segunda-feira, novembro 21, 2011

Será que sou um illuminati?


Recentemente, o órgão oficial dos comunistas portugueses, o jornal “Avante!” surpreendeu tudo e todos com a revelação bombástica de um tal Jorge Messias: o mundo é dominado pelos illuminati, compostos pela maçonaria, Wall Street e Igreja Católica. O seu livro de cabeceira é a “obra” forjada pelos serviços secretos czaristas, “Protocolos dos Sábios do Sião” e eles estão entre nós. Mexem na economia, mandam na fé, opinam na imprensa, escrevem nos blogues... Dado que também mantenho um blogue, perguntei comigo mesmo, será que também sou um illuminati? Talvez até sem o saber? Decidi por isso analisar a minha vida, talvez assim poderei responder a essa questão nada fácil e muito pertinente. 

Nasci em uma família soviética mediana. Pai e mãe, ambos ateístas; pai era membro da Juventude Comunista (Komsomol), mais tarde ele se filiou no partido. Primeira falha moral: ainda menino ele foi baptizado em segredo pela minha avo. Um padre da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) veio ao domicílio, onde completou a cerimonia sacra selada com um gole do vinho doce, naquela época os padres ortodoxos usavam o “Kagor”. O vinho traiu a avo, pois a criança segredou ao seu pai, o meu avô, que hoje eles tiveram a visita de um “tio”, que lhe tinha dado uma bebidinha gostosa. A avó confessou o “crime”, que podia custar a carreira militar ao avô. Um oficial do exército não podia permitir que seu filho fosse baptizado. Mas o caso ficou sem consequências, ninguém na vizinhança os denunciou às autoridades. Talvez eram rodeados pela boa gente, talvez os delatores eram desorientados pela primavera do Khrushev... 

Filho de uma geração pós – II G.M., pai trocou a pistola pessoal do meu avô pela esferográfica do seu colega da turma que provinha de uma família mais abastada. Naquele tempo os meninos soviéticos iam para escola munidos das canetas de tinta permanente e um tinteiro “não despejável”. O avô de carácter estalinista, ficou, digamos, desapontado com a descoberta. Stalin já lá foi, mas o desaparecimento da arma pessoal poderia significar o tribunal militar. Nas vésperas da II G.M., o meu bisavô pagou com a própria vida por um “delito” infinitamente menor. Este caso também acabou em bem, o colega devolveu a arma, os pais de menino até convidaram o meu pai assistir a televisão na casa deles, sempre que o pai quiser. Os televisões eram muitíssimo raros e caros, orçamento familiar de um oficial do exército não dava para tudo. 

No entanto, quanto eu nasci, o avô, já reformado do exército, era um dos maiores entusiastas do meu baptismo. Foi baptizado em uma igreja da IOR em funcionamento, numa cidade e numa república diferentes da residência habitual dos maus pais. Assim o sistema perdeu a chance de os incomodar por causa da sua “traição dos ideais dos construtores do comunismo”. 

Que não deve andar muito longe, pois  Nikita Khrushev aponta o ano 1980 como o início desta época dourada: “Ainda a actual geração da gente soviética irá viver no comunismo”, — proclama ele. “Do cada um pelas capacidades, a cada um pelas necessidades”, explica as virtudes do comunismo o meu livro escolar. O bilhete do autocarro custa 5 copeque, do trólei – 4, do eléctrico – 3, um telefonema público dentro da cidade – 2, uma caixa de fósforo – 1 e pão no refeitório popular ou medicamentos sob a receita médica são gratuitos. No entanto, recordo a década de 1975 – 1985 como os verdadeiros anos de chumbo. Cinzentos, parecidos uns com outros. Nada acontecia, apenas mudavam os secretários gerais do PCUS, cada vez mais velhos e senis. E rumores, rumores, rumores... A morte do neo – estalinista Andropov é atribuída a sua filha, que dizem os conhecedores, disparou contra o pai por ele não lhe fazer uma vontade qualquer. O meu tio costuma escutar a rádio BBC em língua russa às claras e nós contava os romances radiofónicos abertamente anti-soviéticos, “sabem, ontem escutei uma história tão estúpida, tão ridícula”, começa ele. Lembro que era a história de uma senhora que em Moscovo se via em apuros para comprar um frango... 

