quinta-feira, agosto 19, 2010

O meu 19 de Agosto de 1991

No dia 19 de Agosto de 1991 (que era uma Segunda – Feira) eu, o estudante e jornalista – aprendiz, por razão que já não consigo recordar foi visitar a secção de registo de domicílio na fábrica onde trabalhava o meu pai.
.
Naquela época, todo o cidadão soviético deveria viver registado em algum domicílio, ato comprovado pelo carimbo que o mesmo cidadão recebia no seu passaporte interno (o BI soviético com muitas páginas onde as autoridades controladores registavam o seu estado civil, registo domiciliar e até o grupo de sangue, embora este último só ao pedido do seu portador).

E lá, na secção do registo, ouvi na rádio a notícia, que já tinha ouvido naquela mesma manha, mas em cuja veracidade não quis acreditar. Mikhail Gorbachev (o presidente auto-proclamado da URSS, pois não foi votado em escrutínio popular), retirou-se a Crimeia por questões da saúde (qualquer cidadão soviético percebia que homem foi detido) e todo o poder na URSS passava para as mãos de junta político – militar, que tinha um nome complexo de pronunciar: Comité Estatal de Situação de Emergência, ou GKChP.

O meu primeiro pensamento foi algo do gênero: “Meu Deus, a minha vida acabou, a Perestroica acabou, o meu país (acho que ainda sentia a URSS como meu) irá viver uma terrível ditadura comunista”. Agora, olhando para trás, entendo claramente que o poder soviético (acredito que foi com o total aval de Gorbachev), preparava a opinião pública para a necessidade de “aperto de parafusos”. Desde o Referendo Soviético de 1991 a imprensa soviética estatal assustava os “pequenos – burgueses” soviéticos com as informações sobre o “crescimento do nacionalismo” nos Estados Bálticos, Geórgia, Moldova e Ucrânia. As imagens preferidas eram de alimentos racionalizados (açúcar, sabão, cigarros), mas também de ovos, frangos, carne, “achados” nas lixeiras municipais. Dava-se entender que a URSS estava à beira de colapso e que apenas boa velha ordem conseguirá nós salvar “deles”, quem eram “eles” não se dizia, mas no entender da propaganda pró – soviética não eram a gente boa.

Deixei tudo por trás e imediatamente foi para a Praça Central de Kyiv (o atual Maydan, ou a Praça de Independência), que ainda tinha o nome de, salvo erro, Revolução de Outubro e era vigiada pela enorme estátua de Lenine de granito, cercado pelo marinheiro, soldado – camponês e uma operária de bronze, de cima de uma colina subjacente.

A Praça era conhecida na época de 1987-1991 como Hyde Park de Kyiv, servia de espaço de liberdade onde eram vendidos revistas e jornais independentes: liberais ou democratas moscovitas, imprensa democrata ou nacionalista ucraniana de Kyiv, Kharkiv ou Lviv.

Naquele dia na Praça eram distribuídas os panfletos vindos da Rússia, assinados pelas pessoas próximas do Bóris Yeltsin, que exortavam os cidadãos a não aceitar a autoridade da junta militar. No mesmo dia, mas a tarde, apareceram os primeiros panfletos ucranianos, da autoria da plataforma política nacionalista Assembleia Inter-Partidária Ucraniana (UMA) e do Movimento Popular da Ucrânia (Rukh). O Governo regional ucraniano manifesta-se bastante tardiamente no sentido do que os decretos da junta não tem a força jurídica na Ucrânia, pedindo os cidadãos para “não agravar a situação social e política da República, evitar o confronto e conflitos”. Discursando na tarde do dia 19, o chefe do parlamento, comunista e futuro 1º Presidente da Ucrânia Independente, Leonid Kravchuk exorta a população ucraniana manter a “paz e tranquilidade”, para não dar motivos de instalar na República o estado de emergência.

Naquele mesmo dia 19 escrevi a reportagem sobre os acontecimentos na Praça, mas o pessoal do jornal onde habitualmente publicava as minhas primeiras notícias disse que sou um jovem bom e corajoso, mas nada disso poderia ser publicado por causa da censura restabelecida pela junta militar.

Assim dirigi-me para casa, chegando exatamente para assistir ao meio a famosa entrevista em direto com a liderança da junta, mais tarde apelidada de Bando dos Oito. O chefe nominal da junta, o vice – presidente soviético Gennady Yanayev tinha mãos tremidas, por vezes respondia as perguntas dos jornalistas balbuciando frases sem nenhum nexo. Todos os outros membros da junta pareciam muito nervosos, o que obviamente foi lhes fatal, os telespectadores percebiam que algo não batia certo.

Cerca de 100.000 moscovitas saíram às ruas para defender o edifício do Governo russo; a “Casa Branca” foi cercada pelas barricadas improvisadas, as pessoas usavam para isso todo o tipo de material de construção que conseguiam achar, incluindo vários carros eléctricos e viaturas de limpeza municipal. A Centena Ucraniana bem organizada, empenhando as bandeiras da Ucrânia participou na defesa da Casa Branca, assegurando a defesa da parte sudoeste do edifício. Entre as três pessoas que morreram no dia 21 de Agosto, quando a Divisão Motorizada da Infantaria Tamanskaya começou o ataque contra a Casa Branca, foi ucraniano Ilya Krichevskiy (foto no meio), sepultado mais tarde envolto na bandeira ucraniana. Ele e mais dois companheiros mortos durante o golpe de Estado receberam a título póstumo o título dos Heróis da União Soviética.


O que aconteceu depois é do domínio público: uma parte do exército passou para o lado do governo federativo russo, os líderes da junta foram presos, um deles suicidou-se conjuntamente com a esposa. No dia 24 de Agosto a Ucrânia proclamou a sua Independência, seguida pela Moldova (27 de Agosto), no dia 6 de Setembro a URSS reconheceu as independências da Letônia, Lituânia e Estônia. A desintegração da URSS era apenas a questão de dias.

Outra vez, olhando para trás, acho que o maior erro e a tragédia da jovem – democracia russa, foi a incapacidade dos seus líderes de revogar para sempre o chauvinismo imperial russo. A tentativa de usar o nacionalismo russo para amedrontar e controlar os Estados vizinhos foi mais forte do que a luta e o sofrimento conjunto, que os dois povos sentiram durante 74 anos da ditadura bolchevique, que terminou exatamente em agosto de 1991.

No dia 24 de agosto de 1991 estive com milhares de outros ucranianos no “cerco” pacífico do edifício do Parlamento ucraniano, tendo a vontade firme permanecer lá até que a Independência seja proclamada. Mas é uma outra história.

Fotos de Agosto de 1991: http://public.fotki.com/Ed-Glezin/c4c5/page3.html

Moscovo, golpe comunista na noite de 19 para 20 de Agosto de 1991 (vídeo):

2 comentários:

António kmxk disse...

Em 19/08/1991, eu estava cursando o primeiro ano de Direito, com 31 anos. Eu, por diversas razões, econômicas, inclusive, não pude estudar regularmente. Já maduro, portanto, aproveitava melhor o curso. Haviam muito professores "esquerdóides" que no primeiro momento ficaram perplexos com o desmantelamento da antiga URSS. Estes defendiam tese de que logo retornaria ao eixo anterior... Eu recebi a alcunha de "polêmico", vez que defendia sozinho tese oposta – a de que a Ucrânia nunca mais voltaria a ser dominada por ninguém, fazendo jus ao Hino Nacional Ucraniano, pois uma vez que o povo conheça, de fato, a liberdade, jamais retrocederá – ninguém nunca mais lhe colocará cabresto... Infelizmente, soube que os presidentes posteriores eram praticamente todos alinhados com o comunismo – não creio que este sistema favoreça o desenvolvimento pleno de ninguém, de nenhum povo!!! Para maior liberdade, o estado tem que ficar menor, menos custoso.

Lucas Janusckiewicz Coletta disse...

Toda essa manobra da perestroica, esse teatro da Junta Militar, Boris Ieltsin e Gorbachov, foram um teatro em que eles jamais queriam dar liberdade, mas sim dizer que o Comunismo teria morrido, o que jamais aconteceu, a meta deles era fazer a metamorfose do comunismo, sem dar qualquer liberdade, mas algo deu errado, onde as ex-republicas socialistas se viram livres das garras do Kremlin. Mas não devemos baixar a guarda, pois o que não falta são agentes da KGB/FSB fazendo de tudo para que o Kremlin volte a governar o mundo.