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| O livro «Porque os exilados espanhóis fogem em baús da URSS?», publicado na Argentina em 1951 |
por: Agustín Avenali, C5N (título do artigo é de responsabilidade do nosso blogue)
Pedro Conde Magdaleno foi o adido trabalhista da Argentina na URSS. Viajou para Moscovo em 1947 como oficial diplomático para se informar sobre as condições de vida dos trabalhadores soviéticos, mas ficou profundamente desiludido. Ao sair do país, tentou ajudar dois amigos espanóis a escapar, e tudo correu mal.
Estamos a 2 de janeiro de 1948, e o inverno moscovita gelava os ossos. José Estaline governava, e todos sabem que é um homem a temer. No aeroporto, há um argentino que não consegue parar de tremer. Mas não é de frio. É de medo. Dentro do seu porta-bagagens, algo se move. Ou alguém.
Mas para compreender esta cena, precisamos de recuar um pouco no tempo. Entre 1936 e 1939, a Guerra Civil de Espanha opôs, por um lado, os republicanos, que estavam no poder e tinham o apoio da União Soviética; do outro, os revoltosos anticomunistas com ligações à Portugal, Espanha e Itália.
Um ano após o início da guerra, a situação começava a complicar-se para o lado republicano, que organizou várias expedições para enviar as crianças para outros países onde estariam mais seguras. Paradoxalmente, a Segunda Guerra Mundial começaria em breve, e seria muito menos perigoso estar em Espanha do que noutras nações europeias.
Assim, contingentes de menores começaram a partir, em busca de uma vida melhor. A maioria foi para França, mas outros foram para países como a Bélgica, Reino Unido, Suíça e México. Outros, cerca de 3.000 pessoas, partiram para a URSS e foram chamados de «crianças da rússia».
Após o fim da Guerra Civil espanóla, foi difícil regressarem a Espanha devido ao início da Segunda Guerra Mundial, tendo sido proibidos de sair do território soviético. Então, não tiveram outra alternativa senão adaptar-se a este estilo de vida: aprenderam a língua [foram obrigados, de facto, à renunciar a cidadania espanóla, foi lhes atribuida, a cidadania soviética], permaneceram na URSS.
Pedro Conde Magdaleno, de sindicalista socialista a peronista
Entretanto, a milhares de quilómetros de distância, na Argentina, desenrolava-se a vida daquele argentino que tremia de medo no gélido aeroporto de Moscovo: Pedro Conde Magdaleno. Nascido em 1913 na cidade portenha de General Madariaga, na região de Buenos Aires, aos 15 anos mudou-se para Buenos Aires em busca de um futuro melhor. Encontrou trabalho numa padaria, onde se deu muito bem, ao mesmo tempo que se tornou ativo no movimento socialista. Ao longo dos anos, tornou-se secretário-geral da Unión del Personal de Panadería y Afines (União dos Trabalhadores da Padaria e Similares), UPPA.
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| La Unión del Personal de Panadería y Afines (UPPA) homenageou Pedro Conde Magdaleno no nome do seu hotel em Mar de Ajó. |
Com a ascensão de Juan Domingo Perón ao poder, Conde abraçou as ideias peronistas. Por isso, não hesitou em candidatar-se a uma curiosa oferta de emprego: o General queria incluir um adido do trabalho nas embaixadas argentinas em todo o mundo, para se juntar aos adidos culturais, comerciais e militares já existentes. O objetivo deste novo cargo seria observar e analisar a situação laboral noutros países, de forma a implementar novas medidas para os trabalhadores argentinos.
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| O processo do adido laboral Pedro Conde Magdaleno no Ministério dos Negócios Estrangeiros (cortesia de Alicia Conde) |
Pedro destacou-se no curso e foi escolhido para uma das tarefas mais importantes: ser adido do trabalho na recém-reaberta embaixada na União Soviética. Renovou-se assim as relações diplomáticas entre Moscovo e Buenos Aires, que tinham sido quebradas após a revolução [golpe bolchevique] de 1917.
É fácil imaginar a felicidade de Conde, que teve uma educação socialista, com a perspectiva de encontrar um proletariado soviético com um elevado nível de vida sob o governo de Estaline, com muitas ideias para trazer de volta à Argentina.
Adido trabalhista na URSS: nada é o que parecia
Pedro Conde Magdaleno tinha 34 anos quando chegou a solo soviético com a família, e a sua primeira impressão não podia ter sido pior. Ao desembarcar no porto ucraniano de Odesa, esperava ver apenas trabalhadores felizes, a desfrutar do seu paraíso socialista. Mas não. Encontrou um país faminto, em sofrimento com o pós-guerra, com mendigos, pessoas em farrapos, pobreza e violência policial. A mesma paisagem que lhe fora mostrada através das janelas do comboio que o levara a Moscovo. Em poucas horas, toda a sua imagem positiva da União Soviética se tinha desintegrado.
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| Pedro Conde Magdaleno com esposa Alicia Massini e filhos em Moscovo |
Os soviéticos/russos, vale a pena dizê-lo, também não gostavam de estrangeiros a bisbilhotar e a intrometer-se nas suas fábricas, campos e casas de trabalhadores, pelo que não lhe deram grande margem de manobra. Aliás, riscaram a palavra «trabalho» no seu passaporte, que continha a inscrição «adido de trabalho». A ordem era para ficar na embaixada e não incomodar ninguém.
Apesar disso, Conde encontrou uma forma de escapar e explorar a cidade e os seus arredores para ver como viviam as pessoas comuns, aquelas que não usavam os elegantes uniformes militares que via nos desfiles. Viu como amontoavam dezenas de pessoas numa sala, como formavam filas intermináveis para comprar comida cara e estragada e como sofriam com o medo da repressão.
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| A vida do Pedro Magdaleno na URSS |
Nessas saídas, tinha cúmplices: fizera amizade com alguns espanhóis, que o ajudaram na questão da língua. Vários deles eram nada mais nada menos do que «crianças da rússia», aqueles jovens que a República Espanhola enviara à União Soviética para os proteger do regime de Franco. Tornou-se particularmente próximo de dois deles: José Tuñón e Pedro Cepeda, que lhe contaram tudo o que sofreram. Foram obrigados a renunciar à cidadania espanhola e poderiam ser fuzilados se tentassem fugir.
O adido trabalhista peronista relatou toda a sua experiência num livro muito interessante intitulado «Porque é que os espanhóis que procuram asilo na URSS fogem em baús?», um relato extremamente detalhado de tudo o que testemunhou, no qual critica ferozmente o sistema soviético e Estaline, a grande figura da época, o homem que governava com mão de ferro.
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| O culto de Estaline levado ao estatuto da religião na URSS |
E o título do livro é uma antevisão do que estava para vir. Conde decidiu que o mundo precisava de saber o que se passava na URSS. Reuniu documentação e provas para levar de volta para a Argentina, mas sentiu que precisava de algo mais forte, mais convincente. E teve a ideia de colocar os seus dois amigos espanhóis, Tuñón e Cepeda, em malas diplomáticas que não seriam revistadas, para os tirar da URSS e trazê-los para a Argentina. Que dissessem a verdade e, no processo, ele salvaria as suas vidas.
Conde não estava interessado em ser reconhecido. Apenas procurava a segurança dos seus amigos. Após vários testes com os baús, determinaram que a melhor forma de viajar seria sentado, com almofadas para evitar solavancos e um pouco de água e pão com salsicha para manter o estômago sob controlo.
Tensão e Medo a Bordo
Regressamos àquela fria sexta-feira, 2 de janeiro de 1948, em Moscovo. A cena mais tensa do filme. Conde e um colega da embaixada, Antonio Bazán, chegaram ao aeroporto transportando cada um um enorme baú. Lá dentro estavam os espanhóis. O padeiro passou pela segurança sem problemas, mas Bazán não: não tinha rublos. para pagar o excesso de bagagem. Assim, decidiram separar-se: Pedro continuaria a viagem com José Tuñón no porta-bagagens, e Bazán voaria com Cepeda no dia seguinte.
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| José Antonio Tuñón e Pedro Cepeda Sánchez, os espanhois que tentaram escapar da URSS |
Conde embarcou no avião, que, para aumentar a sua ansiedade, partiu com duas horas de atraso. A bagageira, com Tuñón dentro, estava na cabine. Pedro olhou para o lado, mexendo os dedos, o nervosismo devastava-o. De repente, após cerca de três horas de voo, um estrondo. Outro. E outro. O dirigente sindical percebeu que algo estava errado. Já não conseguia esconder. Começou a suar. O seu olhar cruzou-se com o da assistente de bordo, que, parada junto ao porta-bagagens, ouvira tudo. A mulher entrou silenciosamente na cabine. O avião deu uma volta rápida e começou a regressar.
Assim que terminou, o padeiro abriu a bagageira e encontrou Tuñón completamente perturbado, roxo, à beira de um colapso. Havia um problema inesperado: tinham virado o porta-bagagens de cabeça para baixo, pelo que o espanhol estava de cabeça para baixo. Para piorar a situação, os pequenos orifícios O que tinham feito para que ele pudesse respirar tinham sido tapados. E recorde-se, o voo tinha partido com duas horas de atraso. Por quanto mais tempo conseguiria ele suportar isso?
O avião aterrou em território ucraniano [em Kyiv ou Lviv] e Conde e Tuñón foram separados. Nunca mais se viram. O adido do trabalho foi mantido numa cave durante cinco dias, acusado de espionagem. Não acreditaram nele por transportar ilegalmente alguém para fora do país, mesmo debaixo do nariz de Estaline, movido apenas pelas suas boas intenções. Alegaram que era um agente americano. Finalmente, foi libertado e regressou a Moscovo, onde soube que Cepeda, o outro espanhol, tinha desaparecido.
O ambiente era muito tenso, e tiveram de abandonar a URSS. Conde, Bazán e as suas famílias rapidamente organizaram a sua saída do país e partiram de comboio. Quando estavam prestes a atravessar a fronteira para a Finlândia, os problemas regressaram. Agentes do MGB, antecessora do KGB, apareceram e começaram a revistar-lhes a bagagem.
Desta vez, Pedro não tinha um espanhol dentro das suas malas, mas levava consigo muitos documentos e fotografias para informar o mundo sobre as condições de vida dos trabalhadores soviéticos. E, mais uma vez, é uma cena saída diretamente de um filme: a mulher de Pedro, Alicia, escondeu os papéis, tensa e nervosa, enquanto outro agente distraía os agentes. Finalmente escaparam da situação, atravessaram a fronteira, e Conde pôde usar tudo isso para escrever o seu livro, publicado em 1951.
Em teoria, a URSS tinha permitido a sua saída com a condição de o governo argentino o castigar à chegada ao país. Mas Perón apoiou-o e, em vez de o sancionar, enviou-o como adido ao Peru. Aí, foi apanhado de surpresa pela autoproclamada Revolução Libertadora. Regressou ao país, mas, numa situação complicada devido ao seu passado peronista, teve de arranjar outro emprego, como motorista de autocarros. Para piorar a situação, o seu ativismo contra Estaline valeu-lhe o repúdio da esquerda argentina e de parte do movimento sindical. Morreu muito jovem, aos 51 anos, em 1963. Nunca soube o que aconteceu aos seus amigos espanhóis.
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| Pedro Magdaleno caluniado pela PC Argentina |
José Tuñón e Pedro Cepeda, por sua vez, foram condenados a 25 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Passados sete anos, em plena desestalinização, uma comissão de revisão decidiu libertá-los, em 1955. Tuñón, o que estava na bagageira de Conde, foi para o México, onde a sua família se tinha exilado. Cepeda, por sua vez, permaneceu na URSS até 1966, altura em que pôde regressar a Espanha. Com o passar do tempo, tornou-se uma figura proeminente na luta laboral e foi um dos líderes da União Geral dos Trabalhadores (UGT). Faleceu em 1984, com 61 anos.
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| Ofício de falecimento de Pedro Conde adicionado ao seu arquivo (cortesia de Alicia Conde) |









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