terça-feira, janeiro 08, 2013

Jaworzno: campo de concentração da Polônia comunista


Durante a investigação, Maria do Żernicy foi a mais espancada. Era levada da manhã e à noite trazida sobre um cobertor... A mãe do “Bystry” foi tão espancada que os ossos se descolavam do corpo... As duas mulheres não resistiram e atiraram-se sobre o arame farpado...” assim descreve a sua estadia no campo de concentração polaco de Jaworzno, uma ucraniana lá detida.

por: Igor Hryvnia

Campo de concentração de Jaworzno é uma das lembranças mais sombrias dos ucranianos do triste, para eles, ano 1947. Passaram pelo campo 3.873 prisioneiros, incluindo 823 mulheres e menores. As 162 pessoas morreram no campo. Quantos morreram em resultado de tortura, nunca iremos a saber.

O campo de Jaworzno foi criado pelos comunistas polacos em fevereiro de 1945, no território do subcampo nazi de Auschwitz-Birkenau. Na primavera de 1947, lá foi criado um campo secundário para os ucranianos, separado da parte principal por arame farpado.

Ucranianos foram enviados ao campo com base na decisão do Bureão Político do Comité Central do Partido Polaco dos Trabalhadores (BP KC PPR) de 23 de abril de 1947. Para o campo eram enviadas os suspeitos de simpatizar ou cooperar com Exército Insurgente Ucraniano (UPA). Estavam lá presos quase exclusivamente civis. Os membros do UPA, naquela altura, eram julgados pelos tribunais militares campais.

Ao campo eram enviados intelectuais, padres e camponeses ucranianos. Às vezes, para chegar a Jaworzno, era suficiente ter um volume de poemas de Taras Shevchenko. Mais tarde, também foram enviados ao Jaworzno ucranianos que tentaram retornar à Polônia após a sua deportação fora do seu país natal.

O primeiro transporte de prisioneiros chegou a Jaworzno em 4 de maio de 1947 de Sanok. A prisioneira número um era Maria Baran. Os últimos prisioneiros foram levados para o campo em 22 de maio de 1948, eram 112 guerrilheiros do UPA da centena do Volodymyr (Włodzimier) Szczygielski “Burłaka”, que foram capturados na Checoslováquia durante a sua marcha para o Ocidente. Em Jaworzno ficaram apenas alguns dias. Em seguida, foram transferidos para a prisão em Cracóvia. Os Tribunais Distritais militares de Cracóvia e Rzeszow condenaram a maioria deles à morte.

Desde a primavera de 1948 os prisioneiros foram gradualmente libertos. Subcampo para os ucranianos oficialmente encerrou em 8 de janeiro de 1949. Os comandantes do campo na época foram Stanislaw Kwiatkowski e Teófilo Hazehnajer (Abril de 1948). O campo de Jaworzno pertencia à Divisão de Prisões e Campos de Escritório Provincial de Segurança Pública, em Cracóvia, comandada, na época, pelo tenente Jakub Hammerschmidt (Jakub Halicki).

Os guardas eram soldados do corpo de segurança inteira. O campo tinha 14 barracas iguais ao de Auschwitz e foi cercado pelo arame-farpado ligado à energia elétrica.

Em seguida, o campo foi transformado em um centro de trabalho forçado para prisioneiros juvenis. Lá também estavam presos os guerrilheiros do UPA e AK, condenados às penas menores. O acampamento foi fechado no verão de 1956.

Colocavam água no nariz e aplicavam choque elétrico

O campo era operado pelo grupo especial do serviço de segurança, que torturava os prisioneiros, tentando extorquir a confissão de colaborar com a UPA. Além dos espancamentos de “rotina”, eram aplicadas torturas da Gestapo e da NKVD, tais como agulhas debaixo de unhas, o esmagamento de dedos na porta, derramar água no nariz ou choque elétrico.

O interrogador me disse para fechar a porta – recorda uma das prisioneiras. – Eu agarrei a maçaneta da porta e foi arrematada até a parede, porque a maçaneta estava ligada ao corrente elétrica... eu perdi a consciência ... Quando recuperei, o investigador deu-me um momento para descansar. Então ele começou a me chutar no estômago.

Campo de concentração de Jaworzno era muito parecido com um campo de concentração alemão. Havia o “capo”. Presos eram alvos de espancamentos, rações de fome e excesso de trabalho.

As recordações do Padre Stefan Dziubyny

Os presos foram espancados em cada turno. Eles bateram-nos na distribuição de alimentos, na fila para o banheiro, pela menor “ofensa”. E acima de tudo durante a investigação. Presos me contaram sobre os casos de tortura até a morte. Alguns estavam voltando dos interrogatórios com costelas e pernas quebradas, dentes partidos. Eles tinham as unhas arrancadas ou os dedos esmagados pela porta. Pessoalmente, vi um prisioneiro, que voltou do interrogatório com uma perna quebrada... Os investigadores utilizavam durante a tortura a corrente. O nosso pior adversário era a fome. Estávamos com fome o tempo todo... Para o pequeno-almoço e jantar, recebíamos um pedaço de pão e um líquido fedorento chamado de “café”. Para o jantar, se pode dizer que era a água limpa... Durante alguns meses os prisioneiros inchavam de fome. Durante a chamada de manhã..., às vezes eram descobertos várias pessoas mortas.

Em novembro de 1947, a mortalidade no campo preocupou o serviço de segurança de Cracóvia. Isso originou um relatório curioso.

Ucranianos, deliberadamente sabotam a ordem emitida pela administração do campo... de tal forma que, apesar de receber comida normal, prevista nas normas do Departamento de Cadeias e Campos, que é de 2.400 calorias, muitas vezes ... comem batatas não lavadas, beterraba, cenoura (...)

O procurador com uma vara

Admitiam a sua culpa aqueles que ajudaram UPA e aqueles que não tinham nada a ver com a guerrilha.

Amarraram o meu rosto com um pano molhado para não ouvir gritos e batiam, batiam, - recorda um dos presos. Uma vez colocaram dois fios elétricos ao lado do meu dente e conectaram à tomada. Eu perdi a consciência... No final, eu foi visto pelo representante do Ministério Público. Imediatamente disse-lhe:

- Sr. Procurador, me bateram aqui terrivelmente.

Quando o procurador ouviu isso, ele tirou da gaveta uma vara de madeira. Ele ficou ao meu lado e deu um tapa no rosto. Em seguida, novamente e novamente. Caí.

- Então? Assinas ou não assinas? (...) Eu assinei.

No primeiro transporte entraram no Jaworzno três membros da nossa família: eu, minha mãe e irmão Volodymyr – lembra a moradora da aldeia de Wola Krecowska. – Irmão Mykola veio no segundo transporte... Um outro dia veio novamente transporte de pessoas. Os militares batiam os tanto, que quebraram neles as placas... Eles batiam os com tudo que tinham em suas mãos: placas, paus, barros, pés das mesas. Eu nunca vou esquecer... Durante a investigação, Maria do Żernicy foi a mais espancada. Era levada da manhã e à noite trazida sobre um cobertor... A mãe do “Bystry” foi tão espancada que os ossos se descolavam do corpo... As duas mulheres não resistiram e atiraram-se sobre o arame farpado...

Polacos em Jaworzno

Ao campo ucraniano em Jaworzno também foram enviados os polacos, suspeitos pelos serviços secretos, de apoiar UPA ou os ucranianos. Assim para Jaworzno foi enviado Andrzej Bednarz, chefe da aldeia de Lubaczow, militante do partido agrário PSL, em oposição ao regime comunista da Polônia. No entanto, em 1945 ele foi acusado de não apenas sabotar a deportação de ucranianos para URSS, mas emitir os certificados que comprovavam que eles são cidadãos leais ao Estado polonês. Durante a Operação Wisla, ele foi preso sob a acusação de colaboração com a UPA e ficou em Jaworzno de setembro de 1947 à junho de 1948.

Mas, enquanto Andrzej Bednarz teve os seus “pecados” contra os comunistas, o caso do grupo teatral amador polonês da cidade Cieszanów (fronteira polonesa-ucraniana no sudeste da Polônia), parece completamente surreal. Em abril de 1947, o grupo atuou na cidade de Chrzanów na Silésia. Serviço de segurança deteve os atores sob a “suspeita” que, desde a sua origem polaca oriental, eles podem ter alguma relação com UPA. Da prisão Montelupich em Cracóvia, os 12 membros do grupo foram para Jaworzno. Entre eles estava Franciszka Buczek, cujo filho, Marian Buczek, em 2002-2009 era Bispo auxiliar católico romano de Lviv. E desde 2009 ele é bispo da diocese ucraniana de Kharkiv – Zaporizhia.

Memórias da Franciszka Buczek

Passei um ano no Jaworzno. Estava junto com as ucranianas. Juntos orávamos, juntos compartilhávamos a nossa miséria... Dos interrogatórios as ucranianas voltavam terrivelmente espancadas. Dos interrogatórios não voltavam aos seus próprios pés. As ucranianas eram espancadas muito... que condições tinha o Jaworzno? É muito doloroso de lembrar. As 150 pessoas num barraco. Piolhos e a fome. Neve do inverno caia sobre os beliches. No café da manhã davam pão e “café” de cereais, sopa rala para o almoço... Eu trabalhei na loja do alfaiate... Se a norma era cumprida, uma vez por semana, recebia 25 gramas de açúcar, um quarto de pão, 2 cenouras e metade de um enlatado americano... Não batiam nos polacos no campo, mas os ucranianos – terrivelmente. Muitos deles morreram. De fome, de doença... Eu recentemente teve que preencher um questionário para a compensação. Mas aplica-se apenas aos ucranianos. E eu não sou ucraniana, sou polaca. Desisti. E por que eu fui presa, não sei até agora.

Em 1998, os presidentes da Polônia e da Ucrânia inauguraram um monumento dedicado às vítimas do Jaworzno. O monumento tem a inscrição: “Parece bobo aos olhos dos mortos, mas eles estão em paz”.

Nos três painéis, inscritos em polaco, ucraniano e alemão podemos ler:

Em memória de polacos, ucranianos, alemães, aos todos aqueles que sofreram inocentemente aqui, como vítimas do terror comunista, presos, assassinados, mortos nos anos 1945-1956 no Campo de Trabalho Central em Jaworzno em homenagem a posteridade”.

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