quarta-feira, junho 24, 2026

Estaline poderia ter iniciado a Terceira Guerra Mundial em 1954

A edição estónia da obra
No seu novo livro «Um Fim Premeditado do Mundo: Como Estaline Preparou a Terceira Guerra Mundial», o historiador Alexander Gogun, radicado em Berlim, revela que o ditador soviético planeou desencadear uma nova guerra na primeira metade da década de 1950, desafiando os Estados Unidos. 

Baseado numa vasta gama de documentos recentemente desclassificados dos arquivos da rússia e de outros países, bem como em fontes publicadas numa dezena de línguas, a obra mostra como as autoridades soviéticas, fria e persistentemente, avançaram durante décadas para um ataque aos Estados Unidos com o objetivo de escravizar a humanidade, ou seja, de completar a revolução comunista global. São referidos casos até então desconhecidos do uso operacional de armas químicas e biológicas de destruição maciça. Por fim, são publicadas informações sobre as proezas de Estaline nos últimos anos da sua vida, quando sincronizou meticulosamente os seus esforços abrangentes para conquistar o planeta. O autor demonstra de forma convincente e persuasiva como a teoria da revolução mundial de Lenine e Trotsky foi meramente modernizada e reinterpretada por Estaline após o advento das armas nucleares, mas de forma alguma esquecida ou descartada. Este estudo histórico é particularmente relevante hoje, dado que a liderança da federação russa retomou as operações militares contra o Ocidente, interrompidas na década de 1990, e, tendo descartado o conceito de coexistência pacífica do governo pós-soviético, regressou a uma sangrenta batalha com o mundo democrático. 

O livro é poderoso na sua análise. Enquanto muitos outros autores que estudam as relações internacionais durante as fases iniciais da Guerra Fria ou o final do estalinismo enumeram frequentemente factos ou simplesmente descrevem acontecimentos ou fenómenos, esta obra explica-os claramente. Por outras palavras, o texto baseia-se numa estrutura de causa e efeito. 

A questão do antiamericanismo russo/soviético/russo 

A opinião pública no império russo, fraca sob o absolutismo ou mais forte no início do século XX, nunca sofreu de americanofobia. Mas os bolcheviques abandonaram completamente esta abordagem. Para eles, os Estados Unidos representavam o centro do capitalismo, o inimigo número um. Estaline enfatizou isto nos seus discursos até cerca de 1927. Depois abandonou esta ideia, ao começar a utilizar os americanos na industrialização e nas suas manobras políticas. No entanto, em correspondências internas do partido, escreveu ao Molotov e ao Kaganovich que os Estados Unidos eram o principal inimigo soviético. 

Depois de 1945, até deixou de o esconder. Os Estados Unidos continuaram a ser o principal inimigo para as autoridades da União Soviética e, mais tarde, para a rússia de putin. Este perdurou essencialmente, com poucas interrupções, durante cerca de 80 anos. 

Estaline utilizou o «método de controlo reflexivo» em relação aos Estados Unidos. O que significa?

Para dispersar as forças americanas pelo mundo, Estaline utilizou duas vagas de manipulação. De 1945 a 1949, orquestrou todo o tipo de provocações no oeste da Ásia, no Médio Oriente e na Europa, atraindo assim forças e recursos americanos, financeiros e materiais, para a região, desviando-os de Mao Tsé-Tung, que lutava pelo poder na China. E quando Mao chegou ao poder graças à ajuda soviética — directa (fornecimento de armas, apoio financeiro) e, principalmente, indirecta — Estaline, com a ajuda de Mao, iniciou uma segunda vaga de manipulação. Desviou forças e recursos americanos da Europa, do oeste da Ásia e do norte de África para a região da Ásia-Pacífico. A Guerra do Vietname começou contra os franceses, que eram apoiados pelos americanos.

Forças nacionalistas e comunistas na guerra civil chinesa


O auge das maquinações de Estaline foi a Guerra da Coreia, quando colocou a China e os Estados Unidos um contra o outro. Truman nunca conseguiu compreender totalmente este complexo jogo. A política de contenção, a famosa «Doutrina Truman», representou uma dispersão, um espalhamento de recursos e uma pressão não sobre a URSS, mas antes atingindo as pontas dos tentáculos do polvo vermelho. Esta política foi vantajosa para Estaline, que estava a reforçar sistematicamente as suas tropas e a preparar-se para uma campanha até Gibraltar e ao Canal da Mancha, seguida da conquista dos Estados Unidos. 

As ideias de Estaline para o desenvolvimento do Extremo Norte soviético/russo. O que tem o Ártico a ver com as ideias de dominação mundial e com a Terceira Guerra Mundial? 

Foi uma das combinações calculadas, porque o próprio Estaline passou um tempo considerável no Extremo Norte, exilado na região de Turukhansk. E como viveu durante a era da revolução científica e tecnológica, provavelmente já considerava a possibilidade de chegar aos Estados Unidos através do Pólo Norte. Nas décadas de 1920, 1930 e posteriormente, contava não só com o que tinha, mas também com o que poderia ser criado em 5 a 10 anos, tendo em conta o desenvolvimento da tecnologia. 

A Bacia Árctica, com as suas vastas extensões desabitadas, oferecia uma boa rota para penetrar no continente norte-americano. Para este efeito, Estaline desenvolveu a Rota Marítima do Norte, desde a URSS europeia até às costas dos Estados Unidos e do Canadá. O Canal do Mar Branco, curiosamente, foi também construído para chegar à América, pois proporcionava à frota um fácil acesso aos oceanos do mundo através do Mar Branco. Os navios construídos nos estaleiros de Gorky (atual Nizhny Novgorod) ou Leninegrado podiam então navegar até às costas dos Estados Unidos, quer através do Atlântico, quer, inversamente, através do Oceano Ártico. 

Mas o auge do avanço no Ártico ocorreu com as expedições aéreas a altas latitudes do final da década de 1940 e início da década de 1950, quando um grande número de aeronaves de combate, transporte e reconhecimento aterraram em gelo flutuante perto do Pólo Norte e realizaram manobras acrobáticas nos céus do Ártico. Essencialmente, preparavam-se para atacar os Estados Unidos pelo norte, se necessário. Os americanos também se aperceberam da ameaça, embora a tenham subestimado um pouco. 

Existem documentos ou provas de que Estaline planeou o início da Terceira Guerra Mundial num ano específico? 

É o discurso de Estaline [publicado primeiro em romeno] aos seus aliados, comunistas romenos, em janeiro de 1951. É uma reunião apocalíptica no Kremlin, onde ele diz: devem criar uma boa força armada dentro de três anos.

Recepção dos camaradas romenos no Kremlin, Moscovo, 1947

Isto leva-nos a 1954. Muitos documentos do último período do regime de Estaline são classificados até hoje, e isto também demonstra eloquentemente que o dia X estava mesmo ali. O decreto do Ministério da Segurança do Estado [NKVD-MGB] de finais de 1952 foi publicado parcialmente pela primeira vez por historiador Nikita Petrov. Contém uma frase sobre a necessidade de os chekistas passarem a atuar em chamada «inteligência ativa». Isto implicava terrorismo, tentativas de assassinato contra inimigos de classe, assassinatos, incêndios e atentados bombistas. Claramente, os líderes da NATO não ficariam de braços cruzados enquanto tentativas de assassinato contra eles — ou seja, contra «inimigos de classe» — começassem no seu próprio território, visando políticos e empresários influentes. Isso significava que Estaline já estava a soltar os travões. 

Para iniciar uma nova guerra mundial seriam necessários recursos colossais — tanto financeiros como humanos. A União Soviética possuía-os? 

A URSS adquiriu um recurso incrível: os recursos humanos. A sua carne para canhão era a República Popular da China, o país mais populoso do mundo. Além disso, Estaline adquiriu recursos adicionais sob a forma dos países da Europa Central, muitas vezes subestimados. Paradoxalmente, contrariando muitas avaliações e previsões dos americanos em 1945, da CIA, do Comité Conjunto de Informações e dos analistas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a União Soviética foi capaz de renascer como uma fénix das cinzas em 1950. E em 1950, durante o plano quinquenal do pós-guerra, Estaline escreveu ao Mao: «Se a guerra é inevitável, que seja agora».

Agricultura soviética pós-II G.M.: uso extensivo de mão-de-obra semi-escrava

Por outras palavras, já estava preparado para iniciar a guerra em 1950, mas graças à sua manobra em várias frentes na Coreia, obteve melhores oportunidades para a lançar um pouco mais tarde e, felizmente, morreu. 

Obteve esses recursos, antes de mais, através da pilhagem da Europa Central. Para além da pilhagem directa e das reparações, Estaline também roubou países através do comércio desproporcional, roubando propriedade intelectual, todo o tipo de conhecimentos técnicos e patentes. E através do comércio desigual e das empresas mistas, drenou-os economicamente de recursos significativos. Portanto, o que se fala em «libertação» [da Europa] era, na verdade, a libertação de «excedentes» materiais. 

É óbvio que as armas nucleares seriam utilizadas nesta guerra. Estaline não foi dissuadido pelo medo da destruição de vastos territórios e de milhões de pessoas? 

Estaline era um misantropo. Muitas pessoas exploram as suas posições profissionais para garantir um tratamento preferencial e vantagens para os seus filhos. Em particular, o actual governo russo concede sinecuras aos seus filhos para que se possam divertir e viver confortavelmente. Estaline, por outro lado, utilizava os seus filhos para os seus próprios fins políticos, arruinando as suas vidas. Claramente, ele teria facilmente sacrificado a humanidade, ou uma grande parte dela. Para ele, a vida de dezenas de milhões de pessoas não significava nada.

Fonte

A decepção geral do povo [soviético] com os resultados da Segunda Guerra Mundial foi expressa de forma breve e precisa pelo três vezes Herói da União Soviética, o Marechal do Ar Alexander Pokryshkin, na revista «Soldado Soviético» (1985, nº 9, p. 32): “Todos concordavam: a guerra na Europa terminou, mas a fronteira capitalista permaneceu [intacta]”. 

Será que o camarada Estaline poderia ter aceitado isso? Ele não poderia e não aceitou. 

Os resultados da Segunda Guerra Mundial não o satisfizeram. Portanto, imediatamente após o fim da guerra, Estaline começou os preparativos para a Terceira Guerra Mundial. 

Este capítulo da história foi pouco estudado até agora. Ele nos foi apresentado pelo notável historiador militar moderno Alexander Gogun em seu livro «Um Fim Premeditado do Mundo: Como Estaline Preparou a Terceira Guerra Mundial». Recomendo fortemente a leitura.

Viktor Suvorov (Vladimir Rezun), veterano do GRU , no semanário ucraniano Dzerkalo Tyzhnya, 30/08/2025.

Ver: edição estónia; edição russa

Sem comentários: