segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Albert Einstein: comunismo, estalinismo e a propaganda soviética

Ao longo de décadas, o regime soviético manifestava, o seu inenterrupto, ora amor, ora ódio ao Albert Einstein. Como mostra um pequeno texto da revista ilustrada soviética «Ogonyok» de 1929. O texto chama-se «Visitando o Professor Einstein». 

Texto: «O leitor fica surpreendido ao verificar que as divisões onde o Professor Einstein, criador da teoria da relatividade, vive e trabalha, bastante pouco se assemelham à nossa ideia habitual da casa de um filósofo. Não vemos aqui grandes estantes de livros, nem um laboratório com frascos, retortas e microscópios. O Professor Einstein e a sua mulher vivem em divisões mobiladas com móveis elegantes, belos vasos, espelhos e tapetes aconchegantes». 

Então, aqui temos o casal Einstein, que, aos padrões soviéticos da época «ocupa uma quantidade excessiva de espaço». Aparentemente, o cientista deveria criar as suas «invenções burgueses» algures na dispensa ou na cozinha num «apartamento comunal», compartilhado com o demais proletariado. O texto de «Ogonyok» foi um ataque mesquinho a um professor que, na verdade, nem sequer possui os grandes luxos. Basta consultar a imagem.

No entanto, no texto sobressai, definitivamente, a questão ideoloógica. Aparentemente, Einstein produzia, na época, várias opiniões bastante desfavoráveis aos bolcheviques e à URSS: 

«Nunca aprovei o comunismo»: o cientista realçou que era contra qualquer governo «que escraviza o indivíduo através do terror e da violência, quer se manifestem sob a bandeira do fascismo ou do comunismo». 

1929: Einstein ficou ainda mais desiludido com os bolcheviques. Numa entrevista a um jornal comentou: «A experiência bolchevique pode valer a pena tentar. Mas penso que a rússia erra gravemente na execução do seu ideal». [George Sylvester Viereck, “What Life Means to Einstein: An Interview by George Sylvester Viereck,” The Saturday Evening Post, 26 de outubro de 1929]. 

A aversão de Einstein à violência bolchevique é provavelmente um produto do facto de ser, nas suas próprias palavras, um «pacifista convicto». [«Não tive outra alternativa senão agir como agi, embora sempre tenha sido um pacifista convicto», Alice Calaprice e Albert Einstein, The New Quotable Einstein (Princeton University Press, 2005), 160]. 

Em 1930, Einstein assinou uma petição para permitir ao Lev Trotsky emigrar para a Alemanha. Nesse mesmo ano, também apoiou uma carta contra os julgamentos estalinistas de fachada. No entanto, em 1931, Einstein retirou as suas críticas e, em 1937, defendeu publicamente os julgamentos de Moscovo. [David Renton, “O socialismo de Albert Einstein”, Rethinking Marxism 13.2 (2001): 143.] 

1932: «No topo, parece haver uma luta pessoal em curso, na qual os meios mais sujos são usados ​​por indivíduos sedentos de poder, agindo unicamente por motivos egoístas. Abaixo, parece haver uma completa supressão do indivíduo e da liberdade de expressão. Só podemos imaginar o valor da vida nestas condições». [Albert Einstein, carta a Henri Barbusse, 6 de junho de 1932, in David E. Rowe e Robert J. Schulmann, eds., Einstein on Politics: His Private Thoughts and Public Stands on Nationalism, Zionism, War, Peace, and the Bomb (Princeton: Princeton University Press, 2007), 424.] 

1936: «Na minha opinião, tanto Estaline como Trotsky são gangsters políticos» [Arthur J. Klinghoffer and Judith A. Kinghoffer, International Citizens’ Tribunals: Mobilizing Public Opinion to Advance Human Rights (New York: Springer, 2002), 74.] 

A URSS não cedeu a tentação de atrair Einstein. As autoridades soviéticas planearam até estabelecer uma Academia de Ciências da República Autónoma dos Alemães do Volga, onde toda a burocracia seria feita em alemão, fazendo de Einstein o seu presidente com um bom salário e permitindo que o físico vivesse e trabalhasse em Saratov.

Mas, preparando-se para partir para América, em Setembro de 1933, Einstein deu uma entrevista à Evelyn Seeley, jornalista da The New York World Telegram na qual sublinhou: «Sou um democrata convicto, e é precisamente por isso que não vou à rússia, embora tenha recebido um convite muito caloroso. A minha visita a Moscovo seria certamente utilizada para fins políticos pelos governantes soviéticos». [citado em Journal of the Washington Academy of Sciences; Vol. 69, No. 3 (Setembro de 1979), pp. 101-108.]

Na década de 1950, Einstein novamente se pronunciou sobre os julgamentos estalinistas da década de 1930. Num artigo do Star Ledger de 22 de janeiro de 1953, intitulado «Einstein junta-se à condenação dos expurgos vermelhos», Einstein foi citado dizendo o seguinte:

«A perversão da justiça que se manifesta em todos os julgamentos oficiais realizados pelo governo russo, não só o de Praga, mas também os anteriores, desde a segunda metade da década de 1930, merece condenação incondicional...» [Albert Einstein, citado em Fred Jerome, The Einstein File: J. Edgar Hoover's Secret War Against the World's Most Famous Scientist (Macmillan, 2003), p. 313.] 

Fontes: Fonte 1Fonte 2

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