Em 1979 a URSS invade o Afeganistão, em 1980 o mundo boicota os jogos olímpicos de Moscovo (na TV mostram os desenhos animados “Mas a bruxa má é contra”, aparentemente para as crianças, mas com a piscadela de olho para os adultos, ursinho olímpico é perseguido pelos mauzões folclóricos); em 1981 o general Jaruzelski decreta o estado de sítio na Polónia. Nenhum sinal do comunismo prometido. 

No entanto, longe de mim questionar o status quo. Num dos meus aniversários, recebo de presente um calhamaço de 800 e tal páginas, chamado “Pioneiros — heróis”. Uma espécie de martirólogo dos jovens santos soviéticos que deram a sua vida pelo regime: desde o apóstolo Pavlik Morozov (mais tarde o seu nome se tornará o sinónimo da traição familiar ideologicamente correcta), que denunciou o próprio pai aos chekistas até os meninos e meninas dos anos 1970 – 1980 que em vez de estudar, gastavam quase todo o ano escolar no trabalho agrícola semi-escravo na Ásia Central e no Cáucaso. Lembro que me agradava a ideia de se tornar um pioneiro – herói, salvar as pessoas através de uma façanha qualquer. 

Desde o primeiro ano escolar, eu e toda a minha turma se tornaram “outubristas”, ou “netos de Lenine”, o primeiro degrau ideológico que um cidadão soviético fazia na longa caminhada para se tornar comunista. Os “outubristas” mais in, entravam na organização em clima de festa, por exemplo no museu do Lenine da cidade. A minha escola não era muito especial, por isso um belo dia nós colocaram as insígnias vermelhas de alumínio em forma da estrela pontiaguda, com a imagem do jovem Lenine no centro, quando ele ainda era conhecido pelo seu nome de baptismo – Vladimir Ulianov. A estrela custava entre 5 à 15 copeque, era vendida nas papelarias e representava um rombo chato nas minhas parcas economias. Os fechos das insígnias se partiam constantemente, principalmente durante as brincadeiras ou as lutas escolares. E a conselheira da turma obrigava comprar uma nova insígnia. As mães mais práticas afixavam a estrela na uniforme com a linha. Assim, ela nunca mais se perdia. 

No terceiro ano escolar chegamos ao próximo passo da caminhada ideológica – tornamo-nos pioneiros. Entrávamos na organização em grupos, a turma até votou para eleger os primeiros a entrarem, os melhores nas notas, depois entraram os medianos, depois os assim – assim e os péssimos alunos entraram automaticamente já no ano seguinte. Eu deveria entrar no segundo grupo, mas chamado à depor, isso é, resolver um exercício de matemática, enrolei-me com o nervosismo (a professora informou que a resolução correcta seria o meu passaporte para o mundo dos escolhidos). Como consequência, entrei no terceiro grupo sem pedir a permissão de ninguém, simplesmente comprei na papelaria o lenço triangular de seda vermelha da má qualidade (“uma partícula da bandeira vermelha”) e apareci na cerimónia simples que teve lugar no parque público perto da minha casa. Ninguém perguntou nada, o lenço foi me apertado no pescoço por um membro do Komsomol (era o funcionamento de tal hierarquia outubrista – pioneiro – komsomolista – comunista). A professora estranhou, mas não ousou retirar o lenço, ninguém se metia de qualquer maneira com “a partícula da bandeira vermelha”. 

Em termos práticos, os outubristas e os pioneiros se dedicavam à recolha de papel usado que escola depois vendia às empresas especializadas. Considerava essa actividade pouco estimulante, pois nos filmes e livros os pioneiros recolhiam os metais que depois se transformavam em tanques ou comboios gloriosos. O papel usado não transmitia nenhuma glória semelhante. 

Na quarta classe a turma me elegeu para o posto do “chefe do conselho do destacamento”. Votaram em mim, pois os restantes colegas não queriam fazer absolutamente nada, a apatia e o desinteresse total reinavam na sociedade soviética em todas as suas instituições. Pelo contrário, fiquei muito orgulhoso de mim mesmo, é a segunda vez que foi escolhido para alguma coisa (no campo de férias de verão recebi o posto de “porta – bandeira”, nas manhas segurava a bandeira que encabeçava a entrada do nosso destacamento para a formação matinal). O estado soviético ainda “usava e abusava” da terminologia militar: destacamento de pioneiros, luta pela produtividade ou pelos planos quinquenais. Ao mesmo tempo, toda a gente roubava algo (se diz “levava”), a escola roubava o nosso dinheiro, o refeitório escolar roubava o nosso leite e pão, no vestuário escolar alguém roubou o meu chapéu tricotado chamado “galito” (grito de moda dos anos 1980, custava 25 rublos no mercado paralelo, fazia parte de uniforme das equipas de esqui), os nossos pais “levavam” para casa os utensílios de escritório. 

Na primeira reunião dos chefes dos conselhos dos destacamentos da escola, temos que enumerar por escrito (!) as promessas das nossas futuras acções: recolher X kg de papel, visitar os veteranos, fazer outras coisas igualmente úteis. Cheguei para essa reunião extremamente entusiasmado e disparei: “então, vamos prometer o que? Vamos votar como?” As meninas presentes olham-se entre elas desconfiadas e me passaram as promessas já escritas do ano passado para as copiar. Não me recordo se as copiei, só sei que uma semana depois renunciei publicamente o meu posto. Passei a esquecer o meu lenço de pioneiro em casa, o estragava com o ferro (nunca aprendi o engomar como deve ser, nem fazer o nó correcto) até que o deixei de usar definitivamente; quando a responsável do Komsomol da escola me perguntou com ar ameaçador onde estava o meu lenço, respondi que tinha saído da organização por opção. Nunca formalizei essa saída oficialmente, hoje tenho pena que não teve a coragem de ir até o fim. Alguns colegas também deixam de usar o lenço, o chamam de “coleira de cão”, outros fazem nó como “pioneiros na RDA”, isso dá um toque de rebeldia, pois na organização são permitidos apenas rituais canónicos, tal como “delegou o grande Lenine”. 

Como não entrei no Komsomol já contei anteriormente. Aos 13-14 anos já se considerava um anticomunista, embora receava o termo e não me sentia totalmente confortável com ele. No meu íntimo gostava de me tornar um verdadeiro anticomunista (e não sabia como), mas também sentia o peso da palavra que receava à assumir. Nos últimos anos da escola deixei de usar o odiável fardamento castanho e vestia um casaco leve da malha capitalista. No casaco ostentava a insígnia que fiz eu próprio: o retrato do czar russo Nicolau II, em forma do ícone, canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa no Exterior.  

Após a leitura do ensaio do Alexander Soljenitsin “Como nós reconstruiremos a Rússia”, onde ele defende a inexistência dos belarusos, cazaques e ucranianos, tirei o retrato do Nicolau II e o substitui pela frase: “Não há vida sem a metralhadora”. Lembro uma vez, a camponesa trintona (que o trabalho duríssimo no kolkhoze transformou em quarentona), cruzou comigo na paragem do transporte público nos arredores da minha cidade, sugerindo tirar a insígnia. “Não cuide da sua imagem”, disse ela, querendo dizer “Não chama a atenção sobre si”... recordo disso, pois creio que a frase ilustra perfeitamente a trauma de várias gerações dos camponeses ucranianos, “reeducados” pelas diversas experiências comunistas. Não chamar nenhuma atenção sobre a sua pessoa, se esconder, encolher, se tornar invisível, insignificante, e ai talvez, o perigo passará, NKVD irá embora, os requisitores de alimentos não levarão o último pão e a família conseguirá sobreviver até a primavera... 

Não sei se tudo isso faz de mim um bom illuminati...

2 comentários:

João José Horta Nobre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Carneiro disse...

Todos os comunistas e seus idiotas úteis, até pseudos-cristãos quando não tem argumentos, acusam todos nós anticomunistas e contra-revolucionários de maçons, fascistas e Illuminati. Até eu fui taxado de ser maçom por um "católico" quando criticava severamente o governo brasileiro que tem estreitas relações criminosas com o governo putinista.