sábado, junho 11, 2011

Revolta que abalou GULAG

Em maio – junho de 1953, o GULAG soviético foi abalado e todo o sistema de campos de concentração da URSS mudou para sempre. Em maio de 1953 os 20.000 prisioneiros políticos de Norilsk entraram em greve simultânea. 70% deles eram ucranianos. A resistência não violenta durou 69 dias. Essa é a história da Revolta de Norilsk.

Etapa de Karaganda

“A virose da insubmissão” foi trazida para Norilsk pela etapa de Karaganda
/ Alexander Soljenitsin /

Campo Estatal do Regime Especial (adiante GORLAG) de Norilsk teve uma má fama entre os prisioneiros políticos da URSS. Para lá eram enviados os presos mais “incómodos” para o poder soviético. Eram enviados para aquilo que NKVD chamava no seu calão de “extinção”. Em 1953 estavam lá encarceradas 30.000 pessoas.
No verão de 1952 vários ucranianos e lituanos do campo de concentração de Pishaniy em Karaganda foram transferidos sem aviso prévio para Norilsk. Etapa continha 1200 pessoas. Uma parte dos prisioneiros eram combatentes da OUNUPA. A administração do campo de concentração preparou-se cuidadosamente para recebe-los: “Todos os colaboradores da administração (criminosos do delito comum) receberam as facas, avisados que uma grande etapa dos banderistas vinha para Norilsk”, conta Yevhen Hrytsiak, um dos prisioneiros daquela etapa.
Yevhen Hrytsiak (9/08/1926-14/05/2017)

Administração prisional e os criminosos do delito comum colaboravam na criação do regime desumano que duplamente oprimia os prisioneiros políticos. Por isso não é de estranhar que os ucranianos que já estavam presos em GORLAG pediam os recém-chegados para “não dar nas vistas”, manterem-se “despercebidos”. “A língua ucraniana não era proibida em Norilsk, mas o seu uso era bastante perigoso. Com a nossa língua nós revelávamos que éramos ucranianos, ou como éramos pejorativamente chamados de banderistas, o que originava uma onda de perseguições adicionais”, escreve Yevhen Hrytsiak.

“Sabemos com quem lidamos”

As condições da vida em GORLAG eram horríveis. Os prisioneiros construíam a cidade de Norilsk. Trabalhavam 12 horas por dia, durante o inverno polar, sem nenhumas folgas. Além do trabalho pesado, os prisioneiros políticos sofriam com os maus tratos e todo o tipo de abusos por parte dos guardas, activistas do regime, criminosos do delito comum. A Barraca do Regime Reforçado (BUR) era o local de tortura. Um dos tipos habituais era “martelamento”: as pessoas eram algemadas e espancadas, depois as levantavam, atiravam ao chão e pisavam... Outro grande problema constituíam os delatores, na 4ª zona do campo foram encontradas as listas dos agentes operativos da NKVD. A lista continha os nomes de 620 agentes, ou seja cada 5° prisioneiro delatava os seus camaradas. Os guardas permanentemente ameaçavam os prisioneiros com as armas, quando os prisioneiros recordavam que a guarnição não tem o direito de disparar contra eles, a resposta era sempre a mesma: “Temos o direito! Nós sabemos com quem lidamos!”, alegando o passado militar dos combatentes da OUNUPA.

Mas desde a chegada da etapa de Karaganda os carrascos mais brutais e sangrentos começaram receber o “troco”. O vice – chefe da barraca BUR, Ivan Gorozhankin adorava espancar os presos, principalmente os “banderistas”. Cerca de duas semanas após a chegada da nova etapa ele foi encontrado com a cabeça cortada. “Mestre das obras, alimentado pelos NKVDistas dizia: “banderistas”, aqui será a vossa campa! Um mês e meio mais tarde ele próprio foi sepultado”, conta ex-prisioneiro político Stepan Prots.
Quase vitória

Ninguém conseguia encontrar os responsáveis pelas mortes dos activistas e outros carrascos. Cada vez menos activistas queriam participar nos “martelamentos” e em breve estes foram abolidos! A morte do Estaline em março de 1953 deu a esperança da amnistia. Mas ao contrário, o regime endureceu, os guardas começaram atirar contra os prisioneiros sem nenhum aviso. Estas mortes conscientemente pretendiam provocar a resistência activa dos prisioneiros. No dia 25 de maio de 1953 os guardas mataram o prisioneiro Shigaylov e Emil Safronik, feriram o prisioneiro Dzyubuk. “No dia 26 de maio de 1953, o alferes Diatlov, sem nenhuma razão abriu o fogo de metralhadora contra os prisioneiros, ferindo 7 pessoas – Klymchuk, Medvedev, Korzhev, Nadeyko, Uvarov, Yurkevych e Kuznetsov”, — escreve no seu memorando o chefe da Direcção Prisional do Ministério do Interior da URSS, coronel Nikolay Kuznetsov.
Soldados, as bandeiras negras é sinal do nosso luto profundo dos nossos camaradas fuzilados.
Indignados, os prisioneiros da 4ª e 5ª zona do campo, no total cerca de 7.000 pessoas, recusaram-se sair ao trabalho, exigiam a chegada da comissão de controlo do Moscovo...

27 de Maio de 1953
Os prisioneiros em massa recusaram-se à trabalhar, à greve aderiu a 1ª zona, 3ª zona galesa, 6ª zona feminina. A administração deixou de alimentar os presos. Estes afixaram um cartaz no edifício que estavam a construir: “Nos fuzilam e matam com a fome”. Os alimentos vieram no mesmo dia. Os presos voltaram às barracas, mas continuavam recusar-se à trabalhar. A administração reforçou a guarnição, mas não usava a violência.
“Nos fuzilam e matam de fome”
No dia 6 de Junho de 1953 chegou a comissão do Moscovo, encabeçada pelo chefe da Direcção Prisional do Ministério do Interior da URSS, o assistente pessoal do Beria, o coronel Nikolay Kuznetsov. Ele conduziu as negociações com os prisioneiros (3ª zona galesa não participou nelas). A comissão dos prisioneiros tinha representantes de todas as nacionalidades presentes no campo de concentração. Os prisioneiros exigiam: castigar a administração do campo, diminuir a duração da jornada do trabalho, permitir a correspondência com a família. Kuznetsov prometeu conceder todas as exigências no caso de os prisioneiros voltarem ao trabalho. No mesmo dia todas as zonas, menos a 3ª voltaram ao trabalho.

Cúmulo da resistência
Uma das bandeiras negras
Bandeira negra, com a faixa preta
Nos indicará caminho para luta justa!
Hino da revolta de Norilsk (texto do Rygor (Grygori) Klimovich)
Rygor (Grygori) Klimovich, morreu já em Belarus independente em 2003 
Parecia a vitória, mas o chefe da Direcção do campo, major – general Semionov foi nomeado o vice – chefe do GORLAG. O tenente Shiriaev e o alferes Beyner, acusados de vários assassinatos foram transferidos para a cadeia, não como presos, mas na qualidade do director e o vice-director da cadeia conhecida como “Buraco”.

3ª zona galesa continuava com a greve. Eles não eram alimentados. Os prisioneiros imprimiam os panfletos, a matriz para isso foi feita de pedra pelo Petro Mykolaychuk, tipógrafo da cidade ucraniana de Uman. Depois os panfletos amarravam-se aos “papagaios”, cada “papagaio” levava até 300 panfletos presos por uma corda que ardia lentamente. Quando o “papagaio” levantava o voo a corda se rompia e os panfletos eram espalhados pela cidade de Norilsk. Os guardas disparavam contra os “papagaios”, tentando os derrubar.
A matriz da pedra feita pelo ucraniano Petro Mykolaychuk

Os panfletos dos prisioneiros que estes lançavam sob a cidade de Norilsk
Nasceu um novo problema, nem todos os prisioneiros queriam continuar com a greve. Entre os ucranianos da 4ª zona a oposição era encabeçada pelo Ivan Klyachenko–Bozhko, ex-comunista, preso há 21 anos. Os seus argumentos tinham peso: “Eles vão nós fuzilar todos! No Berlim do Leste os trabalhadores alemães foram esmagados com os tanques perante olhos de toda a Europa, aqui no fim do mundo eles terão a vergonha de matar os seus próprios prisioneiros políticos?!”

Greve continuava. A administração fabricava os panfletos onde acusava os activistas ucranianos de “pretender separar o círculo polar soviético da Rússia, para o incorporar na Ucrânia!”

No dia 13 de Junho Kuznetsov exige aos prisioneiros abandonarem a 1ª zona. “Não tenham medo dos organizadores – provocadores, batem e esfaqueiam os”, — gritava ele ao megafone. Percebendo que a continuação da resistência levaria à tragédia, o chefe do comité dos insurgentes, Pavlo Frenkel retira as pessoas da zona.

No dia 28 de Junho, os 1400 prisioneiros da 5ª zona recusam-se à sair. Os guardas abrem fogo. 11 pessoas morreram, 14 foram feridos (12 deles faleceram mais tarde).

Os prisioneiros da 4ª zona hasteiam a bandeira negra com a faixa vermelha, o sinal que foi derramado o sangue. No dia 4 de Julho o coronel Kuznetsov exige cessar a greve na 4ª zona. O chefe da resistência, Yevhen Hrytsiak retira as pessoas evitando um banho de sangue.

No dia 7 de Julho foi cercada a 6ª zona feminina. Recorda a lituana Irena Smetonene–Martinkute: “4.000 mulheres formaram o anel humano e gritavam: “Atirem! Liberdade ou morte!”. Toda a noite continuava este frente-à-frente, os soldados não tinham a coragem de atacar as mulheres. A administração trouxe os carros de bombeiros, que atiraram água contra os rostos e as pernas. Assim foi quebrada a resistência feminina.
Irena Smetonene–Martinkute, morreu em 2006
em Kaunas na Lituânia independente
A 3ª zona galesa resistiu sozinha por mais um mês. A zona foi cercada pelo exército. No dia 4 de Setembro o território da zona foi invadido por quatro camiões. Os soldados tinham as mãos amarradas aos volantes. Dentro dos camiões eram colocadas as metralhadoras pesadas. Eles atiraram sem nenhum aviso. Morreram 57 pessoas, foram feridos 98.

Assim terminou a revolta de Norilsk que ceifou a vida de cerca de 150 pessoas. Os seus corpos foram sepultados junto a Montanha de Schmidt. Mas muita mais gente morreu no GORLAG por causa dos trabalhos pesados e dos abusos da administração.

Montanha de Schmidt
Nos arredores de Norilsk se situa a Montanha de Schmidt. No seu sopé existe enorme local de sepultura dos prisioneiros de Norilsk. As palavras “Montanha de Schmidt” se tornaram o sinónimo da morte. “Ir ao Schmidt” – significava morrer. Os prisioneiros morriam muito, para os sepultar as maquinas abriram 20 valas comuns, cada uma com 20 metros de profundidade, onde eram atirados os corpos dos prisioneiros. 400 metros foram preenchidos durante dois anos.
Pedimos o povo soviético informar o governo da URSS sobre nos maltratom, nos
fuzilamem e matam pela fome! / Os orusuineiros da 3ª zona
Ex-prisioneira ucraniana Stefania Nadorozhniak–Koval recorda: “Estava frio. Pedimos aos guardas: “Lá estão levar os troncos, permitam que levaremos um, o cortaremos com as enxadas e faremos o fogo”. Quando o trenó se aproximou (vimos) que eram os corpos da 4ª zona que iam ao Schmidt. Lá esta a nossa elite, lá estão os nossos presidentes...”

Ler mais:
http://www.ut.net.ua/History/21087 (o link já não finciona)

http://www.7.inliberty.ru/may26.html (fotos e texto em russo)
http://library.khpg.org/files/docs/1206460948.pdf
A revolta de Norilsk contada no livro pelo Yevhen Hrytsiak (em ucraniano):
http://library.khpg.org/files/docs/1206460948.pdf  
RIP Yevhen Hudziak que faleceu em 14 de maio de 2017
Ver no YouTube o filme sobre a revolta de Norilsk, versão integral 105'24''

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