Muitas
pessoas, incluindo as que nasceram após 1991 e nunca estiveram na União
Soviética acreditam na mitologia da “infância feliz soviética”. Que reza que na
URSS, as crianças apenas liam bons livros, comiam alimentos saudáveis, eram criados
pelas educadoras gentis e atenciosas em creches e jardins-de-infância e
professores nas escolas. “Tudo era estatal, tudo era controlado, o estado não faria
coisas más aos seus cidadãos mais pequenos!”, acreditam os crédulos. A realidade era bem diferente...
A
postagem de hoje reúne os principais mitos da “infância feliz soviética”.
1.
Mito dos «excelente creches e jardins-de-infância»
Quase
todo o tempo da sua existência, a União Soviética estava orgulhosa de possuir
mais jardins-de-infância do que os Estados Unidos – na propaganda soviética
isso era mais uma prova provada de que os EUA estão “condenados pela história”.
Nos
EUA, um dois pais que trabalhava (na maioria das vezes o pai) poderia sustentar
a sua família. Na União Soviética, ambos os pais tinham que trabalhar para conseguir
alimentar a família e não serem considerados como “improdutivos” (ausência do
emprego formal era punida na União Soviética de forma criminal), a licença de
maternidade estendida apenas à mãe (com a duração de um ano) foi introduzida na
URSS apenas em 1968 [mais tarde alargada aos dois, e à partir de 1990 aos três
anos, no entanto no terceiro ano sem direito à nenhum subsídio estatal] – essa
era a razão real da existência na URSS de uma grande quantidade de creches e jardins-de-infância.
A
qualidade. Como em todas as outras esferas, nos jardins-de-infância soviéticos floresciam
espírito oficioso e a coerção. Por alguns “delitos” inocentes as crianças, em
forma de punição podiam ficar num canto só de cuecas [ou mesmo serem obrigadas
à desfilarem nus], costumavam levar as palmadas – na URSS, o castigo corporal
era considerado como norma. Muitas vezes, a criança nem percebia a razão da sua
punição, mas estava se acostumado com a ideia de que “o poder é sempre mais
forte” e “se deve obedecer”.
A
“coletivização” puramente soviética começava já no jardim-de-infância, as
crianças ainda bastante livres e diferentes, eram obrigadas à participar nos
jogos e danças coletivas, cantar em coro, marchar em fileiras, etc. –
acostumar-se à ideia de que as aspirações e desejos individuais são muito más/ruins,
mas a caminhada em grupo é ótima. O menor pensamento próprio era castigado, a
titia gorducha poderia bater a criança ao qualquer momento, e a criança era endoutrinada
na fé de que o “avô Lenine” era um génio de todos os tempos e nações e que
ninguém o poderia sequer superar.
2.
Mito sobre «excelente alimentação para as crianças, sem OGM!»
A
comida soviética era “especialmente boa” (formada por salsichas, cereais,
batatas, leite diluído e galinhas azuis), mas os alimentos das crianças merecem
atenção especial. Muitas crianças na URSS foram criadas sem o leite materno –
no sistema pré-natal soviético isso era considerado uma norma. Para saber por
que isso é mau, devem usar a pesquisa no Google, o tema é longo demais.
Da
maternidade, a criança vinha para casa, onde não tinha comida normal para bebés.
As mães soviéticas usavam o leite diluído, semolina e uma moedora para cozinhar
algo que fosse adequado para a nutrição do bebê. De acordo com a OMS, na década
de 1970 (a época razoavelmente abastada do Brejnev), cerca de 70% dos bebés
soviéticos eram obesos por causa de sua nutrição quase exclusivamente de
carboidratos. Mas em contrapartida a URSS construía os mísseis Satã, os
satélites e no campo do balé, superavam os EUA de longe!
Depois
a criança entrava na creche ou no jardim-de-infância (quase sempre, veja o mito
№ 1), onde a comida era, em geral, horrível – mesmo se “de acordo com as regras”,
deveria ser razoavelmente boa. As cozinheiras das cantinas das creches, jardins-de-infância
e das escolas soviéticas eram quase sempre muito gordas. Toda a equipa roubava
os alimentos – desde a cozinheira chefe até pessoal do património, a sua
posição na hierarquia significava apenas a qualidade e quantidade daquilo que
podiam roubar. O que restava às crianças? As crianças tinham que comer as papas
e sopas aguadas e desagradáveis, as almôndegas feitas de pão e alho, as massas
cozidas ao estado de pasta – a comida provocava em muitas delas a vontade de vomitar
(literalmente).
3.
Mito sobre a «excelente educação e as escolas soviéticas»
O
mito da “excelente educação soviética” – talvez é um dos mais persistentes e
prejudiciais. Do mesmo modo que no jardim-de-infância, a escola soviética imponha
os “valores corporativos” e ensinava a marchar em formação. Todos deviam usar o
mesmo uniforme [as crianças do 1º e 2º anos tinham que possuir a insígnia com o
retrato do Lenine, os mais velhos usavam a gravata vermelha do pioneiro],
passando por um determinado “rito de iniciação”. A educação era construída na
base da coerção – os canhotos eram obrigados a escrever com a mãe direita, as crianças
talentosas e dotadas, eram frequentemente “picadas” pelas professoras: “seja
como todos, não se destaque, não se mostre!” O massacre das “ovelhas brancas” também
era popular, uma turma composta por alunos de notas médias, encorajados e
controlados por uma gangue de 3-4 alunos de notas péssimos, podia assediar e tratar
mal os bons alunos considerados “nerd” – isto é, aqueles que queriam e poderiam
aprender, liam muito, etc. Essa situação não era a regra geral – mas acontecia com
alguma frequência e com a total conivência de professores.
O
próprio sistema de educação na União Soviética era pensado em termo dos “indicadores”.
Ninguém se importava em dar à criança um conhecimento fundamental e principalmente
ensinar-lhe a pensar livremente – a principal exigência era que aluno memorize
a matéria, a reproduza e obtenha uma boa nota, o indicador do “sucesso da turma”
era a ausência de estudantes de notas abaixo de 10 valores (de 0 à 20) e não a
presença de mentes dotadas.
Em
geral, crianças frequentemente saiam da escola soviética com um conhecimento bastante
medíocre, mas com um sentimento incutido (muitas vezes pelo resto de suas
vidas), de que se deveria “obedecer o coletivo” e não discutir com as
autoridades.
4.
Mito sobre a «liberdade das crianças na URSS»
Os
ideólogos soviéticos daquela época propalavam aos quatro ventos que as crianças
na URSS são “especialmente livres”, diziam que apenas no sistema soviético isso
se tornou possível, etc.
Na
verdade, a infância da criança soviética estava cheia de real trabalho forçado
no pleno sentido da palavra. Começando com o jardim-de-infância, as crianças ficavam
“de plantão” – OBRIGADAS à realizar, de forma rotativa, algum tipo de trabalho
de caserna, por exemplo, limpando a sala, lavando janelas, trabalhando na horta
escolar, etc. Os “dissidentes” eram submetidos à todo tipo de ostracismo, tanto
por parte do “poder” (professores, educadores), quanto dentro do coletivo.
Além
disso, considerava-se como a “norma” enviar as crianças para a safra de batata
[na Belarus], ou para apanha de algodão na Ásia Central – onde, com ajuda do
trabalho infantil forçado eram alcançados os ótimos resultados dos “kolkhozes
milionários”. Apanha de algodão era um trabalho pesadíssimo de arrastar sacos
de 20 quilogramas e apanhar manualmente o algodão, pulverizado com
desfibrilantes e dessecantes. Desses trabalhos, as crianças frequentemente
voltavam doentes, estudando apenas metade do ano letivo. Este trabalho também
não era pago, pois era considerado como “um dever do pioneiro”.
5.
Mito sobre uma «segurança especial da infância soviética»
Um
outro muito bastante popular é sobre alegada “segurança especial” da infância
soviética – supostamente, naquela época “as portas não eram trancadas, todas as
pessoas eram como irmãos!”
Ler
mais URSS
que a humanidade perdeu
[Por
exemplo, em 1980, a URSS ocupava o 5° lugar no mundo em número dos
assassinatos, superado apenas por países como Colômbia, que naquela década
estava na auge da guerra contra a guerrilha marxista e o narcotráfico. A
prevalência dos assassinatos na República Socialista Federativa Soviética da
Rússia (RSFSR) era maior do que a média soviética. Se em 1970 na RSFS da Rússia
se cometeram 9,8 mil assassinatos, em 1975 já eram 14.000 e em 1980 – 18.000.
Em média, em 1989 na URSS eram assassinados (por 100.000 habitantes) as 12,4
pessoas, enquanto na França – 1,1; na Alemanha – 1,0; na Inglaterra – 1,04 e na
Irlanda do Norte, onde decorria a luta armada entre IRA, grupos paramilitares
protestantes e as forças policiais, este indício era de apenas 4,72.]
Aos
crentes neste mito, recomendamos verificar as estatísticas soviéticas sobre roubos
e banditismo – os números eram bastante altos, mesmo de acordo com os dados oficiais.
Além disso, na URSS eram ativos diversos maníacos e assassinos em série [pelo
menos 48
casos conhecidos] – como Vladimir Ionessian
“Mosgaz” ou Andrei Chikatilo
[ativo entre 1978 e 1990, assassino confesso de pelo menos 55 pessoas, apontado
pela polícia como responsável de 65 mortes: 21 rapazes com idades entre 7 à 16 anos;
14 meninas de 9 à 17 anos e 17 moças e mulheres]. Todos estes terríveis monstros
em forma humana nasceram exatamente na URSS e atuavam sob o domínio do sistema
soviético, vários deles eram membros do PCUS ou da juventude comunista –
Komsomol. A pedofilia era vista na URSS de forma bastante tolerante – um titio beliscou
a menina no rabo, o que há de errado disso?! Os casos de estupro de crianças
também não eram muito raros – muitas vezes isso acontecia na safra da tal “batata”,
onde as meninas eram enviadas pelas suas escolas.
Neste
ponto também precisa abordar uma outra questão – a existência do ambiente seguro
para a criança. Por causa da habitação soviética superlotada e apertada, as
crianças passavam a maior parte do seu tempo livre na rua. Nas décadas de 1970 –
1990, entre as crianças na URSS eram bastante populares os “entretenimentos
soviéticos”, como o lançamento de embalagens de dezodorisantes ao fogo, uso de
fisgas e outros engenhos que disparavam os parafusos, brincadeiras com carboneto,
foguetes de salitre e passeios nos telhados e obras de constrição civil.
É
preciso ser bastante idiota para afirmar que as crianças atuais que passam mais
tempo no computador e no passatempo civilizado ativo, como ciclismo ou patins
em linha, são de alguma forma “privadas” em algo, em comparação com as crianças
soviéticas. A infância presente é muito mais interessante e mais segura do que
a infância na URSS.
São
alguns mitos sobre a infância na URSS. [Os nossos leitores podem descrever a
sua própria infância, no Brasil, em Portugal ou em qualquer outra parte do
mundo.] É sempre interessante.
Fotos
@GettyImages | Texto Maxim
Mirovich e [@Ucrânia em África]
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