quinta-feira, março 07, 2013

Victor Kravchenko: Escolhi a Liberdade


O livro documental “Escolhi a Liberdade: A Vida Privada e Política de um Funcionário Soviético” (1946) do Victor Kravchenko (1905 – 1966), foi a primeira denúncia pública do comunismo soviético, muito antes do “Arquipélago GULAG” de Soljenitsin ou de “Contos da Kolyma” de Varlam Shalamov.

Victor Kravchenko se formou em engenharia na Universidade de Kharkiv, foi membro da juventude comunista, o Komsomol, em 1929 filiou-se no PC(b) soviético. Desempenhou as tarefas do engenheiro-chefe de algumas fábricas metalúrgicas, participou nas políticas de coletivização agrícola. Conheceu a miséria generalizada e a violência exercida pela polícia secreta, OGPU (futuro NKVD). Durante a II G.M. serviu no Exército Vermelho, depois foi enviado aos EUA para trabalhar na Comissão de Compras Soviéticas, com sede em Washington, DC.

Em 1944 ele solicitou o asilo político ao governo dos Estados Unidos. As autoridades soviéticas, primeiro negaram a sua existência, para depois exigir a sua imediata extradição como desertor. Segundo o livro "The Forsaken" do Tim Tzouliades, o embaixador dos Estados Unidos em Moscovo, Joseph E. Davies, a pedido de Estaline, solicitou a extradição do Victor Kravchenko diretamente ao presidente Roosevelt. No entanto, o governo dos EUA garantiu lhe o asilo político, Kravchenko passou a viver com um nome falso, em função do perigo de ser assassinado por agentes soviéticos.

Victor Kravchenko ficou conhecido em todo o mundo após a publicação de seu livro, “Escolhi a Liberdade” (no Brasil publicado em 1948 pela editora “A Noite”, tendo pelo menos 5 edições), traduzido em mais de 20 línguas. O livro revela detalhes sobre a coletivização agrícola, sobre Holodomor ucraniano, além das prisões de inocentes que eram enviados para campos de concentração de GULAG. Além de “Escolhi a Liberdade”, Kravchenko escreveu “Escolhi a Justiça”, narrando as audiências no Tribunal de Justiça de Paris que ficou conhecido como o Julgamento do Século.

A tradução francesa do livro de Victor Kravchenko apareceu em 1947 sob o título «J’ai choisi la liberté – La vie publique et privée d’un haut-fonctionnaire soviétique» (Editions Self), recebendo um dos principais prêmios literários da França, o Sainte-Beuve. Em 13 de novembro de 1947, o semanário pró-comunista “Les Lettres Françaises” publicou um artigo, pondo em dúvida a veracidade do livro de Kravchenko. Victor Kravchenko processou o jornal por difamação, exigindo o equivalente aos 50.000 dólares de indenização. Uma das testemunhas do Kravchenko foi a sobrevivente dos campos de concentração soviéticos, a comunista alemã Margarete Buber-Neumann que primeiro foi presa pelo NKVD e deportada ao Cazaquistão e depois entregue aos nazis que a deportaram ao campo de concentração de Ravensbrück. O processo durou vinte e cinco dias e o tribunal deu razão ao Kravchenko. Mais tarde, o Tribunal Supremo reduziu a indemnização ao equivalente a 1 dólar simbólico, alegando que o processo ajudou ao autor na publicidade e promoção do seu livro.

Mostrando-se socialista, Kravchenko, tentou organizar as cooperativas agrícolas em Bolívia e Peru, experiência que revelou-se em insucesso comercial que consumiu as suas economias.

Em 1966 Victor Kravchenko foi encontrado morto com um tiro na cabeça no seu apartamento em Nova Iorque. Gary Kern, autor do livro “The Kravchenko Case: One Man’s War on Stalin” levanta a dúvida sobre a possibilidade de Kravchenko for assassinado por agentes soviéticos. Andrew Kravchenko, filho do escritor com americana Cynthia Kuser, acredita que pai foi morto por agentes do KGB. Em 2008, Andrew Kravchenko produziu um documentário chamado The Defector, dirigido pelo realizador Mark Jonathan Harris que conta a vida de seu pai.

O filho ucraniano do Victor Kravchenko, Valentin Bodrov, teve na URSS uma vida extremamente amargurada, foi preso pelo NKVD como “filho do inimigo do povo”, tentando o suicídio no GULAG. Em 1992 ele emigrou aos EUA, morrendo em 2001 de ataque cardíaco, no mesmo dia em que recebeu o seu Greencard.

Apesar de ser ucraniano étnico e denunciador do Holodomor ucraniano, em termos políticos Victor Kravchenko revelou-se adepto do império, o que ditou o seu afastamento definitivo da Diáspora ucraniana e das organizações engajadas na luta pela libertação nacional da Ucrânia, radicadas nas sociedades livres. 

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