terça-feira, julho 10, 2012

A crucificada musa da Ucrânia

O Holodomor não foi a única tragédia ucraniana. A segunda maior tragédia é o extermínio da elite da nação. Se tudo terminaria apenas com o Holodomor, hoje teríamos uma outra Ucrânia.


Na antologia de dois volumes “Musa Crucificada”, dedicada à obra dos poetas ucranianos que morreram vítimas de violência, é reunido o espólio literário de 322 autores. É um terrível martirólogo da cultura ucraniana. A enorme tragédia que o povo ucraniano sofreu durante os anos da ocupação bolchevique até agora não foi verdadeiramente refletida pela sociedade.

Ao Thyl Ulenspiegel as cinzas do seu pai, Klaas, batiam no peito. Cada ucraniano consciente deve sentir as mesmas cinzas dos milhões de vítimas inocentes. Estas cinzas clamam pela justiça, pedem o novo processo de Nuremberga, requerem que todos os carrascos sejam chamados pelos seus nomes.

Se compararmos os regimes do Hitler e do Estaline, notaremos que Estaline matava, não deixava ninguém a sair (do país) e ainda exortava os emigrantes a voltarem à “Pátria”. Apenas para depois matar todos estes retornados. Estaline matava quer lhe cantavam as hossanas, quer o amaldiçoavam. Quase todos os executados se revelaram como os verdadeiros patriotas do estado soviético. Mas isso não os salvou.

Durante o terror estalinista foi exterminado cerca de 90% de todos os escritores ucranianos, pintores, cientistas, sem falar dos professores, intelectuais urbanos e do campo. Uma pequena pitada ficou em liberdade, outros, que tiveram a sorte de sobreviverem os campos de concentração soviéticos, mais tarde fugiram para o Ocidente. Outros, saindo do GULAG já depois da II G.M., na sua maioria, ficaram calados e nunca mais voltaram à literatura. Existiram ainda os que evitaram as repressões, preferindo se esconder. Poeta Serhiy Kushnirenko (1913 – 1984), amigo da poetisa Olena Teliha, não morreu no grupo expedicionário da OUN, como se diz nas enciclopédias. Desde 1946 ele, juntamente com a família, viveu no interior da província ucraniana de Rivne. Conseguiu mudar os documentos, queimou o seu passaporte antigo, todas as fotografias, cartas e até a sua própria coletânea poética. Cortou todos os relacionamentos com os amigos da juventude. Sendo poliglota, escrevia na biografia que apenas fez o ensino primário. Trabalhou como contabilista, lojista, operário da fábrica de tijolos… Nunca mais publicou nada. Apenas 16 anos após a morte, a filha e neta descobriram os seus manuscritos poéticos, escondidos no sótão da casa.

Dmytro Heródoto (apelido de nascença Ivashyna) nasceu em 1892. Publicava a poesia e folhetins satíricos. Fugindo do terror bolchevique, desde 1920 vivia na Roménia, colaborava com o governo ucraniano no exílio, escrevia para o jornal ucraniano parisiense “Tryzub”. O seu destino desde 1939 é desconhecido. Na realidade, continuou a viver na Roménia, evitando a prisão mudou de nome, aparência, deixou crescer a barba. Passou por diversos empregos, o mais estável foi o caixa numa farmácia. Clandestinamente visitava a família, morreu em 1975.

As estórias como estas são muitas. O terror comunista não se limitava ao extermínio físico, pretendia dominar a esfera espiritual.

A estatística? É bastante esclarecedora. O regime czarista russo perseguiu até a morte apenas um poeta – Taras Shevchenko. Durante a vigência do estado ucraniano dos anos 1917 – 1920, os seguidores do hétman Pavló Skoropadski executaram dois, os monarquistas russos – quatro e a República Popular de Ucrânia fuzilou um poeta. Pela colaboração com as autoridades coloniais polacas a OUN executou o poeta Sydir Tverdohlib em 1922. A polícia polaca matou dois poetas.

Entre 1918 e 1936 foram assassinados e morreram nos campos de concentração soviéticos 36 poetas, em 1938-39 – 37, em 1941-45 – 62. Após a II G.M., morreram no GULAG outros oito. O último poeta ucraniano a morrer foi Mykola Sytnyk. Em 1959 ele foi executado por agente do KGB em Chicago.

Durante quatro anos da ocupação nazi foram assassinados 26 poetas ucranianos. Durante mesmos quatro anos a União Soviética matou dobro, no único 1937 – quadruplo. Estamos a falar apenas dos poetas, sem mencionar os prosaicos, dramaturgos, críticos literários, tradutores… Lá, no céu, estão a brilhar nas estralas as suas almas que ficam perplexas: Lenine e Estaline até agora estão vivos! Parece que o nosso povo está condenado ao purgatório. Onde o mais próximo é o inferno, muito mais do que o céu.

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