quinta-feira, junho 11, 2026

Rússia ruma à reintrodução da censura estatal prévia na área da arte e cultura

12 de junho de 1990: o fim oficial da censura soviética: «Censura é abolida!»

O ator, deputado, obscurantista e propagandista russo, Dmitry Pevtsov, publicou uma espécie de manifesto, onde exige a alteração da Constituição russa e a reintrodução da censura oficial do Estado, que será realizada por comissões especiais com a participação do FSB.

Como acontece neste tipo de iniciativas supostamente «populares», o Kremlin usa os representantes da intelligentsia cultural russa totalmente servil, para testar os limites da «nova normalidade» do seu regime neofascista. Se a reação da sociedade russa for mais ou menos silenciosa, a censura estatal avançará e muito rapidamente, já se a reação for bastante negativa e ruidosa, Kremlin dirá que era apenas uma proposta particular de um artista que por sua livre a expontânea..., enfim, discursos do costume.

Eis alguns trechos daquela apresentação (ortografia e pontuação preservadas do original):

«Este é um exemplo perfeito da censura soviética, que operava, antes de mais, dentro da estrutura do programa ideológico da URSS, um programa que foi implementado no país de forma sistemática e planeada, a partir dos primeiros anos da escola secundária. 

O «Código dos Construtores do Comunismo» [uma espécie da livro sagrado semi-oficial em vigor na União Soviética], com pequenas correcções, baseava-se nos mandamentos de Moisés (a partir do 5º mandamento). Esta ideologia é um corredor conceptual completamente específico, «saltando» fora do qual qualquer artista, realizador, escritor, etc. (representante de qualquer profissão criativa) ficava sem nada para fazer, ficava sem os espectadores, sem os direitos de autor, sem as perspectivas criativas, etc.

Quanto aos «excessos» da censura soviética, sim, houve muitos exemplos em que os filmes, as peças teatrais foram de facto fechados, «engavetados», proibidos, mas...

A censura soviética proibia as obras literárias tão distintas como «Por quem os sinos dobram» de Hemingway (até 1962) à «Lolita» de Nabokov, considerada na URSS de «amoral» e «pornográfica».

Vejam quantas obras-primas do cinema e do teatro nasceram durante a dura censura soviética. Sem falar da literatura e da música. 

Estou profundamente convencido de que a censura só ajudará à nossa cultura, a nossa arte, na promoção contínuo do seu desenvolvimento na direcção correcta.

Enquanto o artigo 13º da Constituição da federação russa falar sobre «pluralismo ideológico» (isto é, sobre a ausência de uma ideologia estatal), nada certo relacionado com a censura funcionará, porque não existem «limites» ideológicos na qual seja possível «inserir», «avaliar» e discutir esta ou aquela obra de arte. 

Mas! Penso em criar um órgão especial (comissão ou comité) semelhante em princípios e estrutura ao que existia na União Soviética... Encontrar pessoas que trabalhem por um salário e, ao mesmo tempo, «não por medo, mas por consciência» e de forma profissional.

Graças a Deus, ainda existem figuras normais da cultura e da arte no país: editores, críticos, actores, realizadores, argumentistas e dramaturgos...

Deveria haver lá representantes das lei e ordem, professores, psicólogos infantis e representantes das confissões religiosas oficiais.

Estou convencido que a arte e a cultura, agora durante a [operação militar especial, o termo russo permitido pela, de facto, a censura para designar a guerra russa contra Ucrânia] SVO, são também uma vanguarda, são o nosso «soft power»! O nosso «produto final» também exige o controlo Estatal.

Mas enquanto houver um artigo nos «Fundamentos da legislação da federação russa sobre a cultura» onde esteja escrito à preto-no-branco que «O Estado não tem o direito de interferir na criatividade...», nenhum funcionário público excederá voluntariamente os seus poderes nesta área.

[...] criar uma comissão ou comité, que irá operar em todo o lugar, onde existam instituições de cultura e da arte, dando as instruções claras — o que é permitido e o que não é.

Basta ter medo de alguma coisa — «ah, vamos violar ali qualquer coisa!», «ah, vamos magoar alguém!», «ah, os inocentes vão sofrer!»...

BASTA! Já nós perdemos três ou quatro gerações dos nossos filhos.

CHEGA. ESTÁ NA HORA DE ACABAR COM ISSO!»

Blogueiro 

A censura na União Soviética existiu praticamente desde a chegada dos bolcheviques ao poder e até junho de 1990, quando, em resultado das mudanças impostas pela Perestroika, foi abolido, da Constituição soviética de 1977 o artigo 6º, que definia o partido comunista PCUS como «a força orientadora e guia da sociedade soviética, o núcleo do seu sistema político».

A crítica soviética da censura soviética, revista satírica «Crocodilo», 1962, era Khruschev.
A palavra «amor» é censurada e substituida pelas: «amizade», «respeito», «simpatia» 

A censura soviética abrandou consideravelmente no período entre 1955 à 1964, na época do «degelo» de Khruschev, quando vários escritores, expulsos, presos e até executados, foram readmitidos à oficiosa União dos Escritores soviéticos. Algumas das obras, de alguns destes escritores foram publicados oficialmente.

As bandas e cantores ocidentais proibidos de serem tocados nas discotecas soviéticas.
Adenda à uma carta de 10 de janeiro de 1985.

No resto do tempo a censura estatal prévia garantia que nenhuma obra literária, filme, peça do teatro, música (em forma de discos LP, mais tarde K7 e até VHS) ou outra produção artística, poderiam vir ao público sem antes serem aprovadas de acordo com a ideologia comunista vigente.

Até a mencionar a existência da própria censura era proibido e censurado na URSS!

Em 1976 a Direção-Geral da Defesa dos Segredos Estatais (Glavlit) publicou «A lista de dados proibidos à serem publicados na imprensa, na rádio e na televisão». O documento secreto de 176 páginas, que decidia o que podiam e o que não podiam saber os cidadãos, foi preparado pelo Conselho dos Ministros da URSS em colaboração com KGB. Entre várias informações proibidas de publicar, eram as informações «sobre os órgãos do Glavlit da URSS, revelando o caráter, organização e métodos do seu funcionamento».

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