domingo, abril 26, 2026

O dia em que a URSS abateu um Boeing sul-coreano sobre a Carélia

Em 20 de abril de 1978 o Boeing 707 sul-coreano, voo KAL 902, que voava de Paris para Seul com 97 passageiros e 13 tripulantes à bordo foi abatido pelas defesa anti-aérea soviética sobre a região da Carélia. Apenas o sangue frio e uma ótima preparação militar do piloto sul-coreano permitiram evitar a tragédia maior.

O piloto Kim Chang-Kyu, de 45 anos, coronel reformado/aposentado da Força Aérea e veterano da Guerra da Coreia, tentava escapar da floresta e pousar o avião no gelo do Lago Korpiyarvi, na Carélia, com um pedaço de três metros de comprimento da asa esquerda arrancado e um buraco na fuselagem. Ele conseguiu chegar a uma ilha para evitar que o avião caísse no gelo e pousasse de nariz. Das 110 pessoas a bordo, 108 sobreviveram (2 pessoas morreram e 13 foram feridas pelos estilhaços do míssil soviético).

Dano de fuselagem, causado pelo míssil soviético R-8

O voo 902 da Korean Air Lines (KAL-902) decolou do Aeroporto de Orly em 20 de abril de 1978, com 30 minutos de atraso. A rota Paris-Seul foi planeada para contornar o território soviético pelo Mar da Noruega e pelo Polo Norte, com uma paragem/parada para reabastecimento em Anchorage, no Alasca, e uma aterragem final em Tóquio. Enquanto sobrevoava a Groenlândia, o Boeing repentinamente virou bruscamente para o sul. As defesas aéreas soviéticas, ainda sobre águas neutras, detectaram um alvo desconhecido se aproximando ao território soviético.

Um caça-bombardeiro Su-15TM, pilotado por Alexander Bosov, do 431º Regimento de Aviação de Caça, decolou do aeródromo militar de Afrikanda, nos arredores de Murmansk. Na época, a Ordem nº 0040 do Ministro da Defesa e as instruções do serviço de caças de combate da Defesa Aérea Soviética estavam em vigor, estipulando que aeronaves de transporte militar e de passageiros que violassem o espaço aéreo soviético não deveriam ser alvejadas, mas sim forçadas a pousar ou serem expulsas. O piloto Bosov aproximou-se o máximo que pode, fazendo a sinalização com as asas e nariz do seu Su. O piloto soviético não usou a rádio, pois o seu aparelho não possuia as frequências usadas na aviação comercial ocidental. O comando militar soviético, no espírito da Guerra Fria fez-se à acreditar que o avião sul-coreano estivesse sobrevoando território soviético no intuíto de espiar os exercícios militares que estavam em andamento em Murmansk.

Su-15TM soviético, semelhante ao pilotado pelo Bosov

O piloto Bosov recebia ordens contraditórias, em que o comando do exército exigia o abate do aparelho, enquanto os comandantes de corpo argumentavam que abate seria contra as normas. O piloto não sabia a quem dar ouvidos; estava simplesmente farto da constante enxurrada de ordens para abatê-los e depois para não abatê-los. Em algum momento piloto gritou: «Digam-me o que fazer, por favor». Bosov voou ao lado do Boeing e não tinha mais dúvidas de que se tratava de um avião de passageiros. As pessoas sentadas na cabine da direita acenavam alegremente e tiravam fotos.

Dentro de seis minutos, o Boeing entraria no espaço aéreo da Finlândia, o que significava que o comandante do 21º Corpo, Tsarkov, o comandante do exército, Dmitriev, e o General Ozersky poderiam ser acusados de «deixar escapar o inimigo». Assim o Major-General Vladimir Tsarkov ordenou ao piloto Bosov que abatesse o alvo. 

O míssil R-8, guiado por calor explodiu perto do motor do Boeing, estilhaços arrancaram um pedaço de três metros de comprimento aquém do motor, quebrando uma janela e abrindo buracos na fuselagem. Permanece um mistério o motivo pelo qual o míssil não atingiu o motor e não destruiu o Boeing. O avião continuou voando, mas a despressurização da cabine ameaçou a vida dos passageiros.

O interior do Boeing após a sua aterragem. Foto do arquivo do Valeriy Volynets

A uma altitude de 9.500 metros, o comandante da aeronave iniciou um mergulho de 45 graus. Os passageiros pensaram que estavam caindo, gritando e rezando, mas a um quilómetro de altitude, o piloto estabeleceu/equalizou a pressão e anunciou que iria pousar. A menos de um quilómetro de altitude, com um pedaço da asa faltando e um buraco na lateral, Kim Chang-Kyu procurou um local para pousar em um terreno completamente desconhecido. No feixe de luz dos faróis, o piloto viu/avistou um comboio/trem e, descendo ainda mais, viu uma floresta e, além dela, uma ilha cercada de branco. Ele percebeu que era um lago e decidiu pousar. Temendo que houvesse placas de gelo, pousou com rodas/trem de pouso semiaberto, como se estivesse esquiando.

Tendo se aproximado da ilha, o avião já estava voando às cegas devido à neve e, usando os instrumentos de navegação, parecia estar com o nariz apontado para a ilha. Começou a incrível manobra do piloto sul-coreano que pilotou um caça numa guerra aérea real. Ele pousou o avião com precisão, baixando o nariz na margem, de modo que apenas rodas/trem de pouso atravessaram o gelo. Por cerca de duas horas, os passageiros esperaram por ajuda no lago congelado, enquanto caças soviéticas continuavam a procurá-los no ar.

Enquanto os passageiros permaneciam sentados no gelo e depois seguiam para Poduzhemye, o exército soviético forneceu camas de campanha, cobertores e os próprios soldados, esvaziaram o auditório do Clube de Oficiais local. O Clube dos Oficiais pareceu, às autoriudades soviéticas, o melhor e único local minimalmente digno para alojar os estrangeiros. Ao se encontrarem no antigo auditório, os coreanos, japoneses, alemães e franceses olharam com uma expressão de incredibilidade para as fileiras de camas de ferro, colchões listrados e lençóis com estampas cinza. Mas, devido ao frio, finalmente levaram/pegaram os cobertores militares e começaram a se enrolar. Os «hóspedes» locais chegaram a encontrar até o papel higiênico para os passageiros, já que não podiam lhes dar o jornal «Pravda» recortado, bastante usado na URSS na época. 

O KGB começou a investigar as circunstâncias da «violação da fronteira» pelo Boeing. O navegador testemunhou durante os interrogatórios que o avião saiu da rota porque seu equipamento de navegação falhou sobre o polo magnético da Terra. O piloto automático estava recebendo dados incorretos, causando uma curva para o sul. Afinal, para onde quer que vire a partir do Polo Norte, sempre estará virando ao sul. Devido a um erro do sistema, o seu «sul» indicava o norte soviético. Os agentes de KGB ficaram incrédulos e, após inspecionarem a aeronave, suas suspeitas foram «confirmadas».

No cabine de comandante, o KGB encontrou um rádio de emergência de reserva, as pistolas dos pilotos e uma revista «Newsweek» com um tanque na capa. Tudo isso, de acordo com a KGB, demonstrava «irrefutavelmente» a disposição da tripulação em arriscar a vida dos passageiros para obter segredos militares soviéticos. A versão final foi a seguinte: uma aeronave de reconhecimento, disfarçada de avião comercial civil com cem passageiros a bordo, violou o espaço aéreo soviético com intenções claramente hostis, mas foi forçada a pousar pacificamente no gelo de abril usando um caça Su-15 e um míssil ar-ar. Isso justificou a ordem do comando de aviação para abater a aeronave civil. Os chekistas também ficaram satisfeitos com isso: eles consideraram que «frustraram» um «ato de espionagem». Enquanto isso, o piloto sul-coreano reescreveu as suas notas explicativas por cinco vezes; primeiro, o departamento político as confiscou e, em seguida, o obrigou a reescrevê-las novamente.

Nenhuma aeronave de reconhecimento se comportaria dessa maneira a menos que fosse suicida, especialmente com passageiros a bordo. O Boeing não carregava nenhum equipamento de reconhecimento. Os operativos do KGB vascularam Boeing minuciosamente, mas não encontraram nada além de perfumes e conhaque francês. Esse tipo de aeronave tinha um defeito no seu sistema de navegação. Todas as aeronaves e aeródromos operam um canal internacional de radiogoniometria, que transmite um sinal de SOS em caso de emergência. O «Mayday» nas comunicações por radiotelefonia, e o Boeing enviou esse sinal quando percebeu que havia se desviado da rota oficial.

Os militares soviéticos acabaram por desmontar o interior do Boeing sul-coreano, carregando tudo o que for possível arrancar: principalmente a loiça, refrscos, sumos e bebidas alcoólicas, objetos da loja duty-free. Aparentemente, a bagagem de passageiros ficou salva do saque. Os soviéticos roubaram «apenas» uma câmera de vídeo, que nunca mais foi encontrada.

Em 30 de abril de 1978, os pilotos foram libertados. O jornal «Pravda» escreveu que eles «se arrependeram» e foram perdoados pela liderança soviética. O «New York Times» citou os próprios pilotos dizendo que não se arrependeram de nada, não pediram nenhum perdão e continuaram a afirmar que não fizeram nada de mal e que apenas o sistema de navegação havia falhado.

Logo após o incidente com o Boeing, piloto Alexander Bosov foi transferido para o Extremo Oriente soviético, um procedimento padrão, que, em teoria, deveria garantir ficaria de boca calada e que não falasse «em demasia» sobre aquilo que tinha acontecido. Em setembro de 1983, um outro Boeing coreano se desviou da rota sobre Kamchatka e entrou no espaço aéreo soviético. Ele também estava a caminho de Seul via Anchorage, desta vez vindo de Nova York. Caças de bases aéreas no Extremo Oriente foram acionados para interceptá-lo. Entre os pilotos prontos para receber a ordem de destruir o Boeing estava, então, o capitão Bosov. Ele deveria dar apoio ao piloto líder. Mas o piloto líder conseguiu abater o Boeing primeiro.

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Dessa feita, o Boeing-747 sul-coreano, voo KAL007, que seguia de Nova Iorque ao Seul caiu sobre o Mar de Okhotsk, ao sudoeste da Ilha de Sacalina, todas as 269 pessoas ao bordo (23 tripulantes e 246 passageiros), morreram...

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