quarta-feira, abril 27, 2016

Chornobyl 30 anos depois: os animais de Chornobyl

Os receios de uns sobre o aparecimento eventual de animais mutantes após a catástrofe do Chornobyl foram dissipados pela própria mãe – natureza. Esta elimina impiedosamente qualquer tipo de espécie com genes em mutação, impossibilitando a sua procriação e sobrevivência.

O biólogo ucraniano Serhiy Hashak contou à revista Focus.ua as razões do seu apego pela zona de exclusão de Chornobyl, 30 anos após a catástrofe, filmando os animais que vivem naquela área, praticamente livre de seres humanos...

O vice-diretor do Laboratório Internacional de Radiologia Ecológica, chefe do Departamento dos Estudos de Radiologia Ecológica, Serhiy Hashak dedicou quase vinte anos da sua vida à filmar a natureza selvagem na zona de Chornobyl, uma área de cerca de 30 km em redor da estação nuclear, também chamada de zona de exclusão.

Porque ele?
Já no fim do ensino secundário, Serhiy Hashak decidiu se tornar biólogo, opção aceite, embora não compreendida muito bem pelos seus pais. Entrou na Faculdade de Biologia da Universidade de Kharkiv, por intermédio dos amigos, futuros ornitólogos, começou estudar os pássaros. Embora as primeiras fotos tirou aos 10 anos com a câmara juvenil “Smena 8M”, na faculdade, já tendo o “Zenit”, começou experimentar com as cores, ângulos, iluminação ou tratamento químico das películas.

Em 1986, quando Serhiy era funcionário do Instituto de Economia Florestal de Kharkiv, ele, como oficial na reserva foi chamado para participar na liquidação da catástrofe de Chornobyl. A unidade dele lavava e descontaminava as viaturas que deixavam a zona. Ao seu redor se situava a chamada “floresta ruiva”, os pinheiros que morreram devido as altas doses de radiação. Embora a floresta não estava totalmente morta, ela abrigava os pássaros e as diversas plantas que sobreviveram a catástrofe.  
Após várias tentativas, em 1990 consegui se empregar no Laboratório de Radiologia Ecológica, onde estudava os animais domésticos, viajando por toda a zona de exclusão, contemplando nestas viagens os animais, pássaros, a natureza. Naqueles tempos, o arvoredo começou tomar a conta dos campos, outrora pertencentes aos antigos kolkhozes. De pouca altura e bastante parca, a vegetação permitia ver os animais de grande porte, renas, javalis, cabras de mato de grande distância. Hoje, em Chornobyl é possível ficar à alguns metros de um animal destes e não o ver, as árvores ou arbustos irão o esconder do olhar curioso dos humanos.  

A caça fotográfica

Na segunda metade da década de 1990 Serhiy Hashak conseguiu convencer os diretores do laboratório à comprarem a câmara Canon que ainda usava a película fotográfica, com um boa lente e começou filmar a natureza selvagem. Subia nos telhados e varandas dos prédios abandonados e até por vezes selados, para fotografar os ninhos dos pássaros.
No ano 2000 os parceiros americanos do Laboratório tiveram a ideia de fotografar a natureza selvagem nos locais mais atingidos pela radiação, usando as câmaras automáticas. Pois trabalhando nas margens do rio Prypyat, eles podiam ver as pegadas de diversos animais selvagens, apenas não possuíam as provas apresentáveis da sua sobrevivência.

As primeiras máquinas não eram mais apropriadas ao clima da Ucrânia, as suas recargas duravam apenas duas semanas, máquinas atraíam a condensação natural. Depois Serhiy comprou no eBay a máquina automática “Little Acorn”, a montou perto de uma trilha animal na mata do Chornobyl e em duas semanas consegui fotografar diversos animais selvagens: lobos, águias, veados, texugos, guaxinins, martas, linces.

“Agarrado”

Desde ai, Serhiy Hashak sentiu-se “agarrado”. Tal, como os toxicodependentes procuram a nova dose, ele procurava pelas novas câmaras, pensava em locais onde podia as colocar e nos melhores ângulos da sua colocação. O segredo de uma boa fotografia é encontrar uma trilha que os animais usam para se locomover nos bosques. De preferência um local de passagem sobre um rio, lago ou riacho, uma ponte, que naturalmente vai trilhando o seu caminho. Na Ucrânia, a câmara, preferencialmente, deve olhar ao norte, senão os raios solares, diretos ou refletidos, “enganam” o termovisor e provocam as fotos “vazias”, sem presença de animais. Para que a foto não seja demasiadamente escura, a câmara deve ser colocada à uma distância de uns 10 metros de mata cerrada, esta servirá de pano de fundo natural às fotos.   
Os cavalos-de-przewalski
O animal que mais surpreendeu Serhiy Hashak foi o urso castanho. Estranhamente, este foi visto muitas vezes nas zonas de alta radioatividade em Belarus e quase nunca na Ucrânia. Desde outubro de 2015 Serhiy tirou 7 fotos do animal, contemplando pelo menos três ursos diferentes.

Mais de um ano atrás Serhiy Hashak começou um projeto de cooperação com os britânicos, além das suas 5-7 câmaras, ele tinha que gerir 42 pertencentes aos parceiros que regularmente mudavam de posição, num raio de 5 km. Em resultado se conseguia cobrir um território muito maior, o que resultava em muitas e boas fotos.
Entre os seus pequenos grandes descobrimentos Serhiy enumera os tipos e formas mais que variadas dos cornos de renas e dos veados; o facto do que os castores sobrevivem em canais semi-secos, longe dos lagos e dos rios; assim como as cegonhas, vivem perfeitamente bem dentro dos bosques e não apenas junto às fontes de água.
O "veado-mutante de Chornobyl"
Por vezes, as imagens de fotos digitais ficam distorcidas, devido ao movimento natural dos animais. Uma vez veado estava virar tão rapidamente que facilmente poderia passar na foto pelo “mutante do Chornobyl”. No entanto, o mesmo animal absolutamente normal aparecia nas outras fotografias. Embora a natureza selvagem também tem os seus problemas, os animais adoecem, tal como as pessoas. Por exemplo, a “peste africana”, atingiu recentemente os porcos e os javalis na Ucrânia e em Belarus. Provavelmente essa doença foi responsável pelas imagens dos javalis anormalmente magros, com a cerda bastante parca, meio carecas. Nas fotos também aparecem os animais traumatizados ou feridos. Assim numa foto podemos ver a rena de três pernas. Ela perdeu uma das suas pernas. Como conseguiu sobreviver? Como se escapou dos lobos? É um mistério...

Os morcegos

Um outro hobbie do Serhiy Hashak são os morcegos. Usando um detetor do ultra-som ele costuma andar nas matas do Chornobyl, nas margens do rio Slavutych, escutando a natureza local. No ano 2000, conhecendo o biólogo ucraniano Anton Vlashenko, formado na mesma faculdade de Kharkiv, eles por duas semanas trabalharam na zona de Chornobyl. A quantidade de morcegos que vive naquela área é absolutamente inacreditável.
Desde ai, cada ano são organizadas uma ou duas expedições à zona de Chornobyl só para estudar os morcegos. Pois a procura e captura dos morcegos, para o seu anilhamento, é sempre um trabalho coletivo. A zona se tornou um burgo seguro, onde vivem diversos tipos de morcegos, alguns dos quais incluídos no “Livro Vermelho” das espécies animais em perigo, entre eles myotis dasycneme. Outros morcegos notáveis que vivem em Chornobyl são morcego-negro que tem orelhas que parece que crescem do seu nariz e ainda — morcego-arborícola-gigante, o maior morcego da Europa com alcance de asas até 50 cm. É um morcego extremamente raro que pode até caçar os pássaros mais pequenos (até recentemente considerava-se que pela última vez este animal foi visto na Ucrânia na década de 1950).

Chornobylpara sempre

Serhiy Hashak conta que na mata, fora do escritório sente-se muito mais confortavelmente do que na cidade. O biólogo ucraniano considera-se missionário, portador das experiências e dos conhecimentos que deve passar à alguém. Para os seus parceiros ocidentais Serhiy é especialista de alta categoria, perita da geografia e da tipografia da zona, conhecedor profundo de sua situação ecológica e radiológica, do mundo animal e vegetal.
Lobo se aproxima à uma rena ferida 
“Abandonar tudo isso é impossível. Embora não sou natural daqui, agora sou o homem de Chornobyl, não imagino a minha vida sem a zona”, conta Serhiy Hashak na entrevista conduzida pela Anna Synyashyk.

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