domingo, janeiro 25, 2026

Japoneses em campos de POW na Ucrânia soviética (1946-1949)

Envelope postal americano dedicado à guerra soviético-japonesa de 1945

Em resultado da derrota militar do Japão, mais de 640 mil soldados do Exército de Kwantung tinham deposto as armas. Mais de cem mil soldados, ou seja, um em cada seis dos POW, foram mortos ou morreram em cativeiro soviético. Os campos estavam localizados por toda a União Soviética, do Extremo Oriente ao leste da Ucrânia, escreve o historiador ucraniano Vakhtang Kipiani. 

Após a vitória militar sobre o Japão, os marechais soviéticos enfrentaram a questão de o que fazer com mais de 640 mil soldados do Exército de Kwantung que haviam deposto as armas.

O jornal propagandista soviético «Nihon Shinbun» (Jornal Japonês), dirigido aos POW japoneses, foi publicado na cidade de Khabarovsk, na USSR, entre setembro de 1945 e dezembro de 1949

Em 23 de agosto de 1945, Estaline assinou a resolução nº 9898 do Comité/ê Estatal de Defesa da URSS, «Sobre o recepção, alocação e utilização laboral de 500.000 prisioneiros de guerra do exército japonês». O documento era classificado de «ultrassecreto». Decidiu-se utilizar «aqueles fisicamente capazes de trabalhar nas condições do Extremo Oriente e da Sibéria» «para o desenvolvimento da base de matérias-primas e da infraestrutura económica/ômica". Eles se tornaram escravos do GULAG, construindo os caminhos de ferro / a ferrovia Baikal-Amur, novas fábricas, portos e bases navais, minas de carvão e minério, foram usados nas áreas de exploração madeireira, etc. Cinquenta e cinco campos foram construídos para os japoneses, ou eles foram forçados a construí-los por conta própria. Mas, frequentemente, eram desembarcados na floresta, a céu aberto.

Os quadros do POW japonês Nobuo Kiuchi, que passou pelos campos laborais da Ucrânia.
«Ao som dos gritos de "Vamos, vamos!", 40 pessoas foram colocadas em um vagão de carga, com as portas trancadas hermeticamente pelo lado de fora. Os vagões eram vigiados por soldados soviéticos armados com metralhadoras. O trem, com cerca de 1.500 prisioneiros japoneses, partiu para uma longa jornada rumo ao oeste».

Grupos separados de prisioneiros foram enviados para as repúblicas soviéticas do Cazaquistão e do Uzbequistão (cerca de 70 mil pessoas no total), bem como cerca de 5.100 para Ucrânia. 

O primeiro grupo de prisioneiros do País do Sol Nascente chegou a Zaporizhia em 3 de agosto de 1946 – eram 28 oficiais, 195 suboficiais e 1.078 soldados. Os japoneses trabalharam nos territórios de cinco regiões do leste da Ucrânia, em particular nas cidades de Kharkiv, Chuhuiv, Izyum, Sloviansk, Artemivsk e outras, bem como em dezenas de postos de concentração localizados em vilarejos e assentamentos entre as cidades, ao longo da rodovia Kharkiv-Debaltseve. 

Como descreveu Ivan Pylnyk, ex-vice-chefe de um dos campos «ucranianos»: «em geral, a administração tratava os japoneses de forma humana – eles não eram alemães! Os japoneses encaravam o trabalho com boa-fé e executavam diligentemente as obras de construção da estrada». 

A falta de tradutores de japonês obrigou os oficiais do MGB a recorrer a métodos não convencionais no processo de recrutamento de agentes. Trata-se, por exemplo, da «utilização de agentes entre os prisioneiros de guerra alemães para encontrar pessoas que falassem russo entre a população japonesa». 

Em 1 de maio de 1947, havia 25 delatores do MGB entre o contingente japonês do Campo nº 415 de Kharkiv. 

«Usando um relatório de um agente interno do campo, um alemão com o nome operativo de «Cegonha», que relatou que Narita Seihiro (então responsável pela cozinha japonesa no campo) havia entregado um quilo de arroz ao seu cozinheiro, um prisioneiro de guerra alemão, os agentes começaram a chantagear os jovens japoneses durante o interrogatório. Narita, temendo ser responsabilizado criminalmente pelo roubo do arroz, concordou em cooperar e forneceu os nomes de 13 colegas oficiais que falavam russo».

«Quem não trabalha, não come. Começamos imediatamente a trabalhar quebrando pedras. Com um pé de cabra na mão, você fica diante de um bloco de pedra e cumpre a cota diária — um metro cúbico por pessoa. O trabalho em uma brigada de quatro pessoas é ainda mais terrível, porque a carga de trabalho quadruplica, incluindo o trabalho de um carregador e um estivador».

Os oficiais de MGB procuravam não apenas os POW com pouca resistência, mas principalmente pretendiam descobrir as «categorias opostas, ideologicamente e de classe, da sociedade japonesa»: polícias, funcionários do governo, sacerdotes xintoístas, industriais e banqueiros, comerciantes, negociantes, donos de restaurantes e grandes proprietários de terras. 

Em paralelo, os MGBistas tentavam achar os membros do destacamento nº 731 do Exército de Kwantung, que eram acusados, pelas autoridades soviéticas, de «se dedicar, principalmente, à pesquisa de agentes ativos de guerra bacteriológica e métodos de sua aplicação». 

De acordo com as estatísticas oficiais do Departamento de Prisioneiros de Guerra e Internados do Ministério do Interior da RSS da Ucrânia, em 1 de janeiro de 1949, restavam apenas 29 japoneses étnicos nos campos do GULAG. «É provável que sobre eles os órgãos operacionais dos campos conseguiram encontrar material incriminatório e preparavam os processos para a sua transferência aos Tribunais Militares». Sabe-se que pelo menos um POW japonês esteve no campo de prisioneiros de Dnipropetrovsk no verão de 1950. 

Mais de cem mil, ou seja, um em cada seis dos prisioneiros, morreram ou faleceram em cativeiro soviético. Até recentemente, acreditava-se que 165 prisioneiros de guerra japoneses permaneciam para sempre no território da Ucrânia (na região de Estalino (atual Donetsk) – 94, Zaporizhia – 42, Kharkiv – 27, Dnipropetrovsk – 2). Mas os pesquisadores ucranianos provaram que o número de mortes documentadas chegou a 212, apesar de um conjunto significativo de documentos ainda ser inacessível aos historiadores. Segundo a política russa dos arquivos militares e dos serviços secretos russos. 

«A inveja do prato alheio é a mesma em todo lugar. Como os pratos japoneses parecem maiores, os alemães lançam olhares de maldade. Eles comem pão e sopa, nós comemos papa/mingau de arroz, sopa de missô e assim por diante».

Uma característica interessante do sepultamento dos corpos dos japoneses falecidos foi descoberta na cidade de Slavyansk. Em sepulturas separadas, ao lado dos falecidos, foram colocadas cápsulas de vidro com dados pessoais sobre eles, incluindo apelido/sobrenome, nome e local de residência. 

A maior necrópole japonesa na Ucrânia é o chamado «Novo Cemitério (Cemitério nº 2)», na cidade de Druzhkivka, na Donbas. Os cidadãos japoneses falecidos eram enterrados aqui em um local separado. No total, de 6 de outubro de 1946 a 30 de agosto de 1948, 106 pessoas desse contingente foram sepultadas no cemitério. 

O coletivo de autores encontrou as memórias escritas por um ex-soldado do exército imperial, Mizushima Shohei, que narra suas andanças pela Ucrânia. A família do soldado autorizou a publicação e tradução das memórias: «Embora eu não queira me lembrar, eu me lembro. Saiam mais lágrimas do que palavras. No entanto, para deixar um legado para as crianças que não viram a guerra, estou me dedicando a esta difícil escrita... Quantas vezes pensei em morrer, e a cada vez me faltava coragem...» Foi tão terrível que, mesmo no dia da libertação, quando todos dançavam, o narrador se lembrava da dor e do medo.

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