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| Revista «Paz e Amizade», n.º 10, ano III/78, pp. 20-22 |
O texto sobre a visita, da autoría da jornalista e respeitada ativista do MDM Dra. Dulce Rebelo, pode ser lido na íntegra aquí, publicado, na Revista “Paz e Amizade”, da Associação Portugal-URSS, sob forte influência dos comunistas portuguese e chefiada, na altura, pelo politico portugués, proximo ao PS, Dr. Bruto da Costa.
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| Revista «Paz e Amizade», n.º 10, ano III/78, pp. 20-22 |
Como transparece o próprio texto, a principal razão da visita era simples, tentar convencer o público português do que não havia perseguição religiosa na URSS. As décadas de 1960-80, na realidade foram marcadas pela intolerância religiosa aguda do regime soviético, naturalmente, com os seus “altos e baixos” e também com os tratamentos diferenciados dispensados aos diversos credos.
Assim, em 1961 o poder soviético inicia a sua ofensiva contra os evangélicos. No total, entre 1961 a 1988, na União Soviética foram condenados às diversaspenas prisionais cerca de 1500 pastores e sacerdotes evangélicos e batistas. O primeiro pico da repressão religiosa se deu em 1961-63, quando foram condenados cerca de 200 pastores. O pico seguinte aconteceu em 1980-82, quando as autoridades soviéticas encarceram 158 pastores evangélicos, a metade de todos os prisioneiros de consciência soviéticos, presos únicamente pela fidelidade da sua fé religiosa.
A primeira onda represiva resultou da campanha antireligiosa do Nikita Khruschev, que tentou, de forma voluntarista, eliminar, ao máximo, a religião da vida dos cidadão, uma vez que tinha prometido, publicamente, a chegada triunfante do comunismo até 1980. Já a segunda, muito possivelmente, se deu aos vários fatores, que ditaram a agressividade adicional do regime: desde a guerra neocolonial soviética no Afeganistão até o medo de Moscovo em “perder” a Polónia, devido ao forte desempenho social do sindicato “Solidariedade”. Ao sentimento geral de paranoia do Kremlin também contribuíram os Jogos Olímpicos de Moscovo de 1980. Dados a tentação de tentar impressionar os estrangeiros que, deveriam vir em massa, ao país bastante fechado ao exterior, o regime soviético e KGB decidiram intensificar a repressão em massa, que muitas vezes culminava com a deportação, fora de Moscovo e das capitais das repúblicas soviéticas todo e qualquer tipo de dissidência: política, religiosa ou mesmo cultural.
Em 1960, ao Conselho de Toda a União de Cristãos Evangélicos-Batistas (AUCECB), a única organização batista legal em toda a URSS, foi imposto um novo estatuto, criado e aprovado pelas autoridades soviéticas. O estatuto exortava os pastores a se abster de “tendências missionárias não saudáveis”, nomeadamente manter ao nível mínimo o batismo de jovens entre 18 a 30 anos, com a total proibição de batismo de menores de 18 anos. Os pastores eram exortados a combater as “tendências negativas” do seu clero em relação à “arte, literatura, rádio, cinema e televisão”, ou seja serem permissivos, ao máximo, em relação a propaganda soviética, impedindo, de forma absoluta, que as crianças (jovens menores de 18 anos) sejam presentes nos templos e na celebração dos cultos religiosos.
Como é natural, a imposição do regime comunista não foi recebida com agrado por muitos dos pastores, no seio do AUCECB nasceu o assim chamado Movimento iniciativo, que reivindicava a liberdade da fé e não interferência das autoridades soviéticas na vida religiosa dos cidadãos. O conflito chegou ao ponto em que um número significativo de fiéis e pastores deixou o AUCECB, acusando sua liderança de conluio com as autoridades ateístas. Criando uma união alternativa, hoje conhecida como União Internacional de Igrejas de Cristãos Evangélicos-Batistas (IUCEB).
O poder soviético respondeu de forma habitual: aumentando o nível da repressão contra os dissidentes e coagindo e recrutando os agentes no seio dos pastores. Um destes pastores e funcionários seniores do AUCECB foi Alexei Stoian, promovido ao posto de presidente do Departamento Internacional do Conselho dos Cristãos Baptistas Evangélicos de toda a rússia. Nessa qualidade ele visitou Portugal em abril de 1978.
Situação na Lituânia socialista
Em 1978, padres católicos romanos lituanos intensificaram a resistência contra a perseguição, fundado, em novembro de 1978, o Comité Católico para a Defesa dos Direitos dos Fiéis, com o objetivo de monitorar e denunciar publicamente as violações destes mesmos direitos. Figuras importantes do clero lituano, arriscaram-se à prisão para desafiar o Estado sovietico, colaborando com o jornal clandestino Crônica da Igreja Católica da Lituânia.
Os padres protestaram ativamente contra a nova Constituição soviética da Lituânia, argumentando que ela discriminava os fiéis. No início de 1978, padres da Arquidiocese de Kaunas protestaram junto ao Bispo Juozas Labukas contra a interferência das autoridades soviéticas nos assuntos da Igreja. Apesar do perigo, incluindo vigilância e ameaças de agentes da KGB, o clero catolico lituano continuou suas atividades, muitas vezes secretas, para manter a vida religiosa. Muitos padres católicos lituanos, como o Alfonsas Svarinskas e Sigitas Tamkevičius, sofreram prisão por suas atividades.
