quarta-feira, outubro 24, 2012

Em Nome do Pai: vingança do NKVD


A famosa frase do Estaline “O filho não é responsável pelo pai” era diariamente desmentida pelo dia-a-dia do regime soviético. Mas talvez o caso do Yuri Shukhevych, filho do comandante supremo do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), general Roman Shukhevych foi o mais emblemático.

por: Dmitri Gordon, “Bulevar do Gordon”

Aos 15 anos Yuri foi condenado aos 10 anos de campos de concentração, oficialmente pelos contatos com a resistência ucraniana. Na realidade, pelo facto de ser filho do Roman Shukhevych, embora a lei soviética proibia o envio dos menores aos campos de concentração.

Aqueles que compreendem a situação ucraniana entendem que ficando entre os dois enormes maldades (comunismo e nazismo), o líder político e militar ucraniano, Roman Shukhevych, tentou escolher o mal menor, compreendendo que em ambos os casos a sua escolha seria má.

Ao longo dos anos NKVD metodicamente exterminava a sua família: prenderam pai, irmão, irmã, esposa, filho, retiraram a filha, que cresceu sem saber quem é ela. Não é de estranhar que durante o cerco general Shukhevych suicidou-se, não querendo passar pelos maus tratos nas casamatas e campos de concentração dos criadores do “futuro brilhante”.

Dos seus 79 anos, Yuri Shukhevych passou 31 anos nas cadeias e campos de concentração, apenas 4 anos entre as penas viveu no Cáucaso, sem direito de voltar a Ucrânia. Durante 5 anos, tendo a saúde fraca e já cego, foi detido contra a sua vontade na Casa dos Inválidos no interior da Rússia. Apenas após a compra da casa em Lviv, pela sua mãe, ela própria ex-prisioneira política, o regime soviético deixou Yuri Shukhevych voltar à pátria. Um dos seus filhos, que foi criado pela primeira esposa, tornou-se pequeno empresário já após o início da Perestroica e foi assassinado pelo crime organizado.                 
Yuri e Maria Shukhevych

Depois da prisão da mãe, Natália Shukhevych (apelido de solteira Berezynska), Yuri e Maria foram colocados no orfanato, primeiro na cidade de Chornobyl, depois em Stalino (hoje Donetsk). No verão de 1947 Yuri fugiu, conseguiu achar o pai, voltou para Stalino para libertar a irmã, mas foi reconhecido e preso.
Yuri Shukhevych conta que pai percebia que mais tarde ou mais cedo iria morrer. Num dos últimos encontros, no fim de 1947 ele disse ao filho: “Yurko, nesta luta nos iremos morrer, mas se morrerão (os jovens) como você, quem irá levantar este povo?” Uma outra frase do pai que ficou na memória foi essa: “Yurko, entendes, estamos lutar não pela vingança, mas para que este regime anti-humano nunca mais puder existir”.

Família Shukhevych

O avô do Roman Shukhevych era etnógrafo, autor do trabalho fundamental “Hutsulia”: uma coletânea de contos mágicos, provérbios, cerimónias tradicionais. O pai, Iosif-Zenon era juiz civil, tocava violino. O próprio Roman Shukhevych terminou a Politécnica de Lviv (faculdade de construção de pontes), Instituto Superior de Música na classe de piano, gostava as obras do Edvard Grieg, cantava (era um tenor), fazia natação e equitação.

Famílias como esta componham a elite intelectual da Galiza ucraniana. Muitos foram exterminados pelos comunistas em 1940-41, outros emigraram no fim da II G.M., os que ficaram eram metodicamente assassinados após a guerra.

A esposa do Roman Shukhevych e mão do Yuri, Natália foi presa pelo MGB em 17 de julho de 1945 e condenada à 10 anos de colónia penal com confiscação de bens.

Justos entre as Nações

A família dos Shukhevych escondia a menina judia Irina Reichenberg arriscando a sua própria vida (nestes casos os nazis fuzilavam toda a família que dava o abrigo aos judeus). Eugénia-Emília Shukhevych, mãe do Roman Shukhevych e a sua esposa Natália conheciam o pai da Irina. Natália, uma cristã grego-católica ucraniana concordou em esconder a menina. Foram preparados os documentos falsos em nome da Irina Ryzhko, órfã, nascida em 1937 (um ano menos do que a verdadeira Irina). Após o fim da II G.M., Irina Reichenberg terminou o politécnico, casou-se e vivia em Kyiv até a sua morte em 2006.

Morte do Roman Shukhevych

Na operação da captura do Roman Shukhevych NKVD-MGB usou cerca de 700 operativos, que obtiveram a ordem expressa de o capturar vivo. No dia 5 de março de 1950 NKVD cercou a sua casa segura na aldeia de Bilogorsha, nos arredores de Lviv, Shukhevych tentou romper cerco, consegui matar um major, mas foi gravemente ferido com rajada da pistola automática. Para não cair nas mãos do inimigo preferiu se suicidar…

Yuri, que estava na cadeia de Lviv foi levado para reconhecer o corpo do pai. Ajoelhou-se e beijou a sua mão. Onde os bolcheviques sepultaram o corpo do Shukhevych é segredo até hoje. Nos arredores de Lviv havia um local de construção civil, onde NKVD atirava os corpos no cal viva, para fazer desaparecer o corpo completamente.

Calvário dos Shukhevych

O irmão do Roman Shukhevych, Yuri, foi assassinado pelo NKVD em 1941, a irmã, estudante da medicina, foi presa em 1940 e condenada à 10 anos de campos de concentração e exílio no Cazaquistão. A mãe, Eugénia-Emília Shukhevych foi presa em 1945 e também deportada à Cazaquistão. O pai Iosif-Zenon Shukhevych tinha uma perna partida quando detido, morreu deportado.

Yuri passou 31 anos nas cadeias e campos de concentração, teve mais 5 anos de exílio. Sua mãe Natália cumpriu a prisão de 10 anos, foi novamente condenada apenas por viver em Lviv sem registo, retornou e morreu em Lviv. Irmã Maria foi entregue ao orfanato: sem saber quem ela é, sem saber o seu apelido ou quem são os seus pais. Ela foi formada em construção civil na escola técnica de Dnipropetrovsk, depois voltou para Lviv. Na sua certidão de nascimento estava escrito que nasceu em Donetsk, ano de nascimento foi falsificado. Atribuíram lhe o apelido Berezanskaya, inventando o pai, “Roman Berezanskiy”, deixando o nome paterno real Romanivna. Sem colocar o nome da mãe…   

História do Yuri

Tinha ele 15 anos quando foi condenado à 10 anos pela ligação à clandestinidade da OUN-UPA, sem sair da cadeia foi condenado à mais 10 anos pela “agitação e propaganda antissoviética”. Viveu 4 anos em liberdade no Cáucaso (não tinha o direito de voltar à Ucrânia), foi novamente condenado à 10 anos pela “agitação e propaganda antissoviética”, cumprindo um ano e novamente sem sair da cadeia recebeu mais 10 anos pela mesma acusação, cumprindo 11 no total. Como “recidivista extremamente perigoso” tinha que cumprir mais 5 anos de degredo.

Yuri conheceu as diversas cadeias soviéticas, que chama de suas universidades. Passou pelos espancamentos dos investigadores, os presos do delito comum chamavam à ele e outros prisioneiros políticos de “fascistas”, mas tratavam bem, pediam para escrever ora a contestação formal, ora queixa jurídica.

Paradoxo, mas nas cadeias Yuri Shukhevych lia os livros proibidos nas bibliotecas públicas da URSS, Merezhkovsky, cartas do Gogol, obras publicistas do Dostoevski. Por volta de 1981, no campo de concentração ele perdeu a visão, órgãos de “lei e ordem” proibiram a segunda operação aos olhos, embora a visão poderia ser salva.

Fonte:
http://www.bulvar.com.ua/arch/2012/41/5075d5f3f3844

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