quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Jerry Berman, engenheiro sul-africano que presenciou Holodomor na Ucrânia

O engenheiro sul-africano Jerry Berman veio na década de 1930 para a União Soviética em busca de trabalho. Em 1932-1933, ele se viu envolvido na construção de uma ponte em Stanytsia Luhanska na região de Luhansk e tornou-se a testemunha ocular do Holodomor. 

Em 16 de fevereiro de 1903, nasceu na Lituânia, numa família judaica, Jerry Berman, um engenheiro sul-africano que, no início da década de 1930, cegado pela propaganda soviética, veio para a União Soviética em busca de trabalho. Em 1932-1933, ele se viu envolvido na construção de uma ponte em Stanytsia Luhanska e tornou-se testemunha ocular do Holodomor. Jerry correspondia-se ativamente com seus parentes irmãos, irmã e melhor amigo. Em suas cartas, ele descrevia em detalhes o que viu e não escondia sua decepção e indignação com o «paraíso soviético». 

“Não acreditem no paraíso aqui e não acreditem em uma única palavra daqueles belos discursos que vocês leem nos jornais que eu envio! escreve Berman em 8 de fevereiro de 1933 em uma de suas cartas. Deus! Se eu pudesse descrever as cenas noturnas que vi! Vocês ficariam arrepiados! Nenhum de vocês consegue imaginar uma enorme pilha de cascas de batata misturadas com lama, neve e areia, perto de um refeitório! Para imaginar isso, vocês teriam que tentar descrever a sujeira com um cheiro e aparência repugnantes, e é melhor eu poupá-los disso!

Mas imaginem os quatro trabalhadores nesta ponte, que eu vi agachados na escuridão da noite às 3h da manhã, remexendo nessa pilha em busca de pedaços de casca de batata para «alimentar» suas esposas e filhos! Uma pessoa consegue alimentar a si mesma e sua família com 800 gramas de pão preto e nada mais!

Um cobrador de elétrico/bonde recebe 80 rublos por mês. Um carpinteiro, 150 rublos. Um especialista 140-80 rublos. Um operário, 100-120 rublos. Um vigia, 55 rublos, etc. Ao mesmo tempo, meio quilo de manteiga custa 20 rublos, um pão, 25 rublos. Dá vontade de enlouquecer com tanta pobreza!

Acho que não dá para aguentar mais! Maldições que atingem a todos e se espalham por todos! Maldições e raiva! Vi um capataz dormindo, de pé com uma vareta na mão, pálido como a morte, com os ossos expostos! Que olhos terríveis! A caldeira estava prestes a explodir! Não havia água na caldeira e uma catástrofe de proporções gigantescas era inevitável!

As cartas de Jerry Berman sobreviveram milagrosamente e foram encontradas no sótão da casa da família de Alison Marshall, no Reino Unido. Em 2021, ela as doou ao Museu Nacional do Holodomor-Genocídio.

A história de Jerry Berman se tornou base da pintura «Cartas do Sótão», que será publicada em breve. Acompanhe nossas novidades!

Desenho de Anna Komar (da pintura «Cartas do Sótão»). 

Biografia de Jerry Berman

  • 1903 – Jerry Berman nasceu em Pikeliai, Lituânia.
  • 1921 – Junto com sua mãe e irmã, mudou-se para a Cidade do Cabo (África do Sul) para morar com seus irmãos e pai.
  • 1923 – Ingressou na Faculdade de Engenharia Civil da Universidade da Cidade do Cabo.
  • 1932-1935 – Trabalhou na URSS, inclusive na Ucrânia.
  • Após trabalhar na URSS, retornou à África do Sul, onde trabalhou na construção de pontes e estradas até sua reforma7aposentadoria no final da década de 1960.
  • Na década de 1940, casou-se e, em 1947, tiveram um filho, Peter.
  • 1979 – Jerry faleceu na Cidade do Cabo.

Blogueiro: é de notar, que na história existiu um outro engenheiro sul-africano, Robert Sassone, que vivia a trabalhava na União Soviética, quando foi preso pelo NKVD em 3 dezembro de 1937, condenado pela “tróica” do NKVD já em 20 de dezembro, acusado de “agitação anti-soviética e intenções terroristas”, e fuzilado apenas dois dias depois, em 22.12.1937. 


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