quarta-feira, abril 13, 2016

Sergei Korolev: o prisioneiro do GULAG № 1442

Korolev na prisão moscovita de Butyrka em 29/02/1940
Engenheiro nascido na Ucrânia, o pai do programa espacial soviético, Sergei Korolev, passou pelos campos de concentração de GULAG, sobrevivendo graças ao acaso, a sua morte é o resultado direto dos espancamentos sofridos às mãos dos investigadores do NKVD.

Em 1938, os investigadores do NKVD lhe partiram ambos os maxilares, o próprio Korolev é muito claro neste aspeto: «os investigadores [Nikolay] Shestakov e Bykov me submeteram às repressões e abusos físicos». Usando as ameaças de ameaças de acabar com a sua esposa e filha, eles conseguiram a “confissão”. Dificilmente os carrascos do NKVD pensaram sobre o destino do acusado, através das suas mãos passavam dezenas de personalidades marcantes. No seio dos oficiais do NKVD até existia uma competição não oficial: quem é que consegue quebrar a sua vítima em menos tempo, o obrigando assinar todas as “confissões” incriminatórias.
CV manuscrito (em ucraniano) do Korolev na epoca dos seus estudos no Instituto Politécnico de Kiyv.
3. Nacionalidade: Ucraniana
Preso no dia 27 de junho de 1938, sob acusação de sabotagem, já no dia 25 de setembro do mesmo ano Korolev foi colocado na lista do julgamento do Colégio Militar do Tribunal Supremo da URSS. Na lista, aprovada pelo Estaline, Molotov, Voroshilov e Kaganovich, Korolev estava na 1ª categoria dos inimigos do povo (a de fuzilamento). Durante o julgamento, ele negou todas as acusações arrancadas lhe sob a tortura e por alguma razão desconhecida teve a sorte: o fuzilamento foi substituído pelos 10 anos de prisão numa muna de ouro na longínqua Kolymá.
Na cadeia moscovita de Butyrka em 1938, no momento da sua prisão
Na mina de ouro Kolymá, o nosso herói sobreviveu acidentalmente. Além da desnutrição sistemática e escorbuto, frio severo e trabalho exaustivo, lá reinava o terror dos criminosos. Os criminosos do delito comum, vistos pelo regime soviético como “socialmente próximos”, exploravam impunemente os “inimigos do povo”, à sua custa libertado os “seus” do trabalho físico pesado, roubando as rações dos “políticos”, para se alimentar melhor. A tentativa da “revolta” do solitário orgulhoso foi facilmente esmagada pelas condições do encarceramento. Ele se tornou um “pavio” (termo usado nas cadeias e campos de concentração soviéticos para os prisioneiro cuja vida estava prestes se esgotar), ele até deixou de ir ao trabalho, porque já não conseguia andar: “Basta me inclinar – caio. A língua está inchada, as gengivas sangram, dentes caíram por causa de escorbuto”. Dado que o slogan soviético dizia, “quem não trabalha, não come”, mesmo a sua ração miserável foi reduzida. Perante o salvador inesperado que a reconheceu o colega talentoso, apareceu um moribundo semiacabado: “nos trapos inimagináveis estava ​​deitado um homem terrivelmente magro, pálido e sem a vida” (fonte).
A sua entrada na sharashka (bureau de construção misturada com a cadeia) de Tupolev, foi a salvação de Korolev. Mas GULAG para sempre o tornou “céptico, cínico e pessimista”, que frequentemente empregava a frase preferida: “matarão sem o necrológio”. Outro engenheiro soviético que passou pelo GULAG e pelo sistema de “sharashkas”, Leonid Kerber, recorda a outra frase do Korolev:  «Olhos da [Témis] estão vendadas, cometerá simplesmente um erro, hoje estás resolver as equações diferenciais, mas amanhã é a Kolymá» (Sharaga de Tupolev). Em 1965, pouco antes da sua morte, Korolev foi visitado pelos amigos dos tempos da sharashka de Tupolev. Apontando aos guardas no portão, ele, Académico, duas vezes Herói do Trabalho Socialista, disse: “Sabem, rapazes, às vezes acordo durante a noite, fico deitado e penso: talvez já apareceu alguém que deu a ordem e os mesmos guardas educados, vão entrar aqui descaradamente, dizendo: “Então, cabrão, prepare-se com as suas coisas!”
A caneca de alumínio que Korolev usava no GULAG
Korolev foi operado pessoalmente pelo ministro da saúde da URSS. Durante a cirurgia, o anestesiologista teve a situação imprevista, para aplicar anestesia, foi necessário introduzir o tubo e o doente não conseguia abrir bem a boca. Uma vez quebrados nos interrogatórios, os maxilares do paciente se uniram inadequadamente, e ele estava sempre nervoso antes de uma visita ao dentista (fonte).

Sergei Korolev recebeu o título de Herói do Trabalho Socialista, sem ser reabilitado judicialmente (o título foi lhe atribuído em 20 de abril de 1956 e a reabilitação foi efetuada apenas um ano depois, em 18 de abril de 1957). Em vida o seu nome era considerado o segredo do estado. Não foi mencionado na notícia do lançamento do primeiro satélite soviético, nem no voo de Gagarin. Só depois da sua morte, o nome de Korolev começou ser atribuído às ruas, ele teve o direito aos monumentos e a “honra” dúbia de ser sepultado em Moscovo no muro junto ao Kremlin.

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