segunda-feira, setembro 08, 2014

Heróis anónimos da Ucrânia: Iryna Dovhan

A história da ucraniana Iryna Dovhan correu o mundo. Ativista ucraniana de Donetsk foi raptada pelos terroristas e colocada num local público, onde foi agredida, insultada e humilhada pelos separatistas. Mas pouca gente conhece a sua verdadeira história...


Irina Dougan: “Eu peço: explique que esta imagem no poste é uma ninharia em comparação com o que houve, além do poste... Vi os comentários, lá escrevem coisas como: “um mulher heróica que saiu (à rua) com os símbolos ucranianos”, ou então que “tudo é uma encenação”, porque supostamente não estava amarrada... Gente, entendem, não era preciso me amarrar, nem vocês precisariam de serem amarrados, se estivessem sob as miras de duas dezenas de pistolas automáticas com os gritos: “Ficar quieta ai, sua criatura”. Não precisavam de me amarrar, pois o poste foi o meu amparo. Explique isso, por favor?”

Iryna não saiu ao lugar nenhum com símbolos nenhuns. Não escondia as sua posições pro-Ucrânia. Era uma voluntária. Recolhia o dinheiro para as forças da OAT. Levava os alimentos. Não revelava isso. Mas, durante uma de suas viagens, para o seu infortúnio, tirou as fotos no seu tablet. E tablet caiu nas mãos daqueles que guardavam posto de controlo na saída de Yasynuvata (12 km de Donetsk). E, embora o homem que levou à encomenda ao Roman, o seu marido e à sua filha era um “seguidor” da rp de Donetsk, ele foi severamente espancado e revelou de alguém era o tablet. Iryna foi levada do jardim, ao lado da casa. No total, oito homens armados entraram no quintal. “Quando batem, todos os códigos e senhas dizes sem hesitação...”

No tablet da Iryna estava o relatório sobre o gasto dos 14.000 UAH (1092 USD), e também uma lista de pessoas que contribuíram com este dinheiro. “Quase todas as pessoas naquele momento deixaram Donetsk, mas havia uma mulher que eu não tinha certeza se ela saiu ou não. Então, eu tentei, de todas as maneiras, omitir o seu nome”. Eles sentiram. Levaram-me para um quarto onde havia cerca de 20 ossetas e o tal Babai... “À quem transformaram em herói... Mas ele é um palhaço. Andava à minha volta e contava com os pormenores escabrosos à onde iria me possuir. Abria a braguilha. Levantou a minha T-shirt. Disse: “Mas ela já não serve para possui-la de verdade. Apenas se forçar na boca...” Riam-se... Eu não dizia nada e, em seguida, um deles explodiu. Até porque ele encontrou a sua foto no meu tablet. Eu tirei a foto, sem propósito especial, anteriormente e enviei à irmã para mostrar que a nossa cidade está sob controlo dos ossetas. “À quem querias me entregar?”

Logo trouxeram o cartão que depois eu segurava. Eles me levaram para aquela praça. Um anel de trânsito. Muitos carros e pessoas. Embrulharam numa bandeira que foi encontrada no quarto de minha filha. E a trela – também da minha casa. Eu fiquei de pé por mais de três horas. Os homens não batiam. Injuriavam pesadamente, mas não batiam. Por que me batiam apenas mulheres? Eu não sei. Uma velhota até me bateu com a sua bengala. Eu não sei como eu aguentava. O poste ajudou. Notei os jornalistas. Eles me fotografaram com os rostos absolutamente imperturbáveis.

Depois alguém veio, começou a exigir que eles me entreguem, mas ossetas não me deixaram. Novamente levaram à sua base. Atiraram à cela. Lá era realmente terrível. Na praça, pelo menos, eu sabia que não serei estuprada. E lá – você não sabe o que esperar. Permanentemente na cela, entrava de rompante, o mesmo osseta que me pontapeava no peito. De seguida, arrastaram um jovem e espancavam-o. Depois eu ouvi: “agora trazemos o bicha”. Depois eu soube que uma vizinha denunciou alguém que, supostamente, se meteu nas calcinhas da sua filha. Ele foi espancado terrivelmente e uivava que não fez nada. E eu uivava e rastrejava na cela. Porque era muito assustador ....”

Depois, Iryna, de repente, foi transferida para o terceiro andar do prédio. E as torturas pararam. Foi lá que os (do agrupamento terrorista) “Vostok” já falavam com ela de outra maneira, deram lhe os analgésicos. No dia seguinte, ela foi levada para um outro edifício. “Eu estava com muito medo dessa transferência. E se, de repente, tudo começar de novo...” O homem que a levava, a acalmava, “o pior já passou, tudo vai ficar bem”. Ela foi trazida ao gabinete de Khodakovsky (um dos poucos comandantes terroristas que é cidadão da Ucrânia, ex-comandante do agrupamento “Alfa” do SBU de Donetsk). Ele não estava sozinho. Havia uma reunião. Ela foi colocada sentada ao lado de Khodakovsky. Ele estava furioso. “Claramente, estava zangado pela maneira como foi exposto pelos seus “heróis” da Ossétia...” Ele pediu Iryna identificar aqueles que ativamente a atormentavam. “Foi difícil fazê-lo, desde que eu não conheço todos eles pelos nomes. Mas Babai e “Zaur” – sim”. Khodakovsky devolveu as chaves do seu carro e o mesmo tablet. “Ele disse que o que eu estava fazendo não é um crime, mesmo que eu fiz isso para o outro lado”.

Depois, no gabinete entrou um “jornalista moreno”, era Mark Franchetti (correspondente moscovita do The Sunday Times). Ele levou Iryna. Entregou-a à um jornalista americano. Eles a alimentaram, pela primeira vez em cinco dias. Colocaram em um quarto entre dois dos seus. “Claramente tiveram medo por mim, que aqueles ossetas podem tentar me levar”. Khodakovsky também colocou a guarda. “Eles eram humanos. No dia seguinte, até decidiram ir comigo à Yasynuvata para que eu pudesse levar os meus três gatos e um cão, e algumas roupas quentes para o marido e a filha”. E depois escoltaram até a fronteira da rp de Donetsk. “Quando nos despedimos, um deles fez um movimento como se quisesse me abraçar. E de repente, eu própria o abracei. E depois pensei e pensei, por que eu fiz isso... Por que eu correspondi ...”

Iryna não sabe exatamente quantas pessoas estão detidos naquele prédio. Quando ela foi “elevada” ao terceiro andar, lá já não espancavam ninguém. Ela viu uma mulher de 58 anos com artrite, que foi presa pelas “posições ucranianas”, denunciada por sua vizinha no mercado que só queria ficar com o lugar (banca) dela.

O que fazer à seguir Iryna não sabe. Juntamente com o seu marido tomou a decisão de não ficar em silêncio. “Eu não vou dizer nada do que não aconteceu. E que as pessoas são diferentes, e que existe Babai. Apresentar uma queixa? Qual é o ponto? Nenhum sistema está funcionar devidamente. É a terceira noite que não durmo. Ontem ligou psicólogo: disse que isso é uma consequência daquilo por que passei”.

P.S. O que eu contei é uma pequena fração do que me contou Iryna e o seu marido Roman. Iryna foi ter com ele e com a filha já no carro devolvido, junto com os gatos e o cão.

Fonte:

A reação da imprensa internacional

A reação da imprensa internacional neste caso é, no mínimo, extremamente curiosa. A liberal NYT, no seu artigo “Ukrainian Woman, Held Up to Public Abuse, Is Released”, da autoria do jornalista Andrew E. Krameraug., faz transparecer a “culpa ucraniana”: “Barragens de artilharia dos artilheiros ucranianos invisíveis que matam e ferem diariamente dezenas de moradores de cidades do leste ucraniano suscitaram raiva. Em Donetsk, como em outras cidades, atingidas no conflito, a raiva foi canalizada à uma caçada de corretores de artilharia” (FONTE).

Ou seja, se o cidadão russo Aleksandr Mozhaev (“Babai”) ameaça uma ucraniana na Ucrânia com o estupro e a sodomização, a culpa é dos ucranianos, resistem, em vez de se render, tal como os polacos em 1939...

Mas pior, ao nosso ver, foi o jornal brasileiro “O Estado de São Paulo” que intitulou o seu artigo: “Foto de brasileiro “salva vida” de ucraniana”. E acrescentou: Maurício Lima, do NYT, relata como ajudou a livrar dona de casa da prisão.


Aqui cada frase é uma maldade, cada frase é o veneno, cada frase é uma tremenda falta de bom senso jornalístico. Primeiro, colocar a frase “salva vida” entre as aspas significa sugerir que não existiu nenhum perigo de vida. Segundo, chamar a ativista Iryna de “dona de casa” é tentar desclassificar a importância do seu sacrifício pessoal. Terceiro, dizer que livrou da prisão é sugerir a ligeireza da situação e a até a suposta culpa da ucraniana que estava apoiar, no seu país, o seu próprio exército nacional. Enfim, emenda é muito pior do que o soneto...   

1 comentário:

DANIEL S.M. disse...

Entendi a sua preocupação e é fato consumado e reconhecido ainda que, ignorado e esquecido na maioria das vezes pelo inconsciente coletivo de que, os jornais são produto do marketing e da mídia popular em busca de ibope a qualquer custo! Uma caricatura até poética e romântica do quanto a imprensa jornalística é comercial e mercenária encontra-se na figura do chefe de "Peter Parker", o homem aranha!! Mas, também é fato que, sem ibope,não é só um jornal que, deixa de vender mas, uma causa também pode tornar-se desconhecida e poi isso, é importante o exemplo bíblico do apóstolo Paulo que, disse: _"Tornei-me tudo para com todos para ver se de alguma forma ganhava alguns!!!"