terça-feira, outubro 09, 2012

O combatente judeu do UPA


Discutindo a II G.M., muitas vezes somos confrontados com os seus modelos simplistas. Uns invariavelmente são heróis e vítimas, outros carrascos, traidores e criminosos. Mas a vida é muito mais interessante e rica do que os clichés. Entre os ucranianos e judeus podemos encontrar aqueles que serviram os ocupantes estrangeiros, as vítimas inocentes e aqueles que lutaram pela independência ucraniana.

por: Volodymyr Vyatrovych, historiador

O veterano do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), judeu Mandik Hasman vive na província de Volyn, um dos redutos da resistência ucraniana contra diversos invasores estrangeiros. Os arquivos do NKVD não mencionam o seu nome, pois jovem Volodymyr Dmytrenko, preso pelo NKVD em 1945 não revelou as suas atividades ou a origem étnica…

Mandik nasceu em 11 de outubro de 1929, penúltima criança do Jisik (Djisik), chamado pelos vizinhos ucranianos de Djysko e da Carolina Hasman. Teve três irmãs, Ginda, Hana e Frida e três irmãos Itzik, Idol e Savik. A sua família não diferia muito dos vizinhos ucranianos ou polacos, no dia-a-dia se falava ucraniano e polaco.

Na I G.M., Jisik Hasman serviu no exército austro-húngaro, acabou a guerra com patente do capitão. Depois da guerra ganhava o sustento transportando os passageiros numa carroça, uma espécie de táxi da época. A família não era rica, mas não passava as necessidades. Os Hasman viviam entre os ucranianos, Mandik os recorda com ternura.

A vida calma da Galiza ucraniana foi perturbada em 1939. A queda da Polônia e a chegada do regime soviético se intrometeram na vida dos Hasman: uma das irmãs casou com oficial soviético, outra foi aprender a enfermagem. Mais tarde isso salvou Hana e Ginda da perseguição nazi, a enfermeira foi mobilizada para o exército soviético, outra foi evacuada para o Leste. O resto da família ficou na cidade e acabou no gueto de Drohobych. Frida foi presa pelos nazis e enviada para Auschwitz.

No verão de 1942 os nazis começaram a liquidação do gueto. Jisik, Carolina, Itzik e Idol Hasman foram fuzilados. Num intervalo que os assassinos aproveitavam para descansar, Mandik levou o irmão Savik e a prima Kaili e fugiu. A sua corregem explica de maneira simples: “Apenas queria viver”.

Conseguiram chegar até a Volyn, onde se escondiam entre as famílias ucranianas. Mandik se batizou e escolheu um novo nome: Volodymyr Dmytrenko. Fugindo das rusgas nazis, que levavam os jovens ucranianos aos trabalhos forçados na Alemanha, Mandik decidiu se juntar ao UPA, assim aos 14 anos ele se torna um insurgente ucraniano.

Quando o perguntam se não tinha medo dos nacionalistas ucranianos, Hasman responde: “O bom-troco levavam os delatores, diversos traidores, independentemente da sua nacionalidade”. No UPA Mandik cuidava dos cavalos, se tornou o “condutor” dos diversos comandantes da guerrilha.

Nos anos 1943-1944 participava nos combates contra os alemães e polacos. UPA atacava as guarnições dos nazis, destruía as suas comunicações. Hasman tinha uma pistola polaca, sempre com falta de munições. Na primavera de 1944, juntamente com a centena do comandante “Khoma”, Mandik participou na defesa das aldeias ucranianas contra a ofensiva da guerrilha anticomunista polaca, Armia Krajowa.

Além da preparação militar, Hasman recebeu o preparo ideológico, até hoje consegue citar o “Decálogo do Nacionalista Ucraniano”, desde sempre honrou a sua tese principal: “Obterás o Estado ucraniano ou morrerás lutando por ele”. Mandik adora cantar as canções insurgentes.


Na primavera de 1944 a ocupação nazi da Volyn foi substituída pela ocupação soviética. Por isso no verão de 1945 UPA se divide em pequenas unidades móveis que continuam a luta. No inverno do mesmo ano Hasman é ferido em combate (uma rajada da metralhadora atingiu as duas pernas) e preso pelo NKVD. Nos interrogatórios o batiam sem piedade, mas Mandik, alias Volodymyr Dmytrenko, sempre dizia o mesmo: no UPA se escondia dos nazis, tratava dos cavalos deles. Sendo menor, nove meses mais tarde foi libertado.

Mandik ficou a viver na Volyn, aqui se casou, em 1949 foi mobilizado para o Exército soviético. Cumpriu o serviço militar no Extremo Oriente, onde a contrainteligência militar o obrigou a confessar o verdadeiro nome e a origem étnica. Voltando para Volyn, 35 anos Mandik trabalhou numa mina. Desde 1991 serve ativamente na Irmandade Ucraniana dos Veteranos da OUN-UPA. Como a maioria dos seus companheiros não recebeu nenhuma distinção oficial do estado ucraniano. “Poder ucraniano não gosta dos seguidores do Bandera”, diz Hasman.

As organizações judaicas também não reconheceram os sacrifícios do Mandik. Eles recordam os judeus que lutaram contra os nazis nas unidades da Armia Krajowa e Armia Ludowa, Exército Vermelho ou partisanes comunistas. Os veteranos do UPA por enquanto continuam no esquecimento.   

Fonte:
http://www.istpravda.com.ua/articles/2011/06/8/41955

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