domingo, junho 02, 2013

Polígono de Butovo: antidoto ao comunismo

Transporte de prisioneiros na URSS, conhecido como "Corvo Negro"
Polígono de Butovo é o maior local de fuzilamentos e enterros em massa das vítimas de repressões estalinistas na região de Moscovo. Hoje são conhecidos os nomes das 20.761 pessoas fuziladas aqui. Homens e mulheres, representantes de 73 nacionalidades e diversas fés, com idades compreendidas entre 13 e 82 anos, foram exterminados num curtíssimo período de tempo, entre agosto de 1937 e outubro de 1938, enquanto o polígono funcionou entre 1934 e 1953…

De 13 a 82 anos

O mais novo, Vânia (Ivan), menino de rua, roubou dois pães. A lei soviética permitia os fuzilamentos apenas à partir dos 15 anos, por isso a sua data de nascimento foi emendada. Ele foi fuzilado. Fuzilavam pelos “crimes” menores, por exemplo, pela tatuagem do Estaline numa perna. Por vezes, eram eliminadas as famílias inteiras, 5-9 pessoas.
Misha (Mikhail) Shamonin foi fuzilado em Butovo aos 13 anos...
Os furgões de transporte dos prisioneiros (conhecidos popularmente como “Corvos Negros”), com capacidade de cerca de 30 pessoas, chegavam ao polígono, vindos da autoestrada de Varsóvia, por volta da meia-noite. O polígono era cercado pelo arame farpado, ao lado do local da “descarga” foi construída a torre de vigia. As pessoas eram levadas às barracas, alegadamente para “limpeza sanitária”.

Imediatamente nas vésperas do fuzilamento as suas caras eram conferidas com a fotografia nos respetivos processos, anunciando a sentença. Estes procedimentos duravam até a madrugada. Os carrascos bebiam a vodka num edifício de pedra, nas imediações. Os condenados eram levados até os carrascos um por um. O executor recebia a sua vítima e a levava para dentro do polígono, em direção da vala comum. As valas tinham cerca de 3 metros de profundidade, cerca de 100 metros de extensão, abertas pelas escavadoras na época de aumento das repressões, para não “perder o tempo” com abertura das campas individuais. As pessoas eram colocadas numa das margens e fuziladas, geralmente com a arma pessoal, apontada para a nuca. Os mortos caiam dentro da vala, cobrindo o seu fundo. Depois a escavadora cobria os corpos com pequena quantidade da terra, os executantes, geralmente já bastante bêbados, eram levados ao Moscovo. No dia seguinte tudo se repetia. Os nomes de totalidade dos fuzilados e sepultados no polígono são desconhecidos até hoje. Por dia raramente fuzilavam menos que 300 pessoas. Os dados exatos existem apenas sobre o período entre agosto de 1937 e outubro de 1938, quando aqui foram fuziladas 20.761 pessoas. Na escavação arqueológica, com tamanho de apenas 12 m², os especialistas contaram os restos mortais de 149 pessoas.

A maioria dos fuzilados viviam na cidade de Moscovo e na região de Moscovo, mas há casos dos ingênuos  que vieram a URSS para ajudar construir o comunismo. Exemplo do Robert Sassone, africânder, nascido em Pretória em 1888, militar de formação, chefe do departamento das matas na construção do Canal Volga-Don, preso em 3.12.1937, condenado pela troica do NKVD em 20.12.1937, acusado de “agitação antissoviética e intenções terroristas”, fuzilado em 22.12.1937, reabilitado em julho de 1989. Além dele, […] um grande número dos sacerdotes, maioritariamente ortodoxos, mais de 1000 fieis condenados e exterminados unicamente por causa da sua fé (cerca de 610 ucranianos) […]

Uma dás vítimas pela fé é o Metropolita do São Petersburgo Serafim (Chichagov). Em 1937, quando ele foi fuzilado, Metropolita tinha 82 anos, foi levado da cadeia em maca, pois já não andava. Foi a vítima mais idosa do Butovo. As testemunhas apontam que os enterros dos fuzilados e dos que morriam nas cadeias de Moscovo continuavam no polígono até a década de 1950.

