transmitiria todas as suas ideias loucas aos leitores britânicos. Por isso, Delmer foi durante muito tempo suspeito de ser um verdadeiro nazi. Mas, graças a isso, conhecia muito bem tanto a liderança nazi como o país, com os seus hábitos e tradições. Além disso, Delmer também adorava festas, que organizava tanto em Berlim, como em Londres.

No entanto, após uma série de verificações, foi encarregado de um projeto de propaganda de escala e influência sem precedentes. À disposição de Delmer estavam não só transmissores de rádio e outros equipamentos, mas também cerca de uma centena de funcionários, prisioneiros e refugiados alemães: atores de cabaré, jornalistas, artistas, psicólogos e até padres. Este grupo criou uma estação de rádio durante a guerra, fazendo-se passar por alemães. Delmer desenvolveu programas, diálogos, músicas selecionadas e entoações para se assemelharem às rádios nazis, mas provocações ocultas ecoavam no ar: a par dos discursos de Hitler, impunha-se aos ouvintes alemães a ideia de que os funcionários do partido estavam a distorcer as ideias do Führer e a viver muito melhor do que o povo. Desta forma, procurava dividir o povo, o exército e o partido.

A famosa imagem do Hitler chamada «O que temos, é o que seguramos»,
distribuída na Alemanha nazi pela RAF e criada pela equipa dpo Delmer

Estas estações, bem como os materiais impressos (postais e outros) chocaram até o governo britânico, pois Delmer chegou a recorrer à erótica explícita, contando em pormenor as festas sexuais dos chefes do partido, e inventou também toda uma campanha que incentivava os soldados alemães a utilizar métodos eficazes para se auto-mutilarem-se, dirigindo-se aos hospitais e até ao suicídio. Alguns no governo britânico acreditavam que deveriam estar acima desta imundície. Chegou mesmo a enviar cartas às famílias dos soldados alemães em nome dos seus amigos, que garantiam que o seu filho estava vivo e se tinha estabelecido perfeitamente no Ocidente, e como prova disso, os pais recebiam dos seus filhos pacotes com comida deliciosa. Embora muitos deles já estivessem mortos nessa altura. Uma das estações transmitia notícias com tanta sinceridade que se tornou a terceira mais popular, a seguir à Reichsradio e ao serviço alemão da BBC. Ao mesmo tempo, claro, esta emissora transmitia notícias sobre as perdas do Reich na frente de batalha, sobre os problemas da economia alemã, sobre a perda de territórios e conquistas, o que levou à depressão não só pessoas comuns, mas também oficiais e generais. 

Uma colagem da obra distribuída pela campanha de propaganda britânica. Museu Internacional da Segunda Guerra Mundial

Assim, após ouvir uma dessas estações, um comandante de submarino alemão, juntamente com a sua tripulação, rendeu-se sem lutar, pois tinha ouvido tantas notícias que se sentiu mal, e o que o culminou foram os parabéns na rádio que lhe foram dirigidos: uma apresentadora de rádio, em tom jocozo, chamando-o pelo próprio nome, felicitou-o pelo nascimento de um filho. Quando os seus camaradas lhe perguntaram porque é que tinha decidido render-se, o comandante do submarino respondeu: «Não volto a casa há dois anos». Outro comandante de um submarino alemão, U-288, tenente Horst Bredow, disse, após a guerra, que pediu as fotos de uma das apresentadoras do Delmer, a «Vicky», atriz alemã Agnes Bernelle.

Delmer trabalhou com o futuro «pai» de James Bond, Ian Fleming. Aliás, Fleming, como se sabe, trabalhava nos serviços de informação da Marinha Britânica, e era essa informação que fornecia a Delmer todas as notícias e nomes dos militares nazis – mesmo dos escalões médios. Portanto, eram confiáveis.

Jornal em língua alemã com a tiragem de 250.000 chamado Nachrichten für die Truppe
(Notícias para as tropas), lançado pelas FAR para os soldados alemães na frente ocidental.

Até ao fim esperávamos que Peter Pomerantsev desse uma receita para a propaganda no nosso tempo, mas ele estava a pensar na eficácia e na moralidade deste trabalho, consciente da prioridade da eficácia. Numa entrevista antiga, disse uma vez que não faz sentido a Ucrânia fazer projectos mediáticos que desmascarem as histórias da propaganda russa – especialmente quando a transmissão não é dirigida à rússia, mas sim à Ucrânia. Precisamos de travar esta batalha em território inimigo, mas para isso precisamos de conhecer a sua psicologia. O mais importante: não se deve envolver na verificação de factos, porque ninguém vai ler. Aparentemente, não se deve falar com um povo doente e zumbificado como se estivesse numa receção com um rei.

Um livro maravilhosamente escrito e muito interessante. Se não fizerem um filme baseado nele, será uma pena.

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