quinta-feira, dezembro 01, 2011

Realismo socialista como comodidade política


O filme documentário “Klucis: a Desconstração de um Artista” (Klucis. Nepareizais Latvietis, 2008), que tive a oportunidade de assistir recentemente no Eurochannel conta soberbamente a tragédia humana do génio letão que serviu o regime totalitário da URSS e que acabou por ser devorado por este mesmo regime.
Gustav Klucis nasceu na Letónia rural no seio de uma família numerosa, com início da I G.M., foi mobilizado para o exército russo. Após a revolução de 1917, Klucis decide ficar na Rússia, sem saber que nunca mais irá ver a família que ficou na Letónia. Naquele momento Letónia, provavelmente, perdeu o seu artista mais talentoso, nas cartas, Klucis diz que pretende se tornar o “melhor artista do mundo”, e a URSS ganha mais uma alma empregue na “frente” propagandística, incumbida de enaltecer o regime.
As obras do Klucis têm bastante aceitação. Principalmente os retratos gigantes dos “amados líderes”, Lenine e Stalin. A sua técnica de colagem, que mistura fotografias, linhas rectas e palavras de ordem, é vista com menos entusiasmo. Artista se defende nos artigos publicados, reivindicando o direito de “experimentação”. Por enquanto o regime aceita...
Anos 1935 – 1937, auge da bajulação total do Stalin, cujo nome é ostentado em tudo: fabricas, kolkhozes e canais de navegação, nas paradas militares os aviões voam, formando a palavra Stalin, ovações intermináveis nos congressos (cada um dos presentes com muito receio de ser primeiro a parar de bater as palmas), gritos “Viva Stalin, viva Stalin” e brindes ao “camarada Stalin” nas reuniões públicas.
Em 1937 Klucis é destacado para a Exposição de Paris, onde União Soviética e Alemanha nazi tentam se superar mutuamente, competem para provar a sua superioridade ideológica e lutam para conquistar a opinião pública ocidental. Klucis é empenhado na montagem das suas obras gigantescas no pavilhão soviético. De Paris, Klucis traz vários bens ocidentais (um par de fatos janotas, prendas para os amigos). Para a esposa, Valentina Kulagina, ele traz as bananas; fruta que ela saboreia pela primeira vez na vida.
A URSS é visitada pelos intelectuais ocidentais que se deslumbram com o comunismo soviético e com Stalin, Romain Rolland, Bertold Brecht, Bernard Shaw não sabem ou pretendem não saber a realidade das purgas e das repressões em massa. Os jornais publicam as obras gráficas do Klucis: “Pela fuga para o estrangeiro – fuzilamento”, “Pela não delação (da mesma fuga) – 10 anos de prisão”.
Valentina Kulagina em carta para Gustav Klucis: “Hoje visitei metro de Moscovo, metro é muito melhor do que a superfície. Lá fora estão as casas feias, o lixo”.
Em 1938 Gustav Klucis é preso. Em breve, a família é informada sobre a sua sentença: 10 anos sem o direito à correspondência. Ele pertencia ao partido comunista, servia ao regime, nunca se metia em nada suspeito. Família não entende o que se passa e acredita que houve “um erro” e que o erro brevemente será esclarecido.
Anos mais tarde, Valentina Kulagina escreve ao Kliment Vorochilov: “Disseram me que Gustav Klucis morreu em 16.03.1944, mas sem explicarem onde; solicito a revisão do seu caso, pois acredito fortemente que o bom nome do meu marido será reabilitado”...
Na realidade, Gustav Klucis foi executado em 26.02.1938, apenas 6 semanas após a sua detenção. Os carrascos da NKVD ordenaram a abertura de 16 valas comuns, cada uma com 3 metros de profundidade. Os documentos de arquivo não mencionam em qual das valas foi sepultado o corpo do Gustav Klucis. A sua culpa? Artista foi vítima da campanha generalista contra os letões. A origem étnica letã significava automaticamente que a pessoa era considerada como “anti-soviético”.
Hoje muitas das obras do Gustav Klucis são conhecidas por serem colectadas e preservadas pelo motorista da embaixada da Grécia em Moscovo. O filho do Gustav e da Valentina possui o apelido da mãe, Kulagin, dessa maneira ele escapou à terrível sina de ser constantemente apontado como um ChSIR, “membro da família de traidor da pátria”...
O filme foi dirigido pelo letão Peteris Krilovs e é uma co-produção da Letónia e França.
Bónus
Aconselho também assistir dois outros filmes documentários fabulosos, exibidos pelo Eurochannel:
De Frente Para o Murro” (Gesicht zur Wand, 2010), do director Stefan Weinert, que conta a história dos cinco cidadãos da ex-RDA que procuram ultrapassar os traumas vividas durante o seu encarceramento nas cadeias comunistas de Stasi nas décadas de 1960 – 1980. Um dos heróis da película, também aparece no outro filme sobre o passado da Stasi, recentemente exibido pela Aljazeera English.
Retrato Duplo de uma Moeda” (Monētas dubultportrets, 2008), do director Romualds Pipars é uma colectânea dos filmes caseiros de 8 mm da Letónia que foram filmados durante a ocupação comunista do país.

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