Morangos e macieiras no local dos fuzilamentos   

[…]

Em 1992 em Moscovo foi criado um grupo social de homenagem das vítimas das repressões políticas chefiado pelo Mikhail B. Mindlin (1909-1998). Ele passou mais de 15 anos nas cadeias e campos de concentração soviéticos, sobrevivendo graças à sua força física e um caráter forte. No fim da via, já com mais de 80 anos ele decidiu participar no movimento em homenagem das vítimas do terror comunista.

Graças à sua intervenção, nos arquivos do KGB foram achadas 11 pastas com as atas de execuções. Os dados são muito parcos – nome completo, ano e local de nascimento, data de fuzilamento. O local do fuzilamento não era mencionado […] Naquele momento ainda estavam vivos alguns reformados do NKVD, funcionários da década de 1930. Incluindo o comandante da Direção econômica do NKVD em Moscovo e região de Moscovo. O comandante confirmou que o principal local de execução foi o polígono de Butovo e lá mesmo se faziam os enterros. Pelas assinaturas dos executantes ele identificou que eles trabalhavam exatamente em Butovo. Assim, foi possível ligar listas ao polígono. O território dos enterros (cerca de 5,6 hectares na parte central do polígono) na altura pertencia ao FSB e era vigiado 24/24 horas. O local foi cercado com arame farpado e guarnecido, dentro foram abertos alguns canteiros de morangos e um pomar de macieiras. Ao redor do antigo polígono estava situado o aldeamento dos funcionários do NKVD. Por iniciativa de Mikhail Mindlin, com ajuda do governo de Moscou, no território do polígono foi erguido um monumento de pedra.

[…]

Agora no polígono existem duas igrejas – de madeira e de pedra. […] A igreja de pedra faz parte de um complexo memorial. No seu interior são preservados os haveres pessoais dos fuzilados: roupa, oratórios, cartas. No rés-do-chão é aberto o museu que mostra as fotos pré-morte dos fuzilados, elementos achados na vala comum: sapatos, detalhes de roupa, luvas de borracha, balas, cartuchos, tudo isso, obviamente, no estado de conservação bastante degradado.

Mas as imagens falam por si. Atrás dos números frios e duros é difícil ver as pessoas reais. Mas quando você olha nos olhos das pessoas que ainda viviam – neste exato momento a história da abstrata torna-se pessoal. No polígono estão sepultados mais de 20 mil dessas histórias pessoais.

Descendentes dos oficiais do KGB e funcionários do polígono de Butovo vivem nas casas de campo ao lado do local da execução. Eles chamam os membros da comunidade religiosa de invasores.

Todos os anos Butovo é visitado por grupos organizados de peregrinos, que totalizam cerca de 10.000 pessoas. Ao este número é possível adicionar um pequeno número de visitantes individuais. Em geral, os números são bastante modestos. “Se comparar com os milhões de pessoas que anualmente visitam uma única vila francesa, queimada pelos nazis alemães, pode-se chegar à uma conclusão decepcionante – considera o padre Cyrill Kaleda. — Nós ainda não se arrependemos e não percebemos a lição de história, que esta, pela graça de Deus, nos deu no século XX. Embora a lição foi muito clara”…[…]

A localização

Cidade de Moscovo, estação de metro “Boulevard Dmitri Donskoy”, autocarro № 18 poderá levar o visitante até o polígono. O território é aberto aos visitantes das 8h00 até 20h00. Na igreja funciona o serviço de excursões. Telefone: 8(909)9746299. Igreja também abriga centro memorial “Butovo”, onde é possível fazer as consultas sobre os familiares – vítimas das repressões. O telefone no centro: 8(909)6371733.

Endereço do templo: 142720, província de Moscovo, distrito Leninski, aldeia Butovo, rua Yubileinaia, № 2. Tel./fax: 549-22-24, 549-22-22. Página oficial http://martyr.ru

Fonte:

Sem comentários: