sábado, fevereiro 20, 2016

2º aniversário da Revolução ucraniana: os heróis da Maydan

Não fazem de mim uma pessoa heróica. Tinha medo no dia 20 de fevereiro de 2014. Tinha medo quando disparavam, quando a janela em cima de mim se quebrou do disparo, quando as colunas do palácio Zhovtneviy eram atingidas pelas balas, perdendo a estrutura e a pintura, quando a sangue da cabeça de um rapazinho saia pulsando. Quando tentávamos o reanimar durante 5 minutos, compreendendo que nada conseguimos fazer-lo...
por: Irina Soloshenko, paramédica da Maydan

Tinha medo quando gritavam pelo desfibrilador e eu corria para busca-lo e Oleksandr Prudko me apanhou pela mão e gritou: não é preciso, metade de cabeça se foi, já não o salvaremos. Tinha medo quando via Ivan Zholoban à ultrapassar a rua Instytutska, passando para a parte mais atingida pelos franco-atiradores, juntamente com Yevhen, o médico clandestino.
Fiquei com o medo quando vi o filme documental com a filmagem cronometrada que mostrava quando e onde o que acontecia. Fiquei com o medo pois pensei que os meus filhos dificilmente vão ficar bem no caso da minha morte. Fiquei com o medo pela memória curta das pessoas, eu vi como mudam as pessoas, mas encontrei as pessoas de verdade e fico feliz por eles.
Escrevi isso na noite de 20 à 21 de fevereiro de 2014. Quase não dormi naqueles dias. Estava a tremer, quando me limpava do sangue dos outros, fumo e sujidade, que penetraram nas mãos, eu deitei fora jeans e sapatos, coloquei o filho à dormir e uivava por dentro da minha almofada, não tinha forças para chorar...
- alguém entende do soro?
- eu, podem me passar
- façam
- quem o levará?
- nós podemos...
As macas militares são bem pesadas, um senhor e eu com um paramédico corremos (minha nossa), eu não consigo, vou cair agora, pessoal, ajudem, pego o sorro
- com cuidado, as escadas são escorregadias...
Em frente fica a viatura das emergências, um jovem enfermeiro assustado olha para mim:
- o que?
- é ligeiro...
- os ligeiros os levem ao mosteiro de Mikhaylovski
- que ligeiro, car@lho: perfuração dupla do pulmão, abre lá
Corremos, conseguimos, está salvo.
Ler texto integral (em russo), ver as fotos:
https://www.youtube.com/watch?v=GE9G_LWcviU

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

2º aniversário da Revolução ucraniana: a morte da Centena Celestial

No dia 18 de fevereiro de 2014 o regime do Yanukovych apostou tudo no esmagamento da Revolução de Dignidade: destacamentos especiais da polícia, franco-atiradores do spetsnaz da Crimeia, juntamente com os bandidos titushki começaram matar os ativistas desarmados (ver fotos).
O jovem de olhos vedados, Mykyta P., sobreviveu, felizmente não perdeu a visão,
embora foi ferido com a gravidade média na base do crânio  
O movimento Euromaidan que começou em 21 de novembro de 2013 como protesto pró-Europa absolutamente pacífico, evoluiu até a resistência que defendia metro-a-metro o território de liberdade no coração de Kyiv.
Os manifestantes acabaram por serem alvos de fogo real por parte da polícia afeta ao regime, que também usava o gás ou as granadas de luz e som. Mais de 2.500 ucranianos foram feridos nos confrontos, mais de 100 manifestantes foram assassinados no centro de Kyiv. Eles são conhecidos como a Centena Celestial, homens e mulheres de diversas idades e de todas as regiões da Ucrânia que morreram para que outros pudessem prosseguir com a Revolução.
O direto da Rádio Liberdade do dia 18 de fevereiro de 2014, rua Instytutska, arredores do Parlamento ucraniano: http://bit.ly/1PHvKDr


https://www.youtube.com/watch?v=xuodAcyGz94

terça-feira, fevereiro 16, 2016

O bom russo é um bom ucraniano

Anatoliy D. Vodolazskiy nasceu na região russa de Voronezh em 1951, mas desde 1975 vive na Ucrânia, em Druzhkivka, onde trabalhou como soldador. Anatoliy foi um dos poucos ucranianos que publicamente apoiou Ucrânia, quando a cidade foi ocupada pelos terroristas da “dnr”.

No auge do terror terrorista, no dia 22 de maio de 2014, Anatoliy Vodolazskiy, foi a praça central da sua cidade, com a bandeira ucraniana nas mãos. Nas vésperas, ele avisou sobre a sua ação de protesto a polícia e o jornal local. 15 minutos depois, Anatoly foi atacado pelos terroristas armados que lhe colocaram o saco na cabeça, o agrediram e meteram numa viatura. Os terroristas o lavavam ao Kramatorsk, mas à saída da cidade o terrorista condutor propôs assassina-lo, deixando o corpo algures na estrada. O que não foi feito, talvez pelo receio dos terroristas que o momento do ataque fosse capturado pelas câmaras de vídeo vigilância no centro de Druzhkivka.

Anatoliy voltou para casa alguns dias depois — cansado, magro, sem alguns dentes. Muito raramente o contato com o “mundo russo” é prazeroso...

No outono de 2014, após a libertação de Druzhkivka dos terroristas, no telemóvel de um dos separatistas presos foi achado o vídeo da ação do protesto, protagonizada pelo Anatoliy. O terrorista foi julgado, o caso se tornou público.

Agora Anatoliy D. Vodolazskiy vive no território da Ucrânia livre, ele é respeitado pela sua ação e pelas privações que passou pela Ucrânia. O próprio Anatoliy, após o sucedido, começou amar Ucrânia ainda mais intensamente. «Cada um deve fazer a escolha no momento mais difícil para Ucrânia, eu fiz a minha», – diz ele (foto do herói @Roman Nikolayev).

Bónus
No dia 14 de março começam em Curitiba (Brasil) os cursos de língua ucraniana, níveis I, III e VII, ministrados pela Profª Drª Olga Nadia Kalko, ainda há lugares disponíveis! 

Ucranianos de Portugal se dirigem à Assembleia da República

Carta ao Presidente da Assembleia da República Portuguesa da comunidade ucraniana em Portugal.
Exmo Sr. Dr. Eduardo Ferro Rodrigues,
Presidente da Assembleia da República,

Depois de mais de 15 anos de história da nossa comunidade em Portugal nós, ucranianos que chegaram à terra lusa com o objetivo inicial de trabalho temporário, podemos afirmar que hoje estamos ligados a Portugal e consideramo-nos cidadãos deste país cuja cultura, história e regras sempre respeitámos.

Consideramo-nos perfeitamente adaptados à sociedade portuguesa e por isso agradecemos ao Governo, aos deputados e a todos os portugueses pelas condições que permitiram a nossa rápida integração.

Ao mesmo tempo, continuamos a preocupar-nos com a nossa Pátria – Ucrânia. Preocupamo-nos com as nossas famílias e queremos que o nosso país tenha os mesmos valores sociais a que nós nos acostumamos ao vivermos numa sociedade democrática e europeia como Portugal. A Ucrânia esteve muitos anos reprimida pelo regime totalitário da União Soviética, que lhe trouxe milhões de vítimas de repressões políticas, genocídio de fome e causou uma estagnação do desenvolvimento cultural e social.

Consequência desta ocupação foi o facto de a Rússia, após a declaração da independência da Ucrânia em 1991, ter mantido o controlo económico e político sobre o nosso país, bloqueando a sua integração nas estruturas europeias e mundiais.

O desejo dos ucranianos de viver num país livre e sem corrupção levou a população a sair à rua na Revolução de Maidan em 2013. Centenas foram os que morreram às balas dos apoiantes do regime pró-Kremlin de Viktor Ianukovitch. Isso foi a prova de que os ucranianos estão prontos para lutar pela democracia, mesmo com a própria vida.

Compreendendo que está a perder o controlo sobre a Ucrânia, o governo de Vladimir Putin iniciou uma agressão militar direta contra a Ucrânia: em primeiro lugar anexou a Crimeia, depois, apoiou militarmente organizações terroristas de Donetsk e Lugansk que, do seu lado, autoproclamaram independência territorial da Ucrânia.

A Rússia justificava (e justifica) esta agressão como a “defesa dos direitos dos russos étnicos na Ucrânia”. E a guerra que iniciou, como um conflito civil da própria Ucrânia. O que não é verdade, visto que este conflito é um fruto da chamada guerra “russa-híbrida” contra os países que procuram sair do controlo de Moscovo. Exemplos deste tipo de guerras: Transnístria, Abkhazia, Ossétia e Chechénia.

Desde o início da Revolução de Maidan, a diáspora ucraniana de todo o mundo, que perfaz mais de 20 milhões de pessoas, ativa e extremamente unida começou a auxiliar a Ucrânia. Salientando as causas e abordando os governos e políticos dos países onde vivem para ajudarem a parar a agressão russa.

Estamos agradecidos a Portugal que, numa situação geopolítica difícil que ameaça o mundo com um novo terrível conflito, apoiou a Ucrânia. Mas, infelizmente, os acordos de paz negociados pela comunidade internacional para acabar com a guerra no leste da Ucrânia, na verdade, não trouxeram o resultado esperado. Praticamente todos os dias nós recebemos com dor, notícias de ataques de mercenários russos, mais vítimas e mais vidas destruídas. Além disto, esta situação isola a Ucrânia, converte-a numa zona de perigo com consequências económicas e políticas.

Em vez de um diálogo construtivo para acabar com o derramamento de sangue no leste da Ucrânia, em vez de permitir uma relação amigável e mutuamente benéfica com a vizinha Ucrânia, a Rússia continua uma política de agressão e a ocupação da Crimeia, e não retira as forças militares nas regiões de Lugansk e Donetsk. Continua a abastecer os terroristas com armas modernas permitindo a destruição em massa das infra-estruturas ucranianas, a morte de civis e a prisão de cidadãos por motivos políticos, entre os quais, a mais conhecida Nadia Savchenko (deputada). A Rússia está constantemente a construir uma propaganda suja sobre a Ucrânia nos media nacionais e internacionais e a nível político elevado (nos MNE’s).

Portanto, caro Sr. Presidente, escrevemos-lhe em nome de todas as organizações que unem os ucranianos em Portugal e em nome da nossa unida diáspora, para lhe pedir ajuda: continuem a apoiar as sanções internacionais políticas e económicas contra a Rússia. Aliado a outras medidas que possam vir a ajudar a acabar com a agressão russa, a devolução dos territórios ocupados, assim como a libertação dos reféns ucranianos que estão detidos nas autoproclamadas repúblicas de Lugansk e Donetsk.

Vivemos em países livres e é livre que queremos ver a nossa pátria.
Com os melhores cumprimentos,
Associação dos ucranianos em Portugal (www.spilka.pt), presidente – Pavlo Sadokha,
Associação "UPE—Centro Social e Cultural Luso-Ucraniano", vice-presidente Olena Lyubarska
Centro Educativo e Cultural "Dyvosvit" (Lisboa), director – Vlada Kiyak,
Centro Educativo e Cultural «Oberig», director
Ulyana Kucheras,
Associação "Fonte de Mundo", presidente
Boris Kucheras,
Centro educativo e cultural luso-ucraniano "Escola Tarás Shevtchenko"(Faro), directora  Natalia Dmytruk,
Centro cultural e educativo «Rodyna», director – Iryna Melnychuk,
Associação cultural «Êxito das Tendências», presidente – Taras Shevchenko,
Associação dos ucranianos Algarve, presidente – Igor Korbelyak,
Associação Cultural e de Solidariedade Social "Casa da Ucrânia", presidente – Valentina Vassilenko,
Associação dos ucranianos em Portugal «Sobor», presidente – Oleg Hutsko,
Centro da língua materna «Sobor», Oksana Hutsko,
Movimento Cristãos Ucranianos em Portugal, presidente – Ivan Onyschuk,
Associação de Jovens Ucranianos em Portugal «Synytsia», presidente – Iuliia Voroshylova,
Centro cultural e educativo "Escola Kyrylo e Mefodiy", director – Olena Dvoinikova,
Associação "Pirâmide das Palavras", presidente – Myroslava Martynyuk,
Centro Educativo e Cultural "Світлиця" (Cacém), director – Lyubov Pikho,
Comunidade ucraniana de Albufeira, responsável – Oksana Turyk,
Secção ucraniana da Primeira escola Eslava, vice-director – Bohdan Leskiv,
Cantora – Oksana Boroday,
Associação dos imigrantes de Gondomar – «Amizade», Nataliya Khmily,
Associação de apoio dos imigrantes «São Bernardo», presidente – Lyudmila Bilaya,
Repórter – Tamara Moroshan

domingo, fevereiro 14, 2016

Feliz Dia de São Valentim!

O dia 14 de fevereiro é considerado em muitos países, inclusive na Ucrânia, como o Dia dos Namorados (já no Brasil, esta data é comemorada no dia 12 de junho).
Todos os amigos parabenizo pelo Dia do Amor!
Para que todos se amam desde a noite até subir o sol!
E para que sempre tenham essa vontade,
Como aos vinte anos, lá na sua herdade.


O encontro que não aconteceu?

No dia 12 de fevereiro de 2016, no aeroporto de Havana, decorreu o encontro entre o líder da Igreja católica, Papa Francisco e o chefe da igreja ortodoxa do maior país ortodoxo, Patriarca Kirill. A reunião, realizada às portas fechadas durou mais de duas horas.

A reunião que culminou com assinatura da declaração conjunta provocou diversas reações do público e dos representantes das igrejas da Ucrânia. As suas impressões sobre a reunião em geral e sobre a declaração em particular, partilhou connosco o Patriarca da Igreja Greco-Católica Ucraniana (UGCC), Sviatoslav Shevchuk (o texto curto).

As suas impressões sobre o encontro do Papa Francisco e o Patriarca Kirill. E sobre a declaração conjunta que eles assinaram?
Com os nossos largos anos de experiência, podemos dizer que quando o Vaticano e Moscovo organizam os encontros ou assinam os textos conjuntos, não devemos esperar disso nada de bom. [...] Quando se trata do texto da Declaração conjunta, em geral, a impressão é positiva. A declaração levanta as questões que são comuns aos católicos e ortodoxos e abre os novos horizontes para a cooperação. Incentivo à todos ver os pontos positivos. Embora os pontos [25 e 26] sobre Ucrânia, em geral, e sobre a Igreja Greco-Católica em particular, me levantam mais perguntas do que as respostas. [...] Falando disso, como líder da igreja [ucraniana], sou membro oficial do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, nomeado ainda pelo Papa Bento XVI. Mas ninguém me pediu para expressar os meus pensamentos e, de fato, como acontecia no passado, falaram sobre nós mas sem nós, sem nós dar o direito da opinião. [...]
No entanto, o ponto 25 da Declaração se refere respeitosamente aos greco-católicos e, essencialmente, a Igreja Greco-Católica Ucraniana é reconhecida como objeto das relações intra-eclesiásticas entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas.
Sim, você está certo. Parece que já não se levanta nenhuma objeção sobre a nossa existência. Embora, na verdade, à fim de existir e agir, não temos que pedir permissão à ninguém. A nova ênfase está, claro, no Acordo de Balamand de 1994, que até recentemente era usado pelo metropolita [russo] Alfeyev para negar o nosso direito de existir, agora é usado para aprovar [a nossa existência]. Sempre referindo-se à rejeição da “uniatismo” como um método de unificação das igrejas, Moscovo exigia ao Vaticano, praticamente, a proibição da nossa existência e limitação das nossas actividades. Mais, este requisito, de forma de ultimato, foi colocado como a condição para a possibilidade do encontro entre o Papa e o Patriarca [russo] . Éramos acusados ​​de “expansão no território canónico do Patriarcado de Moscovo” e agora nós reconhecem o direito de cuidar de nossos fiéis, onde quer que eles necessitam disso. Presumo que isto também se aplica ao território da federação russa, onde até hoje não temos a possibilidade de existência jurídica livre ou ao território anexado da Crimeia, onde após um “novo registo” segundo a legislação russa, somos liquidados de facto. [...] 

Como você comenta a seguinte tese [da declaração]: “Exortamos todas as partes em conflito à prudência, a solidariedade social e a construção ativa da paz. Nós encorajamos as nossas igrejas a trabalhar na Ucrânia para alcançar a harmonia social, a abster-se de tomar parte no confronto e não apoiar o seu desenvolvimento posterior”?
Na verdade, eu quero dizer que o ponto 26 da Declaração é o mais controverso. Tem-se a impressão de que o Patriarcado de Moscovo ou não admite teimosamente que é uma parte do conflito, ou seja, apoia abertamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia, tal como está santificar as ações militares da Rússia na Síria como uma “guerra santa” ou dialoga com a sua própria consciência, exortando-a à prudência, à solidariedade social e à construção ativa da paz. Não sei ... A própria palavra “conflito” é um termo obscuro e seduz o leitor a pensar que temos um “conflito civil” ao invés de agressão externa de um estado vizinho. Hoje é um facto largamente conhecido, se à terra ucraniana não vinham os militares da Rússia, se não seriam fornecidas as armas pesadas, se a Igreja Ortodoxa Russa em vez de benzer a ideia do “mundo russo” pregaria a passagem do controlo da Ucrânia sobre as suas próprias fronteiras, nem a anexação da Crimeia, nem a guerra teriam o lugar. Essa é a solidariedade social com o povo ucraniano e pela construção activa de paz que esperamos dos signatários deste documento. [...]

A Igreja Greco-Católica Ucraniana nunca apoiou, nem promoveu a guerra. Em vez disso, sempre apoiamos e apoiaremos o povo da Ucrânia! Nós nunca estivemos ao lado do agressor, pelo contrário, estávamos com a nossa gente na Maydan, quando eles eram assassinados pelos representantes do “mundo russo”. Os nossos sacerdotes nunca pegaram em armas, ao contrário daquilo que acontecia do outro lado. Nossos capelães, como construtores de paz, apanham o frio com os nossos soldados na linha de frente, com as suas mãos levam os feridos do campo de batalha, enxugando as lágrimas de mães que choram os seus filhos mortos. Nós cuidamos dos feridos e atingidos em resultado dos combates, independentemente da sua origem étnica, pertença religiosa ou política. Hoje, mais uma vez, as circunstâncias ditam que o nosso povo não tem a outra protecção e socorro, para além da sua Igreja. É a consciência pastoral nós chama para sermos a voz do povo, para despertarmos a consciência da comunidade cristã do mundo, mesmo quando essa voz não é entendida ou tem sido negligenciada pelos líderes religiosos das igrejas modernas.

Será que o facto de que o Santo Padre assinou um documento vago e ambíguo não abalará o seu respeito por parte dos fiéis da Igreja ucraniana, para a qual a unidade com o sucessor de São Pedro é uma parte integrante da sua identidade?
Sem dúvida, este texto tem causado profunda decepção entre muitos dos fiéis de nossa Igreja e mesmo entre os cidadãos consientes da Ucrânia. [...] No entanto, incentivo os nossos fiéis à não dramatizar a presente Declaração e não exagerar a sua importância para a vida da Igreja. Sobrevivemos várias declarações semelhantes, sobreviveremos essa também.

Ler o texto integral (em ucraniano):

sábado, fevereiro 13, 2016

Os crimes russos da guerra no leste da Ucrânia

O militar ucraniano no cativeiro dos terroristas da "lnr"
A deputada do parlamento polaco, Małgorzata Gosiewska (partido PiS), apresentou publicamente o relatório dedicado aos crimes da guerra russos, cometidos no leste da Ucrânia contra os civis e militares ucranianos. O jornalista polaco Wojciech Pięczak do jornal “Tygodnik Powszechny” conversou sobre a investigação com Adam Nowak (pseudónimo), o investigador do grupo, ex-oficial do Bureau Central de Investigação (CBS) da Polónia.

por: Wojciech Pięczak (versão curta, +16, o texto contém as descrições de tortura)

— Quantas pessoas foram entrevistadas?
— Quase 70. Apenas dois na Polónia, os restantes na Ucrânia. É apenas um fragmento daquela realidade. À partir do momento em que terminou a colheita de informações e começou o seu processamento nós sempre recebemos os dados de outras pessoas que querem dar o seu testemunho. Mas nós já não somos capazes de usá-los, porque, neste caso, o trabalho será adiado por mais um ou dois anos. É claro, se o tribunal de Haia mostrar interesse na matéria (e espero que isso irá acontecer, porque lá já começou um estudo preliminar sobre a situação na Ucrânia, e enviamos o nosso material como parte deste tema em particular), vamos fornecer [ao tribunal de Haia] as informações de contato de outras testemunhas.

— Porque as testemunhas são citadas no relatório de forma anónima?
— Preservação do anonimato é um procedimento padrão em tais investigações. Todas as vítimas aparecem no documento sob os números C-1, C-2, e assim por diante. «C» do inglês «case» – o caso. Se o Tribunal Penal Internacional começará o caso, nós iremos conectar os investigadores com as vítimas. No entanto, um par de pessoas já pode ser identificado, por exemplo, através dos fotografias contidas no relatório. Eles concordaram com isso, eles próprios já falam publicamente, falando abertamente sobre aquilo que lhes aconteceu.

— Você se lembra da sua primeira conversa?
— Era o voluntário do batalhão "Donbas". Ele caiu no cativeiro russo no cerco de Ilovaysk, foi torturado. Ele telefonou para seus companheiros que também passaram pelo cativeiro, estes enviaram-nos aos outros. Nós íamos de pessoa à pessoa. Os contactos úteis foram nós cedidos pela Małgorzata Gosiewska e pelos voluntários ucranianos.

— Todos estavam preparados para falar?
— Alguns não. Nós, infelizmente, não conseguimos documentar o caso de uso de tanta crueldade que foi absolutamente incrível, mesmo no contexto de tudo o que tínhamos ouvido. Uma jovem mulher concordou, mas depois não conseguiu falar.

— O que aconteceu com ela? Onde ela está agora?
— Ela tinha 22 anos. Ela caiu nas mãos dos mercenários chechenos que lutaram ao lado dos russos. Ela foi cativa durante cerca de duas semanas. Provavelmente, não é preciso explicar mais. [De momento ela] está num hospital psiquiátrico. Não se sabe se ela jamais sairá de lá.

— No vosso relatório nada se diz sobre os estupros.
— Não conseguimos obter os testemunhos de mulheres que sofreram a violência. Talvez, se passássemos mais tempo lá, teria sido diferente. Éramos apressados pelo tempo. Às vezes, íamos de uma vítima para outra durante a noite, para ganharmos o tempo. [Małgorzata] Gosiewska dirigia a viatura, nós dormíamos, depois nas manhas nós recolhíamos os depoimentos e ela dormia.

— Como se sabe que houve os estupros?
— Através das pessoas que cuidavam dessas mulheres, ou das testemunhas que viram essas cenas.

[As torturas sofridas pelos ciborgues]
— Por exemplo, o grupo dos ciborgues (militares que defendiam o aeroporto de Donetsk) que caíram no cativeiro [...] eles todos estão numa condição física e mental terrível. Eles eram [torturados] com o derramamento da água fervente, queimados com os ferros de engomar.
O ciborgue ucraniano assassinado no aeroporto de Donetsk (o militar tem as mãos atados atrás das costas)
foto @Channel 4 News (Alex Thompson)
— Quais as outras situações que você se lembra mais?
— A conversa com um ciborgue. Eu não posso esquecê-la, embora tento manter uma distância psicológica. Ele caiu no cativeiro ferido, cheio de estilhaços. Ele contou que os russos, em vez de lhe ministrar algum curativo, começaram à torturá-lo. Uma enfermeira russa tentou convencer os seus colegas para que ele seja castrado. Felizmente, isso não aconteceu. Ou uma outra história: o soldado ucraniano contou como ele foi feito prisioneiro pelos chechenos e [estes] perguntaram o que ele preferia: que eles lhe cortaram o coração, os órgãos genitais ou ouvido? Ele escolheu ouvido. E eles o cortaram. Eles mataram o seu colega ferido. Depois veio uma espécie de comandante e proibiu matar os restantes. O homem sobreviveu, eu falei com ele. Sua imagem está no relatório. Ele realmente não tem a orelha.

[O objetivo do relatório]

— Identificar os criminosos e documentar as suas ações na base dos depoimentos de testemunhas e vítimas. [Foram identificados] várias dezenas [de criminosos]. Alguns parcialmente: temos o nome ou uma alcinha, uma descrição. Mas alguns [são identificados] na íntegra: temos apelidos, datas de nascimento, os locais da sua atuação e dos crimes cometidos.

— Faz sentido a publicação das alcunhas?
— Sim, porque o texto do relatório está disponível na Internet, e nós esperamos que este será lido pelas pessoas, que pelas descrições e alcunhas reconhecerão os criminosos, e, depois entrem em contato connosco. Se temos uma descrição de um homem chamado David, cuja vítima disse que antes da guerra, este trabalhou como chefe de subdivisão na polícia de Donetsk, e o relatório será lido por ex-policiais de Donetsk, há uma chance de que alguém o reconhecerá e ganhará a coragem para passar nos a informação. Pelo menos anonimamente, via e-mail.

— Vocês identificavam os criminosos baseando-se nas fontes abertas?
— Sim, nós não tínhamos acesso à qualquer informação classificada. Muito útil foi nós a informação da Internet ucraniana: há páginas [https://psb4ukr.org] locais onde as autoridades e os voluntários publicam diversos dados sobre a situação de Donbas, incluindo sobre o que está acontecendo do outro lado, escrevem quem é quem. No entanto, um monte de pessoas suspeitas por nós de crimes de guerra, não esconde nada. Pelo contrário, eles se gabam nisso na Internet russa, nas redes sociais.

— Pode dar algum exemplo?
— Por exemplo, um homem, que ainda não está presente na lista de criminosos, porque não conseguimos chegar às suas vítimas que sobreviveram. Nós seguimos o princípio de incluir na lista apenas aqueles que aparecem nos depoimentos recebidos. O seu nome é Alexey Milchakov, russo de São Petersburgo. Vinte e poucos anos. É um monstro com as características didáticas de um serial killer. A sua presença nas redes sociais, ele começou fotografado com um cachorrinho, em seguida, cortou sua garganta e comeu, para mostrar que é um verdadeiro homem. Ele se voluntariou no Donbas, tornou-se o comandante da unidade no batalhão “Rusich” – são os nacionalistas russos com a inclinação eslava – fascista. No Facebook, ele publicou as suas fotos com os corpos esfolados. O tipo de psicopata pervertido. Na Rússia, ele é homenageado como um herói, é convidado à TV como um especialista em temas ucranianas. [No nosso relatório] aparece apenas nas notas.
— Vocês não acharam as suas vítimas?
Vivas não. Nós ainda temos apenas as descrições dos assassinatos cometidos por ele.

— Os assassinos que foram identificados, quem são estas pessoas?
— São bem diferentes. O grupo mais horrível são mercenários das repúblicas do Cáucaso. Os chechenos e ossetas, mas também os cossacos do Don da Rússia. Eles se caracterizam pela extrema crueldade. Mas outros grupos divergem deles em muito pouco. Há, por exemplo, uma organização chamada Exército ortodoxo russo – são voluntários da Rússia [composto pelos membros da organização neo-nazi russa RNE]. Eles se distinguem pela agressividade especial contra os “infiéis”, ou seja, aqueles que não pertencem à Igreja ortodoxa russa do Patriarcado de Moscovo. [Eles consideram que] “os infiéis” podem ser mortos. O mais severamente eles perseguem os protestantes ucranianos. Antes da guerra, havia [na Donbas] uma pequena comunidade protestante. Eles mataram vários padres, em alguns casos juntamente com as suas famílias. Outros foram torturados com extrema crueldade. Houve situações em que as suas ações, por exemplo, os ataques contra as igrejas protestantes, eram abençoados pelos padres ortodoxos. Quando eu ouvia os depoimentos sobre este “exército”, tinha a impressão de que são simplesmente os jihadistas ortodoxos. Na Internet encontrei os vídeos deles, por exemplo, com as instruções de como limpar as armas de maneira “ortodoxa”, para durarem mais tempo.

— E havia “bons russos”?
— Havia. Temos o testemunho de um homem que foi torturado durante várias horas, e depois, quando ele voltou à sua cela, alguém, em segredo, lhe trouxe os analgésicos. Então, não é possível dizer que do outro lado estão apenas os psicopatas. No entanto, houve um consenso social sobre a prática de tais atos, que são considerados crimes no direito internacional. Incluindo o consentimento do topo. Temos exemplos de torturas terríveis, eu diria, as torturas profissionais, que eram feitas pelos funcionários da inteligência militar russa – GRU.

— Como se sabe que eram realmente GRU?
— Primeiramente, eles próprios assim se apresentavam. Em segundo lugar, eles torturaram os oficiais profissionais do exército ucraniano, que anteriormente serviram no exército ainda soviético, passaram pela guerra no Afeganistão: eles conhecem este ambiente e os seus métodos.

— Como decorriam estas torturas?
— Por exemplo, com aquecedor de água queimavam a boca, debaixo das unhas eram marteladas as peças finas, com as facas eram perfurados os joelhos, se faziam as incisões musculares, as feridas eram polvilhados com o sal. Para obter informações também foram usadas as substâncias químicas.
Ler o relatório completo (em inglês, francês e polaco): http://www.donbasswarcrimes.org/report
Consultar os dados na rede Facebook: