domingo, junho 05, 2016

«A moça de biquíni vermelho»: fuga do paraíso vermelho

O nosso blogue já contou a história do Stanislav “Slava” Kurilov (1936-1998) — oceanógrafo que fugiu da URSS em 1974, desafiando a proibição de autoridades soviéticas de viajar ao estrangeiro. No entanto, em 15 de janeiro de 1979 a jovem ucraniana Liliana Gasinskaya (Lillian Hayson) repetiu a sua proeza, saltando da janela do cruzeiro soviético, ancorado na baia de Sidney.
Lilian tinha apenas 18 anos, mas entrou às primeiras páginas da imprensa mundial quando após nadar por cerca de 40 minutos apareceu em Pyrmont, no subúrbio do Sidney. «A bonitona foge do cruzeiro «vermelho»», – escreveu “Daily Mirror” dois dias após a sua fuga. «A moça de biquíni vermelho» em breve se tornou a segunda identidade da Lilian.
O seu plano era simples – fugir do odioso regime comunista soviético, obtendo a liberdade num novo país, bem longe das «mentiras e da propaganda»: «eu tinha 14 anos quando comecei entender o que é o comunismo e qual é o seu objetivo. [...] Compreendi que estava rodeada pela mentiras e pela propaganda e comecei odiar o [comunismo] gradualmente».
A moça que nasceu numa família artística, a mãe era atriz e o pai – músico, planeava a sua fuga durante alguns anos. Quando praticamente desistiu da ideia, surgiu uma nova oportunidade: «Quando soube que os cruzeiros anunciaram a admissão do pessoal, me surgiu uma ideia». Ela foi admitida à empresa que geria os cruzeiros soviéticos, fez o estágio na Ucrânia e na Grã-Bretanha e foi colocada ao serviço do navio «Leonid Sobinov» (ex-Saxonia & ex-Carmania, 1954-1999).
Os cruzeiros soviéticos reproduziam em miniatura as regras do país: todos os membros da tripulação eram permanentemente vigiados. Para evitar as possíveis fugas, o convés era patrulhado pelos tripulantes “de confiança”, no período noturno todos os espaços exteriores eram iluminados como os holofotes potentes.
Na noite de 14 à 15 de janeiro de 1979 a tripulação do cruzeiro estava muito atarefada para servir os seus passageiros: «vesti o biquíni vermelho e levei apenas o meu anel. Eu sabia que é inútil levar qualquer coisa que seja, senão serei apanhada. Subi na cama, passei pela vigia e saltei para água. [...] Eu sei que meus pais em Voroshilovgrad [cidade de Lunansk desde 1970] estarão terrivelmente infelizes, mas não posso ajudar nisso», – disse ela mais tarde.

A história de sua fuga teve os rasgos de romance policial: os funcionários da embaixada soviética que foram informados da fuga da Lilian tentaram a sua captura, mas os jornalistas do “Daily Mirror”, a esconderam em um local secreto em troca de uma série de entrevistas e fotos exclusivas em já famoso biquíni vermelho.
O seu pedido de asilo na Austrália causou sentimentos mistos na sociedade australiana. Os membros da oposição argumentavam que se Lilian não fosse jovem, bonita e em um biquíni vermelho, seria simplesmente deportada de volta à União Soviética. Recebendo a permissão de permanência, Lilian assinou o contrato de 15.000 dólares com a primeira edição de “Penthouse”, onde se tornou a “moça do mês”. O slogan “Lilian: The Red Bikini Girl – Without The Bikini” e as fotos dele em nu integral foram recordados nas edições especiais da revista masculina nos seus 34º e 35º aniversários.
Novamente Lilian foi a notícia em 1981, quando foi o alvo da debate parlamentar devido aos rumores que viajou à URSS e pediu a devolução da cidadania soviética. Lilian negou as acusações e a permissão de viver na Austrália foi reconfirmada. Sabe-se que ela estudou na escola de modelos, mais tarde optou pela carreira de atriz, participando nos pequenos papéis nas séries australianas “The Young Doctors” e “Arcade”.
Em 1984 ela se casou com o developer e construtor civil Ian Hayson (morreu aos 69 anos em 2014), que foi conhecido pela participação na construção do centro comercial “Harbourside Shopping Centre” que custou 2 biliões de dólares e foi inaugurado pela rainha Elizabeth em 1988. O casamento de ambos durou até 1990.
Sabe-se que após o seu divórcio, então Lilian Hayson (que teria 55 anos em 2016) em 1991 se mudou para a Grã-Bretanha, desaparecendo do espaço público e nada mais se sabe sobre a sua vida desde então (fonte1; fonte2). 

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