domingo, janeiro 27, 2013

As “tabelas negras” do Holodomor

O jornal “Sob a bandeira do Lenine” (província de Mykolaiv), edição de 1.01.1933 que publica a lista dos kolkhozes da “tabela negra”, foto da bashtanka.pp.net.ua
Um dos pontos da política repressiva do partido comunista contra os camponeses em geral e os camponeses ucranianos em particular foi a introdução do regime das Tabelas Negras em relação aos kolkhozes, distritos e até aos indivíduos.

A entrada na “tabela negra” significava cessação do comércio e fornecimentos dos géneros, cobranças antecipadas dos créditos agrícolas, purgas nos órgãos do poder local. Era a ferramenta económica de extermínio dos ucranianos.


O termo “tabela negra” foi usado desde a década de 1920, quando as aldeias e distritos ucranianos inteiros eram declarados colocadas na “tabela negra” por não conseguir as normas de Prodrazvyorstka ou ofereciam a resistência às requisições forçadas dos alimentos perpetuadas pelos bolcheviques. Naquela época o poder soviético enviava lá os destacamentos paramilitares punitivos, tomava os reféns, não fornecia os produtos manufaturados, etc.

A política das “tabelas negras” foi renovada em 1928-1929, quando as aldeias que falhavam as metas alimentícias eram chamadas de “atrasadas” e os líderes eram colocadas nas “tabelas vermelhas”. O mesmo termo era também usado em relação às empresas industriais que não alcançavam as tarefas planificadas ou não praticavam a “competição socialista”.

Durante o Holodomor de 1932-1933 o procedimento de colocação na “tabela negra” ganha os contornos repressivos contra as aldeias e regiões que ativamente ou passivamente resistiam à política comunista.

As repressões e o termo foi novamente usado desde outono de 1931 – primavera de 1932. Os documentos mostram que até o verão de 1932 o termo era usado esporadicamente, no verão seu uso foi alargado e desde outubro espalhou-se por toda a Ucrânia com exceções das províncias de Vinnytsya e Kharkiv. Isso ocorreu, pois nas palavras do secretário-geral do CC do PC(b) da Ucrânia, Stanislav Kosior, apenas desde o novembro de 1932 “a organização partidária começou se engajar na coleta do trigo”.

Numa linguagem não ideológica a frase significa que no outono de 1932, quando toda a colheita foi ceifada e não havia outras fontes de alimentação se iniciou a estratégia da intensificação da luta física pelo extermínio do campesinato ucraniano.

O termo “tabelas negras” foi mencionado na deliberação do estado-maior do PC(b) da Ucrânia de 18 de novembro de 1932, entre as medidas de “ações de aumento de coletas do trigo”, usadas para ultrapassar a “influência dos kurkuls”.

As ações previam o seguinte:
- cessar imediatamente todo o comércio (estatal ou cooperativo), fornecimento de todos os géneros e a retirada dos géneros existentes;
- cessar o comércio de kolkhoze;
- cessar todas as formas de creditação e cobrar antecipadamente os créditos e outras obrigações financeiras, previamente concedidas;
- executar a “limpeza” detalhada da composição dos efetivos kolkhozianos e dos órgãos do poder local dos “elementos contrarrevolucionários”.

A ata oficial que introduziu este regime foi a deliberação do Conselho dos Comissários do Povo da Ucrânia Soviética: “Sobre a luta da influência dos kurkuls nos kolkhozes” datada de 20.11.1932 e a instrução anexa à esta ainda não divulgada pelos historiadores. O direito de colocar as entidades na “tabela negra” foi outorgado aos Comités executivos provinciais do PC(b)U.

Entre os critérios usados para colocar uma entidade na “tabela negra” figurava, por exemplo, o passado político das aldeias ucranianas desde 1919: naturais da aldeia entre a liderança da República Popular da Ucrânia (UNR), participação nas sublevações camponesas de 1920-1921, a posição em relação à coletivização ou luta contra os kurkuls, etc.

O comité provincial do PC(b)U da Vinnytsya reportava: a aldeia Mazurivka foi colocada na “tabela negra” por lá nascer “o chefe insurgente Khmara”; a aldeia Karpivtsi por ser “uma aldeia conhecida como insurgente no passado”.

O poder republicano apoiava estas iniciativas locais, por isso o CC do PC(b)U e o Conselho dos Comissários do Povo da Ucrânia Soviética adotaram a deliberação de 6.12.1932 chamada: “Sobre a colocação na “tabela negra” as aldeias que de forma aguda sabotam a coleta do trigo”.

O caráter global e coletivo desta punição indica que a meta da política bolchevique não era a coleta do trigo, mas o extermínio do campesinato e de todos os moradores das aldeias.

A “tabela negra” republicana (de toda a Ucrânia) significava, além das repressões já mencionadas, a punição extra por parte dos órgãos centrais e locais. A lista detalhada destas punições ainda não foi estudada pelos historiadores.

O fim do mês de novembro – mês de dezembro de 1932 foi o pico das ações de “tabelas negras”. Neste período foram colocadas nas “listas negras” mais de 80% das unidades, que foram alvos das repressões conhecidas. A carta do CC do PC(b)U endereçada ao CC do PC(b) da União Soviética datada de 8.12.1932 mencionava o número de 400 kolkhozes, mas dado que só a província de Dnipropetrovsk representava metade deste número, a lista final deveria ser mais extensa.
A lista negra: na aldeia de Pisky (1ª na lista), Holodomor matou mais de 600 pessoas,
foto da bashtanka.pp.net.ua
O banco estatal da Ucrânia Soviética também participou nas repressões, ordenando a cobrança extraordinária de todos os tipos de empréstimos nas certas aldeias e o cancelamento de todas as contas dos determinados kolkhozes.

Lazar Kaganovich, a testa de ferro do Estaline e da PCUS na Ucrânia, disse, discursando no Bureau provincial do comité do partido da Odessa: “Temos que apertar a aldeia de tal maneira, que os próprios aldeões abrirão os esconderijos (de trigo)”.

A deliberação do CC do PC(b) da União Soviética e do Conselho dos Comissários do Povo da URSS de 8.11.1932 estipulava a interrupção do envio de produtos para aldeias de toda a Ucrânia até que “kolkhozes e os camponeses individuais não iniciam o cumprimento, honestamente e conscienciosamente, do seu dever perante a classe operária e o Exército Vermelho na questão da colheita de trigo”. A deliberação foi levantada em 14.12.1932, deixando ao critério do Stanislav Kosior e Vlas Chubar a sua interrupção em relação aos “distritos mais atrasados”.

A deliberação significava o “bloqueio manufatureiro” de todo interior ucraniano, em resultado se tornou impossível comprar os pregos, ferramentas, sal, petróleo de iluminação, etc. Ainda, a carta do comissário popular dos Fornecimentos da Ucrânia ao seu homólogo soviético, Anastas Mikoyan, de 25.12.1932, informa que o plano de fornecimento dos produtos manufaturados às cidades ucranianas no 3º trimestre de 1932 praticamente não foi cumprido. 

Resumindo, a imposição global do regime repressivo das “tabelas negras” na Ucrânia em 1932-1933 foi uma ferramenta eficaz da luta do poder central soviético contra o campesinato ucraniano. Era uma luta mortífera e a colocação de uma determinada aldeia ou distrito na “tabela negra” significava aproximação da morte à queima-roupa…

Fonte & Bibliografia e a lista das aldeias (juntas) e kolkhozes colocadas nas “tabelas negras” em 1932-1933 (seguido o ordenamento territorial da época): 
http://www.istpravda.com.ua/research/2010/11/27/6591

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