sábado, setembro 08, 2012

Como URSS falsificava o seu passado histórico

A famosa anedota soviética dizia que na URSS não apenas o futuro, mas também o passado eram imprevisíveis. O esquema tecnológico dessa “correção da história” é descrito ao pormenor na distopia “1984” do George Orwell. Na URSS, os funcionários do “ministério da verdade”, não possuíam nem o Photoshop atual, nem a maquinaria orwelliana, mas usando métodos muito simples e temendo se transformar na estatística repressiva, faziam pequenos milagres de simplesmente fazer sumir todos os que caiam em desgraça política.

O britânico David King, designer e colecionador da arte soviética, o autor do álbum “The Commissar Vanishes: The Falsification of Photographs and Art in Stalin's Russia” (edição russa “Comissários desaparecidos. Falsificação das fotografias e das obras de arte na época de Estaline”), demonstra que na era do estalinismo na URSS mentiam até as fotografias.

No seu livro King reúne os originais das fotografias e as suas cópias “retocadas” pelos gráficos, para apagar as caras de certas pessoas, “retirar” objeto, pessoa (ou até o grupo de pessoas) da imagem.

A censura estalinista das fotografias era apenas uma parte de uma política mais ampla de falsificação da própria história. Desde os meados dos anos 1930, na URSS era impossível publicar, mostrar, afirmar em público, praticamente nada daquilo que poderia pôr minimalmente em duvida a autoridade suprema do Estaline como o chefe do povo soviético e líder das forças progressistas mundiais. O culto da personalidade se baseava no terror policial sem precedentes, chegando ao seu pico no fim dos anos 1930, mas continuava com pequenos “afrouxamentos” até a sua morte, em 1953.

Neste contexto funcionavam as falsificações, eles deveriam convencer o povo soviético que as aventuras catastróficas eram vitórias épicas, deveriam obrigar o povo a endeusar os criadores do sistema totalitário, exterminar qualquer pensamento mais leve sobre a possibilidade de caminhos ou resoluções alternativas. Qualquer pessoa que discordava do culto de personalidade do Estaline era imediatamente considerada criminoso, e até a memória da sua existência era apagada dos anais da história. Em primeiro lugar, o “desaparecimento” atingiu os líderes do partido-estado comunista.

David King não explica no seu álbum porque isso aconteceu, apenas mostra a tecnologia e a temporização deste desaparecimento (extrato de http://lib.rus.ec/b/369125).
Lavrentiy Beria: a sua cabeça, retirada da foto real, em fato civil, foi colocada no fardamento militar
(Beria gostou da foto e não pretendia "perder" o seu tempo com a mudança de fatos) 
A falsificação das fotografias na propaganda soviética tem uma história longa e uma escola tecnológica bastante avançada. Por vezes, as fotos eram simplesmente “retocadas”, pois as caras dos “amados líderes” não podiam ter imperfeições (nas fotografias oficiais Estaline não tinha marcas da sarna e mesmo Gorbachov ficava sem o seu sinal de nascença). Os retocadores podiam “trocar” a roupa às personagens. Por exemplo, Lavrentiy Beria gostou da sua fotografia, mas na publicação oficial quis trocar farda militar pelo fato civil.
Uma foto icónica, Lenine e Krupskaia, com as crianças na aldeia de Kashino. Na foto original eles estavam rodeados pelos adultos, mais tarde, vítimas da luta contra os kulaks e quase todos presos ou deportados. Como resultado, os adultos foram eliminados e o fundo da fotografia foi escurecido.
Entre oito personagens genuínas, retocador deixou apenas quatro. Na foto original, Frunze (segundo à esquerda), Voroshilov (quinto), Estaline (sexto) e Ordzhonikidze (oitavo), estão separados. Foram recortados com um bisturi fino e recolocados. O retocador falhou, no casaco do Frunze aparece uma sombra…

Um passeio junto ao canal Moscovo – Volga, último à direita é o Comissário Popular do Interior, Nikolay Yezhov. Mais tarde preso, julgado e fuzilado. Assim no seu lugar aparece um vazio, apenas a balaustrada e a água do canal.
Em 1948l o quadro “Lenine proclama o poder soviético no 2° Congresso dos Sovietes”, do pintor Vladimir Serov, ganhou o prémio Estaline. Neste quadro Estaline ficava ao lado do Lenine, o que quase certo, agradava o ditador. Já em 1962, durante a política de destalinização, o próprio Serov muda radicalmente as imagens do quadro. Juntamente com Estaline desaparecem Sverdlov e Dzherzhinsky: o trio é substituído pelas figuras alegóricas dos soldados revolucionários.

A mostra fotográfica “Comissário Desaparecido” em Moscovo:

Exposição “Comissário Desaparecido” online:

1 comentário:

João José Horta Nobre disse...

O artigo está muito bom, já o publiquei no meu blog:

www.venenopuro2010.blogspot.com