Não consegui achar as provas diretas de que o padre Stanislovas Lidys (Dulce Rebelo o chamou de Staxis Lidis) era o agente ou informador formal do KGB. Sabe-se que o padre Lidys chegou a assinar, em 1978, a petição contra a aprovação da nova constituição da Lituânia. Ao mesmo tempo nas décadas de 1970-1980 as autoridades soviéticas costumavam colocar este sacerdote (que de 1969 a 1990 era o pároco da Igreja da Imaculada Conceição da Virgem Maria em Vílnius nas mais diversas viagens ao estrangeiro, sempre para tentar provar a tese: do que “não havia perseguição religiosa na URSS”.
O músico jazista russo-lituano, Vladimir Tarasov, recorda no seu livro “The Drummer Diaries”, que em 1979, juntamente com padre Lidys, fui convidado para uma digressao/turnê com um dos grupos musicais juvenis da Lituânia pela África – visitando Gana e Benin. Tarasov estava perfeitamente conciente do papel do padre Lidys na delegacao soviética: “Ficou claro por que o padre católico Stanislovas Lidys [...] estava incluído em nossa delegação.Aparentemente, eles queriam mostrar aos seus amigos africanos que a religião não era proibida e que estava florescendo na Lituânia soviética”.
Pergunta retórica. Poderia um padre católico, crítico aberto ao regime soviético de viajar ao estrangeiro e ser incluído nas delegações oficiais soviéticas ao estrangeiro? Claro que poderia, na condição óbvia do informador/agente do KGB. Muito possivelmente tivemos aqui o caso do dito “legendamento”, quando KGB criava, artificialmente, ao seu agente, a cobertura falsa, o retratando ao público geral como um dissidente.
O caso do bispo Makário
Bispo Makário (ucraniano Leonid Svystun) muito cedo se destacou na sua colaboração com o KGB. Assim em 1969, Makário, ao pedido do KGB, escreveu uma denúncia formal contra o seu colega do seminário de Kyiv, padre dissidente russo Pavel Adelheim. Em 1970, Adelheim foi condenado a três anos de prisão num campo de trabalhos forçados sob a acusação de “difamar o sistema soviético”. O original da denúncia, assinado pelo Makário Svystun foi encontrado no arquivo do seu processo criminal. Apenas 10 dias antes da condenação do amigo ao GULAG, padre Makário se tornou o bispo, aos 32 anos de idade.
Desde o fim da década de 1960, Makário viaja constantemente ao estrangeiro: 1967 (Suíça), 1968 (Praga e Uppsala), 1970 (Argentina e Roma), 1971 (EUA), 1975 (EUA e Quênia). Em 1968 ele estuda no Instituto Ecumênico de Bossey na Suíça.
Em 1970 Makário é designado como Administrador das paróquias sob a jurisdição da IOR no Canadá e nos Estados Unidos. Em dezembro de 1974 foi nomeado o representante do Patriarcado de Moscovo/ou junto ao Conselho Mundial de Igrejas em Genebra e reitor da paróquia estauropégica da Natividade da Virgem Maria em Genebra. É de notar, que em Genebra Makário sucedeu o atual líder da IOR, Kirill. Os relatórios da imprensa suíça de 2023, baseados em arquivos, indicam que o Kirill (Vladimir Gundyaev), na década de 1970 era um agente do KGB em Genebra, utilizando o nome de código/codinome “Mikhaylov”. Ele servia no Conselho Mundial de Igrejas para influenciar a organização em prol dos interesses soviéticos.
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| Vladimir Gundyaev, década de 1980 |
Missão ao Portugal
Em 1965, o padre dissidente russo, Gleb Iakuin elaborou e enviou uma carta aberta ao Patriarca da IOR Alexy I, que descrevia detalhadamente a supressão ilegal dos direitos e liberdades dos cidadãos pelas autoridades estatais da URSS. Yakunin publicou também centenas de materiais e documentos que comprovavam as violações dos direitos dos crentes na URSS, os quais tiveram grande repercussão internacional. Em 1976, tornou-se um dos cofundadores do «Comite Cristão para a Defesa dos Direitos dos Crentes na URSS».
Em novembro de 1979, foi preso e em agosto de 1980 condenado por “agitação antissoviética”, cumpriu a sua pena nos famigerados campos do GULAG soviético de Perm-35, Perm-36 e Perm-37.
Reagindo à essa mesma repercursão internacional, em abril de 1978, o nosso grupo de sacerdotes soviéticos, acarinhados pela Associação Portugal-URSS e promovidos ao público pelas personalidades intelectuais próximas ao PCP e ao PS, veio ao Portugal em missão de comprovar o incomprovável: “ausencia da perseguição movida pelo sistema socialista a religião e aqueles que a professam”. Será que a sua missão foi bem-sucedida? Isso só podem testemunhar aqueles que acompanharam a situação de perto. O que parece mal nessa história toda, é o empenho, com que as pessoas aparentemente honradas, casos do Bruto da Costa ou da Dulce Rebelo participaram no exercício da propaganda soviética, de um regime comunista absolutamente cruel e despótico, que atentava sobre os direitos mais básicos de milhões de cidadãos da URSS.
Será que Bruto da Costa ou Dulce Rebelo sabiam que colaboram, mesmo que indiretamente, com KGB na tentativa de manipular a opinião pública ocidental e portuguesa? Sendo intelectuais e saindo de uma outra ditadura tinham a obrigação de desconfiar do seu papel de “idiotas uteis” do regime soviético. Será que algum deles, alguma vez pediu desculpas pelas suas ações ou omissões? Aparentemente não...
Blogueiro: agradecemos ao Pavlo Sadokha a indicação da matéria.




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