domingo, fevereiro 15, 2026

As ucranianas que trocaram a prisão pela vida digna de linha da frente

Anna “X”, e outras mulheres anteriormente encarceradas se dirigem a um campo de treino na região de Donetsk, em 2 de dezembro de 2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

As ucranianas que já estiveram presas se alistam nas FAU e agora servem na frente de Zaporizhzhia. Elas operam drones de ataque, mesmo tendo cumprido pena há poucos meses e trabalhado numa oficina de costura dentro da prisão. A Frontliner acompanhou a jornada delas desde a cadeia / o presídio até sua primeira missão de combate e explorou por que elas veem o exército ucraniano como sua segunda chance. 

por: Diana Deliurman, Frontliner (versão curta)

Três pessoas com roupas táticas, carregando pastas, caminham pelo pátio da prisão. Atrás das grandes janelas gradeadas da oficina de costura, os rostos de algumas mulheres podem ser vistos, observando os recém-chegadas com curiosidade. Quando os militares entram, uma multidão já aguarda na porta. As mulheres vestem roupas de estilos variados: algumas com sapatilhas/tênis, outras com sapatos de borracha ou botas de feltro. Suas cabeças estão cobertas com lenços coloridos. 

Um homem grisalho e em boa forma, usando óculos retangulares, começa a falar com as mulheres. Este é “Jazz”, o vice-comandante do Primeiro Regimento de Assalto, responsável pelo Apoio Psicológico. Ele visitou dezenas de penitenciárias na Ucrânia, recrutando muitos combatentes de assalto capacitados desde que uma lei foi aprovada permitindo a mobilização de reclusos. Hoje, a sua sua tarefa é diferente: convidar mulheres para se juntarem a uma companhia experimental feminina de operadoras de drones.

Comandante «Jazz». Foto: Diana Delurman

«Queremos acolher pessoas confiáveis ​​que queiram mudar algo em suas vidas», diz «Jazz».

Para ele, essas não são apenas palavras vazias. Ele acredita que o exército pode realmente oferecer uma segunda chance – algo que raramente acontece para aqueles com antecedentes criminais. «Jazz» aponta na direção a Oleksandra, uma jovem de uniforme militar que chegou à penitenciária com ele. No final do verão de 2024, ela recebeu liberdade condicional antecipada e ingressou no exército. Rapidamente conquistou a confiança do comando. Agora, como sargento, ela mesma recruta voluntárias para o batalhão.

Cinco de quarenta

Após o discurso, várias dezenas de mulheres se inscrevem para entrevistas, que são realizadas dentro da própria penitenciária. Algumas falam abertamente: decidiram seguir o exemplo de Oleksandra porque a conheceram pessoalmente. Mas um rigoroso processo de seleção as aguarda. O 1º Regimento de Assalto busca voluntárias sem dependência de drogas ou álcool. Os comandantes estão convencidos de que esses problemas «reduzem» o efetivo mais rapidamente do que os ataques inimigos. Outros requisitos incluem estar livre de doenças infecciosas graves, como tuberculose ou HIV-SIDA. 

Algumas mulheres mal chegam ao escritório, e «Jazz» logo percebe que talvez não estejam prontas para o programa. Um olhar para seus rostos costuma ser suficiente para ele reconhecer sinais de dependência. No entanto, ele conversa com a maioria das mulheres para confirmar se o caminho delas se alinha com o regimento. 

Elvira Alieva, nom de guerre «Niam-Niam», 29 anos

É uma órfã e estar cumprindo a pena sob o Artigo 115º do CP da Ucrânia – o homicídio. Diz que agiu em legítima defesa. Já cumpriu dois anos de sua sentença, restando cinco. Completou apenas sete anos de escolaridade e continua seus estudos na cadeia / no presídio.

A candidata Elvira, num centro correcional na região de Kharkiv,
em 24 de outubro de 2025. (Diana Delurman/Frontliner)

Quando Elvira sai da sala, os administradores da prisão aconselham os recrutadores a não aceitá-la no exército, alegando que está psicologicamente instável. Mesmo assim, “Jazz” vê potencial nela. 

“Ela não tem ninguém. Quero dar uma chance a essa menina/garota. Vamos aceitá-la”, diz ele resolutamente. 

Natalia, «Metys», 40 anos 

“Não passa um dia na prisão / no presídio sem que eu sinta culpa”, diz Natalia, que está presa há dois anos. Foi condenada pelo Artigo 185 – furto. Sob a lei marcial, as penas se tornaram mais severas, e Natalia foi condenada aos cinco anos. Seu tempo na prisão se tornou um ponto de virada – ela sentiu que havia chegado ao fundo do poço e estava convencida de que, por causa de seu passado criminoso, não teria futuro.

A recruta Natalia viaja do centro de detenção ao seu local de atuação na região
 de Kharkiv, em 14 de novembro de 2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

«Para mim, a mobilização de pessoas condenadas é um passo rumo a uma nova vida. Estou pronta para me dedicar totalmente a essa causa», diz Natalia. 

A voluntária Natalia fuma no intervalo entre as sessões de treino/amento
na região de Donetsk, 2 de dezembro de 2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

Logo, Natalia soube da decisão. Após duas entrevistas sem sucesso com outras unidades, ela foi aceita no exército. Ela não fazia ideia de para onde estava indo; as detentas são isoladas do mundo exterior e têm um conhecimento limitado sobre a guerra. Ela não sabia nada sobre o batalhão “Shkval” para o qual estava sendo mobilizada. No entanto, um pensamento lhe trouxe conforto: “Pelos meus filhos, eu não serei uma mãe presidiária, mas uma mãe soldado”, diz Natalia. 

Anna, «X» 

Ela havia sido presa aos 21 anos, cumprindo pena por homicídio, com previsão de libertação / soltura em 2028. Matou o seu agressor em legítima defesa. Até a audiência final, não acreditava que seria condenada à prisão [a atual legislação ucraniana estabelece a não existência de limite máximo de dano que pode ser infligido em legítima defesa]. Ela atribui o resultado à má representação legal.

A voluntária Anna “X”, viaja para o campo de treino/amento na região de Donetsk,
em 2 de dezembro de 2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

Antes de sair da prisão, não conseguia dormir. Deitada na cama, ouvia as batidas do próprio coração. Pela manhã, sua ansiedade só aumentava – depois de quatro anos atrás das grades, ela não fazia ideia de como seria a vida lá fora. Mas, no momento em que atravessou os portões da prisão com suas malas e entrou no veículo militar, uma sensação de calma a invadiu. 

“Tínhamos acabado de sair da prisão e eu já me sentia como se nunca tivesse estado lá”, lembra Anna.

Daria, «DShk», 24 anos 

Sua trajetória no exército não tinha sido fácil. Ela se alistou durante a primeira onda de mobilização de detentas, mas problemas disciplinares a levaram a ser transferida de unidade em unidade. Daria serviu na frente de Pokrovsk, preparando refeições para seus camaradas e prestando primeiros socorros. Foi lá que ela aprendeu em primeira mão o que significavam “evacuação médica”, o que significa “carga 300” e “carga 200”. 

[Nota do tradutor: Na terminologia militar ucraniana, “carga 200” ou simplesmente «200» é um código para militares mortos, enquanto “carga 300” ou «300» se refere aos feridos.]

Daria “DShK”, limpa sua arma após treino/amento no campo de tiro,
região de Donetsk, 2 de dezembro de 2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

Por fim, ela retornou ao “Shkval” do 1º Regimento de Assalto. Agora, Daria está passando por treino/amento pela segunda vez, junto com as novas recrutas, se requalificando como operadora de drones. 

A ideia de servir surgiu quando começou a mobilização dos detentos do sexo masculino. Ela estava com medo, mas acima de tudo, viu isso como uma chance de sustentar seus dois filhos pequenos, que haviam sido deixados aos cuidados da avó. 

“Esperei pelos recrutadores durante um mês inteiro. Eu adormecia pensando: ‘Por favor, venham’. Todos os dias, eu acordava às seis da manhã e me maquiava”, lembra Daria. 

Daria, cujo nom de guerre / codinome é “DShK”, é uma das integrantes mais otimistas do grupo, sempre animando as pessoas ao seu redor. Junto ao Em “Jazz”, Natalia revela gradualmente sua verdadeira personalidade como uma pessoa organizada e responsável. Ela mantém a casa em ordem e treina diligentemente no campo de tiro. Usou seu primeiro salário para comprar um kit de primeiros socorros tático. Anna, nom de guerre / codinome “X”, era inicialmente reservada, mas logo se entregou ao treino/amento. Elvira, a “Niam-Niam”, também está se abrindo aos poucos, embora seja mais difícil para ela. Ela admite que às vezes se arrepende de sua decisão, sentindo-se deslocada. 

Treino/amento 

“Devemos pegar a munição?”, pergunta Natalia à sargento Oleksandra, a “San Sanych”. 

“Não, vamos atirar com pedrinhas”, responde ela sarcasticamente. 

A recruta Anna aplica maquiagem pela manhã antes do treino,
região de Donetsk, 15.11.2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

A sargento “San Sanych”, também conhecida como Sashka, pode ser ríspida, mas as mulheres não se ofendem. Pelo contrário, elas a respeitam e frequentemente expressam sua gratidão a ela e aos comandantes por lhes darem uma segunda chance de provar seu valor. “A equipa/e que temos hoje se formou graças a uma pessoa. Essa pessoa é a Sashka”, diz Natalia.

Anna “X”, treina no campo de tiro na região de Donetsk,
em 2 de dezembro de 2025. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

O SUV deixa as mulheres perto do campo de treino/amento. Elas seguem para a linha de tiro, arrastando as botas na lama. Carregam pesadas caixas de munição. Antes do início dos disparos, as mulheres estão nervosas – ainda não estão acertando o alvo com consistência. Daria, a“DShK”, as anima: “Está tudo bem, meninas, ainda estamos aprendendo. Vamos acabar fo**ndo estes fod***ões.”

Primeiro contato com a guerra real 

Há várias semanas, durante o período mais frio do inverno, as ex-prisioneiras estão estacionadas perto da zona cinzenta na frente de Zaporizhzhia, aguardando suas primeiras missões de combate. Há pouco tempo para reflexão: elas precisam se adaptar à vida em condições extremas, treinar e continuar seus estudos. A perseverança das voluntárias é um alívio para seus instrutores. “Morf”, que os ensina a operar drones, diz: “Vejo que estão se esforçando. Elas têm motivação, então vão conseguir. Nesses três meses, nenhuma deles desistiu de uma missão de combate.”

Natalia “Metys”, após sua primeira missão em posições na linha de frente,
região de Zaporizhzhia, 26 de janeiro de 2026. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

Uma semana depois, Natalia deixou a linha de frente. O rosto ainda está marcado por queimaduras de frio, e seu corpo está coberto de lesões e bolhas causadas pelo frio e pelo estresse. Ela não tem certeza se está pronta para voltar à linha de frente. Mas, quando receber ordens, ela irá. 

“Não posso dizer que gostei de estar nas posições de combate. Mas a porta do ‘acampamento’ se abriu, e ainda tenho algo a fazer. Então, quero fazer o que puder”, diz ela. 

Ela tentou preparar suas amigas para o fato de que a linha de frente não era nada como eles imaginavam. Queria transmitir o que havia aprendido, mesmo sabendo que, na verdade, isso era impossível. A linha de frente é imprevisível. 

Elvira «Niam-Niam» e Maryna «Chuzha» treinam o uso de drones de ataque Mavic,
região de Zaporizhzhia, 13 de janeiro de 2026. Foto: Nadiia Karpova/Frontliner

Depois de Natalia, foi a vez de Anna ser transferida para as posições de linha de frente. Na noite anterior à sua missão, seus camaradas a ajudaram a arrumar as malas: água, comida para dois dias, bebidas energéticas, aquecedores de mãos, munição, roupa térmica extra, dois pares de luvas e cinco pares de meias, que seriam trocadas frequentemente para proteger seus pés do frio intenso. Anna também levou um espelho de bolso e um pouco de base. Suas camaradas brincaram dizendo que parecia que ela estava se preparando para um casamento. 

Anna percorre 15 quilômetros a pé em um dia. Ela atravessa aldeias devastadas, onde não resta ninguém. Ao cair da noite, ela comunica pelo rádio: “Chegamos à posição”. Duas semanas a aguardam, pressionada contra o inimigo, onde a sobrevivência depende de habilidade, força e sorte. 

  • Texto: Diana Deliurman
  • Fotos: Nadiia Karpova, Diana Deliurman
  • Tradução portuguesa: Universo Ucraniano
  • Ler: o original em inglês e ucraniano

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