segunda-feira, junho 29, 2026

Mercenários peruanos arrependidos procuram fugir da guerra neocolonial russa

Entre 600 à 800 peruanos, quase todos sem nenhuma experiência militar, foram atraídos para a guerra neocolonial russa contra Ucrania. Sabe-se que 13 deles ja morreram, 120 outros são desaparecidos / incontactáveis pelos seus familiares por mais de 5 semanas. 

O Ministério Público do Peru abriu uma investigação preliminar após denúncias de familiares de cidadãos peruanos aliciados pela rússia e enviados para lutar na sua guerra neocolonial contra Ucrânia. O anúncio foi feito em 1 de maio de 2026, após reportagens na imprensa/mídia peruana no final de abril sobre centenas de cidadãos que se encontravam nessa situação. A investigação está sendo conduzida por uma unidade especializada em crimes de tráfico de pessoas.

Dados de alguns dos peruanos do exército russo

Um total de aproximadamente 600 peruanos deixaram o Peru rumo à rússia desde outubro de 2025, disse, aos jornalistas, o advogado Percy Salinas, que representa alguns dos cidadãos desaparecidos. Outro advogado, Marcelo Tataje, que assessora as famílias dos que foram para a rússia, afirmou que 135 boletins de ocorrência de pessoas desaparecidas já foram registados e que há informações sobre outros 250 casos possíveis.

Pelo menos 13 cidadãos peruanos morreram, informa o Dr. Salinas. Um deles é Ronald Rojas Alcantra, de 25 anos, que foi para a rússia trabalhar como segurança, morreu após ser ferido em 29 de abril de 2026, sem receber atendimento médico adequado, relatou sua irmã à rádio RPP. Sabe-se que vários peruanos ficaram feridos, incluindo um cozinheiro de 63 anos.

A familiar de um mercenário peruano chora durante uma manifestação em Lima,
em maio de 2026. Foto: Klebher Vasquez/Anadolu/Getty Images

Segundo advogados e familiares, os peruanos foram atraídos para a rússia com promessas de trabalho em diversos setores, incluindo relacionados às forças armadas, mas supostamente longe da linha de frente (por exemplo, foi lhes prometido trabalho como seguranças em bases militares ou em serviços de alimentação do exército). De acordo com o jornal peruano Le República, aos peruanos prometiam empregos de guardas de embaixadas e hospitais, e para trabalhar como engenheiros, cozinheiros e motoristas de táxi. Segundo a publicação, os salários prometidos variavam de US$ 2.600 a US$ 4.000 por mês, além de um bônus de «boas-vindas» de 20.000 dolares, algo que os mercenarios simplesmente nunca receberam. De acordo com um advogado, o recrutamento foi feito por uma organização registada na Colômbia.

Segundo Dr. Salinas, antes de embarcarem para a rússia, os peruanos receberam documentação para assinar em russo. Já na rússia, os seus pasaportes, os telemóveis e até os cartões de identidade foram confiscados. Os russos diziam: “Agora devem-nos 20 mil dólares, porque foi o que custou trazê-los até aquí”. Depois os peruanos são enviados para um curto treino/amento militar e, em seguida, diretamente para a guerra, relata a Le República.

A irmã de um dos mercenarios relatou que ele conseguiu fugir da frente de batalha e tentar procurar ajuda no consulado peruano em Moscovo/ou, mas foi aconselhado, pelos funcionarios do Consulado, a retornar à sua unidade militar russa, tentar rescindir o contrato e solicitar a devolução do passaporte. Mercenario seguiu este conselho e, após isso, perdeu-se quaisquer contato com ele, segundo a RPP.

O Dr. Salinas também mencionou um grupo de 13 peruanos presos numa trincheira sob ação constante de drones, implorando pela sua evacuação. Os advogados também falaram de dez peruanos que se refugiaram na embaixada de Peru em Moscvo/ou. Salinas contou que a missão diplomática teria se recusado a abrigar os cidadãos, recomendando que tentassem deixar a rússia por conta própria. O Ministério dos Negócios Estrangeiros / das Relações Exteriores do Peru negou a recusa de asilo.

Um grupo de familiares de mercenários peruanos realiza uma vigília à luz das velas em frente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lima. Foto: Klebher Vasquez/Anadolu/Getty Images

Familiares de 130 peruanos solicitaram ao Ministério dos NE / das RE do Peru a prestação do auxílio na repatriação de seus parentes. Por sua vez, o Ministério peruano anunciou que convocou o encarregado de negócios da embaixada russa em Lima para uma reunião sobre a situação e solicitou informações às autoridades russas relativamente ao paradeiro e ao estado de saúde dos cidadãos peruanos. O ministério enfatizou que os cidadãos peruanos precisam de autorização governamental para servir nas forças armadas estrangeiras.

A 30 de abril corrente, a embaixada russa no Peru emitiu um comunicado em resposta às preocupações das famílias peruanas em relação aos seus familiares, que assinaram contratos de serviço militar com o exército russo. O comunicado afirmava que, no caso for formalmente solicitada, a embaixada está pronta para fazer tudo o que for necessário para obter informações sobre estes cidadãos.

Nesse mesmo dia, familiares de peruanos envolvidos na guerra realizaram um protesto em frente à embaixada russa em Lima. Uma das manifestantes contou ao jornal La República que o seu pai e outros 25 peruanos foram atraídos para a rússia sob o pretexto de uma viagem turística.

Familiares de mercenários peruanos exigem o seu regresso a casa, mas as autoridades peruanas respondem que retirar alguém de uma zona de guerra não é tarefa fácil.
Foto: Klebher Vasquez/Anadolu/Getty Images

Segundo ela, durante a última comunicação, o seu pai relatou que ele e os seus companheiros estavam a ser preparados para serem enviados para a frente de batalha no dia 15 de maio. Disse ainda que estavam fisicamente exaustos e a viver em condições precárias, por exemplo, nos locais onde recebiam a comida, estavam empilhados os cadáveres dos militares russos mortos.

Em 1 de maio, o projeto russo de direitos humanos “Go by the Forest, que ajuda as pessoas a fugir do alistamento militar russo, relatou o caso de um grupo de peruanos em Lipetsk que estava a ser preparado para ser enviado para a frente de batalha num futuro próximo. Um advogado familiarizado com a situação informou os ativistas de direitos humanos sobre o sucedido através de um amigo no Peru. 

O advogado esclareceu que o grupo incluía o pai de um conhecido, que tinha ido à rússia em meados de abril de 2026 para ganhar dinheiro. Prometeram-lhe trabalhos de limpeza, manutenção de cozinhas e guarda de depósitos do exército russo; o motivo legal da viagem era supostamente assistir um evento desportivo em Moscovo. Após chegar à rússia, foi enviado para Lipetsk, onde recebeu um registo temporário e foi submetido a um exame médico. Em seguida, assinou um contrato de serviço militar e foi enviado para formação.

Em algum momento o homem conseguiu contactar brevemente a sua família no final de abril e pediu para ser socorrido. Segundo os familiares do homem, na noite de 1 de maio, este grupo de peruanos já se encontrava no território ucraniano temporariamente ocupado, na região de Luhansk, escreve a publicação russa Meduza.io.

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