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Naquela época, todo o cidadão soviético deveria viver registado em algum domicílio, acto comprovado pelo carimbo que o mesmo cidadão recebia no seu passaporte interno (o BI soviético com muitas páginas onde as autoridades controladores registavam o seu estado civil, registo domiciliar e até o grupo de sangue, embora este último só ao pedido do portador do passaporte).
E lá, na secção do registo, ouvi na rádio a notícia, que já tinha ouvido naquela mesma manha, mas em cuja veracidade não quis acreditar. Mikhail Gorbachev (o presidente auto-proclamado da URSS, pois não foi votado em escrutínio popular), retirou-se para a Crimeia por questões da saúde (qualquer cidadão soviético percebia que homem foi detido) e todo o poder na URSS passava para as mãos de junta político – militar, que tinha um nome complexo de pronunciar: Comité Estatal de Situação de Emergência, ou
GKChP.
O meu primeiro pensamento foi algo do género: “Meu Deus, a minha vida acabou, a Perestroica acabou, o meu país (acho que ainda sentia a URSS como meu) irá viver uma terrível ditadura comunista”. Agora, olhando para trás, entendo claramente que o poder soviético (acredito que foi com o total aval de Gorbachev), preparava a opinião pública para a necessidade de “aperto de parafusos”. Desde o
Referendo Soviético de 1991 as medias estatais assustavam os “pequenos – burgueses” soviéticos com as informações sobre o “crescimento do nacionalismo” nos Estados Bálticos, Geórgia, Moldova e Ucrânia. As imagens preferidas eram de alimentos racionalizados (açúcar, sabão, cigarros), mas também de ovos, frangos, carne, “achados” nas lixeiras municipais. Dava-se entender que a URSS estava à beira de colapso e que apenas boa velha ordem conseguirá nós salvar “deles”, quem eram “eles” não se dizia, mas no entender da propaganda pró – soviética não era a gente boa.

Deixei tudo por trás e imediatamente foi para a Praça Central de Kyiv (o actual Maydan, ou a Praça de Independência), que ainda tinha o nome de, salvo erro, Revolução de Outubro e era vigiada pela enorme estátua de Lenin de granito, cercado pelo marinheiro, soldado – camponês e uma trabalhadora de bronze, de cima de uma colina subjacente.
A Praça era conhecida na época de 1987-1991 como
Hyde_Park de Kyiv, servia de espaço de liberdade onde eram vendidos revistas e jornais independentes: liberais ou democratas moscovitas, imprensa democrata ou nacionalista ucraniana de Kyiv, Kharkiv ou Lviv.
Naquele dia na Praça eram distribuídas os panfletos vindos da Rússia, assinados pelas pessoas próximas do Bóris Yeltsin, que exortavam os cidadãos a não aceitar a autoridade da junta militar. No mesmo dia, mas a tarde, apareceram os primeiros panfletos ucranianos, da autoria da plataforma política nacionalista
Assembleia Inter-Partidária Ucraniana (UMA) e do
Movimento Popular da Ucrânia (Rukh). O Governo regional ucraniano manifesta-se bastante tardiamente no sentido do que os decretos da junta não tem a força jurídica na Ucrânia, pedindo os cidadãos para “
não agravar a situação social e política da República, evitar o confronto e conflitos”. Discursando na tarde do dia 19, o chefe do parlamento, comunista e futuro 1º Presidente da Ucrânia Independente,
Leonid Kravchuk exorta a população ucraniana manter a “
paz e tranquilidade”, para não dar motivos de instalar na República o estado de emergência.
Naquele mesmo dia 19 escrevi a reportagem sobre os acontecimentos na Praça, mas o pessoal do jornal onde habitualmente publicava as minhas primeiras notícias disse que sou um jovem bom e corajoso, mas nada disso poderia ser publicado por causa da censura restabelecida pela junta militar.
Assim dirigi-me para casa, chagando exactamente para assistir ao meio a famosa entrevista em directo com a liderança da junta, mais tarde apelidada de
Bando dos Oito. O chefe nominal da junta, o vice – presidente soviético
Gennady Yanayev tinha mãos tremidas, por vezes respondia as perguntas dos jornalistas balbuciando frases sem nenhum nexo. Todos os outros membros da junta pareciam muito nervosos, o que obviamente foi lhes fatal, os telespectadores percebiam que algo não bate certo.

Cerca de 100.000 moscovitas saíram às ruas para defender o edifício do Governo russo, a “Casa Branca” foi cercada pelas barricadas improvisadas, as pessoas usavam para isso todo o tipo de material de construção que conseguiam achar, incluindo vários carros eléctricos e viaturas de limpeza municipal. Uma Centena Ucraniana bem organizada, empenhando as bandeiras da Ucrânia participou na defesa da Casa Branca, assegurando a defesa da parte sudoeste do edifício. Entre as três pessoas que morreram no dia 21 de Agosto, quando a
Divisão Motorizada da Infantaria Tamanskaya começou o ataque contra a Casa Branca, foi ucraniano
Ilya Krichevskiy (
foto no meio), sepultado mais tarde envolto na bandeira ucraniana. Ele e mais dois companheiros mortos durante o golpe de Estado receberam a título póstumo o título dos Heróis da União Soviética.
O que aconteceu depois é do domínio público: uma parte do exército passou para o lado do governo federativo russo, os líderes da junta foram presos, um deles suicidou-se conjuntamente com a esposa. No dia 24 de Agosto a Ucrânia proclamou a sua Independência, seguida pela Moldova (27 de Agosto), no dia 6 de Setembro a URSS reconheceu as independências da Letónia, Lituânia e Estónia. A desintegração da URSS era apenas a questão de dias.

Outra vez, olhando para trás, acho que o maior erro e a tragédia da jovem – democracia russa, foi a incapacidade dos seus líderes de revogar para sempre o chauvinismo imperial russo. A tentativa de usar o nacionalismo russo para amedrontar e controlar os Estados vizinhos foi mais forte do que a luta e o sofrimento conjunto, que os dois povos sentiram durante 74 anos da ditadura bolchevique, que terminou exactamente em Agosto de 1991.
No dia 24 de Agosto de 1991 estive com milhares de outros ucranianos no “cerco” pacífico do edifício do Parlamento ucraniano, tendo a vontade firme permanecer lá até que a Independência seja proclamada. Mas é uma outra história.
Moscovo, golpe comunista na noite de 19 para 20 de Agosto de 1991:
http://www.youtube.com/watch?v=Gp3lITfBYUQFotos de Agosto de 1991:
http://public.fotki.com/Ed-Glezin/c4c5/page3.htmlBónus: